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domingo, 16 de fevereiro de 2014

Breve Memória



Breve Memorial

escrevi este "breve memorial" para um concurso


Marcos Carvalho Lopes

Em 1997 comecei o curso de Filosofia na UFG, no mesmo ano o professor Gonçalo Armijos Palácios publicou o livro De como fazer filosofia sem ser grego, estar morto ou ser gênio. Não li o livro quando de seu lançamento, mas vivi seus efeitos, que repercutiram em todo departamento ao colocar em evidência a esquizofrenia da proposta do curso: se o discurso (meta)filosófico reafirmava a vocação da Filosofia para  a formação da capacidade crítica e da autonomia intelectual; efetivamente o curso promovia uma espécie de catequese que fornecia a disciplina hermenêutica para desenvolver leituras e ser um comentador competente dos textos sagrados.  As críticas de Gonçalo não foram contestadas/respondidas por seus pares, mas é certo que este silêncio possuía textura (e constituía uma “pré-ocupação ontológica”). Se era mais fácil e promovia maior prestígio entre os pares mergulhar na formação erudita, exibindo rigor lógico e seriedade exegética, assim como, incrementar a autoestima com citações em línguas estrangeiras, a socialização gregária promovia uma autocontradição na figura do “filósofo como comentador”, que, efetivamente deveria ser somente comentador. Também (e não exclusivamente) por isso, quando terminei a graduação em 2000, resisti à ideia de continuar no papel de comentador júnior dos textos comentados pelos professores comentadores. Nada original: queria estudar a relação indivíduo-sociedade em Jose Ortega y Gasset, autor fora dos horizontes de interesse de meus professores. Apesar do convite de diversos professores, nenhum – a princípio – aceitou orientar o tema que me instigava, também por isso, não segui para o mestrado.
Com 20 anos e diploma de licenciado em Filosofia, num horizonte em que a obrigatoriedade das aulas dessa disciplina não existia nos cursos de Ensino Médio, voltei para minha cidade natal, Jataí, direto para o mercado de subemprego (com carga horária e salários baixos), precisava dar aulas de disciplinas diversas (Artes, História, Sociologia, Filosofia etc.). Entre 2000 e 2004 comecei a fazer o curso de Letras, trabalhei como professor temporário em um CEFET, passei no concurso para docente do Estado de Goiás, abandonei o curso de Letras, fiz uma especialização em Formação Socioeconômica do Brasil etc. O mais importante neste período foi perceber como o jargão que havia aprendido na academia não funcionavam na sala de aula. Precisei me adaptar e tentei fazer isso utilizando canções populares como mote para sensibilizar e ganhar atenção dos alunos. Disso e de meus gostos idiossincráticos surgiu o projeto de escrever um trabalho desvelando os aspectos filosóficos e políticos nas canções. Em 2005 entrei no Mestrado em Filosofia da UFG, mas antes mesmo de terminar minha dissertação já havia escrito o texto do livro Canção, estética e política: ensaios legionários que foi lançado em 2012 pela editora Mercado de Letras (foram diversos anos para conseguir a autorização para publicação). Entre a conclusão da dissertação e a defesa também desenvolvi artigos sobre Engenheiros do Hawaii que hoje motivam palestras e alguns cursos. Este tipo de abordagem esta presente em diversos de meus textos que se tornaram capítulos de livro (como os ensaios “Cazuza e a malandragem de ser brasileiro” e “Caetano Veloso e a filosofia no Brasil”), artigos em revistas científicas (“A “Filosofia” de Noel Rosa”), em magazines, jornais, palestras, minicursos etc.
No Mestrado, sob a orientação do professor Gonçalo Armijos Palácios, estudei o debate entre Richard Rorty e Umberto Eco sobre limites interpretativos. O encontro com a obra de Richard Rorty foi particularmente relevante para mim, já que encontrei nos primriros capítulos de Contingência, Ironia e Solidariedade uma solução inovadora e estimulante para a relação indivíduo-sociedade que tanto me incomodava. Assumindo que somos construídos pela linguagem, Rorty não caia no tipo de dissolução da subjetividade no interdiscurso que marca algumas teorias pós-modernistas, mas enfatizava a construção poética do self. Sua narrativa incorporava a filosofia da linguagem de Donald Davidson e fazia jus, tanto ao Dasein heideggeriano, quanto à psicanálise de Freud. Essa empolgação com Rorty esbarrava nos problemas políticos e educacionais que a ausência de limites para a interpretação defendida por ele acarretariam. Umberto Eco e a busca pela verdade pareciam mais fáceis de defender e meu orientador esperava que houvesse um posicionamento em relação ao debate sobre quem estava certo ou errado. Para me desviar destes termos construí dois longos capítulos introdutórios da minha dissertação, Sobre limites da interpretação: um debate entre Umberto Eco e Richard Rorty em que resumia os passos da trajetória de Richard Rorty e de Umberto Eco. Deste modo expliquei seus pressupostos e como ambos possuíam posições coerentes com sua trajetória intelectual, no entanto, desenvolviam projetos com prioridades diferentes. Enquanto Rorty procurava valorizar a inovação e imaginação criativa, Eco defendia limites necessários ao processo de socialização do conhecimento. Ora, essa divisão correspondia, de certo modo, a divisão postulada por Rorty entre espaço privado de autocriação e espaço público de conversação política.
Esta divisão se projetou em meu trabalho com a distinção entre duas frentes de trabalho: (1) por um lado, procurei desenvolver de modo não institucional tentando propor diálogos entre a filosofia e a cultura popular, filosofia e literatura etc.; (2) por outro, um trabalho acadêmico, mais técnico e preso aos cânones de cientificidade.  

