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sábado, 17 de julho de 2010

Programa Logofonia (PET filosofia - UFMG)

O programa LOGOFONIA feito na UFMG em pareceria com o PET de Filosofia. Posto aqui a lista dos programas que temos na net diponiveis. 
P.S: computador em manutencao... teclado sem til e qualquer agudo ou circunflexo ou... etc. por isso nao escrevi(o) mais hoje.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Encontro do GT de Pragmatismo e Filosofia Norte-americana

 Desde sua fundação, o GT-Pragmatismo e Filosofia Americana da ANPOF, o mais antigo da instituição, sempre procurou manter um encontro independente anual, fora da reunião da ANPOF. Este ano de 2010 o Encontro terá como temática O Corpo, e será na UFRJ no dia 23 de julho. Para maiores detalhes basta entrar em contato com a filósofa Susana de Castro, coordenadora do GT: decastrosusana@terra.com.br . Para fomentar o debate inicial, Sérgio Oliveira fez um texto com o título Corpo, filosofia e arte. Dando continuidade à conversação, o professor Paulo Ghiraldelli Jr. respondeu com o texto  Platão sem amor platônico.    O dialogo continua no encontro, venha participar! Assim que meu texto estiver pronto o postarei aqui. O titulo de minha contribuicao Rorty fazendo rafting (e o gol de Ronaldinho): sobre um possivel sublime do corpo. (meu teclado esta com problemas, desculpe).

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Decálogo para pensar a cultura atual (Alejandro Rozitchner)

Alejandro Rozitchner e seus três ateuzinhos


Há alguns anos fiz um post no antigo blog filosofia pop no Overmundo divulgando o trabalho do filósofo argentino Alejandro Rozitchner. Me interesso pelo trabalho deste autor por sua radicalidade em tentar trilhar caminhos inusitados e propor diálogo constante. Uma pena que não consegui ter acesso a livros como Conciencia rockera. La experiencia del mundo ou 
Escuchá qué tema. La filosofía del rock nacional, em que análisa a partir de uma perspectiva filosófica diversas letras do rock argentino. É uma inspiração e algo que me intessa... Por enquanto, por essas bandas, temos traduzid0 apenas um livro de Rozitchner escrito juntamente com Ximena Ianantuoni sobre como criar filhos ateus (Filhos sem deus: ensinando as crianças um estilo ateu de viver, Martins Fontes, 2008), causando (alguma) polêmica com declarações como está, feita numa entrevista para a revista Época:


ÉPOCA – Vocês já pensaram o que vão dizer a seus filhos quando eles perguntarem pela primeira vez sobre Deus?

Rozitchner - Vou explicar que Deus é só uma idéia criada pelos homens como uma necessidade de explicar o mundo. E que, por isso, não deixa de ser um personagem, tal como o Buzz Lightyear ou o Woody do Toy Story(...)

Leia a reportagem inteira de uma página gospel e o(s) (primeiro!) comentário(s) clicando aqui.


Traduzi um post bem provocativo do blog de Rozitchner chamado Decálogo para pensar a cultura atual. É este que podem ler abaixo:



Decálogo para pensar a cultura atual Alejandro Rozitchner


Não me lembro para qual evento escrevi este decálogo justiceiro e provocativo, porém o encontrei a pouco e me pareceu valioso. Aqui vai:

Interpretar os índices de leitura como uma decepção e traçar outra vez um quadro de catástrofe é repetir um costume cultural argentino e estéril: saborear o abismo. Esta atitude é mais a causa de nossa pobreza cultural que um fator de avanço. Como compreender a cultura para aumentar sua vitalidade? Sugiro estas idéias para discussão:

1. A cultura é o que há de mais valioso em uma sociedade: o que coroa sua existência, o que lhe permite formular suas estratégias de crescimento, o refinamento de sua visão do mundo, a elaboração da felicidade de seus membros.

2. A pobreza material é criada pela pobreza cultural: nossa produção de miséria é nosso fracasso na criação de uma cultura vital. Em vez de nos atarmos a uma visão tradicional da cultura se faz necessário reformula-la para reverter à situação.

