O Aristóteles incomensurável da Dra. :
um conto sobre concursos públicos
Alguns acham que ética e literatura são
assuntos que não se relacionam. “Literatura é estética, e só”, dizem. Mas eis
aqui uma ficção que dá o que pensar.
Era uma vez, numa terra não tão distante
um evento chamado “concurso para professor universitário”; o tema: Ética. Diversos
professores habilitaram-se para participar e disputar a única vaga em jogo. Depois
de no mínimo dez anos de estudos árduos, eis que, atingindo a máxima patente
dentro das hierarquias de heráldica acadêmica, habilitados estavam para
disputar honradamente aquele nobre posto. Ao menos deveria ser assim.
- Mas não te vejo habilitado para dar
aulas de Ética. Todo o seu trabalho é voltado para literatura, estética e não
Ética. Você não está habilitado para este posto.- Sentencia a Dra.
- Muito pelo contrario, uma vez que você
não se alinha com uma “ética formal” o tipo de aproximação com a literatura e
questionamento dos costumes, dos valores cotidianos que caracteriza meu
trabalho, é totalmente adequado para uma cadeira de Ética. Isso é evidente
quando lemos Alasdair MacIntyre, Martha
Nussbaum, Richard Rorty, Stanley Cavell por um lado. Por outro, temos a
“estética da existência” e a percepção da ética como processo de autocriação,
algo que emerge da obra de Foucault, Deleuze etc. A aproximação com a
literatura no campo da ética chega a ser algo trivial, alguns falam de “virada
narrativa” na Ética, outros de “virada ética” nos estudos literários... enfim,
se pensarmos também no terno grego “ethos”, o questionamento dos valores
cotidianos, o que chamam de política cultural, é parte de seu horizonte.
A professora esta contrariada com esta
resposta. Parecia não esperar reação alguma, continua gesticulando como alguém
que não concorda, mas não tem nada para dizer. Eis que, um outro professor
avaliador muda o teor da objeção enquanto você explica que divide seu trabalho
em uma parte de teor público e outra técnica, presa aos cânones acadêmicos. Ele
interpela:
- Mas eu não reconheço valor no seu
trabalho técnico. Para mim você não argumenta, apenas faz analogias. È isso que
vi na sua prova, na sua aula, em seu memorial, na sua fala.
É melhor respirar fundo. Realmente sua
aula não foi boa. Este mesmo avaliador que lhe questiona, olhava de boca aberta
para o teto, mexia no celular enviando mensagens, certamente urgentes e muito
mais relevantes do que aquela aula de concurso que você tentava desenvolver e
que ele deveria avaliar. Sim, isso lhe causou desconforto e prejudicou o
desenvolvimento de seu trabalho, mas ele é “o especialista”, um técnico
tecnicamente reconhecido pelo rigor de sua habilidade técnica. É ele, “o
especialista” quem diz “você só faz analogias”, o que em seu jargão de fins do
século XVIII significa que seu diagnostico é de patologia mental, uma doença da
imaginação que te faz alguém não razoável. Mas deveria assumir a “psicologia de
um vencido” tendo na boca “uma ânsia análoga à ânsia”? Você deveria
respondê-lo? Melhor não. Até mesmo porque, assumindo uma posição
pós-nietzschiana, pan-relacionista, fazer analogias não soa tão mal. Analogia e
ironia, talvez seja este teu método. Sendo o “técnico dos técnicos” alguém que
precisa da ilusão do realmente real, você nunca diria que lhe falta imaginação
para entender seus argumentos. Não, você não diria isso. Eis o que de fato diz
ante este diagnóstico de doença mental:
- É, não tinha percebido isso. È uma
coisa para se pensar. Mas não tenho nada para lhe responder. Até mesmo porque
se o fizesse você não perceberia no que eu digo um argumento. Você não
reconheceu nenhum argumento lendo dezenas de páginas que escrevi. Provavelmente
não reconhece aqueles autores que estudo como pessoas que argumentam. Rorty
então... você não deve gostar mesmo.
O técnico fica desconfortável com estas
palavras, mas no rosto possui um artifício para esconder os sentimentos. Mas
sua esquiva o incomoda. Você o incômoda. Você é incomodo. Se é que ele
reconhece em você um “você”. Tudo bem. Existe certo prazer em ser incomodo. E
você continua explicando algo sobre seu trabalho, afirmando o “valor técnico”
daquilo que faz. Mas lhe acusam de ter visto unicórnios, enquanto falava de
rinocerontes. Você tenta desfazer o equívoco, mas não é um equívoco. Acreditam
que você viu unicórnios. Pensam que suas críticas ao academicismo são uma
ofensa direcionada à própria razão. A razão encarnada. Não há nada pessoal na
crítica que lhe fazem... Ainda assim você tenta falar de um trabalho
tecnicamente reconhecido e promissor. E novamente o técnico dos técnicos
intervém:
- Mas você não argumenta, quando lhe
apertam se esquiva com autoridades, isso é escolástica!