Terminado o mestrado, novamente em Jataí trabalhei na Universidade Federal de Goiás como professor temporário dando aulas em diversos cursos. Trabalhei também desenvolvendo projetos de extensão na UEG. No fim de 2008 fiz a seleção para o doutorado no programa de pós-graduação em filosofia da UFRJ e fui aprovado numa boa posição (o que me deu a condição de bolsista da CAPES).  

As aulas no PPGF/UFRJ renderam textos que logo foram publicados: das aulas com Roberto Machado sobre Proust saíram dois artigos que formaram um capítulo de minha tese, das aulas com Guilherme Castelo Branco um artigo sobre a relação Kant e Foucault. Logo após minha mudança para Rio passei a ocupar a função de editor executivo da Revista Redescrições.[1] Durante o ano de 2010 cumpri estagio docente dando aulas de Filosofia da Educação junto com a professora Susana de Castro na Faculdade de Pedagogia da UFRJ. Também participei do grupo de pesquisa em inovação Research on Research (coordenado pelo professor Ricardo Pietrobon da Duke University) e do Laboratório de Filosofia Pop da UNIRIO (coordenado por Charles Feitosa).
Entre 2011 e 2013 trabalhei como professor temporário na UNIRIO dando aulas de Introdução à Filosofia em diversos cursos e uma disciplina especial sobre Rorty no curso de Filosofia. Durante o ano de 2012 fui representante dos alunos de doutorado do PPGF/UFRJ.

O título de meu projeto de doutorado defendido no final de Setembro de 2013 foi Uma defesa da poesia: poesia e autocriação na filosofia de Richard Rorty. Neste trabalho procurei desvelar o que a poesia significava para o pensamento de Richard Rorty e como sua filosofia pode ser coerentemente interpretada como uma defesa da poesia. O pensador norte-americano redescreve a antiga querela entre pensadores e poetas, criticando o anseio convergente da racionalidade platônica como uma reivindicação autoritária que não se justifica em um contexto democrático e pluralista. O espaço romântico de autocriação é um pressuposto que Rorty precisa defender e conciliar com o reconhecimento pragmatista da dimensão social e adaptativa do pensamento. A trajetória intelectual do filósofo pragmatista como descrita pela sociologia das ideias de Neil Gross é o mote utilizado para problematizar a relação entre o determinismo social e o espaço de autocriação. A primazia que o filósofo norte-americano dá para a poesia como impulso para a inovação e a mudança é justificada por sua redescrição da história da filosofia como desvelamento de uma posição antiautoritária, na qual o apelo por convergência perde espaço para o anseio utópico de criar um futuro melhor. A relação de ciúme que funda a busca de Platão por superar e colocar-se no lugar de Homero, é redescrita por Rorty, a partir da visão proustiana deste sentimento. Com isso, a ânsia de desenvolver uma teoria que desvelasse verdades imutáveis e não relacionais pode ser tomada como um mero desejo de fugir da contingência. Por outro lado, a aceitação da contingência e da Filosofia como um gênero de escrita promovem uma mudança na percepção do que chamamos de sabedoria – substituindo a Alegoria da caverna de Platão por Em busca do tempo perdido de Marcel Proust como mito fundador – com a aposta na abertura poética de autocriação e reconhecimento da dimensão biográfica do pensamento.

Esta investigação deve se desdobrar em na análise da relação entre (1) poesia e educação moral (com a função das narrativas e sua relação com a autocriação e a política) e (2) poesia e utopia (na construção do dever-ser como aposta em um futuro utópico) em Rorty. Em verdade, comecei a esboçar uma investigação sobre o lugar das narrativas a partir de uma aproximação da obra de Luiz Eduardo Soares e da forma como ele se apropriou das intuições rortyanas para construir uma espécie de romance da segurança pública no Brasil.
Durante o Doutorado escrevi um livro chamado Máquina do Medo, publicado pela PUC-GO em 2013. Nele reuni alguns artigos de metafilosofia com aproximações filosóficas da obra literária de autores goianos, principalmente do poeta Gilberto Mendonça Teles. A ideia era, de certo modo, pensar minhas circunstâncias e, ainda que não explicitamente, continuar as provocativas perguntas de Gonçalo, problematizando a “máquina do medo”, o mecanismo subjetivo de timidez do pensamento que nos aconselha a não tentar ultrapassar os limites da repetição, impedindo a criatividade e a inovação no pensamento. Como assevera Luiz Eduardo Soares, é preciso aceitar o risco da indisciplina. Este risco é palavra, é escrita e invenção de possibilidades.
Aos 33 anos escrever um memorial é uma tarefa inusitada, um desafio que faz a seta do tempo oscilar e que só faz sentido a contrapelo, ou seja, caminhando numa direção contrária àquela que seria natural. É preciso problematizar o tempo e o espaço narrativos, fazendo com que estas memórias se voltem para o que há de vir, projetem mais do que concluam. Devem ser memórias do porvir.[2]  


[1]Além do trabalho de edição de cada número, neste período montei o site e desenvolvi uma estratégia de cadastramento da revista em repositórios on line e indexadores que ajudaram em sua qualificação no Qualis (onde foi qualificada como B2 em educação e política, B4 em filosofia).
[2] Jorge Larrosa aponta uma interessante diferença:o futuro aparece como uma perspectiva de continuidade do tempo atual, enquanto o porvir indica uma abertura para a descontinuidade. (LARROSA, Jorge. “Dar a palavra. Notas para uma dialógica da transmissão.” In: Habitantes da Babel: políticas e poéticas da diferença. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. p. 286-287).

