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domingo, 6 de março de 2016

Escute o podcast de filosofia mais pop do Brasil

Escute o podcast de filosofia mais pop do Brasil

#004 – Música Popular    Diego Mascate
#006 – Sócrates       Rafael Rodrigues
#007 – Filosofia como modo de vida   Eduardo Ferraz Franco
#009 – Feminismo Susana de Castro
#010 – Filosofia Pop Charles Feitosa
#015 – Filosofia Africana: Ubuntu Wanderson Flor Nascimento
#020 – Branquitude  Marcio André de Oliveira dos Santos
Quer acompanhar o programa? Aprenda como não perder mais nenhum episódio aqui


terça-feira, 2 de junho de 2015

podcast filosofia pop

Este blog anda meio abandonado. Com razão: atualmente estou desenvolvendo agora o site www.filosofiapop.com.br

Lá, junto com Murilo Ferraz, estamos desenvolvendo um podcast que está no seguinte link

http://filosofiapop.com.br/category/podcast/

Já fizemos três episódios e a cada segunda, de 15 em 15 dias você poderá encontrar outro. Confiram:


Filosofia Pop #001 – Filosofia
http://filosofiapop.com.br/2015/05/02/filosofia-pop-001-filosofia/

Filosofia Pop #002 – Felicidade
http://filosofiapop.com.br/2015/05/18/filosofia-pop-002-felicidade/

Filosofia Pop #003 – Existencialismo
http://filosofiapop.com.br/2015/06/01/filosofia-pop-003-existencialismo/

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Canção popular como abertura para a filosofia: pensando com a Legião Urbana e os Engenheiros do Hawaii

programa  Filosofia, cultura popular e educação

 

projeto  Canção popular e ensino de filosofia

apresentam:

Canção popular como abertura para a filosofia:
pensando com a Legião Urbana e os Engenheiros do Hawaii
Marcos Carvalho Lopes

09/09/2014
14:000 às 18:00
Auditório do Campus dos Malês
São Francisco do Conde

É inegável a importância que a música popular possui hoje na formação de identidade dos alunos do Ensino Médio. Os adolescentes tomam letras de canções (ou outros produtos da cultura pop como quadrinhos, séries de televisão, filmes etc.) como fundamento para a construção de sua visão de mundo. Tais produtos ocupam hoje um lugar privilegiado na cultura contemporânea e, por isso mesmo, sua análise pode ser um convite para o desenvolvimento de uma perspectiva de reflexão mais ampla como a proposta pela filosofia. Nesta oficina procuro justificar a utilização da música popular como instrumento para o Ensino de Filosofia; mais especificamente, do rock nacional  tratando das bandas Legião Urbana e Engenheiros do Hawaii. Duas grandes narrativas podem se vincular a esta abordagem: uma que toma o rock como parte da “criação da adolescência” com a trivialização de questionamentos existencialistas e de uma postura romântica de autocriação (que se traduz na necessidade de comprar certos produtos) e outra que toma o rock nacional dos anos 80 como um momento decisivo de desenvolvimento da Utopia Lírica presente rock (principalmente na década de 1960) e na MPB (até a Era Collor).  Estas duas narrativas geram um interessante pano de fundo para o trabalho e debate do rico interdiscurso presente nas letras das canções da Legião Urbana e dos Engenheiros do Hawaii. Estes dois grupos traduziram seu tempo em canção. A Legião Urbana fez isso a partir de uma postura épica e romântica, inspirada inicialmente pelo no future da estética punk e pela crítica de Rousseau aos efeitos da técnica sobre o desenvolvimento moral; mais tarde procurou um resgate do sagrado numa espécie de politeísmo romântico, um discurso que foi soterrado pela
melancolia e decepção da Era Collor refletindo a crescente distinção entre publico e privado. Já os Engenheiros do Hawaii surgiram dentro de uma faculdade de arquitetura, marcados por uma perspectiva pós-moderna e pop, que, traduzida para o universo da música popular, questionava a dimensão épica da canção. Este questionamento e denúncia das engrenagens da indústria cultural por meio de produtos dessa mesma indústria gerou um discurso que se autoconsumia (até o paradoxo e colapso) inspirado no absurdo de Camus, e que, mais tarde, (em algumas letras) tornou-se denúncia dos mecanismos da sociedade de controle. Esta oficina apresenta (e desdobra em suas consequências didáticas) parte do trabalho que desenvolvi no livro Canção, estética e política: ensaios legionários (2012). Além do relato de experiência e das propostas de abordagem, a oficina apresentará exemplos de trabalhos didáticos desenvolvidos a partir de canções.