3. Cultura é criatividade, não respeito. Atrevimento e ousadia, não repetição e rigor (mortis). Cultura não é venerar sempre aos mesmos. Mais que venerar é respirar e querer, viver a própria vida com autenticidade e vigor.

4. Internet é cultura: se lê menos, se escreve mais, de outra forma, os índices para compreender a cultura de 50 anos atrás não podem aplicar-se hoje. Existe um mundo novo.

5. O pensamento crítico inibe a produção de cultura: temos idolatrado a objeção, a distância objetiva, a suspeita e a interpretação cínica. Isto gera a queda; não nós salva, nos oprime.

6. Cultura é pensamento: ver as coisas de novo, não aferrar-se as mesmas idéias de sempre para salvar-se do mundo, mas sim, buscar idéias novas para querê-lo e produzi-lo.

7. Cultura é mercado. Produtos, consumo, inversão, ambição, ganância, desejo de mais feito arte. Lutar com a sociedade de consumo é ignorância, visão estreita, debilidade mental.

8. Cultura é arte de viver. O que os espanhóis demonstram o prazer de estar ocioso e ser, de quere-se e enfrentar os conflitos. Não distanciar-se das coisas e sentir-se superior, ser, pelo contrario, capaz de querê-las mais.

9. Cultura é crescimento político. Reformas - se reformas são necessárias -, oposição inteligente e não somente partido hegemônico. Aceitação dos limites do mundo político e trabalho para defender e melhorar as instituições humanas.

10. Atualizar os valores é fortalecer a cultura. Dar-se conta de que os valores não morrem, mas sim, que se transformam, aprender a ver que existem valores novos que são superiores a muitos dos valores perdidos. Devemos nos colocar a altura das circunstâncias.

terça-feira, 6 de julho de 2010

sobre engenheiros do hawaii e uma(s) filosofia(s)



Postei no issuu uma prêvia do ensaio que estou  escrevendo sobre o Pouca Vogal. Deve ser uma continuação do que antes escrevi sobre os Engenheiros do Hawaii. Os textos que havia 'juntado' num pdf que chamei Engenheiros do Hawaii: da engrenagems à mandala estavam disponíveis no Overmundo. Retirei este pdf de lá quando o blog que mantinha no overmundo foi deletado. A idéia era corrigir uma série de erros de português e até algumas idéias atravessadas. (o principal esta na página 58, onde se diz que para Rorty as "imagens teriam maior poder de convencimento do que as narrativas" deveria estar que "as narrativas tem maior poder de convencimento que as teorias. Erro grave. de  quem não faz revisão). Mas, alguém postou o antigo pdf no Scrib... então uso esta postagem para colocar de novo aqui (avisando desta minha insatisfação com essa versão do texto e prometendo uma melhor ou quiça um livrinho sobre demanda alinhado a disponibilização na net...).
Minha idéia é juntar tudo numa versão final. Para essa "versão final" já entrevistei o Carlos Maltz e estou planejando alguns ensaios. Este sobre o Pouca Vogal deve ser um tanto maior... etc.

No youtube: Espécial Várias Variáves dos Engenheiros do Hawaii (1991- Rede Globo)

Parte 1



Parte 2
Parte3
Parte 4
Parte5
Parte 6
Parte 7
Parte 8

Especial Várias Variáveis, 1991. Rede Globo. Engenheiros do Hawaii.

Links de todas as partes:
parte I http://www.youtube.com/watch?v=khugmm... [Herdeiro da Pampa Pobre]
parte II http://www.youtube.com/watch?v=-TMh-c... [O Papa é Pop]
parte III http://www.youtube.com/watch?v=-z_qVN... [Muros & Grades]
parte IV http://www.youtube.com/watch?v=iWFBPv... [Pra Ser Sincero]
parte V http://www.youtube.com/watch?v=qmWtoD... [Refrão de Bolero]
parte VI http://www.youtube.com/watch?v=9VG5lI... [Era um Garoto...]
parte VII http://www.youtube.com/watch?v=rye11A... [Perfeita Simetria]
parte VIII http://www.youtube.com/watch?v=v-gCYN... [O Exército de um Homem Só, I]

