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sábado, 3 de julho de 2010

Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter


Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter
Marcos Carvalho Lopes




Para Wallace Stevens a imaginação é a mente reagindo à pressão da realidade. No entanto, o que chamamos hoje de realidade seria simplesmente a imaginação dos mortos: desta forma, ser realista é outro nome para o conservadorismo.  Precisamos da imaginação para inventar novos caminhos, seja para a nossa vida pessoal, seja para a sociedade como um todo.
O grafite de Maio de 1968 “a imaginação no poder” surgiu como uma metáfora que não parecia fazer sentido: apontando para uma utopia “romântica” que não trazia consigo a bandeira vermelha do socialismo, ou melhor, que não se deixava dobrar por nenhuma formula pronta.
O existencialismo vai ser o que fizermos dele, dizia Sartre. Dizia também que o homem não tinha uma essência e seria resultado de suas ações. Para John Lennon o rock seria o que “fizermos” dele.  Para os jovens de então a política deveria ter essa mesma abertura para o novo. O que seria esse novo? O que nossa imaginação permitir.
O grande inconsciente da sociedade atual está implantado justamente na incapacidade de pensar em alternativas: as coisas são como estão e não existem alternativas. Essa é para Slavoj Zizek a grande ideologia pós-moderna. Se antes a ideologia se dava no nível do saber, ou seja, promovendo certo “ocultamento”; hoje ela se dá no nível do fazer: todos sabem, mas continuam cinicamente fazendo o que sempre fizeram. Como um nazi-fascista que justificasse seus crimes falando em premissas sociológicas e culturais, mas continuasse com seu comportamento violento e preconceituoso, tomando-o como natural. Vemos o aquecimento global, a destruição das reservas naturais, o colapso de nosso sistema energético etc., e não consideramos a possibilidade real de pensar em alternativas: mais cômodo imaginar o fim-do-mundo!
Essa situação é representada bem pelas palavras de jovem Theo, protagonista do romance Sábado de Ian MacEwan, que com seus 18 anos renega qualquer utopia política:“Quando pensamos nas coisas grandes – a situação política, o aquecimento global, a pobreza mundial –, tudo parece realmente terrível, nada está melhorando, não há nada a esperar. Mas, quando penso pequeno, mais perto –você sabe, numa garota que acabei de conhecer ou na canção que estou compondo com Chas ou em fazer "snowboard" no mês que vem, tudo parece ótimo. Por isso, este será meu lema: Pense pequeno"[1].
Há pouco tempo, atrás Humberto Gessinger soltou uma nota no site dos Engenheiros do Hawaii sobre a música Somos quem podemos ser, dizia: “Uma questão específica de um cara que está estudando a cena musical recente talvez interesse a mais alguém: ele pergunta sobre Somos Quem podemos Ser. Me lembro que esta música provocava duas críticas. A primeira delas é de que soava muito brasileiro, clube da esquina. Eu tomava isso como elogio e agradeço ao acorde com sétima aumentada. A segunda crítica se referia a uma possível passividade da letra. Acho uma leitura apressada. Não estou dizendo que só podemos ser o que já somos...estou dizendo que somos tudo que pudermos sonhar...eu acho...na verdade só parei pra pensar nessa música por que o menino perguntou...e só pensei no refrão...pensar em música pra mim é parecido com fazer exame de sangue...”. O sangue é mesmo burro: corre nas veias sem saber. Só na hora de fazer exame sabemos que ele existe. Se Gessinger não sabe bem o que queria dizer, tem certeza do que não queria... ”Não sei para onde vou, só sei que não vou por aí”, como no poema de José Régio.[2]
Essa canção começa com os versos:

um dia me disseram
que as nuvens não eram de algodão
um dia me disseram
que os ventos as vezes erram a direção
e tudo ficou tão claro
um intervalo na escuridão
(uma estrela de brilho raro
um disparo pára um coração)