Contato: marcosclopes@unilab.edu.br

quinta-feira, 6 de março de 2014

O Aristóteles incomensurável da Dra. : um conto sobre concursos públicos



O Aristóteles incomensurável da Dra. :
um conto sobre concursos públicos

Alguns acham que ética e literatura são assuntos que não se relacionam. “Literatura é estética, e só”, dizem. Mas eis aqui uma ficção que dá o que pensar.

Era uma vez, numa terra não tão distante um evento chamado “concurso para professor universitário”; o tema: Ética. Diversos professores habilitaram-se para participar e disputar a única vaga em jogo. Depois de no mínimo dez anos de estudos árduos, eis que, atingindo a máxima patente dentro das hierarquias de heráldica acadêmica, habilitados estavam para disputar honradamente aquele nobre posto. Ao menos deveria ser assim.

- Mas não te vejo habilitado para dar aulas de Ética. Todo o seu trabalho é voltado para literatura, estética e não Ética. Você não está habilitado para este posto.- Sentencia a Dra.
- Muito pelo contrario, uma vez que você não se alinha com uma “ética formal” o tipo de aproximação com a literatura e questionamento dos costumes, dos valores cotidianos que caracteriza meu trabalho, é totalmente adequado para uma cadeira de Ética. Isso é evidente quando lemos  Alasdair MacIntyre, Martha Nussbaum, Richard Rorty, Stanley Cavell por um lado. Por outro, temos a “estética da existência” e a percepção da ética como processo de autocriação, algo que emerge da obra de Foucault, Deleuze etc. A aproximação com a literatura no campo da ética chega a ser algo trivial, alguns falam de “virada narrativa” na Ética, outros de “virada ética” nos estudos literários... enfim, se pensarmos também no terno grego “ethos”, o questionamento dos valores cotidianos, o que chamam de política cultural, é parte de seu horizonte.  
A professora esta contrariada com esta resposta. Parecia não esperar reação alguma, continua gesticulando como alguém que não concorda, mas não tem nada para dizer. Eis que, um outro professor avaliador muda o teor da objeção enquanto você explica que divide seu trabalho em uma parte de teor público e outra técnica, presa aos cânones acadêmicos. Ele interpela:
- Mas eu não reconheço valor no seu trabalho técnico. Para mim você não argumenta, apenas faz analogias. È isso que vi na sua prova, na sua aula, em seu memorial, na sua fala.
É melhor respirar fundo. Realmente sua aula não foi boa. Este mesmo avaliador que lhe questiona, olhava de boca aberta para o teto, mexia no celular enviando mensagens, certamente urgentes e muito mais relevantes do que aquela aula de concurso que você tentava desenvolver e que ele deveria avaliar. Sim, isso lhe causou desconforto e prejudicou o desenvolvimento de seu trabalho, mas ele é “o especialista”, um técnico tecnicamente reconhecido pelo rigor de sua habilidade técnica. É ele, “o especialista” quem diz “você só faz analogias”, o que em seu jargão de fins do século XVIII significa que seu diagnostico é de patologia mental, uma doença da imaginação que te faz alguém não razoável. Mas deveria assumir a “psicologia de um vencido” tendo na boca “uma ânsia análoga à ânsia”? Você deveria respondê-lo? Melhor não. Até mesmo porque, assumindo uma posição pós-nietzschiana, pan-relacionista, fazer analogias não soa tão mal. Analogia e ironia, talvez seja este teu método. Sendo o “técnico dos técnicos” alguém que precisa da ilusão do realmente real, você nunca diria que lhe falta imaginação para entender seus argumentos. Não, você não diria isso. Eis o que de fato diz ante este diagnóstico de doença mental:
