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sábado, 3 de julho de 2010

Dar sentido p’ra existência: um esporte (extremamente) radical


 Dar sentido p’ra existência: um esporte (extremamente) radical

Marcos Carvalho Lopes


Neste trabalho tento olhar mais de perto a canção Esportes Radicais do álbum Surfando Karmas e DNA. É uma continuação do texto acerca de Novos Horizontes (feito no mesmo dia).

Um detalhe que me chamou atenção no encarte foi a forma de diagramação da letra. Parece-me que ajuda a compreender o que está em questão. Então, citarei a letra com seus negritos e itálicos originais seguindo e comentando parágrafo por parágrafo. Trata-se de uma interpretação. Seu objetivo: um experimento de pensar...

A letra começa:

preso no trânsito de astros imóveis
faço as contas na ponta do lápis
e nada faz sentido


Pode-se pensar de início que esses versos não fazem sentido: “trânsito de astros imóveis?” Seriam esses “astros imóveis” elementos do star system de nossa sociedade de espetáculo? Não sei. Sigo em outro caminho com espírito de Parsifal: Kant, o grande iluminista alemão em sua crença imperturbável na razão, afirmava que nada lhe causava mais admiração  do que “o sol estrelado sobre mim e a lei moral em mim”. Kant tendo como pressuposto a física de Newton, tentou pensar um conjunto de regras éticas que deveriam conduzir o homem em sua existência. A idéia era conseguir a mesma necessidade da física de Newton: assim com a lei da gravidade vale para todos os corpos, a lei moral deveria se impor a todos os seres dotados de razão. O grande problema estaria em como submeter a vontade humana a essas leis da razão. Se Kant tivesse chance de ver o dano causado pelo fascismo/nazismo provavelmente seria mais cético quanto ao poder e sentido da racionalidade humana...
De qualquer forma, hoje não faz mais sentido pensar numa “ordenação cósmica” de valores imutáveis e eternos que possa orientar a vontade do homem. Como sabemos por Novos Horizontes o universo segue em movimento, em expansão. A analogia entre o universo ordenado da física newtoniana e o formalismo da ética kantiana, fazendo “as contas na ponta do lápis”, não faz mais sentido. Provavelmente as referências do compositor são diferentes, mas acredito que essa primeira estrofe aponta para a ausência de uma racionalidade universal hoje... a letra segue


adrenalina é uma menina dormindo
dançando em silêncio imaginando um reggae
cansei de alimentar os motores
agora quero freios e airbag
pois nada faz sentido

Essa segunda estrofe trataria das emoções. O tema é introduzido com a palavra ‘adrenalina’.  Por um lado não faz sentido manter uma postura passiva, apática... por outro, não faz sentido entrar no jogo dos “esportes radicais” buscando na promessa de aventura e velocidade sua dimensão mais destrutiva: “cansei de alimentar os motores/ agora quero freios e air bag”. No entanto, nada aqui faz sentido.


se capricórnio fosse câncer, se Califórnia fosse França
a rampa que lança o skate ao céu seria nosso chão
180, 360, 540 graus, girando, esquentando
só pra ver até quando o motor agüenta o caos

Se: entramos no universo da suposição. Poderia ser o mundo diferente?! Qual diferença a letra postula: a adrenalina do esporte radical estaria em nossa vida cotidiana como intensidade e não como desperdício e auto-destrutividade. Por isso o refrão anuncia:


não vou ficar parado, não vou passar batido
se nada faz sentido, há muito que fazer

Não deveríamos nos entregar a apatia e ao comodismo, nem nos deixar dominar pelas emoções (por vezes destrutivas ): se o mundo parece não ter sentido, devemos construir um sentido: existe muita coisa para fazer.
Isso é posto na canção como uma necessidade:

não há alternativa, é a única opção
unir otimismo da vontade e o pessimismo da razão
contra toda expectativa, contra qualquer previsão
há um ponto de partida, há um ponto de união :
sentir com inteligência, pensar com emoção

A única opção que temos estaria em seguir o exemplo de determinação dado pelo filósofo italiano Antonio Gramsci que, preso pelos fascistas e padecendo com diversas doenças nunca se curvou diante da situação totalmente desfavorável, pelo contrário: no cárcere por dez anos, produziu de maneira incessante (o que resultou em mais de 4 mil páginas de um trabalho de filosofia política, profundo e original ). Tentando descrever o estado de animo que o cárcere lhe proporcionou Gramsci utilizou uma frase do escritor francês Romain Rollain, mostrando que trazia juntos “o pessimismo da razão e o otimismo da vontade”.
O trabalho de Gramsci levou o marxismo a superar o determinismo econômico, o direcionando para uma transformação intelectual e moral da sociedade. Seria necessário “lutar” para construir uma nova cultura, um novo humanismo “com base na crítica dos costumes, dos sentimentos, das concepções de mundo, da estética e da arte.” É no sentido dessa transformação que Gessinger repete:

não vou ficar parado, não vou passar batido
se nada faz sentido, há muito que fazer

