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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Ouvindo Utopias

o filósofo autodidata brasileiro (tcheco naturalizado) multiplicando perspectivas


“Já sem se sentir cansado, Henry se afasta da parede onde estava recostado e caminha para o meio do auditório escuro, na direção da grande máquina de som. Deixa que o som o envolva. Existem esses raros momentos em que, juntos, músicos atingem algo mais doce do que tudo que já obtiveram antes, nos ensaios e nas apresentações, algo além da mera competência técnica e cooperativa, quando a expressão deles se torna tão fácil e elegante quanto a amizade ou o amor. É então que nos proporcionam um relance do que poderíamos ser, do que temos de melhor, e de um mundo impossível em que damos para os outros tudo o que temos, mas sem perdermos nada. No mundo real existem planos minuciosos, projetos visionários de reinos de paz, todos os conflitos resolvidos, felicidade para todos, para sempre – miragens em nome das quais as pessoas estão dispostas a morrer e matar. O reino de Cristo na terra, o paraíso dos trabalhadores, o estado islâmico ideal. Mas só na música, e só em raras ocasiões, a cortina, de fato, se levanta para esse sonho de comunidade, e ele é evocado de forma fascinante, antes de se dissolver junto com as últimas notas”.[1] 
Este trecho do romance Sábado do escritor britânico Ian McEwan fala de uma utopia estética passageira, porém marcante, que só seria possível pela música. A canção seria capaz de nos transmitir uma forma de harmonia e sentimento de identificação que faria com que, por instantes nos sentíssemos congregados em uma comunidade unida por um sentimento fraterno de amor ou de amizade. Aqui a palavra Utopia adquire um sentido não-usual, já que, de Thomas Morus a Karl Marx, esta forma de ideal sempre pede a anulação do "eu" em favor de um "nós" que se espera construir. A teoria utópica fundamentaria essa nova realidade. O tipo de utopia que o trecho de McEwan parece propor não tem letras maiúsculas, não pede este apagamento do "eu", mas seu prolongamento, numa perspectiva que poderíamos chamar de lírica (seguindo Emil Staiger e o trabalho de Renato Janine Ribeiro sobre Chico Buarque de Hollanda) ou liberal (tomando por referência Richard Rorty). Assim, teríamos não uma Utopia fechada em uma Teoria que deveria ser realizada, mas sim, uma forma de esperança, uma fé que pode servir de inspiração, mas não trás todas soluções e respostas definidas. Uma experiência como a descrita no trecho citado, faz crer que a cooperação que os músicos conseguiram para realizar sua arte poderia ser prolongada para a sociedade.
McEwan sabe que as pessoas geralmente não vão concordar sobre quando e onde esse tipo de experiência aconteceria: para alguns na música, outros na dança ou no esporte, outros a partir da literatura etc. Há ainda os que não acreditam talvez nem acreditem que tais momentos de utopia lírica sejam  realmente factíveis.  Para que se conceba a possibilidade do evento descrito por McEwan é preciso aceitar que a música proporcionaria uma espécie de de experiência religiosa. Porque, se real é aquilo no qual acreditamos, o “senso de realidade” não deixa de ser, como ensinou Vilém Flusser, sinônimo de “religiosidade”.[2] A palavra religião significa algo que nos religa a realidade, que nos faz retomar o sentido do mundo, a canção seria um forte instrumento para promover esse tipo de sensação. Mas, o que hoje formula nosso “senso de realidade”? Durante muito tempo nosso "senso de realidade" foi moldado por livros sagrados, que para sua divulgação por meio das religiões, utilizavam (e utilizam) a arte como forma de apresentar sua descrição da realidade como o Real. A crença em livros sagrados nos oferecia um fundamento da Realidade. Hoje  tal descrição não se sustenta, já que com o desenvolvimento técnico-científico a crença de que alguma obra poderia conter dentro de si todas as respostas perdeu força (ou teve seu sentido deslocado). Cotidianamente não são mais estes livros que formulam o que aceitamos como factível. Nosso senso de realidade é alimentado tanto pelo desencantamento promovido pela ciência, quanto por imagens na televisão, no cinema, na internet, em canções, em jogos de videogame, na literatura de auto-ajuda etc. De tal forma que as crenças são cada vez mais contingentes e menos "sagradas"., sem a aura de algo imaculado que justificaria nossa existência com uma resposta definida. Alguns vêem nesse contexto a formação de uma impossível sociedade de ciclopes, que com o empobrecimento da percepção cotidiana de Realidade, se conduzem cada vez mais através de perspectiva egoistas e tacanha, sem o vinculo, o compromisso com o que é comum. Os laços de amor e amizade não são tomados como parte efetiva da vida social a não ser como miragens. 
Para Flusser “somos seres em transição e em busca do futuro”, na medida em que “com nosso intelecto ainda somos modernos, mas com nossa religiosidade já participamos de uma época vindoura”[3]. O anúncio de Flusser de uma época vindoura, tráz uma utopia teórica que pode parecer irrelevante para muitas pessoas que acham esse “papo de filosofia” mais “conversa fiada”. Estes preconceitos de principio não devem ser empecilho para que aprendamos a dar de ombros para as diferenças e promover formas de convivência em que possamos respeitar e aceitar as escolhas e crenças de outras pessoas. O trecho descrito por McEwan justifica uma utopia fraca, que nada mais sustenta do que a inspiração para pensar neste projeto como algo comum. Vale a comparação entre a religiosidade, musicalidade e filosofia: existem pessoas mais e menos aptas para buscar o sagrado, existem pessoas com maior ou menos aptidão para tocar um instrumento ou apreciar sons, assim como, pessoas que tomam questões filosóficas como fundamentais e outras que as acham irrelevantes. Por isso, independentemente de onde encontremos os momentos poéticos de nossa vida, algumas pequenas coisas podem aumentar nossa fé nessa possibilidade de utopia de convivência hospitaleira para com as diferenças. Nestes momentos, que são sempre um desafio para a linguagem, aceitamos que conviver é caminho para crescermos, para nos tornarmos melhores e mais sensíveis para com a dor de outros. Então preferências musicais, religiosas, filosóficas etc., são irrelevantes porque o sentimento de simpatia faz com que leiamos com amor a presença do outro, como quando namorados seguram as mãos e com este gesto, com um olhar, sabem se entender e inventam caminhos e prazer em viver juntos.

