Breve Memorial
escrevi este "breve memorial" para um concurso
Marcos Carvalho Lopes
Em 1997 comecei o curso de Filosofia na
UFG, no mesmo ano o professor Gonçalo Armijos Palácios publicou o livro De como fazer filosofia sem ser grego,
estar morto ou ser gênio. Não li o livro quando de seu lançamento, mas vivi
seus efeitos, que repercutiram em todo departamento ao colocar em evidência a
esquizofrenia da proposta do curso: se o discurso (meta)filosófico reafirmava a
vocação da Filosofia para a formação da
capacidade crítica e da autonomia intelectual; efetivamente o curso promovia
uma espécie de catequese que fornecia a disciplina hermenêutica para
desenvolver leituras e ser um comentador competente dos textos sagrados. As críticas de Gonçalo não foram contestadas/respondidas
por seus pares, mas é certo que este silêncio possuía textura (e constituía uma
“pré-ocupação ontológica”). Se era mais fácil e promovia maior prestígio entre
os pares mergulhar na formação erudita, exibindo rigor lógico e seriedade
exegética, assim como, incrementar a autoestima com citações em línguas
estrangeiras, a socialização gregária promovia uma autocontradição na figura do
“filósofo como comentador”, que, efetivamente deveria ser somente comentador. Também (e não exclusivamente) por isso, quando
terminei a graduação em 2000, resisti à ideia de continuar no papel de
comentador júnior dos textos comentados pelos professores comentadores. Nada
original: queria estudar a relação indivíduo-sociedade em Jose Ortega y Gasset,
autor fora dos horizontes de interesse de meus professores. Apesar do convite
de diversos professores, nenhum – a princípio – aceitou orientar o tema que me
instigava, também por isso, não segui para o mestrado.
Com 20 anos e diploma de licenciado em
Filosofia, num horizonte em que a obrigatoriedade das aulas dessa disciplina
não existia nos cursos de Ensino Médio, voltei para minha cidade natal, Jataí,
direto para o mercado de subemprego (com carga horária e salários baixos),
precisava dar aulas de disciplinas diversas (Artes, História, Sociologia,
Filosofia etc.). Entre 2000 e 2004 comecei a fazer o curso de Letras, trabalhei
como professor temporário em um CEFET, passei no concurso para docente do
Estado de Goiás, abandonei o curso de Letras, fiz uma especialização em Formação
Socioeconômica do Brasil etc. O mais importante neste período foi perceber como
o jargão que havia aprendido na academia não funcionavam na sala de aula.
Precisei me adaptar e tentei fazer isso utilizando canções populares como mote
para sensibilizar e ganhar atenção dos alunos. Disso e de meus gostos
idiossincráticos surgiu o projeto de escrever um trabalho desvelando os
aspectos filosóficos e políticos nas canções. Em 2005 entrei no Mestrado em
Filosofia da UFG, mas antes mesmo de terminar minha dissertação já havia
escrito o texto do livro Canção,
estética e política: ensaios legionários que foi lançado em 2012 pela
editora Mercado de Letras (foram diversos anos para conseguir a autorização
para publicação). Entre a conclusão da dissertação e a defesa também desenvolvi
artigos sobre Engenheiros do Hawaii que hoje motivam palestras e alguns cursos.
Este tipo de abordagem esta
presente em diversos de meus textos que se tornaram capítulos de livro (como os
ensaios “Cazuza e a malandragem de ser brasileiro” e “Caetano Veloso e a
filosofia no Brasil”), artigos em revistas científicas (“A “Filosofia” de Noel
Rosa”), em magazines, jornais, palestras, minicursos etc.
No Mestrado, sob a orientação do
professor Gonçalo Armijos Palácios, estudei o debate entre Richard Rorty e
Umberto Eco sobre limites interpretativos. O encontro com a obra de Richard
Rorty foi particularmente relevante para mim, já que encontrei nos primriros
capítulos de Contingência, Ironia e
Solidariedade uma solução inovadora e estimulante para a relação indivíduo-sociedade
que tanto me incomodava. Assumindo que somos construídos pela linguagem, Rorty
não caia no tipo de dissolução da subjetividade no interdiscurso que marca
algumas teorias pós-modernistas, mas enfatizava a construção poética do self. Sua narrativa incorporava a
filosofia da linguagem de Donald Davidson e fazia jus, tanto ao Dasein heideggeriano, quanto à
psicanálise de Freud. Essa empolgação com Rorty esbarrava nos problemas
políticos e educacionais que a ausência de limites para a interpretação
defendida por ele acarretariam. Umberto Eco e a busca pela verdade pareciam
mais fáceis de defender e meu orientador esperava que houvesse um
posicionamento em relação ao debate sobre quem estava certo ou errado. Para me
desviar destes termos construí dois longos capítulos introdutórios da minha
dissertação, Sobre limites da
interpretação: um debate entre Umberto Eco e Richard Rorty em que resumia
os passos da trajetória de Richard Rorty e de Umberto Eco. Deste modo expliquei
seus pressupostos e como ambos possuíam posições coerentes com sua trajetória
intelectual, no entanto, desenvolviam projetos com prioridades diferentes.
Enquanto Rorty procurava valorizar a inovação e imaginação criativa, Eco
defendia limites necessários ao processo de socialização do conhecimento. Ora,
essa divisão correspondia, de certo modo, a divisão postulada por Rorty entre
espaço privado de autocriação e espaço público de conversação política.
Esta divisão se projetou em meu trabalho
com a distinção entre duas frentes de trabalho: (1) por um lado, procurei
desenvolver de modo não institucional tentando propor diálogos entre a
filosofia e a cultura popular, filosofia e literatura etc.; (2) por outro, um
trabalho acadêmico, mais técnico e preso aos cânones de cientificidade.