Sobre essa canção Humberto Gessinger disse que lhe parecia uma continuação de Infinita Higway: se naquela canção temos o existencialismo-beat afirmando que “a estrada é a vida”, Esportes Radicais esclarece a direção a ser seguida.

13/06/2006

Dar sentido p’ra existência: um esporte (extremamente) radical


 Dar sentido p’ra existência: um esporte (extremamente) radical

Marcos Carvalho Lopes


Neste trabalho tento olhar mais de perto a canção Esportes Radicais do álbum Surfando Karmas e DNA. É uma continuação do texto acerca de Novos Horizontes (feito no mesmo dia).

Um detalhe que me chamou atenção no encarte foi a forma de diagramação da letra. Parece-me que ajuda a compreender o que está em questão. Então, citarei a letra com seus negritos e itálicos originais seguindo e comentando parágrafo por parágrafo. Trata-se de uma interpretação. Seu objetivo: um experimento de pensar...

A letra começa:

preso no trânsito de astros imóveis
faço as contas na ponta do lápis
e nada faz sentido


Pode-se pensar de início que esses versos não fazem sentido: “trânsito de astros imóveis?” Seriam esses “astros imóveis” elementos do star system de nossa sociedade de espetáculo? Não sei. Sigo em outro caminho com espírito de Parsifal: Kant, o grande iluminista alemão em sua crença imperturbável na razão, afirmava que nada lhe causava mais admiração  do que “o sol estrelado sobre mim e a lei moral em mim”. Kant tendo como pressuposto a física de Newton, tentou pensar um conjunto de regras éticas que deveriam conduzir o homem em sua existência. A idéia era conseguir a mesma necessidade da física de Newton: assim com a lei da gravidade vale para todos os corpos, a lei moral deveria se impor a todos os seres dotados de razão. O grande problema estaria em como submeter a vontade humana a essas leis da razão. Se Kant tivesse chance de ver o dano causado pelo fascismo/nazismo provavelmente seria mais cético quanto ao poder e sentido da racionalidade humana...
De qualquer forma, hoje não faz mais sentido pensar numa “ordenação cósmica” de valores imutáveis e eternos que possa orientar a vontade do homem. Como sabemos por Novos Horizontes o universo segue em movimento, em expansão. A analogia entre o universo ordenado da física newtoniana e o formalismo da ética kantiana, fazendo “as contas na ponta do lápis”, não faz mais sentido. Provavelmente as referências do compositor são diferentes, mas acredito que essa primeira estrofe aponta para a ausência de uma racionalidade universal hoje... a letra segue


adrenalina é uma menina dormindo
dançando em silêncio imaginando um reggae
cansei de alimentar os motores
agora quero freios e airbag
pois nada faz sentido

Essa segunda estrofe trataria das emoções. O tema é introduzido com a palavra ‘adrenalina’.  Por um lado não faz sentido manter uma postura passiva, apática... por outro, não faz sentido entrar no jogo dos “esportes radicais” buscando na promessa de aventura e velocidade sua dimensão mais destrutiva: “cansei de alimentar os motores/ agora quero freios e air bag”. No entanto, nada aqui faz sentido.


se capricórnio fosse câncer, se Califórnia fosse França
a rampa que lança o skate ao céu seria nosso chão
180, 360, 540 graus, girando, esquentando
só pra ver até quando o motor agüenta o caos

Se: entramos no universo da suposição. Poderia ser o mundo diferente?! Qual diferença a letra postula: a adrenalina do esporte radical estaria em nossa vida cotidiana como intensidade e não como desperdício e auto-destrutividade. Por isso o refrão anuncia:


não vou ficar parado, não vou passar batido
se nada faz sentido, há muito que fazer

Não deveríamos nos entregar a apatia e ao comodismo, nem nos deixar dominar pelas emoções (por vezes destrutivas ): se o mundo parece não ter sentido, devemos construir um sentido: existe muita coisa para fazer.
Isso é posto na canção como uma necessidade:

não há alternativa, é a única opção
unir otimismo da vontade e o pessimismo da razão
contra toda expectativa, contra qualquer previsão
há um ponto de partida, há um ponto de união :
sentir com inteligência, pensar com emoção