P.S: A Carmélia leu a primeira versão do meu texto e teve o carinho de mostrar como estava confuso, fez sugestões e inspirou a tentativa de reescrever e tentar ser menos leviano. Obrigado pelo cuidado de inventar sentido para meus mal entendidos!



[1] McEwan, Ian. Sábado. Trad. Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p.208.
[2] FLUSSER, Vilém. Da religiosidade: a literatura e o senso de realidade. São Paulo: Escrituras, 2002. p.13
[3] Idem. p.21.

terça-feira, 6 de julho de 2010

sobre engenheiros do hawaii e uma(s) filosofia(s)



Postei no issuu uma prêvia do ensaio que estou  escrevendo sobre o Pouca Vogal. Deve ser uma continuação do que antes escrevi sobre os Engenheiros do Hawaii. Os textos que havia 'juntado' num pdf que chamei Engenheiros do Hawaii: da engrenagems à mandala estavam disponíveis no Overmundo. Retirei este pdf de lá quando o blog que mantinha no overmundo foi deletado. A idéia era corrigir uma série de erros de português e até algumas idéias atravessadas. (o principal esta na página 58, onde se diz que para Rorty as "imagens teriam maior poder de convencimento do que as narrativas" deveria estar que "as narrativas tem maior poder de convencimento que as teorias. Erro grave. de  quem não faz revisão). Mas, alguém postou o antigo pdf no Scrib... então uso esta postagem para colocar de novo aqui (avisando desta minha insatisfação com essa versão do texto e prometendo uma melhor ou quiça um livrinho sobre demanda alinhado a disponibilização na net...).
Minha idéia é juntar tudo numa versão final. Para essa "versão final" já entrevistei o Carlos Maltz e estou planejando alguns ensaios. Este sobre o Pouca Vogal deve ser um tanto maior... etc.

