Um texto de ficção que parte das letras do disco Longe demais das
capitais dos Engenheiros do Hawaii. Cada canção desse disco nomeia os
capítulo da narrativa, neles a história gera um dalogo com as letras e
seu contexto.
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domingo, 3 de março de 2013
Longe demais das Capitais
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Dois textos
Os dois últimos textos que disponibilizei na net:
Longe demais das Capitais Uma ficção breve que se inspira no álbum de mesmo nome dos Engenheiros do Hawaii. Cada canção deu lugar a um pequeno capítulo.
O silêncio eloquente de Gilberto Mendonça Teles resenha do livro "Linear G"(2010) do poeta e crítico goiano Gilberto Mendonça Teles
Longe demais das Capitais Uma ficção breve que se inspira no álbum de mesmo nome dos Engenheiros do Hawaii. Cada canção deu lugar a um pequeno capítulo.
O silêncio eloquente de Gilberto Mendonça Teles resenha do livro "Linear G"(2010) do poeta e crítico goiano Gilberto Mendonça Teles
terça-feira, 6 de julho de 2010
sobre engenheiros do hawaii e uma(s) filosofia(s)
Postei no issuu uma prêvia do ensaio que estou escrevendo sobre o Pouca Vogal. Deve ser uma continuação do que antes escrevi sobre os Engenheiros do Hawaii. Os textos que havia 'juntado' num pdf que chamei Engenheiros do Hawaii: da engrenagems à mandala estavam disponíveis no Overmundo. Retirei este pdf de lá quando o blog que mantinha no overmundo foi deletado. A idéia era corrigir uma série de erros de português e até algumas idéias atravessadas. (o principal esta na página 58, onde se diz que para Rorty as "imagens teriam maior poder de convencimento do que as narrativas" deveria estar que "as narrativas tem maior poder de convencimento que as teorias. Erro grave. de quem não faz revisão). Mas, alguém postou o antigo pdf no Scrib... então uso esta postagem para colocar de novo aqui (avisando desta minha insatisfação com essa versão do texto e prometendo uma melhor ou quiça um livrinho sobre demanda alinhado a disponibilização na net...).
Minha idéia é juntar tudo numa versão final. Para essa "versão final" já entrevistei o Carlos Maltz e estou planejando alguns ensaios. Este sobre o Pouca Vogal deve ser um tanto maior... etc.
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No youtube: Espécial Várias Variáves dos Engenheiros do Hawaii (1991- Rede Globo)
Parte 1
Parte 2
Parte3
Parte 4
Parte5
Parte 6
Parte 7
Parte 8
Especial Várias Variáveis, 1991. Rede Globo. Engenheiros do Hawaii.
Links de todas as partes:
parte I http://www.youtube.com/watch?v=khugmm... [Herdeiro da Pampa Pobre]
parte II http://www.youtube.com/watch?v=-TMh-c... [O Papa é Pop]
parte III http://www.youtube.com/watch?v=-z_qVN... [Muros & Grades]
parte IV http://www.youtube.com/watch?v=iWFBPv... [Pra Ser Sincero]
parte V http://www.youtube.com/watch?v=qmWtoD... [Refrão de Bolero]
parte VI http://www.youtube.com/watch?v=9VG5lI... [Era um Garoto...]
parte VII http://www.youtube.com/watch?v=rye11A... [Perfeita Simetria]
parte VIII http://www.youtube.com/watch?v=v-gCYN... [O Exército de um Homem Só, I]
Créditos:
Disponibilizado por Davi Enghaw
Digitalizado por Valdemas
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sábado, 3 de julho de 2010
Quando as armas químicas não estão lá... Quando os poemas nos enganam...
Quando as armas químicas não estão lá... Quando os poemas nos enganam...