A única opção que temos estaria em seguir o exemplo de determinação dado pelo filósofo italiano Antonio Gramsci que, preso pelos fascistas e padecendo com diversas doenças nunca se curvou diante da situação totalmente desfavorável, pelo contrário: no cárcere por dez anos, produziu de maneira incessante (o que resultou em mais de 4 mil páginas de um trabalho de filosofia política, profundo e original ). Tentando descrever o estado de animo que o cárcere lhe proporcionou Gramsci utilizou uma frase do escritor francês Romain Rollain, mostrando que trazia juntos “o pessimismo da razão e o otimismo da vontade”.
O trabalho de Gramsci levou o marxismo a superar o determinismo econômico, o direcionando para uma transformação intelectual e moral da sociedade. Seria necessário “lutar” para construir uma nova cultura, um novo humanismo “com base na crítica dos costumes, dos sentimentos, das concepções de mundo, da estética e da arte.” É no sentido dessa transformação que Gessinger repete:

não vou ficar parado, não vou passar batido
se nada faz sentido, há muito que fazer

Sobre essa canção Humberto Gessinger disse que lhe parecia uma continuação de Infinita Higway: se naquela canção temos o existencialismo-beat afirmando que “a estrada é a vida”, Esportes Radicais esclarece a direção a ser seguida.

13/06/2006

Novos Horizontes dos Engenheiros do Hawaii


Novos Horizontes dos Engenheiros do Hawaii

A canção Novos Horizontes apareceu no álbum ao vivo dos Engenheiros do Hawaii 10.000 destinos de 2000. Neste texto tento entende-la e mostrar como ela antecipa a temática do trabalho seguinte da banda.


novos horizontes
(gessinger)

corpos em movimento
universo em expansão
o apartamento que era tão pequeno
não acaba mais
Uma epifania: da explosão inicial de um big bang principia o universo, que continua sempre em expansão. Esse é o seu movimento. Um apartamento pequeno que também se expande. Ele agora está crescendo: existe uma falta dentro dele, um vazio que cresce da mesma forma que o universo.
vamos dar um tempo
não sei quem deu a sugestão
aquele sentimento que era passageiro
não acaba mais
“Vamos dar um tempo”. Vamos nos separar: com o tempo os corpos se afastam, vamos nos distanciar como o universo que se expande. Não sei quem deu a sugestão: mas faria diferença se soubesse? O que importa é que o sentimento que deveria ser passageiro também vai se ampliando. Qual sentimento?


quero explodir as grades
e voar
não tenho pra onde ir
não quero ficar

Também quero essa expansão, quero me libertar desses limites e ser livre: não sei bem para onde ou porque, mas sei que não quero ficar aqui. Quero coisas novas, novas experiências...

novos horizontes
?se não for isso, o que será?
quem constrói a ponte
não conhece o lado de lá

Para viver algo diferente, para agir é necessário se arriscar. É preciso estar pronto para também mudar, para se reconstruir. Só quem enfrenta a angústia de saltar o abismo pode alcançar o outro lado e desvendar novos horizontes...encontrar novamente o chão e não deixar-se cair

suspender a queda livre
libertar
Na hora de agir não existem pressupostos que possam nos proteger do vazio e da “expansão do universo”. Os que não querem se acomodar numa situação que lhes é desagradável, devem estar prontos para enfrentar a angústia de agir. Todo ato que merece esse nome implica numa transformação de quem age. Impõe a necessidade de se reinventar... arriscar...querer o novo...já que

o que não tem fim sempre acaba assim





A canção termina... sobra você e o universo: em expansão?...falta um sentido para isso...o álbum seguinte dos Engenheiros do Hawaii se chama Surfando Karmas e DNA e ira repetir e aprofundar esse tema. Na canção de abertura e que dá nome ao álbum, se lembra que, muitas vezes, temos de enfrentar situações nas quais as lembranças estão no espelho e a “esperança na outra margem”: a ação, desafiar o que é posto como destino e considerado “natural” (karma ou DNA ) é ter coragem para inventar a própria liberdade...