Créditos:
Disponibilizado por Davi Enghaw
Digitalizado por Valdemas

sábado, 3 de julho de 2010

Sócrates pop star


Sócrates pop star 
Marcos Carvalho Lopes, Jataí (GO) · 30/8/2006 18:24

 
Acabei de ler o Eutífron de Platão. Nele Sócrates e Eutífron discutem sobre a piedade. A questão é o que faz de um homem piedoso ou não? O tema vai bem a calhar porque Sócrates acabava de ser acusado de impiedade, por não venerar aos deuses existentes e criar novos, assim corromperia aos jovens... Por sinal, Eutífron também estava ligado a uma questão jurídica: acabava de acusar o próprio pai de assassinato. Um de seus empregados havia se desentendido com outro trabalhador e o matado. O assassino foi amarrado enquanto o pai de Eutífron foi a cidade saber o que deveria fazer com ele... Demorou em demasia e o assassino morreu. Eutífron dizia que era seu dever denunciar o próprio pai já que para os deuses não há diferença em ser parente ou não: o importante é a justiça. Esse é o mote do diálogo: Socrátes quer
saber como Eutifron tem tanta certeza sobre o que é ser piedoso, como sabe realmente que agrada aos deuses? Se Sócrates soubesse isso poderia livrar-se da acusação ante o tribunal...


Mas como sempre nos diálogos socráticos, a cada argumento de Eutífron surge a réplica de Sócrates, que mostra que ele pouco sabe sobre o que antes dizia ser seu conhecimento... quando Sócrates insiste em questionar Eutífron diz que não pode ficar, que tem mais coisa a fazer.. e vai embora.


Mais do que nunca, a filosofia parece ter retomado Sócrates: a sua idéia de diálogo é bastante atual... no entanto, me parece mais uma ideal. Hoje a liberdade parece consistir em fazer o que faz Eutífron: não discutir esse tipo de coisa, não colocar os preconceitos em jogo, não se meter em política... Ninguém tem tempo para ficar debatendo indefinidamente um tema como queria Sócrates: por isso pagamos por nossos representantes no parlamento...


Ainda assim Donald Davidson está certo (veja esse ótimo texto ):somente quando expomos nossas idéias podemos nós aperfeiçoar, lapidar nossos juízos para que sejam mais claros, perceber erros... deveriamos conversar mais. O engraçado é que hoje na literatura o que mais se aproxima do formato de diálogo são as entrevistas. De repente você lê uma entrevista de uma figura que escreve de forma obscura e nela o autor expõe as questões de maneira surpreendentemente clara... As entrevistas são sim um gênero que nos aproxima dalguma forma da filosofia... Mas quem dá entrevistas? Quem tem direito a palavra e que merece ser ouvido? Que tipo de questões são formuladas? Hoje a sociedade segue mais as imagens que brilham nas prateleiras do que as palavras de livros sagrados, hoje os jovens se identificam mais pelo som que escutam do que por alguma posição ideológica... Sócrates hoje deveria ser um pop star?... Parece que só essas figuras são questionadas sobre todos os temas, sobre valores morais, religiosos, políticos, ecológicos... Ou Sócrates teria um talk-show? Ou Sócrates não teria mais lugar?

Quando as armas químicas não estão lá... Quando os poemas nos enganam...

Quando as armas químicas não estão lá... Quando os poemas nos enganam...