Há poucos dias, assisti o documentário The Pervert's Guide to Cinema (de Sophie Fiennes, Grã-Bretanha/Aústria/ Holanda, 2006), apresentado pelo filósofo e psicanalista Slavoj Zizek (lê-se Slavói Chichec). Zizek é um pensador que tem se tornado popular por oferecer uma releitura da tradição marxista a partir de uma perspectiva que cria uma síntese entre Hegel e Lacan. Sua posição tinha tudo para ser excessivamente hermética, gerando um discurso difícil e assustador para a maioria das pessoas. Ocorre o contrário. Zizek conecta seu pensamento aos signos de nosso tempo, falando sobre eventos atuais, de jogos de videogame (como o Second Life), canções e, principalmente, de filmes.
Uma noção central para as análises de Zizek é a idéia de “paixão pelo Real”, que estaria presente tanto nos atos revolucionários quanto no terrorismo. Zizek aponta aqui para um antagonismo: existiria uma “má paixão” que defenderia a idéia de que “a única experiência potente é a experiência de transgressão, seja na figura da violência política, da sexualidade sadomasoquista etc”. Esta dimensão maléfica da paixão pelo Real estaria presente no “terrorismo e, por exemplo, na fascinação do revolucionário que, para defender a causa, não teme ir até o fim e fazer o trabalho sujo que vai contra os seus princípios morais privados.” Já o lado “bom” desta “paixão pelo real” estaria na valorização do espetáculo, do virtual, do cinema etc. O paradoxo é que o lado “ruim” e o lado “bom” da paixão pelo real estariam interligados hoje. Um exemplo dessa junção estaria no terrorismo: “por um lado, ele é resultado de uma paixão pelo real, paixão daqueles que afirmam: “vamos agir brutalmente”, mas seu efeito é de um grande espetáculo explosivo que nos fascina”.
O documentário pode servir de introdução para a leitura da obra de Zizek, até mesmo porque, grande parte de seus espectadores sentir-se-ão em dúvida: será que este psicanalista descobriu a “real” intenção dos cineastas (David Lynch, Charles Chaplin, Alfred Hitchcock etc.) ou ele está inventando tudo isso para encaixar sua teoria? Será que este espetáculo é mais real do que os outros? O autor, a partir de sua confortável posição de psicanalista poderia rir e afirmar que essas questões são mais uma manifestação de “paixão pelo real”. O espectador poderia rebater: “o mais apaixonado é você, assim como o diabo é quem mais ama Deus”. Este impasse não deve ter solução e sim servir como inspiração para que se leia a obra deste autor. A leitura de Zizek pode servir para que, com maior distanciamento, possamos compreender o que ele está querendo fazer com seu discurso. Fica a dica.
No documentário, uma das cenas que me instigaram, foi a da análise de Zizek da parcialidade das opções oferecidas a Neo em uma famosa cena de Matrix. Nela, o herói tem que escolher entre a pílula vermelha, que traria como efeito a revelação da Verdadeira Natureza da Realidade, e a pílula azul, com a qual permaneceria iludido pelas aparências, o “espetáculo” de vida virtual oferecido pelo “gênio maligno” da Matrix.
A idéia de que existe um “Real” esperando por ser desvendado estando sobreposto a uma grande ficção, um mundo de aparências, é um dos fetiches mais caros da modernidade.[1] Zizek prefere pensar numa terceira pílula, que fosse capaz de nos mostrar o quanto de ilusão e ficção são necessárias para cimentar a percepção de realidade. É esta intuição que vou tentar desenvolver a partir da canção Armas químicas e poemas (http://www2.uol.com.br/engenheirosdohawaii/player/player_armas.htm), dos Engenheiros do Hawaii.