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Interpretação de canções (texto de Alejandro Rozitchner)



Interpretação de canções Alejandro Rozitchner

A extrema importância da música na adolescência é um fato inegável. Dá mesma forma, é  enorme valor que os artistas tem para eles neste momento da vida, quando são especialmente próximos e queridos. Muitas vezes, esse fenômeno é descrito negativamente com a acusação de que é uma moda manipulada pela mídia ou por interesses comerciais. Esta crítica tacanha ignora dois fatos básicos: qualquer forma de arte é histórica e, portanto, passageira (não se trata portanto de moda mas de fenomenos de época) e tudo o que circula em nossa sociedade se faz na forma de bens intercambiáveis ​​(além do interesse comercial não ser algo indigno, é também impossível a existência de qualquer coisa que não aceite as regras do jogo).
Ao invés de perseguir com ar de superioridade o fenômeno do interesse musical adolescente, um professor de filosofia que está interessado em facilitar a formação de um pensamento em seus alunos, deveria se apossar deste material e implementá-lo. O pensamento dos adolescentes, estudantes do ensino médio, tem nas letras das canções um parceiro fundamental. As frases das canções são tomadas como referências fundamentais para criação de uma concepção de mundo em cada uma dessas consciências em estado de evolução.

Exercício:
1. Que cada aluno ou grupo escolha uma canção para o trabalho.
2. Que o aluno ou o grupo escreva uma interpretação de cada verso de sua letra (não tanto para encontrar o que o artista quis dizer – o que ele quis dizer foi o que ele disse – mas para encontrar o sentido dessas palavras).
3. Que a interpretação seja exposta e, em seguida, comparada com outras interpretações possíveis sugeridas por outros membros da classe.

Não há interpretação correta, ou melhor, não há nenhuma que não o seja. As palavras devem ser auscultadas em seu valor, ou seja, elas podem projetar qualquer sentido, mas este deve se "encaixar": as palavras devem parecer estar dizendo o que o intérprete propõe.
O entusiasmo de um estudante pelo trabalho de seus artistas favoritos será o combustível para realização deste trabalho. Seria bom para incentivar e sugerir, por exemplo, que faça isso com todas as canções de um disco. Você pode atribuir prêmios para as melhores interpretações de discos completos.


Mais de Alejandro Rozitchner aqui:

http://www.bienvenidosami.com.ar/v2/articulos/2006_02FilosofiaActividadPensamiento.html



http://www.bienvenidosami.com.ar e http://100volando.blogspot.com.br/

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Cem anos de Camus

camusflyer
Todas as palestras serão no Auditório PPGI (Auditório pequeno do CCET) – Térreo do Prédio do CCET
Av. Pasteur, 458 – Praia Vermelha – Urca
4 de novembro de 2013
17h45 – Apresentação geral do Evento 100 anos de Albert Camus
18h00 -  “De guerra em guerra. A situação filosófica e literária na França entre 1944 e 1962: Camus, Sartre, Céline”.
Baptiste Noël Auguste Grasset (UNIRIO)
Mediadores: Ericka Itokazu e Andréa Bieri
19h15 -  “Albert Camus: A Revolta e a Política contemporânea”
Georgia Amitrano (UFU)
Mediadores:  Baptiste Grasset e Rossano Peccoraro
20h30 – “Albert Camus e o desafio do absurdo”.
Ronaldo Lima Lins (UFRJ)
Mediadores: Georgia Amitrano e Nilton dos Anjos
5 de novembro de 2013
18h00 – “Engenheiros do Hawaii e Albert Camus: um absurdo como outro qualquer”.
Marcos Carvalho Lopes
Mediadores: Baptiste Grasset e Nilton dos Anjos
18h45 -  “Suicídio, Revolta, Poder: ecos camusianos na era bio-digital”.
Rossano Peccoraro (UNIRIO)
Mediadores: Marcos Lopes e Nílton dos Anjos
19h30: Intervalo.
19h45 -  “Entre o absurdo e a revolta, há lugar para a mentira?”
Andrea Bieri (UNIRIO)
Mediadores: Baptiste Grasset e Marcos Lopes
20h45-  “Compreensão mítica: a poética da queda em Camus.”
Franklin Leopoldo e Silva (USP e UFSCAR)
Mediadores: Andréa Bieri e Baptiste Grasset

terça-feira, 2 de julho de 2013

A terra treme no país de desigualdades e paradoxos - Luiz Eduardo Soares



A terra treme no país de desigualdades e paradoxos
Luiz Eduardo Soares
Fonte: http://lareviewofbooks.org/article.php?type=&id=1821&fulltext=1&media=#article-text-cutpoint