Marcos Carvalho Lopes

Há poucos dias, assisti o documentário The Pervert's Guide to Cinema (de Sophie Fiennes, Grã-Bretanha/Aústria/ Holanda, 2006), apresentado pelo filósofo e psicanalista Slavoj Zizek (lê-se Slavói Chichec). Zizek é um pensador que tem se tornado popular por oferecer uma releitura da tradição marxista a partir de uma perspectiva que cria uma síntese entre Hegel e Lacan. Sua posição tinha tudo para ser excessivamente hermética, gerando um discurso difícil e assustador para a maioria das pessoas. Ocorre o contrário. Zizek conecta seu pensamento aos signos de nosso tempo, falando sobre eventos atuais, de jogos de videogame (como o Second Life), canções e, principalmente, de filmes.
Uma noção central para as análises de Zizek é a idéia de “paixão pelo Real”, que estaria presente tanto nos atos revolucionários quanto no terrorismo. Zizek aponta aqui para um antagonismo: existiria uma “má paixão” que defenderia a idéia de que “a única experiência potente é a experiência de transgressão, seja na figura da violência política, da sexualidade sadomasoquista etc”. Esta dimensão maléfica da paixão pelo Real estaria presente no “terrorismo e, por exemplo, na fascinação do revolucionário que, para defender a causa, não teme ir até o fim e fazer o trabalho sujo que vai contra os seus princípios morais privados.” Já o lado “bom” desta “paixão pelo real” estaria na valorização do espetáculo, do virtual, do cinema etc. O paradoxo é que o lado “ruim” e o lado “bom” da paixão pelo real estariam interligados hoje. Um exemplo dessa junção estaria no terrorismo: “por um lado, ele é resultado de uma paixão pelo real, paixão daqueles que afirmam: “vamos agir brutalmente”, mas seu efeito é de um grande espetáculo explosivo que nos fascina”.
O documentário pode servir de introdução para a leitura da obra de Zizek, até mesmo porque, grande parte de seus espectadores sentir-se-ão em dúvida: será que este psicanalista descobriu a “real” intenção dos cineastas (David Lynch, Charles Chaplin, Alfred Hitchcock etc.) ou ele está inventando tudo isso para encaixar sua teoria? Será que este espetáculo é mais real do que os outros? O autor, a partir de sua confortável posição de psicanalista poderia rir e afirmar que essas questões são mais uma manifestação de “paixão pelo real”. O espectador poderia rebater: “o mais apaixonado é você, assim como o diabo é quem mais ama Deus”. Este impasse não deve ter solução e sim servir como inspiração para que se leia a obra deste autor. A leitura de Zizek pode servir para que, com maior distanciamento, possamos compreender o que ele está querendo fazer com seu discurso. Fica a dica.

No documentário, uma das cenas que me instigaram, foi a da análise de Zizek da parcialidade das opções oferecidas a Neo em uma famosa cena de Matrix. Nela, o herói tem que escolher entre a pílula vermelha, que traria como efeito a revelação da Verdadeira Natureza da Realidade, e a pílula azul, com a qual permaneceria iludido pelas aparências, o “espetáculo” de vida virtual oferecido pelo “gênio maligno” da Matrix.
A idéia de que existe um “Real” esperando por ser desvendado estando sobreposto a uma grande ficção, um mundo de aparências, é um dos fetiches mais caros da modernidade.[1] Zizek prefere pensar numa terceira pílula, que fosse capaz de nos mostrar o quanto de ilusão e ficção são necessárias para cimentar a percepção de realidade. É esta intuição que vou tentar desenvolver a partir da canção Armas químicas e poemas (http://www2.uol.com.br/engenheirosdohawaii/player/player_armas.htm), dos Engenheiros do Hawaii.
Armas químicas e poemas foi lançada em 2004, no álbum Acústico MTV Engenheiros do Hawaii. Ela apresenta, já em seu título, um elemento de denúncia: a existência no Iraque de “armas químicas”, armas de destruição em massa, foi a desculpa utilizada pelos EUA para justificar, como ação preventiva, a invasão daquele país. A ficção fundou a realidade do conflito atual. Parece ser um nonsense a idéia de unir no título da canção “armas químicas” e “poemas”. Este tipo de aparente contradição é algo recorrente nas letras de Humberto Gessinger, servindo para apontar e provocar espanto com as coisas que não se encaixam muito bem: clichês inéditos, exército de um homem só, esquerda light etc. É esse tipo de jogo que parece surgir nos primeiros versos da canção:


“eu me lembro muito bem, como se fosse amanhã
o sol nascendo sem saber o que iria iluminar(...)”