Armas químicas e poemas foi lançada em 2004, no álbum Acústico MTV Engenheiros do Hawaii. Ela apresenta, já em seu título, um elemento de denúncia: a existência no Iraque de “armas químicas”, armas de destruição em massa, foi a desculpa utilizada pelos EUA para justificar, como ação preventiva, a invasão daquele país. A ficção fundou a realidade do conflito atual. Parece ser um nonsense a idéia de unir no título da canção “armas químicas” e “poemas”. Este tipo de aparente contradição é algo recorrente nas letras de Humberto Gessinger, servindo para apontar e provocar espanto com as coisas que não se encaixam muito bem: clichês inéditos, exército de um homem só, esquerda light etc. É esse tipo de jogo que parece surgir nos primeiros versos da canção:
“eu me lembro muito bem, como se fosse amanhã
o sol nascendo sem saber o que iria iluminar(...)”
o sol nascendo sem saber o que iria iluminar(...)”
Parece estranho a canção começar com esse nascer do sol que é também promessa: recordamos algo que ainda não ocorreu. O poema usa do artifício do “como se fosse”, da imaginação que cria analogias que não tem sustentação na realidade. São metáforas para tentar dizer algo ou fazer algo que não é comum. O poeta, como já sabia Platão (o maior de todos os poetas), institui a realidade. Á medida em que suas metáforas se tornam moedas correntes perdem o poder de espanto e tornam-se triavilidade: palavras gastas dão sentido ao literal.[2] O poder do “como se fosse” nos faz olhar de modo diferente para o que é (ou está). Recordar algo que ainda não ocorreu? Saudade do futuro? Nossa sensibilidade romântica se manifesta na recusa de nos limitarmos ao aqui e agora. O horizonte só surge como esperança. Preenchemos o futuro com expectativas. “Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter...”.
O fato de nos relacionarmos com nosso próprio futuro, nos direciona para algo que consideramos como bom e nos levam a atuar. Se perguntam “Como você está?”[3], a resposta mais comum fala de um estado de ânimo, apontando uma perspectiva de julgamento em relação a existência como um todo, aos projetos e esperanças. A vida ganha sentido a partir desses sonhos de futuro, dessas promessas do que ainda não é. A letra continua:
“eu abri meu coração como se fosse um motor
e na hora de voltar sobravam peças pelo chão
mesmo assim eu fui à luta... eu quis pagar pra ver(...)”
e na hora de voltar sobravam peças pelo chão
mesmo assim eu fui à luta... eu quis pagar pra ver(...)”
O “como se fosse” reaparece na comparação do coração (do sentimento), com um motor (um mecanismo): no confronto entre o ideal e o real sobram “peças pelo chão”. Entre os sonhos e sua realização, existe uma distância, uma falha. Entre a satisfação oferecida pela propaganda e a realidade do consumo, entre as promessas de amor eterno e a busca de prazer constante, entre o “como se fosse” da poesia e o que é: sobram peças pelo chão. Ainda assim, o que nos resta é seguir em frente: pagar p’ra ver.
A letra segue:
“aonde leva essa loucura
qual é a lógica do sistema
onde estavam as armas químicas
o que diziam os poemas”(...)
qual é a lógica do sistema
onde estavam as armas químicas
o que diziam os poemas”(...)
Qual é a lógica do sistema que une a vontade de mudança e aquisição com a economia de consumo? A felicidade paradoxal do consumismo; a sede do heroísmo romântico, a busca pelo “real”. Filmes de guerra continuam lado a lado com canções de amor. Quando descobrimos que não existiam armas químicas, que os poemas não descreviam exatamente a realidade, o que nos resta a fazer? Criamos tantas expectativas em relação a um sonho e somos desmentidos pelo mundo. Quando se descobre que os dragões são moinhos de vento, quando Dom Quixote se torna também um mito...segue combatendo: é o que sabe fazer.
afinal de contas
?o que nos trouxe até aqui, medo ou coragem?
talvez nenhum dos dois
sopra o vento um carro passa pela praça
e já foi... já foi
por acaso eu fui à luta... eu quis pagar pra ver
?o que nos trouxe até aqui, medo ou coragem?
talvez nenhum dos dois
sopra o vento um carro passa pela praça
e já foi... já foi
por acaso eu fui à luta... eu quis pagar pra ver
Atrás das armas químicas existia o interesse pelo petróleo (o carro passa pela praça e já foi...). O que sustentam os poemas? Existiria amor atrás das promessas da poesia? Na insatisfação com o mundo que aí está, precisamos imaginar outro, mais real para nossos sonhos, para o sol de amanhã. Precisamos dessa dimensão utópica para “remar contra a corrente” (ou acreditar nisso). Precisamos alimentar a fé em nossas “causas perdidas”, sonhos sinceros...