sábado, 3 de julho de 2010

A filosofia e o desafio da realidade


A filosofia e o desafio da realidade
Marcos Carvalho Lopes

Qual seria a medida para o desafio de ensinar filosofia no ensino médio noturno, num colégio em que você vê um aluno que, por ter comprado livros didáticos (de português e de matemática ) é criticado pelos colegas de sala por ter “gasto dinheiro à toa”? Criticas essas que não advém de nenhuma ignorância, mas do instinto de sobrevivência de quem recebe salário-mínimo; de quem trabalha o dia todo e à noite vai à escola sem a ilusão de encontrar ali um instrumento de emancipação. Some-se a isso, um contexto educacional em que, para fazer jus as estatísticas, confunde-se quantidade com qualidade: as escolas devem atender a maior quantidade possível de alunos, oferecendo para eles “ensino”, o que, do ponto de vista da administração (a que as escolas estão submetidas, dentro da lógica capitalista de buscar sempre o lucro ), significa aprovação. O quadro fica completo com a inclusão de alguns alunos que são analfabetos funcionais, vitimas (ou frutos) de programas de aceleração de ensino falhos.
A filosofia, que nasce do ócio, deve perder nesse contexto todo o seu ranço aristocrático-platônico e abrir-se para o diálogo. O máximo que podemos pedir da filosofia é isso: abertura para a realidade, ou seja, para falar sobre os problemas enfrentados pelos alunos, para incluir temas que os toquem. Se hoje vivemos governados por imagens, pela mídia e seus “ídolos”, acho que esse é o caminho que devemos tomar para começar a filosofar com nossos alunos. Por isso, escolhi como um grande aliado para esse trabalho a música, partindo de letras que incluem temáticas filosóficas. A tentativa é surpreender os alunos, mostrando que naquilo que lhes toca esteticamente existem reflexões que, na maioria das vezes passa despercebida.
Por exemplo: a cantora baiana Pitty, a pouco tempo, lançou uma música chamada Lobo, que no refrão repete a frase de Thomas Hobbes “o homem é o lobo do homem”. Por que Pitty diz isso? Que relação tem a música com a teoria de Hobbes? Que sentido a teoria de Hobbes pode ter no mundo atual? Podemos partir da música para apresentar uma teoria política complexa (e, mesmo, para mostrar até que ponto o artista se afasta do autor que “usa” ).
Não se trata de um exemplo isolado. É uma característica de diversas bandas do chamado rock nacional, tentar articular um discurso coerente partindo de referências filosóficas. É claro, não se trata de “filosofia pura”, mas de citações filosóficas que podem servir de instrumento para aguçar a curiosidade dos alunos para a filosofia. Não devemos ter medo de ferir a sacralidade da filosofia partindo de músicas, cinema, novela, etc. Se a filosofia nasce do ócio, esse é o caminho para pensar nossa realidade. Ou teremos que nos render as palavras de Caetano Veloso, que nos anos 80 provocava os pensadores tupiniquins dizendo que, “se você tem uma idéia incrível, melhor fazer uma canção/ já está provado que só é possível filosofar em alemão”.
Nesse caminho, devo lembrar de dois riscos que devemos estar dispostos a enfrentar. O primeiro, pode ser ilustrado por uma música dos Engenheiros do Hawaii chamada Fusão a Frio que diz: “ninguém sabe como serão os filhos desse casamento/ indústria da informação + indústria do entretenimento, / Promessas de fusão a frio, diversão e conhecimento, / a única escolha que temos é a forma de pagamento”. Ou seja, o risco é transformar a filosofia em mais um “produto”, em mais uma imagem: não podemos esquecer que estamos tentando usar a música para filosofar, e não o contrário. Precisamos então ter claro qual é o nosso objetivo e, se pudermos alcançá-lo combinando diversão e conhecimento, tanto melhor.
O segundo risco é o de fracassar. Podemos preparar uma aula que consideramos muito boa e, no entanto, fracassar. Como na filosofia não temos “conteúdos fechados”, o professor está sempre em jogo, e, por isto mesmo, não deve ter medo de errar. Em certo sentido errar é essencial: é estar à caminho, é arriscar-se e estar aberto para também acertar. A filosofia exige que se assuma esse risco, que se torna menor na medida em que cada professor consegue aperfeiçoar seu próprio método.
O Brasil começa a se acostumar com a Democracia e também desperta para a idéia de que precisa se reinventar enquanto sociedade também democrática: a Ditadura não veio de Marte, nem a corrupção, nem a desigualdade social etc. A cultura deve ser questionada caso se queira criar alternativas e caminhos de transformação. Não acredito que a filosofia, tomada como produto de erudição ou como questionamento escapista, possa contribuir para a democracia. O desafio do diálogo com a realidade é algo de que a filosofia não pode se furtar.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Mafalda e a questão: Qual o melhor método para a alfabetização?