A noite de domingo ,30 de junho de 2013, termina em tom épico para os brasileiros: a seleção de futebol conquistou a copa das confederações, vencendo a Espanha por 3 X 0, e a aprovação da presidente da República caiu 27 pontos em duas semanas, de 57% para 30%, tornando imprevisíveis as eleições de 2014. Tudo o que era sólido está se desmanchando no ar: por um lado, a invencibilidade da seleção espanhola e da presidente Dilma Rousseff, e, por outro, o êxito econômico e social do país e a apatia política nacional. A análise do inesperado resultado no futebol está acima de minha competência, mas acredito poder sugerir algumas reflexões sobre o declínio meteórico da popularidade da presidente e de todas as autoridades públicas, descrevendo o que ocorreu nos últimos 15 dias.
A sociedade brasileira está vivendo a maior mobilização de sua história. A primeira convocada por meio de redes sociais virtuais, inteiramente espontânea, isto é, desprovida de lideranças, organização centralizada, vínculos partidários ou mesmo de uma agenda uniforme. A população tem ido às ruas protestar, nos grandes centros urbanos e nas pequenas cidades do interior. E isso acontece, paradoxalmente, no momento em que a opinião pública global contempla com curiosidade este país 85% urbano, de quase 200 milhões de habitantes, que se tornou a sexta economia do mundo, atravessou a crise financeira internacional mantendo indicadores de pleno emprego, crescimento (ainda que modesto), redução de desigualdades e aprovação recorde dos presidentes Lula da Silva (ex-líder sindical) e, até 15 dias atrás, Dilma Rousseff, sua sucessora (ex-presa política, torturada pela ditadura militar nos anos 1960 e 1970), ambos do Partido dos Trabalhadores (PT), uma agremiação de origem esquerdista, hoje social-democrata.

I. Progresso como condição da revolta

A série de eventos surpreendentes começou com o movimento pela redução do preço do transporte público, em São Paulo. Até aí, tudo parecia relativamente rotineiro, sob a crítica da mídia conservadora, ao som de declarações arrogantes do governador direitista e do prefeito esquerdista, que se recusavam a sequer negociar a redução das tarifas. O cenário era típico e os desdobramentos, previsíveis. A conjuntura apontava para o declínio das manifestações, que provavelmente permaneceriam locais. Contudo, no segundo dia de manifestações, a polícia militar paulista deu sua inestimável contribuição à história do país, agindo com brutalidade criminosa, inclusive contra jornalistas. Era o bastante para incendiar a alma dos brasileiros. Em poucos dias os aumentos nas tarifas foram revogados, mas a massa inflamada não recuou.
As primeiras respostas da população jogaram por terra tudo o que se supunha saber sobre a relação do país consigo mesmo: centenas de milhares de pessoas, principalmente (mas não exclusivamente) jovens, de diferentes classes sociais, aderiram a passeatas, em todo o país. No Rio, a maior manifestação, entre tantas que se sucederam, reuniu, segundo a polícia, 300 mil pessoas. Outros, entre os quais me incluo, avaliam que havia ali pelo menos um milhão de pessoas. O mais extraordinário, entretanto, não é propriamente a escala, ainda que seja assombrosa, mas sua rápida difusão por todas as regiões.
O ponto de partida justifica-se: no Rio e em São Paulo, trabalhadores gastam até quatro horas por dia deslocando-se em espaços urbanos entupidos de automóveis, cujo número multiplicou-se em razão do ingresso de 40 milhões de brasileiros na classe média, ao longo da última década. O efeito não-antecipado e contraditório da combinação entre redução das desigualdades e desenvolvimento acelerado –um de cujos focos tendo sido a indústria automobilística-- foi a crise na mobilidade urbana. Além disso, mais consumidores, mais acesso à educação e a valorização cultural da cidadania produziram um contexto novo, na esfera dos sentimentos e da disposição participativa. Ou seja, melhorias combinaram-se para tornar inaceitáveis situações que, em condições anteriores, caso existissem, seriam toleradas, passivamente. Esse aparente paradoxo não é novo: Alexis de Tocqueville, no século XIX, nos ensinou que os grupos sociais mais dispostos a agir e reagir não são os mais pobres e impotentes, mas aqueles que têm o que perder. Isso significa que os avanços sociais das últimas duas décadas (sobretudo da última) no Brasil ampliaram a faixa da população potencialmente disposta a resistir ante o risco de perda. Aqueles que ascenderam não entregarão sem luta suas conquistas.
A que conquistas, exatamente, me refiro?