- É, não tinha percebido isso. È uma coisa para se pensar. Mas não tenho nada para lhe responder. Até mesmo porque se o fizesse você não perceberia no que eu digo um argumento. Você não reconheceu nenhum argumento lendo dezenas de páginas que escrevi. Provavelmente não reconhece aqueles autores que estudo como pessoas que argumentam. Rorty então... você não deve gostar mesmo. 
O técnico fica desconfortável com estas palavras, mas no rosto possui um artifício para esconder os sentimentos. Mas sua esquiva o incomoda. Você o incômoda. Você é incomodo. Se é que ele reconhece em você um “você”. Tudo bem. Existe certo prazer em ser incomodo. E você continua explicando algo sobre seu trabalho, afirmando o “valor técnico” daquilo que faz. Mas lhe acusam de ter visto unicórnios, enquanto falava de rinocerontes. Você tenta desfazer o equívoco, mas não é um equívoco. Acreditam que você viu unicórnios. Pensam que suas críticas ao academicismo são uma ofensa direcionada à própria razão. A razão encarnada. Não há nada pessoal na crítica que lhe fazem... Ainda assim você tenta falar de um trabalho tecnicamente reconhecido e promissor. E novamente o técnico dos técnicos intervém:
- Mas você não argumenta, quando lhe apertam se esquiva com autoridades, isso é escolástica!
Afirma triunfante. A acusação de escolástica, essa sim, é nova. Você cita autores que sustentariam os pontos de vista que defende, mas essa tentativa de colocar-se como parte de uma conversação academicamente reconhecida é uma “reivindicação escolástica”. Dois clichês em um mesmo lugar: acusar o opositor de não argumentar e ao mesmo tempo de ser escolástico. Quanto ao seu trabalho, o técnico dos técnicos reitera que não percebe valor e pergunta sobre o método que segue, o procedimento, a matriz epistemológica, o fundamento fundamental... é tão incisivamente reiterativo neste jogo, que, cansado, você concede a resposta que sabe que é aquela que ele gostaria de ouvir.  Usa “procedimentos analíticos de uma perspectiva pragmatista, desenvolvendo leituras imanentes”. É isso uma reificação, uma fala que não fica bem em sua boca. Mas, ainda respeita o técnico dos técnicos e sabe que ele não poderia lhe pedir outra coisa senão técnica.
- Você não respeita a seriedade dos conceitos.-  Diz a Dra. agora, de um modo que causa alguma estranheza até mesmo em seus pares – É você que na prova utilizou o exemplo do jogador de futebol para falar de Aristóteles? Nada contra o exemplo, mas te dei uma nota baixíssima por usar conceitos de forma imprecisa. Olhei aqui o cpf da prova, é realmente você.
Bem, esta era uma defesa de memorial. Colocar a prova em cima da mesa é algo inusitado. Até porque você sabe que fez uma boa prova, conhece o tema. Um professor que soubesse ler lhe daria no mínimo 7, um que soubesse ler e rir, lhe daria 9 ou até mais. A atitude da Dra. fere a impessoalidade que se espera de um concurso deste tipo, que é norma em um concurso assim. Colocar sua prova em cima da mesa e fazer uma acusação deste tipo é como jogar toda seriedade do concurso fora para dar vazão a algum instinto sádico, alguma forma de ressentimento atávica. Algo surreal.