Afirma triunfante. A acusação de
escolástica, essa sim, é nova. Você cita autores que sustentariam os pontos de
vista que defende, mas essa tentativa de colocar-se como parte de uma
conversação academicamente reconhecida é uma “reivindicação escolástica”. Dois
clichês em um mesmo lugar: acusar o opositor de não argumentar e ao mesmo tempo
de ser escolástico. Quanto ao seu trabalho, o técnico dos técnicos reitera que
não percebe valor e pergunta sobre o método que segue, o procedimento, a matriz
epistemológica, o fundamento fundamental... é tão incisivamente reiterativo
neste jogo, que, cansado, você concede a resposta que sabe que é aquela que ele
gostaria de ouvir. Usa “procedimentos
analíticos de uma perspectiva pragmatista, desenvolvendo leituras imanentes”. É
isso uma reificação, uma fala que não fica bem em sua boca. Mas, ainda respeita
o técnico dos técnicos e sabe que ele não poderia lhe pedir outra coisa senão
técnica.
- Você não respeita a seriedade dos
conceitos.- Diz a Dra. agora, de um modo
que causa alguma estranheza até mesmo em seus pares – É você que na prova
utilizou o exemplo do jogador de futebol para falar de Aristóteles? Nada contra
o exemplo, mas te dei uma nota baixíssima por usar conceitos de forma
imprecisa. Olhei aqui o cpf da prova, é realmente você.
Bem, esta era uma defesa de memorial.
Colocar a prova em cima da mesa é algo inusitado. Até porque você sabe que fez
uma boa prova, conhece o tema. Um professor que soubesse ler lhe daria no
mínimo 7, um que soubesse ler e rir, lhe daria 9 ou até mais. A atitude da Dra.
fere a impessoalidade que se espera de um concurso deste tipo, que é norma em
um concurso assim. Colocar sua prova em cima da mesa e fazer uma acusação deste
tipo é como jogar toda seriedade do concurso fora para dar vazão a algum
instinto sádico, alguma forma de ressentimento atávica. Algo surreal.
A Dra lê trechos de sua prova que
atestariam seu despreparo. Quando você diz que a “eudaimonia” é uma espécie de
julgamento público, que não depende somente da atuação do agente, algo que
poderia se perder por uma desgraça trágica; ela ri e diz que Aristóteles
ironiza isto nos livros 2 e 3 de sua Ética. Seu exemplo do jogador seria
péssimo, porque explicando o conceito de “Arete”, escreve que o tal jogador não
desenvolveu plenamente suas potencialidades, mas que era reconhecido como
alguém com potencial. A Dra afirma que as potencialidades só se estabelecem em
sua efetividade, não faria sentido este exemplo.
Ela te pegou, você está sem ação. Sabe
que pode dar respostas, mas de que as respostas adiantariam? Ela é a
avaliadora. Você diz que não vai dizer. Se a Dra. lhe deu uma nota
“baixíssima”, como afirma, sabe que está eliminado do concurso e agora faz
parte de um espetáculo tosco de assédio moral. De nada vale o que disse
Aristóteles, de nada vale a valsa vienense. Para que insistir neste jogo tosco.
Mas o técnico dos técnicos não quer seu silêncio, ante sua recusa a dar uma
resposta, pede que “argumente, vamos! Você pode fazer isso”.
- Pois bem, veja se isso é um argumento
para você. Neste momento da prova não estava falando de Aristóteles ainda, mas
do campo semântico das palavras “arete”, “eudaimonia” e “telos”. Aristóteles
mesmo argumenta contra a dimensão trágica da “eudaimonia”, o significado comum
do termo que estava explicando, mas não a nega: é só olhar sua comparação entre
homens e deuses no final de sua Ética (ou ler Martha Nussbaum, Bernard Williams
ou MacIntyre. O exemplo do “jogador” é muito bom para mostrar a dimensão social
destes conceitos, e é utilizado também por MacIntyre que dá uma ênfase a
perspectiva social da ética de Aristóteles, como os seus termos são retirados
de jogos de linguagem públicos. Sabemos o que é um bom jogador, um jogador que
tem potencial. As potencialidades não se fundamentam em sua efetividade em
Aristóteles: senão não haveria telos e ele não diria o que diz das mulheres e
dos escravos. Um jogador que vencesse os jogos olímpicos alcançaria a
imortalidade, a “eudaimonia”...
Você disse essas coisas, algumas dessas
coisas, mas fala de uma posição compulsória, coagido. Pode haver controvérsia
na interpretação, mas ter que dar explicações em um contexto destes é por si só
algo constrangedor. A Dra balança a cabeça negativamente e continua dizendo que
“você não entendeu, não é o exemplo...”. Essa negativa lhe dá a certeza: “é o
exemplo”. Do exemplo trivial ela deduziu sua frivolidade e daí leu seu texto
com “caneta vermelha”, de uma posição superior. Agora diz que você “não
entendeu”. Realmente existe algo que somente ela, a Dra, entende. Você sabe que
o currículo da Dra. não é lá essas coisas, que a Dra. não tem uma produção que
lhe habilite para a posição de avaliadora (alguns de seus concorrentes de
concurso tem currículo melhor que o dela), mas a Dra se ri porque é a efetiva
há décadas (nem sempre Dra.) e não há ninguém para lhe avaliar da forma como
ela julga ter o direito de avaliar. Acabou, né?
Lhe avisam “amanhã saí o resultado”,
você, de saída responde com um sorriso “não estarei aqui”. Você sabe que não
foi aprovado. Desconfia que ninguém será aprovado. Não existe amor em SP, não
existe ética em BO, CO, DO...
Marcos
Carvalho Lopes é doutor em Filosofia pela UFRJ, autor dos livros Máquina do Medo (Kelps, PUC-GO, 2013) e
Canção, estética e política: ensaios
legionários (Mercado de Letras, 2012)