O que se “descobre”, o grande segredo que aqui se desvenda, parece ser justamente o grande ‘sintoma’ da ideologia: não se trata de encontrar um rosto atrás da máscara, mas do fato de que sempre existe uma máscara. Ao se descrever o sintoma a repetição se desfaz. Não é a toa que, para Lacan, foi Karl Marx quem descobriu o sintoma ao analisar a transição do feudalismo para o capitalismo: se na ordem feudal existiam relações formais de subordinação, nas categorias de suserania e vassalagem, na ordem capitalista essa situação foi camuflada pela liberdade de cada qual para vender sua força de trabalho. Existira a dominação, mas não existiria mais – aparentemente – o dominador. Perspectivas tomadas como naturais de repente aparecem como construtos sociais: é exatamente isso que Marx desvendou ao analisar o fetichismo da mercadoria na sociedade capitalista.
O que era raro torna-se comum ao ganhar valor de mercado. Todas as coisas devem se adequar a esse padrão. Como numa propaganda recente de cartão de crédito, que dizia o preço de vários itens de consumo e a seguir apontava para uma determinada satisfação emocional do consumidor, concluindo: “certas coisas não tem preço, para as outras você tem o cartão de crédito x”. Justamente ao pontuar que “certas coisas não tem preço” a propaganda quer vender cartão de crédito, colocando tudo (até os sentimentos) nesse jogo de valoração mercadológico. Normalizam-se as diferenças, aparam-se as arestas e tudo se torna igual.
Exemplo paradigmático, o slogan “ser diferente é normal”, que utiliza uma qualificação psiquiátrica – o discutível padrão de normalidade – e a ele subordina todas as diferenças. Em verdade, melhor que inverter o dito, num “normal é ser diferente”, seria rejeitar esse padrão de “normalidade” de pressupostos nefastos. 
Ao se desvelar algo como ideológico não temos por si só uma solução: a contradição explode como aparência: devemos lidar com ela, tentar novos caminhos, ou empurrá-las para baixo do tapete. A letra continua:

a vida imita o vídeo
garotos inventam um novo inglês
vivendo num país sedento
um momento de embriaguez

A gravação de Somos quem podemos ser é de 1988. Nessa data não existia ainda Big Brother, mas “a vida já imitava o vídeo” e não ao contrário. Num país cheio de sede, teríamos um momento de embriaguez: a abertura política nos dava amplas possibilidades de escolher novos caminhos, mas deveríamos assumir que:

"somos quem podemos ser
sonhos que podemos ter"

Somos romanticamente responsáveis pela nossa auto-criação: se não tivermos sonhos, se não tivermos esperança, estaremos condenados a aceitar as coisas como estão. E de quem seria a “culpa” nesse caso:

"quem ocupa o trono tem culpa
quem oculta o crime também
quem dúvida da vida tem culpa
quem evita a dúvida também tem"

A culpa seria de todos aqueles que se deixam dominar pela ilusão. Que apesar de saberem dos problemas preferem agir como se não soubessem e se negam a pensar em alternativas, em algo diferente. Karl Marx lembrava a dialética hegeliana entre senhor e escravo nO Capital dizendo que ”um rei só é rei porque outros homens colocam-se numa relação de súditos com ele. E eles, ao contrário, imaginam ser súditos por ele ser rei.” Lacan, foi mais longe, ao afirmar que, um louco que acredita que é rei não é mais louco que um rei que acredita que é rei!
Se não pudermos imaginar alternativas, estaremos desde já condenados cinicamente a viver nossa autodestruição. 


[1] Citado por Richard Rorty em Nausea em Londres. Folha 05/02/2006 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0502200616.htm

A Utopia socialista e a resposta cética: o Anarquismo


A Utopia socialista e a resposta cética: o Anarquismo

Este texto foi preparado para uma aula no ensino médio como principio de debate. Tinha alguns alunos punks e o símbolo do anarquismo vivia aparecendo no quadro, nos cadernos, em suas roupas, nos murros etc. Achei que essa canção dos Engenheiros do Hawaii seria um bom princípio para dialogar.

toda forma de poder (Humberto Gessinger)

Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada
Fidel e Pinochet tiram sarro de você
Que não faz nada
E eu começo a achar normal que algum boçal
Atire bombas na embaixada

Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer

Toda forma de poder
E uma forma de morrer por nada
Toda forma de conduta
Se transforma numa luta armada
A história se repete
Mas a força deixa a estória mal contada

Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer

O fascismo e fascinante
Deixa a gente ignorante fascinada
E tão fácil ir adiante
E esquecer que a coisa toda está errada
Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada

Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer...