A Dra lê trechos de sua prova que atestariam seu despreparo. Quando você diz que a “eudaimonia” é uma espécie de julgamento público, que não depende somente da atuação do agente, algo que poderia se perder por uma desgraça trágica; ela ri e diz que Aristóteles ironiza isto nos livros 2 e 3 de sua Ética. Seu exemplo do jogador seria péssimo, porque explicando o conceito de “Arete”, escreve que o tal jogador não desenvolveu plenamente suas potencialidades, mas que era reconhecido como alguém com potencial. A Dra afirma que as potencialidades só se estabelecem em sua efetividade, não faria sentido este exemplo.   
Ela te pegou, você está sem ação. Sabe que pode dar respostas, mas de que as respostas adiantariam? Ela é a avaliadora. Você diz que não vai dizer. Se a Dra. lhe deu uma nota “baixíssima”, como afirma, sabe que está eliminado do concurso e agora faz parte de um espetáculo tosco de assédio moral. De nada vale o que disse Aristóteles, de nada vale a valsa vienense. Para que insistir neste jogo tosco. Mas o técnico dos técnicos não quer seu silêncio, ante sua recusa a dar uma resposta, pede que “argumente, vamos! Você pode fazer isso”.
- Pois bem, veja se isso é um argumento para você. Neste momento da prova não estava falando de Aristóteles ainda, mas do campo semântico das palavras “arete”, “eudaimonia” e “telos”. Aristóteles mesmo argumenta contra a dimensão trágica da “eudaimonia”, o significado comum do termo que estava explicando, mas não a nega: é só olhar sua comparação entre homens e deuses no final de sua Ética (ou ler Martha Nussbaum, Bernard Williams ou MacIntyre. O exemplo do “jogador” é muito bom para mostrar a dimensão social destes conceitos, e é utilizado também por MacIntyre que dá uma ênfase a perspectiva social da ética de Aristóteles, como os seus termos são retirados de jogos de linguagem públicos. Sabemos o que é um bom jogador, um jogador que tem potencial. As potencialidades não se fundamentam em sua efetividade em Aristóteles: senão não haveria telos e ele não diria o que diz das mulheres e dos escravos. Um jogador que vencesse os jogos olímpicos alcançaria a imortalidade, a “eudaimonia”...
Você disse essas coisas, algumas dessas coisas, mas fala de uma posição compulsória, coagido. Pode haver controvérsia na interpretação, mas ter que dar explicações em um contexto destes é por si só algo constrangedor. A Dra balança a cabeça negativamente e continua dizendo que “você não entendeu, não é o exemplo...”. Essa negativa lhe dá a certeza: “é o exemplo”. Do exemplo trivial ela deduziu sua frivolidade e daí leu seu texto com “caneta vermelha”, de uma posição superior. Agora diz que você “não entendeu”. Realmente existe algo que somente ela, a Dra, entende. Você sabe que o currículo da Dra. não é lá essas coisas, que a Dra. não tem uma produção que lhe habilite para a posição de avaliadora (alguns de seus concorrentes de concurso tem currículo melhor que o dela), mas a Dra se ri porque é a efetiva há décadas (nem sempre Dra.) e não há ninguém para lhe avaliar da forma como ela julga ter o direito de avaliar. Acabou, né?
Lhe avisam “amanhã saí o resultado”, você, de saída responde com um sorriso “não estarei aqui”. Você sabe que não foi aprovado. Desconfia que ninguém será aprovado. Não existe amor em SP, não existe ética em BO, CO, DO...