II. Conquistas recentes da sociedade brasileira

Aplicando-se o índice de Gini para medir a desigualdade de renda, conclui-se que em 2011 o Brasil alcançou o nível mais baixo desde 1960, ano em que pela primeira vez realizou-se o cálculo. Entre 1960 e 1990, a desigualdade cresceu de 0,5367 para 0,6091. Desde então decresceu até 2010, quando atingiu 0,5304 (Neri, Marcelo. A Nova classe média. São Paulo: Saraiva, 2011: 26), e continuou caindo: o índice de 0,527, em 2011 (segundo a PNAD –Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar, do IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), foi o menor da série histórica. Mesmo sendo o patamar mais baixo desde quando aplicamos esse método para identificar a desigualdade, o Brasil continua sendo um dos 12 países mais desiguais do mundo. A boa nova é a afirmação de uma tendência que começa a reverter esse quadro e que se realiza em uma escala considerável.
Na primeira década do século XXI,  a taxa acumulada de crescimento da renda para os 10% mais ricos foi de 10,03%, enquanto para os 50% mais pobres foi de 67,93%. Conforme destaca Ricardo Paes de Barros, os 10% mais pobres obtiveram uma elevação de renda per capita em torno de 7% ao ano, entre 2001 e 2009, só um pouco mais baixa que a celebrada média anual de crescimento da renda per capita na China (Paes de Barros citado por Rafael Cariello em “O liberal contra a miséria” in Revista Piauí, número 74, novembro de 2012: 30).
Paes de Barros avalia que dificilmente algum país terá obtido resultado comparável ao que o Brasil alcançou, em matéria de redução de desigualdade de renda, entre 1999 e 2009, ainda que essas mudanças sejam insuficientes: os 10% mais ricos detinham 47% da renda nacional e passaram a controlar 43%, enquanto os 50% mais pobres, que possuíam 12,65 da renda total, no começo da série histórica, passaram a receber 15% no final do período (idem; ibidem).
O dado mais ostensivo e impactante é o seguinte: em 1993, ano anterior à implantação do Plano Real (bem sucedido no controle da inflação), 23% da população brasileira vivia em situação de pobreza extrema, ou seja, não tinham acesso a renda que lhes proporcionasse consumir o número mínimo de calorias indispensável à sobrevivência saudável. O Plano Real transformou esse cenário devastador em um ano: em 1995 –primeiro ano do primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso-- o percentual da população submetido a essas condições desumanas decrescera para 17%. Em 2003, o contingente populacional em pobreza extrema ainda era o mesmo. Em 2009, caíra para 8,4%. Uma quantidade ainda excessivamente elevada, inaceitável, mas muito menor do que no começo da última década do século XX.
Em 1993, os brasileiros cuja renda domiciliar ficava abaixo de R$ 752,00 (valor de 2011) eram 51 milhões (51.613.412). Em 2001, eram 46 milhões (46. 896.647). Em 2011, passaram a ser 24 milhões (24,684.517). Aqueles cuja renda domiciliar ficava entre R$ 751,00 e R$ 1.200,00, eram, em 1993, 41 milhões (41.255.368). Esse grupo diminuiu para 38 milhões (38.907.544), no ano de 2011. Por outro lado, os brasileiros cuja renda domiciliar se situava entre R$ 1.200,00 e R$ 5.174,00 eram 45 milhões (45.646.118), no ano de 1993. Em 2011, o segmento mais do que dobrou, chegando a 105 milhões (105.468.908).
Registre-se que nesse período de 18 anos a população brasileira cresceu a um ritmo mais lento. O crescimento acelerado verificado nas décadas de 1940 (quando a taxa média foi 2,39) e de 1950 (quando alcançou 2,99), reduziu-se nos anos 1990 (para 1,64) e ainda mais (para 1,17) na primeira década do século XXI. (cf. Elza Berquó. “Evolução demográfica” in Ignacy Sachs, Jorge Wilheim e Paulo Sérgio Pinheiro [org]. Brasil, um século de transformações. SP: Cia das Letras, 2001: 17).
O processo virtuoso de declínio de desigualdades revela melhor sua significação quando se leva em conta a dinâmica demográfica.  São esses dados que conduzirão Marcelo Neri a afirmar que “39,6 milhões de brasileiros ingressaram nas fileiras da chamada nova classe média (classe C) entre 2003 e 2011 (59,8 milhões desde 1993)” (Neri, op.cit: 27).

III. A agenda plural do movimento e o colapso da representação política

A agenda do movimento não é uniforme e cada participante ergue seu pequeno cartaz com uma proposta, uma crítica, uma exigência, em linguagem formal ou bem humorada, seja contra a homofobia ou o autoritarismo tecnocrático dos governos. Entretanto, a despeito da imensa dispersão temática, alguns tópicos são constantes: transportes públicos, mobilidade urbana, corrupção, brutalidade policial, desigualdade no acesso à Justiça, mais recursos para educação e saúde, e menos para a construção de estádios suntuosos para a Copa do Mundo de futebol, em 2014, e para os jogos Olímpicos, que ocorrerão no Rio, em 2016. Portanto, o valor do transporte apenas pôs em circulação uma cadeia metonímica no imaginário individual e coletivo, conectando os mais diferentes problemas nacionais contemporâneos. E cada indivíduo sentiu-se estimulado a incluir, nessa longa narrativa épica, sua própria descrição do que lhe parece ser o drama fundamental e urgente. Registre-se que a legitimidade do governo federal nunca foi seriamente questionada.
O eixo comum, sob a diversidade de  reivindicações, é a proclamação indignada do colapso da representação política. Em poucas palavras, os manifestantes não acreditam em partidos e políticos que renovam seus mandatos no mercado de votos, sem perceber que o mero respeito às regras do jogo não é suficiente para manter a democracia de pé. Há no Brasil o Estado democrático de direito, desde a promulgação da Constituição, em 1988, depois de 21 anos de ditadura militar, seguidos por três anos híbridos. Mas a institucionalidade democrática passou a ser vista pela maior parte da sociedade como um carcaça oca, uma forma sem conteúdo, tomada por agentes políticos inescrupulosos. O endosso formal a parlamentares e governantes pelo voto, em um país onde é obrigatório votar, não garante legitimidade, do ponto de vista da percepção social. A ruína da representação vinha ocorrendo sem que as lideranças dessem mostras de compreender a magnitude do abismo que se abrira --e aprofundava-se, celeremente-- entre a institucionalidade política e o sentimento da maioria. O que farão, agora?
A marca do movimento é a intensidade. Os protestos se realizam na linguagem dos excessos: muita gente, todo dia, todos os temas --e sempre há a minoria exaltada e violenta que depreda prédios públicos. Nesta franja do fenômeno pegam carona alguns profissionais do furto e do roubo, e os que se divertem destruindo sem propósito. Por que a paixão e a intensidade? Ouso uma hipótese: os elos de contiguidade simbólica e política conectam problemas entre si, conforme expliquei, acentuando sua característica permanente: a desigualdade. E o fazem em um contexto normativo e institucional, o Estado democrático de direito, no qual o princípio enunciado e reiterado é a equidade. Por isso, os significados negativos se agravam, acentuando a intensidade emocional em que são apreendidos e comunicados: eles se destacam porque remetem à desigualdade, a qual contrasta fortemente com as expectativas geradas pelo pacto constitucional. Afinal, a conversa sobre cidadania é ou não para valer?
***

