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sábado, 22 de outubro de 2011

Sobre quadrinhos, filosofia e autobiografia (techo)

Sobre quadrinhos, filosofia e autobiografia 

(trecho de travalho apresentado no Rio Comicon onde apresentei trabalho sobre A misteriosa chama da rainha Loana de Umberto Eco)
Marcos Carvalho Lopes (marcosclopes@gmail.com)

Quando alguém se propõe a fazer um trabalho sobre quadrinhos e filosofia geralmente tem que lidar com o ceticismo daqueles que descartam seu trabalho antes mesmo de ter contato com ele, questionando se o que fazem é realmente “Filosofia” e se seu objeto de trabalho é realmente os “Quadrinhos”.
Este tipo de objeção é comum entre os filósofos e consiste na alegação de que os termos do trabalho não foram definidos com precisão e, por isso, ele é inconsistente. Desta forma a filosofia se esquiva para uma agenda essencialista e dá as costas para a possibilidade de qualquer diálogo diferente do “o que é o que é”, impondo também este mesmo jogo aos que tentam fazer uma “filosofia dos quadrinhos”: é necessário construir uma ontologia dos quadrinhos definindo o que eles são em si mesmos.
Por outro lado, como explica John Lent, quando se pergunta a um autor de comics “Qual a filosofia de sua obra?”, as respostas variam entre os que afirmam “Eu não tenho filosofia” ou “Por que deveria responder a esta questão?” até  os que fornecem uma lista de leituras que possuem mais densidade filosófica do que a totalidade de seu trabalho. Este espectro de avaliações tende a afugentar os essencialistas e as tentativas de defender uma definição da relação entre quadrinhos e filosofia.
Este desconforto é camuflado pelo argumento (platônico) de que os quadrinhos não seriam um objeto com “valor estético intrínseco” que justifique investigações filosóficas. Essa ideia de que as obras de arte deveriam ter um valor estético intrínseco se mantém vinculada a distinção descrita nas críticas kantianas entre os campos cognitivo, moral e estético. Tal dimensão essencialista se mantém junto com a crença de que existe na obra considerada estética um valor não-relacional, algo que se mantém de modo independente dos hábitos e interesses humanos. Assim, a perspectiva kantiana sustenta que poderíamos isolar o valor estético como oposto aos valores políticos, morais e históricos.
Na avaliação de Arthur Danto, em Kant teríamos mais uma tentativa de manter a condenação de Platão aos poetas, que seriam perigosos politicamente por desviarem as pessoas de modo sedutor da realidade em si mesma para a aparência de aparência. Para Danto esta seria uma forma de condenar a arte, vista como não tendo valor cognitivo e, além disso, como sendo perigosa para aqueles que querem viver uma vida justa. Na descrição de Alexander Nehamas o motivo pelo qual Platão condena os poetas (no Livro X da República) seria o mesmo pelo qual hoje se critica a cultura de massa: sua capacidade de fazer com que pessoas imitem formas de agir de modo irrefletido. Os platônicos de nossos dias condenam os quadrinhos, a televisão, a internet, os games etc. partindo da mesma avaliação essencialista.
Por outro lado existem os que tratam da relação entre quadrinhos e filosofia de um modo relacionista, sem, contudo, tratar dos quadrinhos: eles são motivo para a aplicação de teorias prévias, de devires que ficam devendo qualquer sentido, métodos avançados de abordagem quase-científica do sentido do significado da referência semântico-pragmática ou crítica ideológica do mais eminente e apocalíptico sublime pós-moderno. O filósofo norte-americano Richard Rorty sublinhou a falta de sentido prático da Esquerda Cultural que se detém em investigações abstratas que não possuem nenhum foco de transformação social. Diz ele que, por exemplo, a análise dos pressupostos imperialistas do universo Marvel tornou-se um fetiche que gera debates bizantinos sem qualquer efeito prático. 
O mesmo Richard Rorty considerava que romances, documentários, histórias em quadrinhos, biografias etc. podem fazer mais para a educação moral do que tratados filosóficos. O que justifica sua posição é tendência que temos para nos solidarizar com aquelas pessoas com as quais nos identificamos, e, por isso, descrições detalhadas de formas de vida e de motivos pelos quais as pessoas sofrem, podem nos ajudar a ampliar nosso horizonte moral mais do que princípios abstratos. Ora, para Rorty não existe nenhum tipo de propriedade não relacional, nenhum contexto que nos dê a perspectiva de um ‘olho-de-deus’ a partir da qual saberíamos a forma correta de agir em qualquer contexto: todas as descrições correspondem a determinados usos e interesses. Por isso, perguntas essencialistas não lhe interessam: melhor do que perguntar pelo que é é questionar pelo que deveria ser. Esta segunda questão envolve quem a faz e não pede uma despersonalização. Em verdade, apesar da necessidade de justificação pública do jogo de pedir e dar razões da filosofia, Rorty assume as consequências da denúncia nietzschiana de que os sistemas metafísicos não são mais do que autobiografias disfarçadas (acrescentando uma nota khuniana, que afirma que a epistemologia é um tipo de sociologia inconsciente de si mesma). Assim, turva a relação entre crítica e clínica: como ser críticos se não começamos por criticar nossos próprios pressupostos?
Descartando a ideia kantiana de um valor estético intrínseco o que justificaria a escolha de um determinado livro ou filme ou quadrinho como objeto de pesquisa seria a perspectiva de que tal obra possa ter um efeito transformador, que possam inspirar nossa autocriação. Explica Rorty que o “valor dos livros estudados nos departamentos de literatura e filosofia, esta em que eles cumpram a mesma função que torsos arcaicos de Apolo, telas de Vermeer e concertos do Greatful Dead. Ocasionalmente sugerem as pessoas que elas podem mudar suas vidas, e, talvez até sugiram como eles podem fazer isso. Sendo todas estas coisas equivalentes, não devemos nos dedicar ao ensino de livros ao menos que estes tenham mudado nossas vidas, ou a vida da pessoa que conhecemos, ou a vida de um grande número de pessoas no passado, ou, ao menos, temos alguma outra razão para crer que os estudando talvez mudem algo na vida de nossos estudantes”. É questionando esta dimensão autobiográfica que aqui quero pensar a relação entre quadrinhos e filosofia.