Parece estranho a canção começar com esse nascer do sol que é também promessa: recordamos algo que ainda não ocorreu. O poema usa do artifício do “como se fosse”, da imaginação que cria analogias que não tem sustentação na realidade. São metáforas para tentar dizer algo ou fazer algo que não é comum. O poeta, como já sabia Platão (o maior de todos os poetas), institui a realidade. Á medida em que suas metáforas se tornam moedas correntes perdem o poder de espanto e tornam-se triavilidade: palavras gastas dão sentido ao literal.[2]  O poder do “como se fosse” nos faz olhar de modo diferente para o que é (ou está). Recordar algo que ainda não ocorreu? Saudade do futuro? Nossa sensibilidade romântica se manifesta na recusa de nos limitarmos ao aqui e agora. O horizonte só surge como esperança. Preenchemos o futuro com expectativas. “Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter...”.
O fato de nos relacionarmos com nosso próprio futuro, nos direciona para algo que consideramos como bom e nos levam a atuar. Se perguntam “Como você está?”[3], a resposta mais comum fala de um estado de ânimo, apontando uma perspectiva de julgamento em relação a existência como um todo, aos projetos e esperanças. A vida ganha sentido a partir desses sonhos de futuro, dessas promessas do que ainda não é. A letra continua:
“eu abri meu coração como se fosse um motor
e na hora de voltar sobravam peças pelo chão
mesmo assim eu fui à luta... eu quis pagar pra ver(...)”

O “como se fosse” reaparece na comparação do coração (do sentimento), com um motor (um mecanismo): no confronto entre o ideal e o real sobram “peças pelo chão”. Entre os sonhos e sua realização, existe uma distância, uma falha. Entre a satisfação oferecida pela propaganda e a realidade do consumo, entre as promessas de amor eterno e a busca de prazer constante, entre o “como se fosse” da poesia e o que é: sobram peças pelo chão. Ainda assim, o que nos resta é seguir em frente: pagar p’ra ver.
A letra segue:
“aonde leva essa loucura
qual é a lógica do sistema
onde estavam as armas químicas
o que diziam os poemas”(...)

Qual é a lógica do sistema que une a vontade de mudança e aquisição com a economia de consumo? A felicidade paradoxal do consumismo; a sede do heroísmo romântico, a busca pelo “real”. Filmes de guerra continuam lado a lado com canções de amor. Quando descobrimos que não existiam armas químicas, que os poemas não descreviam exatamente a realidade, o que nos resta a fazer? Criamos tantas expectativas em relação a um sonho e somos desmentidos pelo mundo. Quando se descobre que os dragões são moinhos de vento, quando Dom Quixote se torna também um mito...segue combatendo: é o que sabe fazer.

afinal de contas
?o que nos trouxe até aqui, medo ou coragem?
talvez nenhum dos dois
sopra o vento um carro passa pela praça
e já foi... já foi
por acaso eu fui à luta... eu quis pagar pra ver

Atrás das armas químicas existia o interesse pelo petróleo (o carro passa pela praça e já foi...). O que sustentam os poemas? Existiria amor atrás das promessas da poesia? Na insatisfação com o mundo que aí está, precisamos imaginar outro, mais real para nossos sonhos, para o sol de amanhã. Precisamos dessa dimensão utópica para “remar contra a corrente” (ou acreditar nisso). Precisamos alimentar a fé em nossas “causas perdidas”, sonhos sinceros...

“o tempo nos faz esquecer o que nos trouxe até aqui
mas eu lembro muito bem como se fosse amanhã

?quem prometeu descanso em paz
depois dos comerciais?
?quem ficou pedindo mais
armas químicas e poemas?”


Como diferenciar armas químicas e poemas? Existe diferença entre armas químicas e poemas? Ficção e realidade se cruzam, as águas se tornam turvas e a certeza é só uma: o mundo não tem legenda.


[1] Sobre esta questão vale a pena ler o texto do filósofo norte-americano Richard Rorty Fora da Matrix , em que ele, a partir da análise do filme, faz uma introdução ao pensamento de Donald Davidson.
[2] Interroga-se Nietzsche: “O que é verdade portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas.” (NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas. In. Os Pensadores. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 48).
[3] Fiquei intrigado com a diferença deste “Como você está?” em relação ao já mais desinteressado “Tudo bem [com você]?”. A segunda pergunta já pressupõe de modo forte uma resposta, já aponta para o que seria a resposta standard.