IV. As persistentes inquidades históricas

Apesar de tão significativa redução de desigualdades, elas persistem, sob as mais diferentes formas. Assim como persiste a violência e a brutalidade policial letal contra os pobres e os negros.
A ultrajante desigualdade entre negros e brancos vem diminuindo, mas persiste, exibindo o racismo estrutural brasileiro. Entre 1950 e 1980, os brancos viveram 7,5 anos a mais que os pretos e pardos --classificação usada à época (Wood, C.H. & Webster, P.L. Racial inequality and child mortality in Brazil. Mimeo: 1987, APUD Berquó, op.cit.: 27). Em 1980, a expectativa de vida dos negros ainda não passava de 59 anos. Em 1987, a população branca vivia, em média, 72 anos, enquanto os negros viviam 64,5 anos (idem; ibidem). Outro dado escabroso confirma os precedentes: em 1980, a taxa de mortalidade infantil de pretos e pardos era igual à taxa de mortalidade de crianças brancas menores de um ano, em 1960: 105 a cada mil nascidas vivas (Garcia Tamburo, E.M. “Mortalidade infantil da população negra brasileira”. Texto NEPO 11, Campinas, NEPO/UNICAMP, 1987, APUD Berquó, op.cit.). A cor da pele, que nada significa segundo os que crêem no mito da democracia racial brasileira, separava em 20 anos os pretos e pardos dos avanços sociais alcançados pela população branca, avanços que seriam impossíveis sem o trabalho dos não-brancos.
Marcelo Neri oferece dados esclarecedores sobre três fenômenos cujos significados históricos, a meu ver, são profundos. Em primeiro lugar, o efeito demográfico da construção cidadã da identidade social: a parcela da sociedade que se declara negra vem crescendo expressivamente. Comparando-se os dois últimos Censos do IBGE, 2000 e 2010, aumentou em 22,6% a partipação de negros na população brasileira (Neri, op.cit: 226). A meu juízo, o principal motivo é a expansão da consciência política dos afro-descendentes, que cada vez mais assumem com orgulho sua cor e o que ela significa.
O segundo fenômeno estudado por Marcelo Neri são as ostensivas e chocantes desigualdades: “A probabilidade de uma pessoa que se diz branca ser pobre é 49% menor que de um negro e 56% menor que de um pardo. (…) Mesmo quando comparamos pessoas com os mesmos atributos, exceto raça, digamos, analfabeta de meia idade, que mora numa favela de Salvador, a probabilidade de uma branca ser pobre é 29,4% menor do que uma não branca” (op.cit.: 227). Antes de Neri, o Censo de 2010 deixara evidente a cor da desigualdade econômica, indicando que 70% dos brasileiros extremamente pobres são negros.
Posso acrescentar outros dados alarmantes relativos a violência, às instituições de segurança pública e ao sistema de Justiça penal. O “Mapa da Violência”, publicado em 2011[1], revela que, de 2002 a 2008, o número de negros assassinados elevou-se em 20,2%, enquanto diminuiu, em 22,3%, o número de brancos vítimas do mesmo tipo de crime. Não há dúvida de que negros e pobres são as principais vítimas do crime mais grave, o homicídio doloso. Assim como são as principais vítimas da brutalidade policial letal e das abordagens ilegais (Silvia Ramos e Leonarda Musumeci. Elemento suspeito. RJ: Civilização Brasileira, 2005).
Em terceiro lugar, a boa notícia: “Entre 2001 e 2009 o crescimento de renda foi 44,6% dos pretos, 48,2% dos pardos contra 21,6% dos brancos” (Neri, op.cit.: 226). Esse dado combinado ao aumento da participação de negros na população e à importantíssima chegada de negros em grande número à universidade, graças a políticas afirmativas e distributivas, como o Programa Universidade para Todos (Pro-Uni) e as cotas para negros, cria um novo cenário que justifica expectativas positivas relativamente ao futuro da democratização substantiva da sociedade brasileira. De acordo com dados divulgados pelo IPEA, em seu Boletim Políticas Públicas: acompanhamento e análise, número 19, a taxa líquida de matrícula de estudantes na faixa etária entre 18 e 24 anos[2] cresceu mais de cinco vezes de 1992 a 2009. Enquanto em 1992 somente 1,5% dos jovens negros ingressaram na universidade, em 2009, 8,3% lograram cursar o ensino superior. Nesse período, a taxa líquida de matrículas dos jovens brancos saltou de 7,2% para 21,3%, mas o contingente de estudantes negros que não era mais que 20,8% do segmento branco, em 1992, passou a representar 38,9%, em 2009 (cf. www.ipea.gov.br/igualdaderacial).