Hoje em dia é comum que, de vez em quando, a gente encontre por aí, pichado nos muros, ou em cadernos e mochilas, o símbolo do anarquismo. Porém, é de se duvidar de que as pessoas que os ostentam se preocupem, ou mesmo, saibam o que significa, em termos de proposta política, o anarquismo. Isto se deve, em grande parte, ao fato do anarquismo não ser algo sistemático, que possa ser descrito de maneira rígida. Mesmo o seu principal teórico, Bakunin (1814-1865), não deixava as coisas claras, já que dificilmente concluía as obras que começava. Nem por isso devemos cair no erro fundamental de confundir anarquismo com bagunça.
O anarquismo surgiu historicamente como uma espécie de dissidência do marxismo. Karl Marx achava que os trabalhadores deveriam tomar o poder e manter uma espécie de ditadura ( a ditadura do proletariado) a fim de evitar que a burguesia retornasse (com uma contra-revolução). O estágio em que o Estado estaria nas mãos dos trabalhadores seria o socialismo, que, aos poucos seria substituído pelo comunismo, onde não haveria mais espaço para Estado ou luta de classes.
Bakunin considerava Marx otimista e ingênuo: o poder corrompe as pessoas e quem quer que o tome, acaba por querê-lo para si. Qualquer classe, ao chegar ao poder, dele se apossaria. A “ditadura do proletariado” acabaria construindo uma hierarquia de funcionários públicos e tecnocratas que haveria de querer perpetuar-se como dominante. A solução estaria em tentar o salto direto para o comunismo, que seria uma espécie de governo sem governantes: o anarquismo (anarquismo significa “sem governante”).
O anarquismo não constituiria partido ou teses dogmáticas, evitando “toda forma de poder”, ele seria um movimento vivo, como um organismo, fundado na cooperação e não na organização burocrática. Os anarquistas não acreditam na “representação política” e procuram limitar o espaço para esse tipo de prática ao mínimo possível: quando necessário se elegeriam delegados com o tempo de mandato limitado e sujeito a revogação. O anarquismo previa a supressão da propriedade privada dos meios de produção, que daria lugar a cooperativas, onde as decisões seriam comuns. Dá mesma forma os anarquistas negam a Igreja: “para afirmar o homem, é preciso negar Deus”. Em certa medida, podem-se comparar as idéias anarquistas com a democracia radical de Jean-Jacques Rousseau. Pode ser considerar heranças anarquistas a idéia de orçamento participativo: o importante é manter a consulta direta as pessoas envolvidas.[1]
O anarquismo em poucos momentos teve uma verdadeira força política: ganhou espaço no sindicalismo (que desembarcou no Brasil juntamente com os italianos) entre o fim do século XIX e início do século XX, e teve seu momento de maior força durante a Guerra Civil Espanhola. A desobediência civil de Mahatma Gandhi, na luta pela independência da Índia pode ser considerada um exemplo de prática anarquista.
Após a Segunda Guerra Mundial o anarquismo foi trivializado ressurgindo em diversos movimentos que parecem muito mais expressar o individualismo da burguesia capitalista: como no caso do movimento hippie, do maio de 1968, ou mesmo do movimento punk. Rejeitar o poder político é uma coisa, recusar-se a participar dele, mas tentar fazer o pentágono levitar já é algo muito “desgovernado”, mas que, ainda assim, gerou resultados: “Em Outubro [1967 contra a Guerra do Vietnã], em Washington, 50 mil pessoas marcharam sobre o Departamento de Defesa. Vestidos como vagabundos, risonhos como palhaços, carregavam flores, sugeriam que se fizesse amor e não guerra. Nessa manifestação que o professor americano Allen Matusow chama de “um dos mais significativos acontecimentos da história dos Estados Unidos”, um grupo de hippies tentou fazer levitar o Pentágono. A imensa construção, que abriga os maiores corredores do mundo, não levitou, mas hoje se sabe que por conta daqueles hippies ela sem dúvida saiu do lugar”[2].


[1] Janos Biro, filósofo que muito me incentivou com sues comentários e participação no blog filosofia pop, quanto a esse texto ponderou: “A idéia do anarquismo para mim é que não existe uma forma correta de reger a humanidade, logo o próprio anarquismo não poderia ser isso. Ele não é uma proposta, é um questionamento somente. As pessoas que o transformam em proposta para mim deixam de ser anarquistas. A anarquia não faz parte da história”. A história de colocar coisas como orçamento participativo como cristalizações do anarquismo é um erro então: quem participa do orçamento participativo?
[2] Gaspari, Elio. “A roda de Aquarius” In: A Ditadura Envergonhada São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p.234