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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Escrever como exercício espiritual

Faz um tempo que não tomo escrever como um hábito. Este silêncio pode pender entre dois extremos: a ausência de palavras de quem não percebe/desvenda sentido, quem deixa de sustentar qualquer significação e a mesma incapacidade de quem esta de tal modo atrelado aos seus prórpios agoras que não consegue elaborar uma fala, se intimida ante a própria contingência. O silêncio não deixa de ser uma forma de abrir as portas para o misticismo, uma maneira de adornar uma aura de sagrado. Não é a toa que o poder da palavra se liga ao poder do sagrado em suas origens (na antiguidade ou nas tatuagens). Fazer filosofia é encenar uma das máscaras de Sócrates, é inventar para este uma vida e um sentido para sua narrativa: este, como afirma Harold Bloom, por não ter escrito será sempre o único e verdadeiro filósofo (assim como Cristo é o único e verdadeiro cristão). Pensadores como Nietzsche perceberam que com sua escrita escreviam sua biografia, transformavam sua vida e se inventavam como outros. Escrever e ler a si mesmo como outro. A possibilidade de cultivar um silêncio diferente. Exercício espiritual.
Não, não é sempre assim que acontece. Lista de itens para lavanderia, catalogos de objetos catalogáveis, identificação de cada coisa em seu lugar, etiquetar o mundo também pode ser uma forma de exercitar o absurdo. Mas exercícios espirituais pedem uma trilha diferente, uma coisa que talvez exista na oração, ou numa canção que canta um ritual (como Gilberto Gil em Se o eu quiser falar com Deus)...




Richard Rorty distingue romancistas que servem para exercícios espirituais e outros que confirmam nossas perspectivas e ampliam nosso horizonte de identificação moral com outros. Estes últimos ampliam o solo sobre nossos pés, aumentando o alcance da palavra nós, os primeiros nos retiram o chão, provocam terremotos e geram dúvida sobre nossos sentimentos e forma de nós descrever. No primeiro grupo coloca Henry James e Marcel Proust; no segundo autores como Charles Dickens. Proust e James serviriam como exercícios espirituais para redenção do egotismo, uma forma de conforto distinta da que se teria na promessa universal e eterna de Religião e Filosofia, uma redenção que afirma a contingência e ensina a finitude.
O silêncio de Sócrates tem algo de sagrado quando o percebemos conectado a uma missão religiosa que ganha voz em seu daimon. Talvez esse seja o segredo para que possa dar a sua voz uma dimensão dupla, pessoal e mística, particular, mas de alguma forma vinculada e buscando (a promessa d)o universal. O silêncio e o furor agônico de sua dialética se harmonizam, causando espanto nos que "enfrenta" e "seduz", provocando o silêncio denso de quem se confronta com suas certezas em contradição. Silêncio como si denso (que não se define). Eudaimonia, que é como diziam a felicidade plena, a realização de uma vida, é ter um bom daimon, algo externo e reconhecível publicamente. A vida de Sócrates seria de eudaimonia, Platão, Nietzsche e Proust tiveram que escrever, inventar a sua. 
Todos que tentaram seguir este modo de vida teórico enfrentaram esta mesma tensão e desafio da voz, que em sua entonação particular pretende-se universal. Nesta sagração da palavra, numa busca de iluminar todos os aspectos o silêncio é uma solução mística dos que cultivam a profundidade, a matemática seria o gancho celeste dos que querem a elevação. Matematizar o silêncio seria a epifania do niilismo. Razão= virtude = felicidade. O que hoje corresponderia aos termos dessa igualdade? Em tempos de razão comunicativa quais seriam os post(e)s que iluminariam essa highway do lugar comum? A sede do diálogo, do re-conhecimento parece mesmo ser a droga da escrita, que pode ampliar, dissolver o seu poder como exercício. Nietzsche poderia dar marteladas no twitter?
O deus da canção é o mesmo da literatura e causa sem oferecer uma razão, um salto sem a certeza do que há no outro lado. Existirmos a que será que se destina...