Marcos Carvalho Lopes é doutor em Filosofia pela UFRJ, autor dos livros Máquina do Medo (Kelps, PUC-GO, 2013) e Canção, estética e política: ensaios legionários (Mercado de Letras, 2012)

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Breve Memória



Breve Memorial

escrevi este "breve memorial" para um concurso


Marcos Carvalho Lopes

Em 1997 comecei o curso de Filosofia na UFG, no mesmo ano o professor Gonçalo Armijos Palácios publicou o livro De como fazer filosofia sem ser grego, estar morto ou ser gênio. Não li o livro quando de seu lançamento, mas vivi seus efeitos, que repercutiram em todo departamento ao colocar em evidência a esquizofrenia da proposta do curso: se o discurso (meta)filosófico reafirmava a vocação da Filosofia para  a formação da capacidade crítica e da autonomia intelectual; efetivamente o curso promovia uma espécie de catequese que fornecia a disciplina hermenêutica para desenvolver leituras e ser um comentador competente dos textos sagrados.  As críticas de Gonçalo não foram contestadas/respondidas por seus pares, mas é certo que este silêncio possuía textura (e constituía uma “pré-ocupação ontológica”). Se era mais fácil e promovia maior prestígio entre os pares mergulhar na formação erudita, exibindo rigor lógico e seriedade exegética, assim como, incrementar a autoestima com citações em línguas estrangeiras, a socialização gregária promovia uma autocontradição na figura do “filósofo como comentador”, que, efetivamente deveria ser somente comentador. Também (e não exclusivamente) por isso, quando terminei a graduação em 2000, resisti à ideia de continuar no papel de comentador júnior dos textos comentados pelos professores comentadores. Nada original: queria estudar a relação indivíduo-sociedade em Jose Ortega y Gasset, autor fora dos horizontes de interesse de meus professores. Apesar do convite de diversos professores, nenhum – a princípio – aceitou orientar o tema que me instigava, também por isso, não segui para o mestrado.
Com 20 anos e diploma de licenciado em Filosofia, num horizonte em que a obrigatoriedade das aulas dessa disciplina não existia nos cursos de Ensino Médio, voltei para minha cidade natal, Jataí, direto para o mercado de subemprego (com carga horária e salários baixos), precisava dar aulas de disciplinas diversas (Artes, História, Sociologia, Filosofia etc.). Entre 2000 e 2004 comecei a fazer o curso de Letras, trabalhei como professor temporário em um CEFET, passei no concurso para docente do Estado de Goiás, abandonei o curso de Letras, fiz uma especialização em Formação Socioeconômica do Brasil etc. O mais importante neste período foi perceber como o jargão que havia aprendido na academia não funcionavam na sala de aula. Precisei me adaptar e tentei fazer isso utilizando canções populares como mote para sensibilizar e ganhar atenção dos alunos. Disso e de meus gostos idiossincráticos surgiu o projeto de escrever um trabalho desvelando os aspectos filosóficos e políticos nas canções. Em 2005 entrei no Mestrado em Filosofia da UFG, mas antes mesmo de terminar minha dissertação já havia escrito o texto do livro Canção, estética e política: ensaios legionários que foi lançado em 2012 pela editora Mercado de Letras (foram diversos anos para conseguir a autorização para publicação). Entre a conclusão da dissertação e a defesa também desenvolvi artigos sobre Engenheiros do Hawaii que hoje motivam palestras e alguns cursos. Este tipo de abordagem esta presente em diversos de meus textos que se tornaram capítulos de livro (como os ensaios “Cazuza e a malandragem de ser brasileiro” e “Caetano Veloso e a filosofia no Brasil”), artigos em revistas científicas (“A “Filosofia” de Noel Rosa”), em magazines, jornais, palestras, minicursos etc.
No Mestrado, sob a orientação do professor Gonçalo Armijos Palácios, estudei o debate entre Richard Rorty e Umberto Eco sobre limites interpretativos. O encontro com a obra de Richard Rorty foi particularmente relevante para mim, já que encontrei nos primriros capítulos de Contingência, Ironia e Solidariedade uma solução inovadora e estimulante para a relação indivíduo-sociedade que tanto me incomodava. Assumindo que somos construídos pela linguagem, Rorty não caia no tipo de dissolução da subjetividade no interdiscurso que marca algumas teorias pós-modernistas, mas enfatizava a construção poética do self. Sua narrativa incorporava a filosofia da linguagem de Donald Davidson e fazia jus, tanto ao Dasein heideggeriano, quanto à psicanálise de Freud. Essa empolgação com Rorty esbarrava nos problemas políticos e educacionais que a ausência de limites para a interpretação defendida por ele acarretariam. Umberto Eco e a busca pela verdade pareciam mais fáceis de defender e meu orientador esperava que houvesse um posicionamento em relação ao debate sobre quem estava certo ou errado. Para me desviar destes termos construí dois longos capítulos introdutórios da minha dissertação, Sobre limites da interpretação: um debate entre Umberto Eco e Richard Rorty em que resumia os passos da trajetória de Richard Rorty e de Umberto Eco. Deste modo expliquei seus pressupostos e como ambos possuíam posições coerentes com sua trajetória intelectual, no entanto, desenvolviam projetos com prioridades diferentes. Enquanto Rorty procurava valorizar a inovação e imaginação criativa, Eco defendia limites necessários ao processo de socialização do conhecimento. Ora, essa divisão correspondia, de certo modo, a divisão postulada por Rorty entre espaço privado de autocriação e espaço público de conversação política.
Esta divisão se projetou em meu trabalho com a distinção entre duas frentes de trabalho: (1) por um lado, procurei desenvolver de modo não institucional tentando propor diálogos entre a filosofia e a cultura popular, filosofia e literatura etc.; (2) por outro, um trabalho acadêmico, mais técnico e preso aos cânones de cientificidade.  