“o tempo nos faz esquecer o que nos trouxe até aqui
mas eu lembro muito bem como se fosse amanhã
?quem prometeu descanso em paz
depois dos comerciais?
?quem ficou pedindo mais
armas químicas e poemas?”
mas eu lembro muito bem como se fosse amanhã
?quem prometeu descanso em paz
depois dos comerciais?
?quem ficou pedindo mais
armas químicas e poemas?”
Como diferenciar armas químicas e poemas? Existe diferença entre armas químicas e poemas? Ficção e realidade se cruzam, as águas se tornam turvas e a certeza é só uma: o mundo não tem legenda.
[1] Sobre esta questão vale a pena ler o texto do filósofo norte-americano Richard Rorty Fora da Matrix , em que ele, a partir da análise do filme, faz uma introdução ao pensamento de Donald Davidson.
[2] Interroga-se Nietzsche: “O que é verdade portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas.” (NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas. In. Os Pensadores. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 48).
[3] Fiquei intrigado com a diferença deste “Como você está?” em relação ao já mais desinteressado “Tudo bem [com você]?”. A segunda pergunta já pressupõe de modo forte uma resposta, já aponta para o que seria a resposta standard.
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Luz, onde estão teus olhos
Luz, onde estão teus olhos
Ultimamente – depois de Nietzsche – é comum que se critique as perspectivas platônicas que permeiam a filosofia. É que as perguntas por essências atemporais levaram a filosofia para um caminho que parece hoje ter se tornado improdutivo: como lembra o filósofo norte-americano Hilary Putnam, ninguém pode alcançar a perspectiva de um “olho de Deus”. Mas, deve ficar a dúvida: Platão não era Platônico! É que hoje alguns identificam Platão com a figura do rei-filósofo, aquele personagem que no Mito da Caverna consegue contemplar a luz da verdade e volta para tentar libertar os que estão acorrentados em meio às sombras. Essa idéia de que o filósofo teria um acesso especial à Verdade tem uma dimensão mais religiosa do que algo que se possa justificar quando se mantém um diálogo aberto.
Mas o Mito da Caverna, como bem mostrou Heidegger, funda a autoridade da teoria, quando Platão, ao falar do caminho de ascensão do filósofo fala em verdade (aletheia), mas, quando se refere a volta dele para a caverna passa a falar em ortótes , a idéia de correção do olhar: o sábio deveria corrigir o olhar dos acorrentados de modo a levá-los a direcionar-se para a luz do saber. Não é um diálogo: o filósofo tem autoridade porque sabe onde está a Verdade! Teoria seria contemplar o que é, olhos humanos deveriam se voltar para as essências ao invés de ficar preso as aparências. Ficar preso às aparências seria ficar preso às coisas fugidias, a vida prática: a vida do filósofo deveria ser contemplativa, ou seja, sua função seria olhar o mundo.
Pense num professor que faz seu mestrado/doutorado no exterior e volta para o Brasil para dirigir o olhar de seus alunos para as verdades mais reluzentes. Pense na necessidade que existe de justificar qualquer trabalho recorrendo-se a certo cânone que, nos garantiria acesso à verdade: o negócio nesse jogo de ócio não é debater idéias, mas citar gente que concorda com a gente. Como diz o professor Valdir Heitor Barzotto a fórmula parece ser citar três estrangeiros, um brasileiro que se alinha a um estrangeiro, outro que discorda e pronto. Mestrado e Doutorado garantidos por ter dado prova de poder olhar para a luz que advém do exterior. Nossa cordial desconversação! Um exotismo inventado...