Trechos de A misteriosa Chama da Rainha Loana:

“Mas foi justamente em alguns exemplares de Mickey que pude discernir os acontecimentos de 1941, quando em dezembro, Itália e Alemanha declararam guerra aos Estados Unidos (...) Eu achava que, a certa altura, os americanos tivessem se cansado das travessuras de Hitler e tivessem entrado em guerra, mas não, foram Hitler e Mussolini que declararam guerra a eles, pensando talvez que pudessem pô-los fora de combate em poucos meses, com a ajuda dos japoneses. Como era evidentemente difícil mandar um punhado de SS ou de Camisas Negras para ocupar Nova York, começaram alguns anos antes com a guerra aos quadrinhos e desapareceram com os balões, substituídos por legendas sob os desenhos. Depois, como vi em outras revistinhas, havia tempos tinham sumido no nada os personagens americanos, substituídos por imitações italianas e por fim, creio que foi a última e dolorosa barreira a ser superada, Mickey foi assassinado. De uma semana para outra, sem nenhum aviso, a mesma aventura de Mickey continuava como se nada tivesse acontecido, mas o protagonista agora era um tal de Toffolino, humano, não mais animal, sempre com quatro dedos na mão como os animais antropomórficos de Disney, e seus amigos continuavam a se chamar Mimma e Pippo. Como recebi então aquele desmoronamento de um mundo? Talvez com tranquilidade, dado que, de um momento para outro os americanos tornaram-se malvados.

“[Flash] Gordon não, batia-se pela liberdade contra um déspota, talvez na época eu pensasse que Ming era como o terrível Stalin, o ogro vermelho do Kremlim, mas não podia deixar de reconhecer em seus traços também aqueles do Ditador da casa, dotado de indiscutível poder de vida e morte sobre seus fiéis. Logo, creio que tive em Flash Gordon a primneira imagem de um herói – é verdade que só podia dizê-lo agora, relendo, não na época – de uma guerra de libertação combatida em um Alhures Absoluto, fazendo explodirem asteroides fortificados em galáxias distantes. (p.236-237)