Terminado o mestrado, novamente em Jataí trabalhei na Universidade Federal de Goiás como professor temporário dando aulas em diversos cursos. Trabalhei também desenvolvendo projetos de extensão na UEG. No fim de 2008 fiz a seleção para o doutorado no programa de pós-graduação em filosofia da UFRJ e fui aprovado numa boa posição (o que me deu a condição de bolsista da CAPES).  

As aulas no PPGF/UFRJ renderam textos que logo foram publicados: das aulas com Roberto Machado sobre Proust saíram dois artigos que formaram um capítulo de minha tese, das aulas com Guilherme Castelo Branco um artigo sobre a relação Kant e Foucault. Logo após minha mudança para Rio passei a ocupar a função de editor executivo da Revista Redescrições.[1] Durante o ano de 2010 cumpri estagio docente dando aulas de Filosofia da Educação junto com a professora Susana de Castro na Faculdade de Pedagogia da UFRJ. Também participei do grupo de pesquisa em inovação Research on Research (coordenado pelo professor Ricardo Pietrobon da Duke University) e do Laboratório de Filosofia Pop da UNIRIO (coordenado por Charles Feitosa).
Entre 2011 e 2013 trabalhei como professor temporário na UNIRIO dando aulas de Introdução à Filosofia em diversos cursos e uma disciplina especial sobre Rorty no curso de Filosofia. Durante o ano de 2012 fui representante dos alunos de doutorado do PPGF/UFRJ.

O título de meu projeto de doutorado defendido no final de Setembro de 2013 foi Uma defesa da poesia: poesia e autocriação na filosofia de Richard Rorty. Neste trabalho procurei desvelar o que a poesia significava para o pensamento de Richard Rorty e como sua filosofia pode ser coerentemente interpretada como uma defesa da poesia. O pensador norte-americano redescreve a antiga querela entre pensadores e poetas, criticando o anseio convergente da racionalidade platônica como uma reivindicação autoritária que não se justifica em um contexto democrático e pluralista. O espaço romântico de autocriação é um pressuposto que Rorty precisa defender e conciliar com o reconhecimento pragmatista da dimensão social e adaptativa do pensamento. A trajetória intelectual do filósofo pragmatista como descrita pela sociologia das ideias de Neil Gross é o mote utilizado para problematizar a relação entre o determinismo social e o espaço de autocriação. A primazia que o filósofo norte-americano dá para a poesia como impulso para a inovação e a mudança é justificada por sua redescrição da história da filosofia como desvelamento de uma posição antiautoritária, na qual o apelo por convergência perde espaço para o anseio utópico de criar um futuro melhor. A relação de ciúme que funda a busca de Platão por superar e colocar-se no lugar de Homero, é redescrita por Rorty, a partir da visão proustiana deste sentimento. Com isso, a ânsia de desenvolver uma teoria que desvelasse verdades imutáveis e não relacionais pode ser tomada como um mero desejo de fugir da contingência. Por outro lado, a aceitação da contingência e da Filosofia como um gênero de escrita promovem uma mudança na percepção do que chamamos de sabedoria – substituindo a Alegoria da caverna de Platão por Em busca do tempo perdido de Marcel Proust como mito fundador – com a aposta na abertura poética de autocriação e reconhecimento da dimensão biográfica do pensamento.