Uh uh uh, lá lá lá, iê iê!: felicidade paradoxal na sociedade de consumo


Uh uh uh, lá lá lá, iê iê!: felicidade paradoxal na sociedade de consumo

Marcos Carvalho Lopes
“O que fazer pra tentar ser feliz?”, esse é o teorema que todas as sociedades têm que responder.  Ele está presente, como pano de fundo, na maioria dos tratados de filosofia, livros religiosos, literários etc. A principio essa busca era tanto política quanto ética: queriam encontrar a formula da sociedade feliz, onda cada qual teria o seu bocadinho desse bem.
Posicionar-se ante essa questão não significa desvendar o caminho para a felicidade. O dito da desiderata “faça tudo para ser feliz” pode inspirar muita maldade e violência. Filósofos como Kant negaram que a busca da felicidade pudesse ser o fundamento da vida moral: as causas desse sentimento são extremamente variáveis, sendo este um alvo impreciso e instável, aja visto que os desejos do homem estão sempre em jogo. Para o filósofo alemão deveríamos tentar nos tornar dignos da felicidade (1) tentando fazer os outros felizes e (2) nos auto-aperfeiçoando. São dois caminhos muito difíceis e que não garantem a realização da própria felicidade. Fazer os outros felizes não é um alvo que se possa ter certeza de alcançar: você pode fazer tudo pensando na felicidade do outro e depois descobrir que não alcançou seu intento. Depois do romantismo a idéia da busca de uma perfeição privada tornou-se tremendamente idiossincrática: cada qual deveria inventar seu caminho de auto-aperfeiçoamento. É difícil pensar que numa sociedade hedonista como a atual, onde “o prazer é o principio e o fim da vida feliz”, as pessoas possam seguir o que pede o filósofo alemão.


Em nossa sociedade atual, marcada pelo hiperconsumismo as questões mudaram de lugar. Como nos dizem o primeiro verso da canção Uh uh uh, lá lá lá, ié ié! do Pato Fu:   

As pessoas têm que acreditar
Em forças invisíveis pra fazer o bem
Tudo que se vê não é suficiente

E a gente sempre invoca o nome de alguém


Para fazer o bem o homem teria sempre que faze-lo ‘em nome de...’, ou seja, acreditar que tem a procuração de alguém que valide sua ação. Uns querem falar em nome da religião, outros em nome da filosofia, da política...esperando as “recompensas” que essas posições prometem. No entanto, sabemos que as pessoas falam “em nome de...”, não sente necessidade de dialogar com quem pensa de maneira diferente. Quantas guerras “em nome de Deus”? Quantas atrocidades em nome da Liberdade?
Em nossa sociedade, capitalista e hiperconsumista, onde “tudo que é sólido derrete-se no ar”, não temos mais pontos de referência estáveis ou limites precisos para a ação. Todas as diferenças são apagadas “em nome de” um único valor: o valor de mercado. Esse é o novo totem da tribo.
A canção do Pato Fu segue dizendo:

Acho muito caro o que ele tá pedindo
Pra eu ter muito mais sorte e menos azar
Acho muito pouco o que tenho no bolso
Pra ver o sol nascer não tem que pagar

Em qualquer esquina você pode encontrar gente distribuindo panfletos que prometem caminhos para a felicidade imediata: desvendam o futuro, desamarram as correntes, alcachofras místicas, charutos de orégano, empréstimos facilitados, serviços sexuais, COMPRA-SE... o perigo é que as pessoas se prendam a essa lógica do consumo, onde “produto=felicidade”. A letra segue:

 

É certo que o milagre pode até existir

Mas você não vai querer usar
Toda cura para todo mal
Está no Hipoglós, Merthiolate e Sonrisal


O “milagre”, algo de mágico e sobrenatural, pode até existir, no entanto, é melhor procurar um caminho que possa se usar de forma mais fácil, ou seja, um remédio que tenha um preço de mercado definido. Por isso, “toda cura para todo mal/ está no Hipoglós, Merthiolate e Sonrisal.” Nossa terapia cotidiana é buscar no consumo remédio, uma droga psicológica que nos alivia da ansiedade e da angústia, mas que não têm medida. O problema não está no consumismo: a grande questão é quando toda a existência do homem passa a ser dominada por essa lógica que nunca alcança a saciedade. Caímos em um paradoxo, como observa Gilles Lipovetsky, já que compramos a imagem do prazer dionisíaco e ao mesmo tempo vivemos numa “civilização de prevenção”, ele exemplifica “você não pode se expor ao sol, porque causa problemas, você não pode beber coca-cola, porque tem muito açúcar, você não pode comer muita carne, porque tem gordura você tem que fazer exames médicos, você não pode fazer sexo sem camisinha, porque pode pegar Aids...”. Por um lado as prateleiras prometem redenção, por outro criamos uma lógica da prevenção...os dois aspectos andam juntos e por vezes se cruzam e se confundem. O paradoxo se mantém na ansiedade do consumismo: para Lipovetsky a sociedade torna-se paradoxal, a felicidade torna-se paradoxal...
Como fugir desse caminho paradoxal, existiria alguma fórmula? Não existe caminho para sair da sociedade, quem sabe pudéssemos mudar nossas metas, como exemplifica a canção do Pato Fu:.