Mais lido que todos os outros, a julgar pelo estado periclitante do meu exemplar, o Mickey jornalista: era impensável que o regime deixasse passar uma história sobre a liberdade de imprensa, mas percebe-se que, para os censores de Estado, histórias de animais não poderiam ser realistas e perigosas. (...) Em todo caso, Mickey ergue com escassos recursos o seu Eco do Mundo – o primeiro número sai com horríveis erros de impressão – e continua impávido a publicar all the newa that´s fit to print, mesmo que gangsters sem escrúpulos e políticos corruptos tentem detê-lo por todos os meios. Quem, até então, ousara me falar de uma imprensa livre, capaz de subtrair-se a qualquer censura? (p.242)

Alguns mistérios de minha esquizofrenia infantil começaram a se esclarecer. Lia os livros escolares e os quadrinhos, e provavelmente, era nos quadrinhos que construía, com muito esforço, uma consciência civil. Por isso, com toda certeza, conservei esses cacos de minha memória desmoronada mesmo depois da guerra, quando algumas páginas dos jornais de lá chegaram às minhas mãos (talvez traziadas por tropas americanas), com tirinhas coloridas de domingo apresentando novos heróis, como Li’l Abner ou Dick Tracy. Creio que nossos editores de antes da guerra não ousavam publica-los porque o traço era ultrajosamente modernista e evocava aquela que os nazistas chamavam de arte degenerada.
Já crescido em idade e sabedoria, teria me aproximado de Picasso sob a influência de Dick Tracy? (p.242-243)

Entre outras coisas, como eu já vira em outras histórias em quadrinhos, tanto as mulheres como os homens satânicos (como Ming com Dale Arden) nunca queriam possuir, violentar, aprisionar em seu harém, unir-se carnalmente com o objeto de seu desejo. Queriam sempre casar. (p.252)

Trechos de Cinco escritos morais:

Em 1942, com a idade de dez anos, ganhei o primeiro prêmio nos Ludi Juveniles (um concurso com livre participação obrigatória para jovens fascistas italianos - o que vale dizer para todos os jovens italianos). Tinha trabalhado com virtuosismo retórico sobre o tema: “Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?” Minha resposta foi afirmativa. Eu era um garoto esperto.
Depois, em 1943, descobri o significado da palavra “liberdade”. Contarei esta história no fim de meu discurso. Naquele momento “liberdade” ainda não significava “liberação”.
Passei dois dos meus primeiros anos entre SS, fascistas e resistentes, que disparavam uns nos outros, e aprendi a esquivar-me das balas. Não foi mal como exercício.
Em abril de 1945, a Resistência tomou Milão. Dois dias depois os resistentes chegaram à pequena cidade em que eu vivia. Foi um momento de alegria.
Alguns dias depois vi os primeiros soldados americanos. Eram afroamericanos. O primeiro ianque que encontrei era um negro, Joseph, que me apresentou às maravilhas de Dick Tracy e Ferdinando Buscapé. Seus gibis eram coloridos e tinham um cheiro bom.

Na manhã de 27 de julho de 1943 foi-me dito que, segundo informações lidas na rádio, o fascismo havia caído e Mussolini tinha sido feito prisioneiro. Minha mãe mandou-me comprar o jornal. Fui ao jornaleiro mais próximo e vi que os jornais estavam lá, mas os nomes eram diferentes. Além disso, depois de uma breve olhada nos títulos, percebi que cada jornal dizia coisas diferentes. Comprei um, ao acaso, e li uma mensagem impressa na primeira página, assinada por cinco ou seis partidos políticos como Democracia Cristã, Partido Comunista, Partido Socialista, Partido de Ação, Partido Liberal. Até aquele momento pensei que só existisse um partido em todas as cidades e que na Itália só existisse, portanto, o Partido Nacional Fascista. Eu estava descobrindo que, no meu país, podiam existir diversos partidos ao mesmo tempo. E não só isso: como eu era um garoto esperto, logo me dei conta de que era impossível que tantos partidos tivessem aparecido de um dia para o outro. Entendi assim que eles já existiam como organizações clandestinas.

sábado, 7 de maio de 2011

O que é aquilo – filosofia pop!