Essa charge de Mafalda, personagem do cartunista argentino Quino, demonstra bem a ansiedade que existe tanto por parte dos pais, como por parte das crianças, em relação ao ensino da escrita. É comum ver as crianças que ainda não chegaram à idade escolar “brincando de escrever”, fazem isso porque sabem que esse tipo de brincadeira é bem visto pelos pais: trazem sempre seus rabiscos para que esses aprovem e incentivem. Porém, quando esse jogo deixa de ser brincadeira surgem sérias dúvidas: qual seria o melhor método de alfabetização?

Mafalda se irrita porque seu amigo em um dia inteiro na escola ainda não aprendeu a escrever: para ela a culpa é dos “malditos burocratas”. Embora seja um exagero, a indignação de Mafalda tem seu lado humorístico justamente por apontar para uma critica que comumente fazemos ao ensino. Na medida em que as técnicas de administração avançam sobre o ensino, buscando maior eficiência, aumentam o risco de se promover uma “sociedade de total administração” que emperra as possibilidades de inovação e reduzem as diferenças.

A educação no Brasil vive, no início do século XXI, presa a uma perspectiva do século XIX: continuam esperando encontrar o método que promoveria a redenção do ensino e fariam os alunos perceberem “a realidade como ela é”. Pretendem encontrar na metodologia uma “formula mágica” que crie alunos críticos e preparados para enfrentar o mundo globalizado. Desta forma, novos e velhos métodos de ensino disputam o lugar de profetas de uma educação ideal. As novidades do ensino são impostas pelas instituições de ensino como o que pode salvar a educação: tudo o que é diferente passa a ser censurado. Quando se pensa em alfabetização a disputa ocorre entre os defensores de métodos globais, em que se ensina a ler textos de modo holístico, e os que mantêm seus antiquados métodos silábicos. O tradicionalismo silábico descontextualizado (de “Ivo viu a uva” etc.) esta na ponta de um espectro que tem no outro extremo uma forma de contextualismo radical: os que procuram métodos para encontrar “a verdade como ela é” se prendem a fazer caricatura de seu opositor e perdem tempo com essa disputa inútil.



O método silábico tomado de modo descontextualizado parece muito árido e pouco interessante: seria incapaz de prender a atenção da criança. Porém, essa é uma caricatura. O método silábico não precisa ser ensinado desse modo e ele possui vantagens que o método de ensino através de textos mão consegue superar. Por exemplo, se a criança tem dificuldades de fala e confunde a relação entre certos sons e seus correspondentes gráficos, como ajudá-la com esse problema sem recorrer ao método silábico?

O professor hoje que utilizar procedimentos do método silábico provavelmente seria repreendido pelas instituições de ensino, e, no entanto! Então, para ajudar seus alunos, fazem isso as escondidas, fugindo do padrão de apostilamento que cada vez mais se anuncia na educação.

O problema aí não está em escolher um método ou outro, mas sim em tomar essa escolha como algo rígido, sem espaço para a imaginação. Mesmo ao lidar com narrativas, ou tomar narrativas como forma de ensino, podemos cair num conservadorismo que é, na verdade, falta de criatividade, como nos ensina Mafalda nesta tira:



Já passou da hora de perceber que os alunos não são todos iguais e que o processo de ensino não precisa ficar preso a uma determinada matriz teórica. Os pais e responsáveis devem ficar atentos para perceber as dificuldades de seus filhos e ajuda-los a superá-las. Ao professor cabe a infindável tarefa de tentar equilibrar as demandas e desenvolver uma forma de ensino que proporcione aos seus alunos melhores resultados. Não existe um método infalível e não existe formula mágica: é preciso aprender a lidar com a incerteza e estar pronto a tentar novos caminhos ou retomar antigos, se esses se mostram mais adequados. Métodos devem ser vistos como ferramentas e não como armaduras que enclausuram o saber e criam à autoridade que, de tão sábia, não pode mais aprender (nem ensinar!).