sábado, 3 de julho de 2010

Luz, onde estão teus olhos

Luz, onde estão teus olhos
Marcos Carvalho Lopes


Ultimamente – depois de Nietzsche – é comum que se critique as perspectivas platônicas que permeiam a filosofia. É que as perguntas por essências atemporais levaram a filosofia para um caminho que parece hoje ter se tornado improdutivo: como lembra o filósofo norte-americano Hilary Putnam, ninguém pode alcançar a perspectiva de um “olho de Deus”. Mas, deve ficar a dúvida: Platão não era Platônico! É que hoje alguns identificam Platão com a figura do rei-filósofo, aquele personagem que no Mito da Caverna consegue contemplar a luz da verdade e volta para tentar libertar os que estão acorrentados em meio às sombras. Essa idéia de que o filósofo teria um acesso especial à Verdade tem uma dimensão mais religiosa do que algo que se possa justificar quando se mantém um diálogo aberto.
Mas o Mito da Caverna, como bem mostrou Heidegger, funda a autoridade da teoria, quando Platão, ao falar do caminho de ascensão do filósofo fala em verdade (aletheia), mas, quando se refere a volta dele para a caverna passa a falar em ortótes , a idéia de correção do olhar: o sábio deveria corrigir o olhar dos acorrentados de modo a levá-los a direcionar-se para a luz do saber. Não é um diálogo: o filósofo tem autoridade porque sabe onde está a Verdade! Teoria seria contemplar o que é, olhos humanos deveriam se voltar para as essências ao invés de ficar preso as aparências. Ficar preso às aparências seria ficar preso às coisas fugidias, a vida prática: a vida do filósofo deveria ser contemplativa, ou seja, sua função seria olhar o mundo. 
Pense num professor que faz seu mestrado/doutorado no exterior e volta para o Brasil para dirigir o olhar de seus alunos para as verdades mais reluzentes. Pense na necessidade que existe de justificar qualquer trabalho recorrendo-se a certo cânone que, nos garantiria acesso à verdade: o negócio nesse jogo de ócio não é debater idéias, mas citar gente que concorda com a gente. Como diz o professor Valdir Heitor Barzotto a fórmula parece ser citar três estrangeiros, um brasileiro que se alinha a um estrangeiro, outro que discorda e pronto. Mestrado e Doutorado garantidos por ter dado prova de poder olhar para a luz que advém do exterior. Nossa cordial desconversação! Um exotismo inventado...
Fazer teoria é dirigir o olhar para algum lugar. Então deveríamos parar de tentar fazer teoria, parar de tentar atingir essências absolutas e passar a conversar, a aceitar o debate e o diálogo. Assim como, a imperfeição do inacabado, o acaso que sempre pode acenar. Assumiríamos, assim, nossa finitude e, com ela, a finitude de tudo o que é humano. Os que nos pedem para tentar esse outro caminho, de dialogo, pedem que abandonemos as metáforas visuais: ver, contemplar etc.; já que não existe nenhuma Realidade pura e imaculada para ser desvendada. A marca da serpente humana está em toda parte...
Se a idéia é dialogar, podemos partir de qualquer elemento de nossa cultura. Ao invés de tentar falar todas as línguas vivas e mortas, poderíamos dialogar a partir de diversas linguagens.  É o caso desse texto: decidi fazê-lo depois de ouvir a demo de uma canção dos Engenheiros do Hawaii – leia-se Humberto Gessinger. A letra de Luz põe em cena essa necessidade do olhar que permeia nossa cultura:


Onde estão teus olhos
agora que tô bem na foto
agora que achei o foco
onde estão teus olhos

sem eles não existo
fico cego invisível
queimo o filme rasgo a foto

onde estão teus olhos
agora que domei a fera
agora que a dor já era
onde estão teus olhos

sem eles não existo
fico cego invisível
só enxergo o silêncio

juntos para sempre
objeto e observador
física moderna
velhas canções de amor

onde estão teus olhos(2x)
longe deles nada existe

(solo de gaita)

onde estão teus olhos(2x)
longe deles nada existe 



Luz é uma metáfora recorrente na tradição filosófica para se falar em razão. Trazer à luz algo para que possa ser visto: teorizar tudo e dominar qualquer acaso! Somos os observadores que querem objetificar tudo, reificar tudo a nossa volta. É isso que a modernidade quis; matematizar a realidade, partindo do Plano Cartesiano, da física moderna de Newton etc., inspiraram-se em buscar a função que descrevesse toda a Realidade (noutra das canções demo divulgadas por Humberto Gessinger a letra de Pra quem gosta de nós diz: Mapearam o genoma/ O acaso vai dançar/Sem a senha só em sonho/ Impossível disfarçar”).  Mesmo a relação amorosa na modernidade passa a ser crivada desse ideal; o romantismo amoroso em sua contradição fundamental denunciada por Jurandir Freire Costa:  ao tentar combinar “amor eterno” e “prazer constante”. Sem esse olhar de autoridade poderíamos sobreviver?
Quando pensamos na prática, as teorias que buscas princípios eternos acabam, mais cedo ou mais tarde, sendo refutadas pela realidade. Deveríamos então ser mais flexíveis e abandonar essas questões platônicas por essências. Saber e querer não bastam: o difícil é agir e aí, nenhuma teoria pode nos salvar de nossa própria contingência. Humanistas tem fome, diria Quincas Borba. Melhor dos mundos: impossível...

Por outro lado, acho que esse ataque às metáforas visuais é um tanto vazio. Não podemos deixar de ter esse sentido, tais metáforas correspondem mais a nossa condição física do que a qualquer teoria. Deveríamos arrancar os olhos, como Édipo, para viver sem complexos? O olhar também é uma forma de identificar-se com o outro. Olhar nos olhos, olhar para o chão, os olhares das personagens de Machado de Assis... o olhar tanto transformar em pedra quanto dar vida. Precisamos ouvir o silêncio, sentir as diferenças, farejar novidades? Sim... Mas não vejo nada intrinsecamente negativo nas metáforas visuais se tomamos alguns cuidados para não repetir antigos erros. Lembro de um poema de Camões, nosso poeta que perdeu um olho, que diz algo que me interessou:
MOTE
Pus o coração nos olhos
e os olhos pus no chão
por vingar o coração.

VOLTA
O coração envejoso
como dos olhos andava,
sempre remoques me dava
que não era o meu mimoso.
Venho eu, de piadoso
do senhor meu coração,
boto os meus olhos no chão.

Os olhos podem, nesse caminho de identificação, levar uma pessoa para habitar nosso coração. O que trazemos dentro do peito. É o que temos respeito. Olhemos então os problemas que nos comicham todos os dias: não faltam motivos pra se respeitar nossas vidas finitas e humanas.