Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador política. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador política. Mostrar todas as postagens

sábado, 3 de julho de 2010

A Utopia socialista e a resposta cética: o Anarquismo


A Utopia socialista e a resposta cética: o Anarquismo

Este texto foi preparado para uma aula no ensino médio como principio de debate. Tinha alguns alunos punks e o símbolo do anarquismo vivia aparecendo no quadro, nos cadernos, em suas roupas, nos murros etc. Achei que essa canção dos Engenheiros do Hawaii seria um bom princípio para dialogar.

toda forma de poder (Humberto Gessinger)

Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada
Fidel e Pinochet tiram sarro de você
Que não faz nada
E eu começo a achar normal que algum boçal
Atire bombas na embaixada

Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer

Toda forma de poder
E uma forma de morrer por nada
Toda forma de conduta
Se transforma numa luta armada
A história se repete
Mas a força deixa a estória mal contada

Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer

O fascismo e fascinante
Deixa a gente ignorante fascinada
E tão fácil ir adiante
E esquecer que a coisa toda está errada
Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada

Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer...



Hoje em dia é comum que, de vez em quando, a gente encontre por aí, pichado nos muros, ou em cadernos e mochilas, o símbolo do anarquismo. Porém, é de se duvidar de que as pessoas que os ostentam se preocupem, ou mesmo, saibam o que significa, em termos de proposta política, o anarquismo. Isto se deve, em grande parte, ao fato do anarquismo não ser algo sistemático, que possa ser descrito de maneira rígida. Mesmo o seu principal teórico, Bakunin (1814-1865), não deixava as coisas claras, já que dificilmente concluía as obras que começava. Nem por isso devemos cair no erro fundamental de confundir anarquismo com bagunça.
O anarquismo surgiu historicamente como uma espécie de dissidência do marxismo. Karl Marx achava que os trabalhadores deveriam tomar o poder e manter uma espécie de ditadura ( a ditadura do proletariado) a fim de evitar que a burguesia retornasse (com uma contra-revolução). O estágio em que o Estado estaria nas mãos dos trabalhadores seria o socialismo, que, aos poucos seria substituído pelo comunismo, onde não haveria mais espaço para Estado ou luta de classes.
Bakunin considerava Marx otimista e ingênuo: o poder corrompe as pessoas e quem quer que o tome, acaba por querê-lo para si. Qualquer classe, ao chegar ao poder, dele se apossaria. A “ditadura do proletariado” acabaria construindo uma hierarquia de funcionários públicos e tecnocratas que haveria de querer perpetuar-se como dominante. A solução estaria em tentar o salto direto para o comunismo, que seria uma espécie de governo sem governantes: o anarquismo (anarquismo significa “sem governante”).
O anarquismo não constituiria partido ou teses dogmáticas, evitando “toda forma de poder”, ele seria um movimento vivo, como um organismo, fundado na cooperação e não na organização burocrática. Os anarquistas não acreditam na “representação política” e procuram limitar o espaço para esse tipo de prática ao mínimo possível: quando necessário se elegeriam delegados com o tempo de mandato limitado e sujeito a revogação. O anarquismo previa a supressão da propriedade privada dos meios de produção, que daria lugar a cooperativas, onde as decisões seriam comuns. Dá mesma forma os anarquistas negam a Igreja: “para afirmar o homem, é preciso negar Deus”. Em certa medida, podem-se comparar as idéias anarquistas com a democracia radical de Jean-Jacques Rousseau. Pode ser considerar heranças anarquistas a idéia de orçamento participativo: o importante é manter a consulta direta as pessoas envolvidas.[1]
O anarquismo em poucos momentos teve uma verdadeira força política: ganhou espaço no sindicalismo (que desembarcou no Brasil juntamente com os italianos) entre o fim do século XIX e início do século XX, e teve seu momento de maior força durante a Guerra Civil Espanhola. A desobediência civil de Mahatma Gandhi, na luta pela independência da Índia pode ser considerada um exemplo de prática anarquista.
Após a Segunda Guerra Mundial o anarquismo foi trivializado ressurgindo em diversos movimentos que parecem muito mais expressar o individualismo da burguesia capitalista: como no caso do movimento hippie, do maio de 1968, ou mesmo do movimento punk. Rejeitar o poder político é uma coisa, recusar-se a participar dele, mas tentar fazer o pentágono levitar já é algo muito “desgovernado”, mas que, ainda assim, gerou resultados: “Em Outubro [1967 contra a Guerra do Vietnã], em Washington, 50 mil pessoas marcharam sobre o Departamento de Defesa. Vestidos como vagabundos, risonhos como palhaços, carregavam flores, sugeriam que se fizesse amor e não guerra. Nessa manifestação que o professor americano Allen Matusow chama de “um dos mais significativos acontecimentos da história dos Estados Unidos”, um grupo de hippies tentou fazer levitar o Pentágono. A imensa construção, que abriga os maiores corredores do mundo, não levitou, mas hoje se sabe que por conta daqueles hippies ela sem dúvida saiu do lugar”[2].