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Tropa de Elite: Estado de Exceção e periferias sem lei



“O que sentem repugnância pelo vagabundo que encontra na rua simpatiza de todo o coração com o vagabundo Carlitos, no cinema. Enquanto na vida cotidiana, somos quase indiferentes às misérias físicas e morais, sentimos a comiseração, a piedade e a bondade, ao ler um romance, ao ver um filme.” Edgar Morin

No sábado, dia 16 de fevereiro de 2008, o filme Tropa de Elite recebeu em Berlim o Urso de Ouro, como melhor filme no prestigiado Festival de Cinema daquela cidade. O prêmio foi entregue pelo presidente da comissão julgadora, o diretor franco-grego Constantin Costa-Gravas, famoso por fazer filmes de denúncia política, como Estado de Sítio (1972) em que criava um país imaginário para fazer uma alegoria do estado de exceção então existente em diversos países da América Latina com suas Ditaduras, nas quais a legitimação da tortura e o desrespeito aos direitos individuais haviam tornado-se regra. Não por acaso, em segundo lugar no mesmo festival, foi premiado o documentário de Ersol Morris, Standart Operating Procedure, que tratava da tortura de presos iraquianos no presídio de Abu Ghraib.
Diferentemente do Estado de Sítio descrito por Costa-gravas na década de setenta, advindo da instituição da repressão, os dois filmes premiados nas primeiras colocações em Berlim, tratam da migração do Estado de exceção para as periferias das grandes cidades, assim como, dos abusos do uso da “violência preventiva”, que marcam a estratégia de luta contra o terrorismo em termos globais defendida pelos EUA depois dos ataques de 11 de Setembro de 2001. Trata-se agora de contextos formalmente democráticos onde a violência e a tortura são denunciadas. Como aponta o filósofo Giorgio Angambem, é como se hoje se multiplicassem “campos de concentração”, que excluem seres humanos, a tal ponto que qualquer ato cometido contra eles não seja considerado um delito. É assim que são tratados muitos dos que vivem nas periferias das grandes cidades (só das grandes cidades?), é assim que os EUA mantêm presos políticos sem julgamento em sua base militar em Guantánamo, é assim que os muçulmanos são tratados por Israel etc.
Estes exemplos de segregação apontam para um perigo que não está tão distante de nós: os excluídos de nossa sociedade de consumo muitas vezes são tratados de forma semelhante. É assim nas penitenciárias (onde meninas podem ficar presas junto a homens ante a indiferença dos que aplicam as leis), é assim que muitas vezes se trata os trabalhadores sem terra, ou os índios, os que habitam a fronteira de nossa civilização e são considerados perigosos. Os que não podem comprar a boa vida proposta pelo mercado, os consumidores falhos, são os novos impuros a ameaçam a ordem da civilização atual.

Como os educadores podem lidar com esse tipo de questão? Eles podem lidar com esse tipo de problema? Antes eles precisam enfrentar as pressões no sentido de tornar a educação também um produto e não um direito. Esse processo de transformação de direitos em privilégios atingiu em cheio o sistema de saúde públicos do Brasil: para ser (bem) atendido em um hospital é necessário ter um plano de saúde qualquer. A educação pública, ameaçada por uma visão administrativa que privilegia a quantidade, deixa os que querem qualidade livres para procurar escolas privadas: e multiplicam-se os programas de aceleração de ensino, emergenciais que se tornam permanentes etc.
Para tentar sobreviver a esse processo de instrumentalização temos que buscar ressaltar a dimensão humanista do saber. Devemos tentar contar histórias que ressaltem as diferenças sociais e de costumes e possam servir para ampliar nosso horizonte de identificação moral. Somente pela mobilização dos sentimentos podemos construir pela educação a possibilidade de identificação/ projeção que torne possível a aceitação do outro como um de nós.
A idéia de identidade planetária leva em conta o destino comum que todos nós como seres que vivem num mesmo planeta compartilham. No entanto, seu apelo torna-se vazio quando não são oferecidas as mínimas condições de cidadania. A justiça é um fator de sociabilidade e aponta para nossos horizontes de lealdade. Sem certas condições mínimas de existência não poderemos perceber o outro como um mesmo, e, assim o ressentimento dos excluídos tende a explodir de modo violento. E justificado?

