Tédio, TV, Democracia
Esse foi o texto da minha “primeira aula”... quer dizer: minha primeira aula de verdade. Estava fazendo estágio e as coisas não iam muito bem: os alunos detestavam quando os estagiários começavam a falar em filósofos antigos e empoeirados: eles queriam algo atual... As aulas de filosofia eram um desastre. Não tínhamos material didático e não foi possível esconder a falta de direção. Fiquei chateado, mas: o que fazer? Resolvi preparar o meu material, tentar trazer alguma coisa que os alunos gostassem... Por isso, a partir de três músicas do rock nacional tentei incentivar uma discussão sobre Democracia, Meios de Comunicação etc. Na verdade, por conta da minha falta de experiência, não consegui explorar o material como deveria... mas foi o primeiro passo: tanto na minha invenção como professor (comecei a gostar daquilo), quanto do meu projeto de pensar a partir do rock nacional (mais especificamente, o trabalho da Legião Urbana ).
(Um exemplo das coisas que “não consegui”: coloquei como ilustração desse texto um desenho dos Pokemons... Tinha um sorriso quando fiz isso, mas não expliquei para a turma o motivo; é que hoje a inversão entre público e privado é tão grande, que mesmo as crianças não acreditam mais serem os heróis...os heróis são virtuais, comandados pelos humanos: estamos na era dos videogames e essa é uma situação grave: quando nem as crianças podem se imaginar como heróis, nem elas fantasiam mudar o mundo, mas encarregam isso a outros...virtualizamos a esperança da democracia. É por aí. )
Teatro dos Vampiros (trecho)
“Sempre precisei de um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou só sei do que não gosto
Esses dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos
Esse é o nosso mundo: o que é demais nunca é o bastante,
A primeira vez é sempre a última chance”
(Legião Urbana)
Essa música, segundo o autor (Renato Russo), tem por tema a televisão. Surpreendemos-nos de não perceber nenhuma referência direta ao aparelho, ou a “rede globo”, porém, ainda assim o tema se esclarece. É preciso olhar mais de perto o dito, pensar o pensado, atitude que não é comum na cotidianidade.
Todos precisam de atenção. Essa parece ser uma afirmação evidente. O autor segue dizendo não saber o que é, porém conhecer o que não quer. Essa é uma afirmação negativa. O indivíduo se afirma negando: dizendo não. Para o que ele diz não?
A reposta parece apresentar-se de forma indireta: “esses dias tão estranhos/ fica a poeira se escondendo pelos cantos”. Dias em que a poeira toma conta, dias de indiferença para com o mundo a sua volta: dias de tédio. Tédio e indiferença que deixam o mundo como está: “onde o que é demais nunca é o bastante/ a primeira vez é sempre a última chance/ ninguém vê aonde chegamos/ os assassinos estão livres, nos não estamos”. Essa é uma descrição do mundo a ser negado, mundo que pede tudo ‘agora’, na urgência do consumismo; que promove a disputa e a indiferença, e que, nessa disputa, nos cerca com uma violência que, em verdade, não vem de “baixo para cima”, mas de “cima para baixo”.
Muros e Grades (trecho)
“Nas grandes cidades
Num pequeno dia-a-dia
O medo nos leva tudo
Sobretudo a fantasia
Então erguemos muros
Que nos dão a garantia
De que morreremos cheios
de uma vida tão vazia”
(Engenheiros do Hawaii )
A violência não é um acaso numa sociedade em que a distribuição de renda se mostra tão desigual como no Brasil. A violência não se justifica, porém acaba por justificar a desigualdade. A disputa silenciosa se acirra, assim como o medo. Nas grandes cidades essa angústia se intensifica por estarmos, na maioria das vezes, cercados por tudo aquilo que a sociedade consumista prega como certo, e tudo aquilo que ela fomenta indiretamente (a partir e seus erros).
A indiferença cerca, e nesse “cercar-se” todos são iguais: ninguém se importa com nada a não ser consigo mesmo. E depois surge a pergunta: “por que vivemos uma vida tão vazia?”. Questão que não ouvimos (1) por estarmos indiferentes para com a resposta, ou (2) por estarmos indiferentes para com nós mesmos.
Televisão
“A televisão me deixou burro, muito burro demais
E agora todas coisas que eu vejo me parecem iguais.”
(Titãs)
Os meios de comunicação se movem de acordo com a publicidade. A publicidade se caracteriza por tentar tornar público o que é privado, tentar tornar o particular, geral. Ela quer “todos iguais”, só que essa igualdade, mais e mais se direciona a indiferença.
O público quer mais e mais essa inversão: tornar o privado público e o público privado. Querem decidir e saber sobre a vida dos outros, na mesma medida em que se esquecem da própria vida e da vida em comunidade.
A comunidade é comum-unidade, é a união de todos pelo bem comum. Dificilmente poderíamos dizer, hoje, que vivemos em comunidade. Dificilmente nos unimos tendo em vista o bem comum.
A Democracia pede, propõe a participação de cada um (até mesmo para se legitimar), porém, numa época em que a indiferença tornada pública ameaça à própria publicidade; que cada um que apenas o seu, caminhamos contra a democracia. Como podemos querer a Democracia conquanto afirmamos e vivemos na indiferença?