V. Protagonistas da narrativa global: da invisibilidade à luta por reconhecimento

Outro aspecto decisivo é o acesso à internet: em 2011, 115 milhões e 433 mil brasileiros, com 10 anos de idade ou mais, possuíam telefone celular (eram 56 milhões, 104 mil e 605, em 2005) e 77 milhões 672 mil navegavam na internet. A participação em redes ampliou-se e viabilizou as manifestações, que passou a dispor de mídia própria. Ademais, permitiu aos brasileiros identificar-se e colocar em prática o modelo globalizado de tomada dos espaços públicos como método de democracia direta, ou de ação política não mediada por instituições, partidos e representantes. Evidentemente, o modelo remete à ideia clássica da democracia direta como tipo ideal, sem cumpri-lo inteiramente, uma vez que as mediações nunca deixam de atuar, conectando diferentes procedimentos institucionalizados à energia da massa nas praças. O que conta, neste cenário dramatúrgico, são a memória idealizada e a linguagem comum, como se os eventos se citassem mutuamente, construindo uma constelação virtual de hipertextos. Neste cenário, tornam-se possíveis: incluir-se na narrativa transnacional sobre a nova democracia; o orgulho de quem era invisível para o poder público e sentia-se desrespeitado; a identificação com a persona do heroi cívico; a política vivida em grupo como entretenimento cult antipolítico (ainda que envolva risco de morte); a experiência gregária fraterna (ante um inimigo tão abstrato e fantasmático quanto óbvio e imediato, com o rosto policial e o sentido da tragédia); a vivência que enche o coração de júbilo, exaltando os sentimentos e os elevando a uma escala quase espiritual.
O povo assiste, atualmente, à Copa das Confederações de futebol, em várias cidades brasileiras, competição internacional que antecede em um ano a Copa do mundo. Este esporte é a paixão nacional. Gastos bilionários foram decididos pelos governos sem consulta popular. Os estádios, construídos com verbas governamentais, foram inaugurados e apresentam qualidade admirável. Mas a saúde pública e a educação continuam relegadas pelas políticas públicas. Além disso, os altos preços dos ingressos excluem a grande maioria dos torcedores.  Em síntese, o esporte popular, depois de custos bilionários assumidos autocraticamente pelos governos, expressaram a adoção de prioridades incompatíveis com as necessidades sociais e implicaram o veto à participação popular. Agora, por meio das manifestações, a massa inscreveu-se na grande narrativa nacional, deslocou o campo em que ocorrem os eventos significativos, converteu-se em protagonista central e mudou o jogo.

VI. Efeitos produzidos pela cooptação do PT (o grande partido popular) e dos movimentos sociais

Por que a explosão de protestos nesse momento? O executivo prestigiado, em contexto de dinamismo econômico, pleno emprego e redução de desigualdades, sob a aura carismática do presidente Lula, entre 2003 e 2010, freiou o desgaste do Estado, já avançado em sua face parlamentar. Quando o modelo econômico começa a dar sinais de que está claudicando, a corrosão contamina a legitimidade (a credibilidade) de todas as áreas do Estado.
Se a economia vai razoavelmente bem, apesar dos problemas --como a taxa diminuta de crescimento (espera-se no máximo 2,6% em 2013), o repique inflacionário e deficiências crônicas na infra-estrutura--, porque a desaceleração ainda não afetou o emprego e as políticas sociais compensatórias e distributivas evitam a degradação das condições de vida dos mais vulneráveis, por que rompeu-se o laço Estado e sociedade? A resposta é simples: porque o partido do governo, o PT, antes cercado por uma aura de pureza e sempre disposto a enfrentar o poder, mostrou-se igual aos demais, isto é, cooptável e suscetível à corrupção. Explico, retornando às manifestações.
A maioria dos manifestantes é jovem e estudante. No entanto, é surpreendente e sintomática a ausência da União Nacional dos Estudantes, entidade que participou com destaque de todos os momentos importantes da história política brasileira das últimas décadas. A UNE foi cooptada pelo governo federal desde que o PT chegou ao poder –com dois mandatos de Lula da Silva e um, em curso, de Dilma Rousseff. O novo personagem coletivo, a massa de jovens nas ruas, nasceu sobre os despojos da entidade. Tampouco têm estado presentes tantos outros personagens coletivos de nossa dramaturgia política popular e democrática. Muitos deles trocaram a autonomia pelas benesses do poder, sem perceber que a cooptação esteriliza. O preço dos privilégios é a impotência. Receberam verbas e apoio oficial, mas perderam a confiança das bases e os vínculos com a sociedade civil. Do mesmo modo, o maior partido popular brasileiro perdeu as ruas.
Ao PT que venceu, o país deve muito. Os governos Lula, e mesmo Dilma, ficarão na história como marcos fundamentais na redução das desigualdades. Contudo, quais têm sido suas contribuições para o aprimoramento da democracia e para a mudança das relações entre Estado e sociedade, governos e movimentos sociais?
Pode-se, como têm feito os governantes petistas, ostentar a arrogância tecnocrática e abraçar os adversários, antes hostilizados e acusados de corrupção, porque os fins sempre justificariam os meios? Os apologistas petistas do pragmatismo ilimitado não se deram conta de que os meios são os fins, quando a perspectiva adotada é a confiança da sociedade no Estado, em especial a credibilidade do instituto da representação. Hoje, tantos que acreditaram na dignidade da política vagam sem norte como zumbis da desilusão. E a juventude procura um caminho para chamar de seu. São dez anos de PT no poder: uma geração não o conheceu na oposição e não sabe o que é um grande partido de massas, não cooptado, comprometido com as causas populares e democráticas. Por mais que se façam críticas pertinentes à forma partido, é indiscutível sua importância na transmissão de experiências acumuladas e na formação da militância. Até a linguagem das massas nas ruas tem sua gramática. A espontaneidade é a energia, mas a organização a potencializa e canaliza.
No momento em que emerge o novo protagonismo, com compreensível mas perigosa repulsa por tudo o que de longe soe a partido, deparamo-nos com o vácuo oceânico produzido pelo esvaziamento do PT como agente político independente, esvaziamento por sua vez provocado pela sobreposição entre Estado, governo e partido.