Quem tem a paz como meta
Quem quer um pouco de paz
Que tire o reboque que espeta
O carro de quem vem atrás

Os que querem a paz devem começar a agir em coisas pequenas de seu cotidiano como retirando o reboque “que espeta o carro de quem vem atrás”. A idéia não é buscar no Estado uma ordenação melhor da sociedade: essa sociedade também é hiperindividualista, ou seja, o homem é mais responsável por sua existência, ele possui maior liberdade para fazer escolhas e ao mesmo tempo é mais frágil, já que vive a angústia dessa liberdade.
Talvez não exista uma formula para sair do paradoxo. Por isso faz tanto sentido cantar o nonsense dessa felicidade irônica e contagiante, como no refrão do Pato Fu:
UH UH UH, LA LA LA, IÉ IÉ!
UH UH UH, LA LA LA, IÉ IÉ!
UH UH UH, LA LA LA, IÉ IÉ, IÉ IÉ!

sábado, 9 de agosto de 2008

Kant, Renato Russo e o fato da razão


A questão de se existe ou não liberdade é fundamental para se pensar a ética. Se o homem não é livre para agir, não pode ser responsável por sua ação. Se não existe liberdade ninguém pode ser considerado criminoso. Com isso, cria-se a "ética dos coitadinhos" que diz que a culpa pelas coisas que não estão certas não é de ninguém determinado, nem de todos em conjunto: o culpado é o "sistema", o impessoal. Seguindo esse discurso as pessoas podem reivindicar para si todos os direitos sem carregar consigo nenhum dever: afinal, "todo mundo quer tirar vantagem em tudo', e, por conseqüência, ninguém quer ser responsável por nada.
Acontece que, como percebeu Kant, a liberdade não é um fato exterior, é sim, um fato (feito) da razão: o homem pode prescrever para ele mesmo regras de conduta, ante as quais ele mesmo é legislador e executor. Ou seja: quem se obriga a si mesmo é livre para se desobrigar. Isso acontece na prática: quem assume um compromisso perante consigo mesmo não esta comprometido com ninguém: então é livre (ou "você não pode jogar essa folha longe e esquecer esse texto?", ou "você não é livre para escolher isso?").
Essa idéia foi reafirmada na letra da música Há Tempos da Legião Urbana, nela Renato Russo diz: "disciplina é liberdade". Falar em disciplina como sinônimo de liberdade pode ser visto como algo fascista, mas Russo explicou sua posição em entrevista: "eu estou falando de autodisciplina. Se você pensar numa relação sujeitoobjeto é fascista, mas numa relação sujeito-sujeito, não é. Não é: "eu vou disciplinar você". A natureza é disciplinada. Eu preciso de muita disciplina! Fica tão bonito escrito "Disciplina é liberdade". E é uma inversão do double think do 1984: "Liberdade é escravidão", "Ignorância é força". Se você tiver um conceito legal de liberdade, imediatamente surge uma idéia positiva." Se "disciplina é liberdade", o homem é livre e responsável por suas ações. Disso pode deduzir que para viver em grupo deve agir como se sua ação pudesse ser comum a todos os demais, ou seja, seguir a regra do senso comum de "não fazer aos outros o que você não quer que seja feito a você".
Kant não pensava numa sociedade de anjos: regras são necessárias mesmo em uma sociedade de demônios. Os homens são racionais, livres e responsáveis pelo seu agir (ou não agir). O Estado, a televisão, "o sistema", não são sozinhos os culpados pelos problemas sociais, afinal, a sociedade é feita também de homens individualmente responsáveis. Como diria Ortega y Gasset: "eu sou eu e minhas circunstâncias, se não me salvo a elas não me salvo a mim mesmo", ou seja, o homem esta sempre imerso em circunstãncias que não escolheu, mas pode decidir entre lidar com elas ou se deixar levar pela correnteza, como uma bóia jogada no rio. Pode decidir compreender sua circunstãncia, sua responsabilidade e sua liberdade ou cantar o samba do "deixa a vida me levar". O fato é que você (também ) decide.