Faz um tempo que não tomo escrever como um hábito. Este silêncio pode pender entre dois extremos: a ausência de palavras de quem não percebe/desvenda sentido, quem deixa de sustentar qualquer significação e a mesma incapacidade de quem esta de tal modo atrelado aos seus prórpios agoras que não consegue elaborar uma fala, se intimida ante a própria contingência. O silêncio não deixa de ser uma forma de abrir as portas para o misticismo, uma maneira de adornar uma aura de sagrado. Não é a toa que o poder da palavra se liga ao poder do sagrado em suas origens (na antiguidade ou nas tatuagens). Fazer filosofia é encenar uma das máscaras de Sócrates, é inventar para este uma vida e um sentido para sua narrativa: este, como afirma Harold Bloom, por não ter escrito será sempre o único e verdadeiro filósofo (assim como Cristo é o único e verdadeiro cristão). Pensadores como Nietzsche perceberam que com sua escrita escreviam sua biografia, transformavam sua vida e se inventavam como outros. Escrever e ler a si mesmo como outro. A possibilidade de cultivar um silêncio diferente. Exercício espiritual.
Não, não é sempre assim que acontece. Lista de itens para lavanderia, catalogos de objetos catalogáveis, identificação de cada coisa em seu lugar, etiquetar o mundo também pode ser uma forma de exercitar o absurdo. Mas exercícios espirituais pedem uma trilha diferente, uma coisa que talvez exista na oração, ou numa canção que canta um ritual (como Gilberto Gil em Se o eu quiser falar com Deus)...
Richard Rorty distingue romancistas que servem para exercícios espirituais e outros que confirmam nossas perspectivas e ampliam nosso horizonte de identificação moral com outros. Estes últimos ampliam o solo sobre nossos pés, aumentando o alcance da palavra nós, os primeiros nos retiram o chão, provocam terremotos e geram dúvida sobre nossos sentimentos e forma de nós descrever. No primeiro grupo coloca Henry James e Marcel Proust; no segundo autores como Charles Dickens. Proust e James serviriam como exercícios espirituais para redenção do egotismo, uma forma de conforto distinta da que se teria na promessa universal e eterna de Religião e Filosofia, uma redenção que afirma a contingência e ensina a finitude.
O silêncio de Sócrates tem algo de sagrado quando o percebemos conectado a uma missão religiosa que ganha voz em seu daimon. Talvez esse seja o segredo para que possa dar a sua voz uma dimensão dupla, pessoal e mística, particular, mas de alguma forma vinculada e buscando (a promessa d)o universal. O silêncio e o furor agônico de sua dialética se harmonizam, causando espanto nos que "enfrenta" e "seduz", provocando o silêncio denso de quem se confronta com suas certezas em contradição. Silêncio como si denso (que não se define). Eudaimonia, que é como diziam a felicidade plena, a realização de uma vida, é ter um bom daimon, algo externo e reconhecível publicamente. A vida de Sócrates seria de eudaimonia, Platão, Nietzsche e Proust tiveram que escrever, inventar a sua.
Todos que tentaram seguir este modo de vida teórico enfrentaram esta mesma tensão e desafio da voz, que em sua entonação particular pretende-se universal. Nesta sagração da palavra, numa busca de iluminar todos os aspectos o silêncio é uma solução mística dos que cultivam a profundidade, a matemática seria o gancho celeste dos que querem a elevação. Matematizar o silêncio seria a epifania do niilismo. Razão= virtude = felicidade. O que hoje corresponderia aos termos dessa igualdade? Em tempos de razão comunicativa quais seriam os post(e)s que iluminariam essa highway do lugar comum? A sede do diálogo, do re-conhecimento parece mesmo ser a droga da escrita, que pode ampliar, dissolver o seu poder como exercício. Nietzsche poderia dar marteladas no twitter?
O deus da canção é o mesmo da literatura e causa sem oferecer uma razão, um salto sem a certeza do que há no outro lado. Existirmos a que será que se destina...
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quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Escrever como exercício espiritual
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sábado, 3 de julho de 2010
Sócrates pop star
Sócrates pop star
Marcos Carvalho Lopes, Jataí (GO) · 30/8/2006 18:24
Acabei de ler o Eutífron de Platão. Nele Sócrates e Eutífron discutem sobre a piedade. A questão é o que faz de um homem piedoso ou não? O tema vai bem a calhar porque Sócrates acabava de ser acusado de impiedade, por não venerar aos deuses existentes e criar novos, assim corromperia aos jovens... Por sinal, Eutífron também estava ligado a uma questão jurídica: acabava de acusar o próprio pai de assassinato. Um de seus empregados havia se desentendido com outro trabalhador e o matado. O assassino foi amarrado enquanto o pai de Eutífron foi a cidade saber o que deveria fazer com ele... Demorou em demasia e o assassino morreu. Eutífron dizia que era seu dever denunciar o próprio pai já que para os deuses não há diferença em ser parente ou não: o importante é a justiça. Esse é o mote do diálogo: Socrátes quer
saber como Eutifron tem tanta certeza sobre o que é ser piedoso, como sabe realmente que agrada aos deuses? Se Sócrates soubesse isso poderia livrar-se da acusação ante o tribunal...
Mas como sempre nos diálogos socráticos, a cada argumento de Eutífron surge a réplica de Sócrates, que mostra que ele pouco sabe sobre o que antes dizia ser seu conhecimento... quando Sócrates insiste em questionar Eutífron diz que não pode ficar, que tem mais coisa a fazer.. e vai embora.
Mais do que nunca, a filosofia parece ter retomado Sócrates: a sua idéia de diálogo é bastante atual... no entanto, me parece mais uma ideal. Hoje a liberdade parece consistir em fazer o que faz Eutífron: não discutir esse tipo de coisa, não colocar os preconceitos em jogo, não se meter em política... Ninguém tem tempo para ficar debatendo indefinidamente um tema como queria Sócrates: por isso pagamos por nossos representantes no parlamento...
Ainda assim Donald Davidson está certo (veja esse ótimo texto ):somente quando expomos nossas idéias podemos nós aperfeiçoar, lapidar nossos juízos para que sejam mais claros, perceber erros... deveriamos conversar mais. O engraçado é que hoje na literatura o que mais se aproxima do formato de diálogo são as entrevistas. De repente você lê uma entrevista de uma figura que escreve de forma obscura e nela o autor expõe as questões de maneira surpreendentemente clara... As entrevistas são sim um gênero que nos aproxima dalguma forma da filosofia... Mas quem dá entrevistas? Quem tem direito a palavra e que merece ser ouvido? Que tipo de questões são formuladas? Hoje a sociedade segue mais as imagens que brilham nas prateleiras do que as palavras de livros sagrados, hoje os jovens se identificam mais pelo som que escutam do que por alguma posição ideológica... Sócrates hoje deveria ser um pop star?... Parece que só essas figuras são questionadas sobre todos os temas, sobre valores morais, religiosos, políticos, ecológicos... Ou Sócrates teria um talk-show? Ou Sócrates não teria mais lugar?
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