VII. Especulações sobre o futuro e o conflito de interpretações

E o futuro? O movimento omnibus tem diante de si os mais variados cenários, e outros a inventar. Seu destino provavelmente dependerá de sua capacidade de diferenciar a crítica política da crítica à política, e de não confundir a rejeição ao atual sistema político-eleitoral, e partidário, com uma recusa da própria democracia, em qualquer formato. Essas distinções provocarão divisões internas profundas e inconciliáveis, que já estão aflorando. Toda essa magnífica energia fluirá para o ralo do ceticismo, abrindo mais um ciclo de apatia? A indignação encontrará traduções autoritárias e ultra-conservadoras? Múltiplos afluentes seguirão cursos inauditos, nos supreendendo com sua criatividade e mudando o país, no âmbito da democracia? As respostas não dependem só do movimento, mas também dos que não têm participado e das lideranças governamentais e parlamentares.
Ante o fenômeno massivo e inusitado, jornalistas, políticos e intelectuais estão perplexos. Nos primeiros dias, buscaram explicações, mas constataram a insuficiência dos velhos modelos analíticos. Aplicando-os sobre o novo objeto, eles só permitem identificar o que falta ao movimento, aquilo que ele não é: não organizado, sem liderança, sem metas definidas, sem agenda unificada, sem conexões institucionais, sem vínculos políticos, sem plano de ação. O que, entretanto, ele é? Como descrever sua positividade? Esse é o maior desafio.
Nas próximas semanas, é possível que a energia inicial não seja sustentada, as massas se cansem, o movimento se divida em inúmeros segmentos, em torno de muitas demandas distintas. Nesse caso, a disputa se deslocará para o campo das interpretações. O fenômeno terá sido o que dissermos que ele foi. São os intérpretes que se tornarão protagonistas do conflito em torno das atribuições de sentido. Mesmo porque todo esforço de entendimento, toda interpretação é também intervenção, é também ação social e política.
Eu me preparava para enviar este artigo quando a presidente Dilma Rousseff reuniu todos os 27 governadores e os prefeitos das capitais para, ao vivo pela TV, anunciar uma proposta de repactuação nacional, em torno dos grandes temas, suscitados pelas demandas populares: educação pública, mobilidade urbana, controle de gastos públicos e da corrupção, e um plebiscito para a reforma política. Quanto à reforma das polícias e a desmilitarização das polícias militares, nenhuma palavra. De todo modo, um novo capítulo abre-se. O horizonte permanece imprevisível e conturbado. Nada do que eu disse acima foi revogado pela intervenção presidencial. Entretanto, um dado novo incorporou-se à cena: a presidente pretende disputar o protagonismo com as ruas ou, pelo menos, reconectar-se à sociedade, deixando os ônus com o Parlamento e os partidos. Ano que vem ela disputa a reeleição à presidência.
O movimento da presidenta talvez tenha sido tardio. Sua vitória, até duas semanas atrás, parecia assegurada. Hoje, quem fala sobre o futuro com mais certezas do que dúvidas não merece ser ouvido. A prova concreta de que o tsunami político está exercendo um impacto profundo com consequências que ninguém consegue, hoje, antecipar, foi o resultado, já mencionado, das últimas pesquisas sobre avaliação do governo, e a nova distribuição das intenções de voto na eleição presidencial de 2014. Segundo o instituto DataFolha, a presidente teria, hoje, 30% dos votos (tinha 51% há três semanas), contra 23% de Marina Silva, líder dos ambientalistas (que tinha 7%). Outros candidatos também cresceram e entraram no páreo, ainda que em posições inferiores. Poucos duvidam de que uma nova hipótese esteja sendo cogitada pelo PT: “Rousseff desiste de concorrer à reeleição, em 2014, e o ex-presidente Lula da Silva, que já cumpriu dois mandatos e mantém 46% de intenções de voto, volta a concorrer, o que é legalmente possível no Brasil”. Mas não nos iludamos: hipóteses criativas serão concebidas a cada dia, enquanto as ruas ferverem, derretendo certezas e trazendo de volta ao palco da história a liberdade criativa da agência humana coletiva.




[1]  Pesquisa coordenada por Julio Jacobo Waiselfisz, realizada com apoio do Ministério da Justiça.
[2] A taxa líquida de matrícula obtém-se contrastando o número de matriculados com aquele que seria adequado caso se verificasse uma distribuição normal do acesso à universidade entre todos os segmentos da população no grupo de idade pertinent

sexta-feira, 10 de maio de 2013

o "como" de uma filosofia pop

Primeira parte da apresentação de Marcos Carvalho Lopes no filosofia pop 2.0 da UFSC em 26/4.