O que é aquilo – filosofia pop!
Marcos Carvalho Lopes
(doutorando em filosofia na UFRJ – bolsista da CAPES)
marcosclopes@gmail.com

(Primeira parte da comunicação que apresentei na XII semana dos alunos de pós-graduação em filosofia da PUC-RJ na quinta-feira passada 05/05) 


Na capa de Mais além da caixa de brillo, livro do filósofo norte-americano Arthur Danto, o pintor Russell Connor substitui o cadáver da Lição de Anatomia de Rembrandt pela Caixa de Brillo de Andy Warhol (veja aqui o texto de Danto O filósofo como Andy Warhol). Para Danto é como se os circunspetos alunos do doutor Tulp no século XVII fossem desafiados a entender aquele objeto artístico do século XX. Tarefa impossível, já que aquele objeto não cabia no conceito que tinham de arte. Coerentemente a caixa ocupa o lugar de um corpo morto. Será que só podemos fazer anatomia “teórica” de corpos que já não possuem vida?  Será que, pelo contrário, devemos nos aprisionar na exegese de filósofos mortos ao invés de buscar entender o que esta vivo e nos causa espanto?

Estas interrogações são o mote para introduzir o objeto da minha comunicação: a filosofia pop como descrita por Charles Feitosa. O texto principal em que o Charles trata deste tema diretamente é o artigo “O que é isto – Filosofia Pop?”, publicado em 2001. Desde então ele tem desenvolvido e aplicado sua filosofia pop em diversas situações (artigos, entrevistas e, principalmente, no livro Explicando Filosofia com Arte); de tal modo que, sua concepção atual é provavelmente seja daquela que esboçou em seu “artigo-manifesto”.
Neste período também o número de publicações filosóficas que tem apelo popular se multiplicou. Um exemplo é a pioneira série americana da Open Court sobre Cultura Popular e Filosofia, que na época do artigo de Feitosa tinha apenas 2 títulos e hoje já tem mais de 60 (sendo alguns deles traduzidos para o português) e  a concorrência de diversas outras coleções que trabalham com a mesma articulação entre cultura pop e a Filosofia. Ainda que a Academia se mantenha distante de fomentar esse tipo de diálogo a demanda (de editoras, da televisão, da Internet etc.) faz com que diversos nomes de reconhecida competência procurem desenvolver esta articulação.  
No artigo de 2001 Feitosa faz uma distinção (operacional) entre o que é urgente e o que é essencial. Urgentes seriam as demandas que pedem da filosofia participação no debate público, mas de tal forma, que sua fala se tornaria domesticada, inócua, atendendo a perspectivas prévias. Quando nos detemos somente ao que é urgente, não haveria espaço para o questionamento do que chama de essencial, “questões acerca das múltiplas relações de diferenças, singularidades e identidades que permeiam implicitamente todo o campo de questões ditas urgentes” (2001). Como hoje se diz da política, que fica presa a administrar questões urgentes sem que seja possível ou aja espaço para governar.  Não haveria espaço para questionar pressupostos e a forma mesmo de discurso que sustenta o “urgente”.
Utilizando os termos de Feitosa, podemos dizer que a interrogação sobre a filosofia pop hoje aparece como urgente. Contudo, é preciso tomar cuidado para que estes termos (urgente e essencial) não nos levem a uma perspectiva essencialista, como um novo dualismo; acredito que não há por parte do autor a postulação de nenhuma propriedade não-relacional. Ainda assim, cabe por em questão e reavaliar até que ponto a seguinte descrição feita por Feitosa pode ser interessante: 

