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sábado, 10 de março de 2012

Convite para Lançamento de Canção, Estética e Política: Ensaios Legionários











  
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sábado, 3 de julho de 2010

Tédio, TV, Democracia (filosofia pop)


Tédio, TV, Democracia

Esse foi o texto da minha “primeira aula”... quer dizer: minha primeira aula de verdade. Estava fazendo estágio e as coisas não iam muito bem: os alunos detestavam quando os estagiários começavam a falar em filósofos antigos e empoeirados: eles queriam algo atual... As aulas de filosofia eram um desastre. Não tínhamos material didático e não foi possível esconder a falta de direção. Fiquei chateado, mas: o que fazer? Resolvi preparar o meu material, tentar trazer alguma coisa que os alunos gostassem... Por isso, a partir de três músicas do rock nacional tentei incentivar uma discussão sobre Democracia, Meios de Comunicação etc. Na verdade, por conta da minha falta de experiência, não consegui explorar o material como deveria... mas foi o primeiro passo: tanto na minha invenção como professor (comecei a gostar daquilo), quanto do meu projeto de pensar a partir do rock nacional (mais especificamente, o trabalho da Legião Urbana ).
(Um exemplo das coisas que “não consegui”: coloquei como ilustração desse texto um desenho dos Pokemons... Tinha um sorriso quando fiz isso, mas não expliquei para a turma o motivo; é que hoje a inversão entre público e privado é tão grande, que mesmo as crianças não acreditam mais serem os heróis...os heróis são virtuais, comandados pelos humanos: estamos na era dos videogames e essa é uma situação grave: quando nem as crianças podem se imaginar como heróis, nem elas fantasiam mudar o mundo, mas encarregam isso a outros...virtualizamos a esperança da democracia. É por aí. )     

Teatro dos Vampiros (trecho)

“Sempre precisei de um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou só sei do que não gosto
Esses dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos
Esse é o nosso mundo: o que é demais nunca é o bastante,
A primeira vez é sempre a última chance”
(Legião Urbana)

Essa música, segundo o autor (Renato Russo), tem por tema a televisão. Surpreendemos-nos de não perceber nenhuma referência direta ao aparelho, ou a “rede globo”, porém, ainda assim o tema se esclarece. É preciso olhar mais de perto o dito, pensar o pensado, atitude que não é comum na cotidianidade.
Todos precisam de atenção. Essa parece ser uma afirmação evidente. O autor segue dizendo não saber o que é, porém conhecer o que não quer. Essa é uma afirmação negativa. O indivíduo se afirma negando: dizendo não. Para o que ele diz não?
A reposta parece apresentar-se de forma indireta: “esses dias tão estranhos/ fica a poeira se escondendo pelos cantos”. Dias em que a poeira toma conta, dias de indiferença para com o mundo a sua volta: dias de tédio. Tédio e indiferença que deixam o mundo como está: “onde o que é demais nunca é o bastante/ a primeira vez é sempre a última chance/ ninguém vê aonde chegamos/ os assassinos estão livres, nos não estamos”. Essa é uma descrição do mundo a ser negado, mundo que pede tudo ‘agora’, na urgência do consumismo; que promove a disputa e a indiferença, e que, nessa disputa, nos cerca com uma violência que, em verdade, não vem de “baixo para cima”, mas de “cima para baixo”.

Muros e Grades (trecho)

“Nas grandes cidades
Num pequeno dia-a-dia
O medo nos leva tudo
Sobretudo a fantasia
Então erguemos muros
Que nos dão a garantia
De que morreremos cheios
de uma vida tão vazia
(Engenheiros do Hawaii )

A violência não é um acaso numa sociedade em que a distribuição de renda se mostra tão desigual como no Brasil. A violência não se justifica, porém acaba por justificar a desigualdade. A disputa silenciosa se acirra, assim como o medo. Nas grandes cidades essa angústia se intensifica por estarmos, na maioria das vezes, cercados por tudo aquilo que a sociedade consumista prega como certo, e tudo aquilo que ela fomenta indiretamente (a partir e seus erros).
A indiferença cerca, e nesse “cercar-se” todos são iguais: ninguém se importa com nada a não ser consigo mesmo. E depois surge a pergunta: “por que vivemos uma vida tão vazia?”. Questão que não ouvimos (1) por estarmos indiferentes para com a resposta, ou (2) por estarmos indiferentes para com nós mesmos.