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Novas divas e Complexo de Épico



Num artigo entitulado “Novos ricos da música” o filósofo, cantor e compositor Henry Burnett avalia o surgimento de novas divas da MPB e o papel que estas ocupariam no panorama atual da música popular. Para tanto, procurar fazer ponderações acerca da estratégia de condução da carreira dessas intérpretes. Tomando dois exemplos, constrói uma espécie de espectro, entre as que se prendem a um canone clichê de fácil assimilação (Mônica Salmaso, cantando Chico Buarque em seu Noites de Gala, Samba da Rua (Biscoito Fino, 2007)) e outras que apostam numa veia mais autoral, flertando com um pop sofisticado, sem atingir a qualidade da tradição na qual parece querer se vincular (seria o caso da cantora Céu).

Burnett cria o conceito de ouvinte de elite, um público consumidor de MPB, que a mantém como um nicho aristocrático, produto refinado que marca status social (este novo ouvinte talvez pudesse ser confundido com a idéia de “novo rico”). A MPB não fala hoje para todo mundo como na década de 60, tornou-se um segmento de mercado, acomodado a um modelo bem comportado, sem potencial transgressor, que se prende a repetir certo canône. O autor como pressuposto a idéia de que hoje o potencial de transformação social estaria confinado ao rap. Burnett ataca a sofisticação do trabalho de Salmaso e do grupo Pau Brasil por dar "ao seu público novas razões para achar rap coisa de pobre". Para ele, ouvir Chico Buarque pela interpretação de Salmaso seria uma forma de renovar nossa incapacidade para o reconhecimento do novo. Por outro lado, critica Céu por sucumbir também aos anseios de um mercado hierarquizado.

Para Burnett as novas divas poderiam continuar a “linha evolutiva” da MPB (“o movimento natural da música popular com seus novos ritmos e artistas, frutos do seu tempo”) na tentativa de “refletir seu tempo em canção”. Como fazer isso? O autor não oferece uma resposta, mas cita “Brasileirinho” de Maria Bethania como uma aula acerca da essência perdida do país. (É interessante lembrar que esse trabalho de Bethânia foi utilizado, com sucesso, pela professora de filosofia Vânia Correa Pinto em uma escola estadual do Rio de Janeiro para promover uma investigação sobre a identidade cultural do país). O importante para ele é que o conceito de “qualidade musical não seja considerado um bem de elite”: seria preciso devolver a MPB ao povo.

Burnett, de passagem, ataca os bem intencionados programas da rede Globo de antropologia musical, que serviriam para manter as coisas como estão (e desconsidera a contribuição positiva de programas como Som Brasil e Por toda a minha vida...)... Ataque rápido, que serve para construir seu "quadro negativo", mas que não se fundamenta nem aponta para qualquer caminho reformador.

O artigo de Burnett demonstra certa urgência - que já aparecia nos textos do Coletivo MPB alguns anos atrás, A morte e a morte da canção e Chega de Saudade)- em promover uma cruzada para resgatar as virtudes místicas da canção: seria uma necessidade reconhecer o lugar e a qualidade da MPB dentro de um quadro maior da cultura, assim como, resgatar o potencial transformador de nossa música popular.

Confesso que não deixo de enxergar aí certa nostalgia platônica, como a presente na tentativa do poeta Paulo Martins, protagonista de Terra em Transe de Glauber Rocha, de unir Beleza e Justiça, em seu gesto suícida e patético de sozinho tentar resisitir ao golpe conservador de Porfírio Diaz. Sua sede de absoluto oculta uma inconfessa ânsia por privilégio e poder, que faz parte do autoritarismo de uma perspectiva filosófica que acredita ser capaz de determinar teleologicamente a direção da História. Os pressupostos da arte engajada e voltada para um populismo iluminado foram questionados de modo radical neste filme de Glauber.

Provavelmente esse tipo de excesso de expectativa faz parte mesmo do lugar importante que a MPB ocupa no imaginário nacional: mesmo os tropicalistas ao denunciarem o Complexo de épico de nossa canção popular não deixaram de traduzir este mesmo complexo. Isso também faz parte da filosofia que em seu movimento de questionar o saber de forma radical não pode se furtar ao impuso de ocupar um lugar privilegiado para além do saber. É dificil resistir ao impulso de ser também Paulo Martins, e este desafio continua importante quando se pergunta sobre o lugar da arte, especialmente da música, em nossa cultura.