Esta investigação deve se desdobrar em na análise da relação entre (1) poesia e educação moral (com a função das narrativas e sua relação com a autocriação e a política) e (2) poesia e utopia (na construção do dever-ser como aposta em um futuro utópico) em Rorty. Em verdade, comecei a esboçar uma investigação sobre o lugar das narrativas a partir de uma aproximação da obra de Luiz Eduardo Soares e da forma como ele se apropriou das intuições rortyanas para construir uma espécie de romance da segurança pública no Brasil.
Durante o Doutorado escrevi um livro chamado Máquina do Medo, publicado pela PUC-GO em 2013. Nele reuni alguns artigos de metafilosofia com aproximações filosóficas da obra literária de autores goianos, principalmente do poeta Gilberto Mendonça Teles. A ideia era, de certo modo, pensar minhas circunstâncias e, ainda que não explicitamente, continuar as provocativas perguntas de Gonçalo, problematizando a “máquina do medo”, o mecanismo subjetivo de timidez do pensamento que nos aconselha a não tentar ultrapassar os limites da repetição, impedindo a criatividade e a inovação no pensamento. Como assevera Luiz Eduardo Soares, é preciso aceitar o risco da indisciplina. Este risco é palavra, é escrita e invenção de possibilidades.
Aos 33 anos escrever um memorial é uma tarefa inusitada, um desafio que faz a seta do tempo oscilar e que só faz sentido a contrapelo, ou seja, caminhando numa direção contrária àquela que seria natural. É preciso problematizar o tempo e o espaço narrativos, fazendo com que estas memórias se voltem para o que há de vir, projetem mais do que concluam. Devem ser memórias do porvir.[2]  


[1]Além do trabalho de edição de cada número, neste período montei o site e desenvolvi uma estratégia de cadastramento da revista em repositórios on line e indexadores que ajudaram em sua qualificação no Qualis (onde foi qualificada como B2 em educação e política, B4 em filosofia).
[2] Jorge Larrosa aponta uma interessante diferença:o futuro aparece como uma perspectiva de continuidade do tempo atual, enquanto o porvir indica uma abertura para a descontinuidade. (LARROSA, Jorge. “Dar a palavra. Notas para uma dialógica da transmissão.” In: Habitantes da Babel: políticas e poéticas da diferença. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. p. 286-287).

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Interpretação de canções (texto de Alejandro Rozitchner)



Interpretação de canções Alejandro Rozitchner

A extrema importância da música na adolescência é um fato inegável. Dá mesma forma, é  enorme valor que os artistas tem para eles neste momento da vida, quando são especialmente próximos e queridos. Muitas vezes, esse fenômeno é descrito negativamente com a acusação de que é uma moda manipulada pela mídia ou por interesses comerciais. Esta crítica tacanha ignora dois fatos básicos: qualquer forma de arte é histórica e, portanto, passageira (não se trata portanto de moda mas de fenomenos de época) e tudo o que circula em nossa sociedade se faz na forma de bens intercambiáveis ​​(além do interesse comercial não ser algo indigno, é também impossível a existência de qualquer coisa que não aceite as regras do jogo).
Ao invés de perseguir com ar de superioridade o fenômeno do interesse musical adolescente, um professor de filosofia que está interessado em facilitar a formação de um pensamento em seus alunos, deveria se apossar deste material e implementá-lo. O pensamento dos adolescentes, estudantes do ensino médio, tem nas letras das canções um parceiro fundamental. As frases das canções são tomadas como referências fundamentais para criação de uma concepção de mundo em cada uma dessas consciências em estado de evolução.

Exercício:
1. Que cada aluno ou grupo escolha uma canção para o trabalho.
2. Que o aluno ou o grupo escreva uma interpretação de cada verso de sua letra (não tanto para encontrar o que o artista quis dizer – o que ele quis dizer foi o que ele disse – mas para encontrar o sentido dessas palavras).
3. Que a interpretação seja exposta e, em seguida, comparada com outras interpretações possíveis sugeridas por outros membros da classe.

Não há interpretação correta, ou melhor, não há nenhuma que não o seja. As palavras devem ser auscultadas em seu valor, ou seja, elas podem projetar qualquer sentido, mas este deve se "encaixar": as palavras devem parecer estar dizendo o que o intérprete propõe.
O entusiasmo de um estudante pelo trabalho de seus artistas favoritos será o combustível para realização deste trabalho. Seria bom para incentivar e sugerir, por exemplo, que faça isso com todas as canções de um disco. Você pode atribuir prêmios para as melhores interpretações de discos completos.


Mais de Alejandro Rozitchner aqui:

http://www.bienvenidosami.com.ar/v2/articulos/2006_02FilosofiaActividadPensamiento.html



http://www.bienvenidosami.com.ar e http://100volando.blogspot.com.br/