“Se pop for o urgente, então a filosofia pop não é filosofia, mas sim jornalismo, propaganda. Numa expressão de Nietzsche, um pensamento que é “escravo do atual, do moderno, do instante”. A filosofia pop cumpre o que sua época exige: busca atender as tarefas que a sociedade lhe impõe. Mas ao contrário do que às vezes se espera na mídia e na sociedade, o pensar não tem que conduzir a nenhum saber técnico como o das ciências, não tem necessariamente que trazer nenhuma sabedoria de vida utilizável, nem que solucionar nenhum mistério do mundo. A filosofia propriamente dita não tem compromisso com o atual, mas sim com o inatual. Na verdade, a filosofia tem um quê de anti-moda, de extemporâneo, de não-pop” (2001). 
Ora, se a filosofia pop é um modo de ver e interpretar nosso contexto, a maneira com que lidamos com as coisas ditas urgentes pode ser a diferença essencial. Se diante de perguntas novas utilizamos respostas antigas, “eternas e imutáveis”, condenamos o discurso filosófico a uma constante reafirmação do platonismo e sua separação entre a Filosofia e o restante da cultura. Acredito que a filosofia deve perder o medo de ser útil, mantendo sua perspectiva utópica, preocupando-se menos em definir o que somos, do que em fomentar o que queremos ser, procurando equilibrar inteligência e emoção.
Feitosa em outras formulações chama a sua filosofia pop de “filosofia híbrida”, “pensamento finito” ou “racionalidade afetiva”. Neste sentido “sincrético” quero propor mais um enxerto e diálogo (direto) com a (menosprezada) tradição americana de pensamento. Sendo a pop art uma eminente criação da cultura norte-americana, quando a filosofia questiona ou se aproxima do que é “pop” inevitavelmente lida com esta tradição.
 O título “O que é isto – filosofia pop?” ecoa o nome de uma famosa conferência de Martin Heidegger “O que é isto – a Filosofia?”. Sabemos que este pensador alemão em seu romantismo nostálgico rejeitaria qualquer referência ao “pop” caracterizando-a como mais um momento de domínio da técnica sobre o pensamento, marca de uma era em que a criatividade humana cede lugar ao empreedimento comercial. O mesmo Heidegger afirmava que "a interpretação americana do americanismo, por via do pragmatismo, permanece ainda fora do domínio da metafísica". De acordo com a perspectiva heideggeriana, isso significava dizer que os americanos eram tão presos ao paradigma da cultura tecnológica que nem chegaram a fazer “verdadeira Filosofia”. Isso Heidegger dizia do pragmatismo de Peirce, James, Dewey etc. O que não diria ao saber que as Academias norte-americanas no pós-guerra foram dominadas por uma tendência profissionalizante que abraçou perspetivas derivadas do positivismo lógico como via para seguir no caminho seguro da Ciência? Neste trabalho além de descrever sumariamente a filosofia pop de Charles Feitosa, vou tentar ler Heidegger a contrapelo e tomar sua descrição como um elogio a filosofia pragmatista (e a qualquer filosofia brasileira possível): ter ficado de fora do domínio da metafísica pode ser uma vantagem.  

Um pequeno trecho da obra de Deleuze inspirou a investigação de Charles Feitosa sobre o que seria, ou o que poderia ser uma filosofia pop: 

“Os conceitos são como sons, cores ou imagens, são intensidades que vós convém ou não, que passam ou não passam. Pop’ philosophie. Não há nada a compreender, nada a interpretar”.  