Televisão

“A televisão me deixou burro, muito burro demais
E agora todas coisas que eu vejo me parecem iguais.”
(Titãs)

Os meios de comunicação se movem de acordo com a publicidade. A publicidade se caracteriza por tentar tornar público o que é privado, tentar tornar o particular, geral. Ela quer “todos iguais”, só que essa igualdade, mais e mais se direciona a indiferença.
O público quer mais e mais essa inversão: tornar o privado público e o público privado. Querem decidir e saber sobre a vida dos outros, na mesma medida em que se esquecem da própria vida e da vida em comunidade.
A comunidade é comum-unidade, é a união de todos pelo bem comum. Dificilmente poderíamos dizer, hoje, que vivemos em comunidade. Dificilmente nos unimos tendo em vista o bem comum. 
A Democracia pede, propõe a participação de cada um (até mesmo para se legitimar), porém, numa época em que a indiferença tornada pública ameaça à própria publicidade; que cada um que apenas o seu, caminhamos contra a democracia. Como podemos querer a Democracia conquanto afirmamos e vivemos na indiferença?

sábado, 9 de agosto de 2008

Kant, Renato Russo e o fato da razão


A questão de se existe ou não liberdade é fundamental para se pensar a ética. Se o homem não é livre para agir, não pode ser responsável por sua ação. Se não existe liberdade ninguém pode ser considerado criminoso. Com isso, cria-se a "ética dos coitadinhos" que diz que a culpa pelas coisas que não estão certas não é de ninguém determinado, nem de todos em conjunto: o culpado é o "sistema", o impessoal. Seguindo esse discurso as pessoas podem reivindicar para si todos os direitos sem carregar consigo nenhum dever: afinal, "todo mundo quer tirar vantagem em tudo', e, por conseqüência, ninguém quer ser responsável por nada.
Acontece que, como percebeu Kant, a liberdade não é um fato exterior, é sim, um fato (feito) da razão: o homem pode prescrever para ele mesmo regras de conduta, ante as quais ele mesmo é legislador e executor. Ou seja: quem se obriga a si mesmo é livre para se desobrigar. Isso acontece na prática: quem assume um compromisso perante consigo mesmo não esta comprometido com ninguém: então é livre (ou "você não pode jogar essa folha longe e esquecer esse texto?", ou "você não é livre para escolher isso?").
Essa idéia foi reafirmada na letra da música Há Tempos da Legião Urbana, nela Renato Russo diz: "disciplina é liberdade". Falar em disciplina como sinônimo de liberdade pode ser visto como algo fascista, mas Russo explicou sua posição em entrevista: "eu estou falando de autodisciplina. Se você pensar numa relação sujeitoobjeto é fascista, mas numa relação sujeito-sujeito, não é. Não é: "eu vou disciplinar você". A natureza é disciplinada. Eu preciso de muita disciplina! Fica tão bonito escrito "Disciplina é liberdade". E é uma inversão do double think do 1984: "Liberdade é escravidão", "Ignorância é força". Se você tiver um conceito legal de liberdade, imediatamente surge uma idéia positiva." Se "disciplina é liberdade", o homem é livre e responsável por suas ações. Disso pode deduzir que para viver em grupo deve agir como se sua ação pudesse ser comum a todos os demais, ou seja, seguir a regra do senso comum de "não fazer aos outros o que você não quer que seja feito a você".
Kant não pensava numa sociedade de anjos: regras são necessárias mesmo em uma sociedade de demônios. Os homens são racionais, livres e responsáveis pelo seu agir (ou não agir). O Estado, a televisão, "o sistema", não são sozinhos os culpados pelos problemas sociais, afinal, a sociedade é feita também de homens individualmente responsáveis. Como diria Ortega y Gasset: "eu sou eu e minhas circunstâncias, se não me salvo a elas não me salvo a mim mesmo", ou seja, o homem esta sempre imerso em circunstãncias que não escolheu, mas pode decidir entre lidar com elas ou se deixar levar pela correnteza, como uma bóia jogada no rio. Pode decidir compreender sua circunstãncia, sua responsabilidade e sua liberdade ou cantar o samba do "deixa a vida me levar". O fato é que você (também ) decide.