A MPB possui mesmo uma perspectiva republicana, de preservar certo bem comum, já que, para funcionar, prescinde de algum tipo de concepção sobre o “ser do Brasil”. A possibilidade de algum conceito desse tipo é hoje cada vez mais infundada. Se a MPB é hoje um segmento de mercado e não mais reflete esperanças utópicas de transformação épica provavelmente isso se deve a possibilidade de acesso a meios mais prosaicos de fazer política. Como a democracia caminha na direção do desejo popular, a diversidade de gostos e etiquetas para a música que se produz no país deveria ser percebida como um sinal positivo.

O que, para alguns que conhecem profundamente a MPB, pode, a primeira vista, surgir como redundante, pode servir para que novas gerações entrem em contato com uma tradição que é rica e precisa ser constantemente reiventada e reafirmada. O lugar mítico da MPB em nossa cultura depende disso. Estas novas leituras podem também trazer um potencial político insuspeito. Na década de 70, para diblar a censura, Chico Buarque se lançou como intérprete cantando canções de outros compositores no dico Sinal Fechado. Cantar uma composição da década de 30 como Filosofia de Noel Rosa no contexto político da Ditadura trazia naquele contexto um sentido novo para a antiga canção. Pode ser mesmo um ato político retomar o repertório de tempos menos prosaicos quando existia maior esperaça utópica e a distância entre público e privado era menor. Olhando para o passado podemos aprender também a ter esperanças em um futuro diferente. Caetano Veloso cantando hoje, com sua banda de rock, Desde que o samba é samba, aponta para a mesma direção que o Skank com seu iê-ie-iê em Uma canção é pra isso...

As esperanças no rap como forma redentora que poderia resgatar o potencial crítico e de transformação social da música popular me parece um exagero que não tem grandes razões de ser. É verdade que hoje a tendência é falar do país de forma prosaica quando se trata de política e que, para isso, a formula que consegue ser mais direta é o rap, contudo, não faz sentido resgatar os ideais puristas da canção engajada e tentar iluminar o rapper com as mais novas teorias produzidas nos guetos intelectuais franceses ou em suas sucursais brasileiras... Tomar a força do rap como um a priori inquestionável é problemático e simplificador: a complexidade deve ser sempre caminho para questionamentos mais amplos e dar menos espaço para racionalizações reificantes.

A qualidade musical não pode ser considerada um bem de elite, contudo, se a música pretende ter um amplo potencial transformador, não pode se confinar aos que possuem ouvido músical. Os que esperam redenção por meio da música não compreendem aqueles que não vêem o mínimo sentido nessa espera, ou que, utilizam a canção para se divertir de modo descomprometido. Da mesma forma os fundamentalistas se comportam diante da religião ou da filosofia. Hoje existem muito mais pessoas dispostas a ser mais tolerantes e dar de ombros diante desse tipo de pretensão essencialista.

No começo de seu artigo, o professor Burnett cita uma fala de Arthur Nestrovski, que avalia que o cancioneiro de Tom Jobim deveria ser colocado lado-a-lado das obras de Clarice Lispector e Guimarães Rosa nas nossas bibliotecas. Não é possivel discordar da fala de Nestrovski, o problema é como promover essa valorização. A briga para que determinada forma de cultura ocupe “certo lugar” privilegiado, aponta para uma disputa territorial que é pouco construtiva e não faz muito sentido numa sociedade que se quer democrática e conversacional. Burnett poderia dar uma contribuição mais interessante se ao invés de prescrever algo que deveria ser, tentasse descrever a importancia da música popular para se pensar o país utilizando-a para este fim. Acredito que seria mais rico exaltar exemplos do que ele considera ser formas bem sucedidas de canção e porque as considera assim: acho que nesse aspecto conversacional a filosofia no ensino médio pode forçar a academia a olhar em volta e dialogar também. A perspectiva de Burnett poderia então parecer mais simpática e construtiva se tomasse uma forma positiva, de encomio justificado a importância da MPB. Neste caso, suas canções são seus melhores argumentos na tentativa de aproximar desejo popular e bem comum, fazer rimar Democracia e República.


Publicado no Overmundo.