Aparentemente esta fala é inconsistente. Isso acontece porque geralmente partimos de um vocabulário que pressupõe a separação entre o dado e a interpretação. Descartando o chamado Mito do Dado (Sellars) eliminamos a distância entre dado e interpretação, espaço que permitiria o enquadramento da interpretação em um método teórico prévio. Acredito que Deleuze quer realmente se desviar da idolatria do método, que promove a repetição do mesmo e não a criação. No entanto, para entender como a filosofia pop pode se ligar à imaginação e ao que Schiller chamou de “jogo” (NOTA 1), e não a repetição, o “espírito de gravidade” descrito por Nietzsche.; precisamos problematizar o termo pop; e é isso que Charles Feitosa faz distinguindo para ele dois sentidos. 
Haveria o pop1 que remete a algo alternativo, marginal e específico; e o pop2, comercial, industrial e genérico. O primeiro se ligaria à arte pop da década de 60 e seu anseio de aproximar a arte da vida cotidiana subvertendo a hierarquia entre popular e erudito, inferior e superior, construindo “uma sátira sutil ao materialismo da cultura moderna de massa”. É a esta forma de descrição do termo pop que uma possível filosofia pop deveria se ligar; neste sentido, Feitosa destaca, como Deleuze elogiou e se apropriou criativamente de alguns procedimentos da arte pop, “como a colagem ou a assim chamada tática de “pick up” (captar a onda, a ocasião, a oportunidade), escrever através da des-territorialização constante das ideias”. A arte pop promoveria uma espécie de violência criativa que “produz diferenças através das repetições”.
Ora, o pop2 seria marcado justamente pela repetição do mesmo (correspondendo ao que Heidegger chama de impessoal, Adorno de massa), Este segundo sentido, o pop2, teria emergido na década de 90. É contra ele e sua reificação que qualquer filosofia deve se voltar, promovendo o questionamento de seus pressupostos ou/e desenvolvendo novas descrições que o subvertam.
O pop2 marcaria a transformação das metáforas do pop1 em moedas gastas, que não causam mais espanto, por terem se tornado algo canonizado, trivializado. Feitosa explica que não podemos retornar ao pop1, nossa tarefa é de construir o pop3, pop4 etc. Cabe observar que a distinção de pop 1 e pop2 não se refere a fronteiras ontológicas, mas trata de "distinções operacionais". Feitosa mais tarde utilizou a ideia de hibridismo de Nestor Canclini para sublinhar a necessidade de romper com perspectivas que vêem a cultura dividida em camadas estanques.
O conceito que me parece fundamental para a filosofia pop proposta por Charles Feitosa surge em seu diálogo com Deleuze. Seria a ideia de ex-versão das dicotomias e hierarquias, que corresponde ao termo renversement utilizado por Deleuze em Lógica do Sentido ou o de Herausdrehen no vocabulário heideggeriano. Este conceito marca um movimento de ataque ao platonismo e a filosofia da representação. Segundo Deleuze, o platonismo seria dominado pelo privilégio do que é idêntico, que permite a distinção entre a boa e a má cópia. Na medida em que valorizamos os simulacros damos um passo nietzschiano para a abolição do dualismo entre essência e aparência. Segundo Feitosa, “Deleuze diz que o momento da arte pop é justamente um dos ápices desta capacidade que a arte moderna tem de transformar o artificial do cotidiano em simulacro e com isto destruir a suposta realidade dos modelos em que as cópias se apóiam”.
A tendência dos filósofos é de retirar a fala ou o que analisam de seu contexto e descrições cotidianas e apontar para a busca de essências; fazem isso ao invés de ouvir o que o outro lhe diz. Este é um jogo que torna impossível aos filósofos dialogar com não-filósofos. Fazer a filosofia pop é abrir espaço para ouvir e dialogar com o não filosófico. Feitosa privilegia o encontro com a arte, e quer que sua filosofia com ela se contamine.

Nota 1: Cabe observar que Feitosa prefere utilizar o termo "brincar" ao invés de "jogar". A diferença estaria de que no primeiro caso existe uma ênfase menor na regra e uma abertura maior para sua subversão e invenção. Fala então de uma filosofia brincante, termo que também é utilizado por Márcia Tiburi. Este me parece ser um termo importante dentro da cultura nordestina; mas não sei como (e se) esta apropriação filosófica se articula com tal tradição. 

In-versões: "Um fio de cabelo de Benjamin no terno de Adorno: vestígio, aura e experiência"

Algumas ideias de textos não passam disso: títulos para provocar polémica. É certo que muito da teoria de Adormo sobre narcisismo, infantilização, consciência etc., pode ser utilizada por alguém que não gosta de, por exemplo, música sertaneja. Uma canção como aquela que fala do "Fio de cabelo" seria tão estruturalmente infantilizadora e redundante que não provocaria a "verdadeira" reflexão. Bem, mas vamos ao argumento infame...

Digamos que alguém redigisse o artigo "Um fio de cabelo de Benjamin no terno de Adorno: vestígio, aura e experiência". Que experiência Adorno teria ao encontrar um fio de cabelo de Benjamin em seu paleto? Teria aura este fio de cabelo? Seria um vestígio capaz de reconstruir uma experiência ou não, mera marca e ruína de uma vivência? Não seria o sentido de aura que o eu-lírico coloca no fio de cabelo o responsável por sua angústia metafísica? Não seria a sagração desta aura o grande problema para superar a "angústia do fio de cabelo"? Não haveria uma angústia da inveja capilar como emulo dialeticamente implicado nesta relação?Sobram questões sem resposta.

Abaixo a canção onde vestígio, aura e etc. se entrelaçam como questão!


sábado, 19 de fevereiro de 2011

Dois textos

Os dois últimos textos que disponibilizei na net:


Longe demais das Capitais Uma ficção breve que se inspira no álbum de mesmo nome dos Engenheiros do Hawaii. Cada canção deu lugar a um pequeno capítulo.


O silêncio eloquente de Gilberto Mendonça Teles resenha do livro "Linear G"(2010) do poeta e crítico goiano Gilberto Mendonça Teles