Luz, onde estão teus olhos

Luz, onde estão teus olhos
Marcos Carvalho Lopes


Ultimamente – depois de Nietzsche – é comum que se critique as perspectivas platônicas que permeiam a filosofia. É que as perguntas por essências atemporais levaram a filosofia para um caminho que parece hoje ter se tornado improdutivo: como lembra o filósofo norte-americano Hilary Putnam, ninguém pode alcançar a perspectiva de um “olho de Deus”. Mas, deve ficar a dúvida: Platão não era Platônico! É que hoje alguns identificam Platão com a figura do rei-filósofo, aquele personagem que no Mito da Caverna consegue contemplar a luz da verdade e volta para tentar libertar os que estão acorrentados em meio às sombras. Essa idéia de que o filósofo teria um acesso especial à Verdade tem uma dimensão mais religiosa do que algo que se possa justificar quando se mantém um diálogo aberto.
Mas o Mito da Caverna, como bem mostrou Heidegger, funda a autoridade da teoria, quando Platão, ao falar do caminho de ascensão do filósofo fala em verdade (aletheia), mas, quando se refere a volta dele para a caverna passa a falar em ortótes , a idéia de correção do olhar: o sábio deveria corrigir o olhar dos acorrentados de modo a levá-los a direcionar-se para a luz do saber. Não é um diálogo: o filósofo tem autoridade porque sabe onde está a Verdade! Teoria seria contemplar o que é, olhos humanos deveriam se voltar para as essências ao invés de ficar preso as aparências. Ficar preso às aparências seria ficar preso às coisas fugidias, a vida prática: a vida do filósofo deveria ser contemplativa, ou seja, sua função seria olhar o mundo. 
Pense num professor que faz seu mestrado/doutorado no exterior e volta para o Brasil para dirigir o olhar de seus alunos para as verdades mais reluzentes. Pense na necessidade que existe de justificar qualquer trabalho recorrendo-se a certo cânone que, nos garantiria acesso à verdade: o negócio nesse jogo de ócio não é debater idéias, mas citar gente que concorda com a gente. Como diz o professor Valdir Heitor Barzotto a fórmula parece ser citar três estrangeiros, um brasileiro que se alinha a um estrangeiro, outro que discorda e pronto. Mestrado e Doutorado garantidos por ter dado prova de poder olhar para a luz que advém do exterior. Nossa cordial desconversação! Um exotismo inventado...
Fazer teoria é dirigir o olhar para algum lugar. Então deveríamos parar de tentar fazer teoria, parar de tentar atingir essências absolutas e passar a conversar, a aceitar o debate e o diálogo. Assim como, a imperfeição do inacabado, o acaso que sempre pode acenar. Assumiríamos, assim, nossa finitude e, com ela, a finitude de tudo o que é humano. Os que nos pedem para tentar esse outro caminho, de dialogo, pedem que abandonemos as metáforas visuais: ver, contemplar etc.; já que não existe nenhuma Realidade pura e imaculada para ser desvendada. A marca da serpente humana está em toda parte...
Se a idéia é dialogar, podemos partir de qualquer elemento de nossa cultura. Ao invés de tentar falar todas as línguas vivas e mortas, poderíamos dialogar a partir de diversas linguagens.  É o caso desse texto: decidi fazê-lo depois de ouvir a demo de uma canção dos Engenheiros do Hawaii – leia-se Humberto Gessinger. A letra de Luz põe em cena essa necessidade do olhar que permeia nossa cultura:


Onde estão teus olhos
agora que tô bem na foto
agora que achei o foco
onde estão teus olhos

sem eles não existo
fico cego invisível
queimo o filme rasgo a foto

onde estão teus olhos
agora que domei a fera
agora que a dor já era
onde estão teus olhos

sem eles não existo
fico cego invisível
só enxergo o silêncio

juntos para sempre
objeto e observador
física moderna
velhas canções de amor

onde estão teus olhos(2x)
longe deles nada existe

(solo de gaita)

onde estão teus olhos(2x)
longe deles nada existe 



Luz é uma metáfora recorrente na tradição filosófica para se falar em razão. Trazer à luz algo para que possa ser visto: teorizar tudo e dominar qualquer acaso! Somos os observadores que querem objetificar tudo, reificar tudo a nossa volta. É isso que a modernidade quis; matematizar a realidade, partindo do Plano Cartesiano, da física moderna de Newton etc., inspiraram-se em buscar a função que descrevesse toda a Realidade (noutra das canções demo divulgadas por Humberto Gessinger a letra de Pra quem gosta de nós diz: “Mapearam o genoma/ O acaso vai dançar/Sem a senha só em sonho/ Impossível disfarçar”).  Mesmo a relação amorosa na modernidade passa a ser crivada desse ideal; o romantismo amoroso em sua contradição fundamental denunciada por Jurandir Freire Costa:  ao tentar combinar “amor eterno” e “prazer constante”. Sem esse olhar de autoridade poderíamos sobreviver?
Quando pensamos na prática, as teorias que buscas princípios eternos acabam, mais cedo ou mais tarde, sendo refutadas pela realidade. Deveríamos então ser mais flexíveis e abandonar essas questões platônicas por essências. Saber e querer não bastam: o difícil é agir e aí, nenhuma teoria pode nos salvar de nossa própria contingência. Humanistas tem fome, diria Quincas Borba. Melhor dos mundos: impossível...

Por outro lado, acho que esse ataque às metáforas visuais é um tanto vazio. Não podemos deixar de ter esse sentido, tais metáforas correspondem mais a nossa condição física do que a qualquer teoria. Deveríamos arrancar os olhos, como Édipo, para viver sem complexos? O olhar também é uma forma de identificar-se com o outro. Olhar nos olhos, olhar para o chão, os olhares das personagens de Machado de Assis... o olhar tanto transformar em pedra quanto dar vida. Precisamos ouvir o silêncio, sentir as diferenças, farejar novidades? Sim... Mas não vejo nada intrinsecamente negativo nas metáforas visuais se tomamos alguns cuidados para não repetir antigos erros. Lembro de um poema de Camões, nosso poeta que perdeu um olho, que diz algo que me interessou:
MOTE
Pus o coração nos olhos
e os olhos pus no chão
por vingar o coração.

VOLTA
O coração envejoso
como dos olhos andava,
sempre remoques me dava
que não era o meu mimoso.
Venho eu, de piadoso
do senhor meu coração,
boto os meus olhos no chão.

Os olhos podem, nesse caminho de identificação, levar uma pessoa para habitar nosso coração. O que trazemos dentro do peito. É o que temos respeito. Olhemos então os problemas que nos comicham todos os dias: não faltam motivos pra se respeitar nossas vidas finitas e humanas.

Dar sentido p’ra existência: um esporte (extremamente) radical


 Dar sentido p’ra existência: um esporte (extremamente) radical

Marcos Carvalho Lopes


Neste trabalho tento olhar mais de perto a canção Esportes Radicais do álbum Surfando Karmas e DNA. É uma continuação do texto acerca de Novos Horizontes (feito no mesmo dia).

Um detalhe que me chamou atenção no encarte foi a forma de diagramação da letra. Parece-me que ajuda a compreender o que está em questão. Então, citarei a letra com seus negritos e itálicos originais seguindo e comentando parágrafo por parágrafo. Trata-se de uma interpretação. Seu objetivo: um experimento de pensar...