Terminado o mestrado, novamente em Jataí
trabalhei na Universidade Federal de Goiás como professor temporário dando
aulas em diversos cursos. Trabalhei também desenvolvendo projetos de extensão
na UEG. No fim de 2008 fiz a seleção para o doutorado no programa de
pós-graduação em filosofia da UFRJ e fui aprovado numa boa posição (o que me deu a condição de bolsista da CAPES).
As aulas no PPGF/UFRJ renderam textos
que logo foram publicados: das aulas com Roberto Machado sobre Proust saíram
dois artigos que formaram um capítulo de minha tese, das aulas com Guilherme
Castelo Branco um artigo sobre a relação Kant e Foucault. Logo após minha
mudança para Rio passei a ocupar a função de editor executivo da Revista
Redescrições.[1]
Durante o ano de 2010 cumpri estagio docente dando aulas de Filosofia da
Educação junto com a professora Susana de Castro na Faculdade de Pedagogia da
UFRJ. Também participei do grupo de pesquisa em inovação Research on Research (coordenado
pelo professor Ricardo Pietrobon da Duke University) e do Laboratório de
Filosofia Pop da UNIRIO (coordenado por Charles Feitosa).
Entre 2011 e
2013 trabalhei como professor temporário na UNIRIO dando aulas de Introdução à
Filosofia em diversos cursos e uma disciplina especial sobre Rorty no curso de
Filosofia. Durante o ano de 2012 fui representante dos alunos de doutorado do
PPGF/UFRJ.
O título de meu
projeto de doutorado defendido no final de Setembro de 2013 foi Uma defesa da poesia: poesia e autocriação
na filosofia de Richard Rorty. Neste trabalho procurei desvelar o que a
poesia significava para o pensamento de Richard Rorty e como sua filosofia pode
ser coerentemente interpretada como uma defesa da poesia. O pensador
norte-americano redescreve a antiga querela entre pensadores e poetas,
criticando o anseio convergente da racionalidade platônica como uma
reivindicação autoritária que não se justifica em um contexto democrático e
pluralista. O espaço romântico de autocriação é um pressuposto que Rorty
precisa defender e conciliar com o reconhecimento pragmatista da dimensão
social e adaptativa do pensamento. A trajetória intelectual do filósofo
pragmatista como descrita pela sociologia das ideias de Neil Gross é o mote
utilizado para problematizar a relação entre o determinismo social e o espaço
de autocriação. A primazia que o filósofo norte-americano dá para a poesia como
impulso para a inovação e a mudança é justificada por sua redescrição da
história da filosofia como desvelamento de uma posição antiautoritária, na qual
o apelo por convergência perde espaço para o anseio utópico de criar um futuro
melhor. A relação de ciúme que funda a busca de Platão por
superar e colocar-se no lugar de Homero, é redescrita por Rorty, a partir da
visão proustiana deste sentimento. Com
isso, a ânsia de desenvolver uma teoria que desvelasse verdades imutáveis e não
relacionais pode ser tomada como um mero desejo de fugir da contingência.
Por outro lado, a aceitação da contingência e da Filosofia como um gênero de
escrita promovem uma mudança na percepção do que chamamos de sabedoria –
substituindo a Alegoria da caverna de Platão por Em busca do tempo perdido de Marcel Proust como mito fundador – com
a aposta na abertura poética de autocriação e reconhecimento da dimensão
biográfica do pensamento.
Esta investigação deve se desdobrar em
na análise da relação entre (1) poesia e educação moral (com a função das
narrativas e sua relação com a autocriação e a política) e (2) poesia e utopia
(na construção do dever-ser como aposta em um futuro utópico) em Rorty. Em
verdade, comecei a esboçar uma investigação sobre o lugar das narrativas a
partir de uma aproximação da obra de Luiz Eduardo Soares e da forma como ele se
apropriou das intuições rortyanas para construir uma espécie de romance da segurança
pública no Brasil.
Durante o Doutorado escrevi um livro
chamado Máquina do Medo, publicado
pela PUC-GO em 2013. Nele reuni alguns artigos de metafilosofia com
aproximações filosóficas da obra literária de autores goianos, principalmente
do poeta Gilberto Mendonça Teles. A ideia era, de certo modo, pensar minhas
circunstâncias e, ainda que não explicitamente, continuar as provocativas
perguntas de Gonçalo, problematizando a “máquina do medo”, o mecanismo
subjetivo de timidez do pensamento que nos aconselha a não tentar ultrapassar
os limites da repetição, impedindo a criatividade e a inovação no pensamento.
Como assevera Luiz Eduardo Soares, é preciso aceitar o risco da indisciplina.
Este risco é palavra, é escrita e invenção de possibilidades.
Aos 33 anos escrever um memorial é uma
tarefa inusitada, um desafio que faz a seta do tempo oscilar e que só faz
sentido a contrapelo, ou seja, caminhando numa direção contrária àquela que
seria natural. É preciso problematizar o tempo e o espaço narrativos, fazendo
com que estas memórias se voltem para o que há de vir, projetem mais do que
concluam. Devem ser memórias do porvir.[2]
[1]Além do trabalho de edição de cada número, neste
período montei o site e desenvolvi uma estratégia de cadastramento da revista
em repositórios on line e indexadores
que ajudaram em sua qualificação no Qualis (onde foi qualificada como B2 em
educação e política, B4 em filosofia).
[2] Jorge Larrosa aponta uma
interessante diferença:o futuro aparece como uma perspectiva de continuidade do
tempo atual, enquanto o porvir indica uma abertura para a descontinuidade.
(LARROSA, Jorge. “Dar a palavra. Notas para uma dialógica da transmissão.” In: Habitantes da Babel: políticas e poéticas
da diferença. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. p. 286-287).

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