[1] Janos Biro, filósofo que muito me incentivou com sues comentários e participação no blog filosofia pop, quanto a esse texto ponderou: “A idéia do anarquismo para mim é que não existe uma forma correta de reger a humanidade, logo o próprio anarquismo não poderia ser isso. Ele não é uma proposta, é um questionamento somente. As pessoas que o transformam em proposta para mim deixam de ser anarquistas. A anarquia não faz parte da história”. A história de colocar coisas como orçamento participativo como cristalizações do anarquismo é um erro então: quem participa do orçamento participativo?
[2] Gaspari, Elio. “A roda de Aquarius” In: A Ditadura Envergonhada São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p.234

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Tropa de Elite: Estado de Exceção e periferias sem lei



“O que sentem repugnância pelo vagabundo que encontra na rua simpatiza de todo o coração com o vagabundo Carlitos, no cinema. Enquanto na vida cotidiana, somos quase indiferentes às misérias físicas e morais, sentimos a comiseração, a piedade e a bondade, ao ler um romance, ao ver um filme.” Edgar Morin

No sábado, dia 16 de fevereiro de 2008, o filme Tropa de Elite recebeu em Berlim o Urso de Ouro, como melhor filme no prestigiado Festival de Cinema daquela cidade. O prêmio foi entregue pelo presidente da comissão julgadora, o diretor franco-grego Constantin Costa-Gravas, famoso por fazer filmes de denúncia política, como Estado de Sítio (1972) em que criava um país imaginário para fazer uma alegoria do estado de exceção então existente em diversos países da América Latina com suas Ditaduras, nas quais a legitimação da tortura e o desrespeito aos direitos individuais haviam tornado-se regra. Não por acaso, em segundo lugar no mesmo festival, foi premiado o documentário de Ersol Morris, Standart Operating Procedure, que tratava da tortura de presos iraquianos no presídio de Abu Ghraib.
Diferentemente do Estado de Sítio descrito por Costa-gravas na década de setenta, advindo da instituição da repressão, os dois filmes premiados nas primeiras colocações em Berlim, tratam da migração do Estado de exceção para as periferias das grandes cidades, assim como, dos abusos do uso da “violência preventiva”, que marcam a estratégia de luta contra o terrorismo em termos globais defendida pelos EUA depois dos ataques de 11 de Setembro de 2001. Trata-se agora de contextos formalmente democráticos onde a violência e a tortura são denunciadas. Como aponta o filósofo Giorgio Angambem, é como se hoje se multiplicassem “campos de concentração”, que excluem seres humanos, a tal ponto que qualquer ato cometido contra eles não seja considerado um delito. É assim que são tratados muitos dos que vivem nas periferias das grandes cidades (só das grandes cidades?), é assim que os EUA mantêm presos políticos sem julgamento em sua base militar em Guantánamo, é assim que os muçulmanos são tratados por Israel etc.
Estes exemplos de segregação apontam para um perigo que não está tão distante de nós: os excluídos de nossa sociedade de consumo muitas vezes são tratados de forma semelhante. É assim nas penitenciárias (onde meninas podem ficar presas junto a homens ante a indiferença dos que aplicam as leis), é assim que muitas vezes se trata os trabalhadores sem terra, ou os índios, os que habitam a fronteira de nossa civilização e são considerados perigosos. Os que não podem comprar a boa vida proposta pelo mercado, os consumidores falhos, são os novos impuros a ameaçam a ordem da civilização atual.

Como os educadores podem lidar com esse tipo de questão? Eles podem lidar com esse tipo de problema? Antes eles precisam enfrentar as pressões no sentido de tornar a educação também um produto e não um direito. Esse processo de transformação de direitos em privilégios atingiu em cheio o sistema de saúde públicos do Brasil: para ser (bem) atendido em um hospital é necessário ter um plano de saúde qualquer. A educação pública, ameaçada por uma visão administrativa que privilegia a quantidade, deixa os que querem qualidade livres para procurar escolas privadas: e multiplicam-se os programas de aceleração de ensino, emergenciais que se tornam permanentes etc.
Para tentar sobreviver a esse processo de instrumentalização temos que buscar ressaltar a dimensão humanista do saber. Devemos tentar contar histórias que ressaltem as diferenças sociais e de costumes e possam servir para ampliar nosso horizonte de identificação moral. Somente pela mobilização dos sentimentos podemos construir pela educação a possibilidade de identificação/ projeção que torne possível a aceitação do outro como um de nós.
A idéia de identidade planetária leva em conta o destino comum que todos nós como seres que vivem num mesmo planeta compartilham. No entanto, seu apelo torna-se vazio quando não são oferecidas as mínimas condições de cidadania. A justiça é um fator de sociabilidade e aponta para nossos horizontes de lealdade. Sem certas condições mínimas de existência não poderemos perceber o outro como um mesmo, e, assim o ressentimento dos excluídos tende a explodir de modo violento. E justificado?