A letra começa:

preso no trânsito de astros imóveis
faço as contas na ponta do lápis
e nada faz sentido


Pode-se pensar de início que esses versos não fazem sentido: “trânsito de astros imóveis?” Seriam esses “astros imóveis” elementos do star system de nossa sociedade de espetáculo? Não sei. Sigo em outro caminho com espírito de Parsifal: Kant, o grande iluminista alemão em sua crença imperturbável na razão, afirmava que nada lhe causava mais admiração  do que “o sol estrelado sobre mim e a lei moral em mim”. Kant tendo como pressuposto a física de Newton, tentou pensar um conjunto de regras éticas que deveriam conduzir o homem em sua existência. A idéia era conseguir a mesma necessidade da física de Newton: assim com a lei da gravidade vale para todos os corpos, a lei moral deveria se impor a todos os seres dotados de razão. O grande problema estaria em como submeter a vontade humana a essas leis da razão. Se Kant tivesse chance de ver o dano causado pelo fascismo/nazismo provavelmente seria mais cético quanto ao poder e sentido da racionalidade humana...
De qualquer forma, hoje não faz mais sentido pensar numa “ordenação cósmica” de valores imutáveis e eternos que possa orientar a vontade do homem. Como sabemos por Novos Horizontes o universo segue em movimento, em expansão. A analogia entre o universo ordenado da física newtoniana e o formalismo da ética kantiana, fazendo “as contas na ponta do lápis”, não faz mais sentido. Provavelmente as referências do compositor são diferentes, mas acredito que essa primeira estrofe aponta para a ausência de uma racionalidade universal hoje... a letra segue


adrenalina é uma menina dormindo
dançando em silêncio imaginando um reggae
cansei de alimentar os motores
agora quero freios e airbag
pois nada faz sentido

Essa segunda estrofe trataria das emoções. O tema é introduzido com a palavra ‘adrenalina’.  Por um lado não faz sentido manter uma postura passiva, apática... por outro, não faz sentido entrar no jogo dos “esportes radicais” buscando na promessa de aventura e velocidade sua dimensão mais destrutiva: “cansei de alimentar os motores/ agora quero freios e air bag”. No entanto, nada aqui faz sentido.


se capricórnio fosse câncer, se Califórnia fosse França
a rampa que lança o skate ao céu seria nosso chão
180, 360, 540 graus, girando, esquentando
só pra ver até quando o motor agüenta o caos

Se: entramos no universo da suposição. Poderia ser o mundo diferente?! Qual diferença a letra postula: a adrenalina do esporte radical estaria em nossa vida cotidiana como intensidade e não como desperdício e auto-destrutividade. Por isso o refrão anuncia:


não vou ficar parado, não vou passar batido
se nada faz sentido, há muito que fazer

Não deveríamos nos entregar a apatia e ao comodismo, nem nos deixar dominar pelas emoções (por vezes destrutivas ): se o mundo parece não ter sentido, devemos construir um sentido: existe muita coisa para fazer.
Isso é posto na canção como uma necessidade:

não há alternativa, é a única opção
unir otimismo da vontade e o pessimismo da razão
contra toda expectativa, contra qualquer previsão
há um ponto de partida, há um ponto de união :
sentir com inteligência, pensar com emoção

A única opção que temos estaria em seguir o exemplo de determinação dado pelo filósofo italiano Antonio Gramsci que, preso pelos fascistas e padecendo com diversas doenças nunca se curvou diante da situação totalmente desfavorável, pelo contrário: no cárcere por dez anos, produziu de maneira incessante (o que resultou em mais de 4 mil páginas de um trabalho de filosofia política, profundo e original ). Tentando descrever o estado de animo que o cárcere lhe proporcionou Gramsci utilizou uma frase do escritor francês Romain Rollain, mostrando que trazia juntos “o pessimismo da razão e o otimismo da vontade”.
O trabalho de Gramsci levou o marxismo a superar o determinismo econômico, o direcionando para uma transformação intelectual e moral da sociedade. Seria necessário “lutar” para construir uma nova cultura, um novo humanismo “com base na crítica dos costumes, dos sentimentos, das concepções de mundo, da estética e da arte.” É no sentido dessa transformação que Gessinger repete:

não vou ficar parado, não vou passar batido
se nada faz sentido, há muito que fazer

Sobre essa canção Humberto Gessinger disse que lhe parecia uma continuação de Infinita Higway: se naquela canção temos o existencialismo-beat afirmando que “a estrada é a vida”, Esportes Radicais esclarece a direção a ser seguida.

13/06/2006