Fazer teoria é dirigir o olhar para algum lugar. Então deveríamos parar de tentar fazer teoria, parar de tentar atingir essências absolutas e passar a conversar, a aceitar o debate e o diálogo. Assim como, a imperfeição do inacabado, o acaso que sempre pode acenar. Assumiríamos, assim, nossa finitude e, com ela, a finitude de tudo o que é humano. Os que nos pedem para tentar esse outro caminho, de dialogo, pedem que abandonemos as metáforas visuais: ver, contemplar etc.; já que não existe nenhuma Realidade pura e imaculada para ser desvendada. A marca da serpente humana está em toda parte...
Se a idéia é dialogar, podemos partir de qualquer elemento de nossa cultura. Ao invés de tentar falar todas as línguas vivas e mortas, poderíamos dialogar a partir de diversas linguagens. É o caso desse texto: decidi fazê-lo depois de ouvir a demo de uma canção dos Engenheiros do Hawaii – leia-se Humberto Gessinger. A letra de Luz põe em cena essa necessidade do olhar que permeia nossa cultura:
Onde estão teus olhos
agora que tô bem na foto
agora que achei o foco
onde estão teus olhos
sem eles não existo
fico cego invisível
queimo o filme rasgo a foto
onde estão teus olhos
agora que domei a fera
agora que a dor já era
onde estão teus olhos
sem eles não existo
fico cego invisível
só enxergo o silêncio
juntos para sempre
objeto e observador
física moderna
velhas canções de amor
onde estão teus olhos(2x)
longe deles nada existe
(solo de gaita)
onde estão teus olhos(2x)
longe deles nada existe
agora que tô bem na foto
agora que achei o foco
onde estão teus olhos
sem eles não existo
fico cego invisível
queimo o filme rasgo a foto
onde estão teus olhos
agora que domei a fera
agora que a dor já era
onde estão teus olhos
sem eles não existo
fico cego invisível
só enxergo o silêncio
juntos para sempre
objeto e observador
física moderna
velhas canções de amor
onde estão teus olhos(2x)
longe deles nada existe
(solo de gaita)
onde estão teus olhos(2x)
longe deles nada existe
Luz é uma metáfora recorrente na tradição filosófica para se falar em razão. Trazer à luz algo para que possa ser visto: teorizar tudo e dominar qualquer acaso! Somos os observadores que querem objetificar tudo, reificar tudo a nossa volta. É isso que a modernidade quis; matematizar a realidade, partindo do Plano Cartesiano, da física moderna de Newton etc., inspiraram-se em buscar a função que descrevesse toda a Realidade (noutra das canções demo divulgadas por Humberto Gessinger a letra de Pra quem gosta de nós diz: “Mapearam o genoma/ O acaso vai dançar/Sem a senha só em sonho/ Impossível disfarçar”). Mesmo a relação amorosa na modernidade passa a ser crivada desse ideal; o romantismo amoroso em sua contradição fundamental denunciada por Jurandir Freire Costa: ao tentar combinar “amor eterno” e “prazer constante”. Sem esse olhar de autoridade poderíamos sobreviver?
Quando pensamos na prática, as teorias que buscas princípios eternos acabam, mais cedo ou mais tarde, sendo refutadas pela realidade. Deveríamos então ser mais flexíveis e abandonar essas questões platônicas por essências. Saber e querer não bastam: o difícil é agir e aí, nenhuma teoria pode nos salvar de nossa própria contingência. Humanistas tem fome, diria Quincas Borba. Melhor dos mundos: impossível...
Por outro lado, acho que esse ataque às metáforas visuais é um tanto vazio. Não podemos deixar de ter esse sentido, tais metáforas correspondem mais a nossa condição física do que a qualquer teoria. Deveríamos arrancar os olhos, como Édipo, para viver sem complexos? O olhar também é uma forma de identificar-se com o outro. Olhar nos olhos, olhar para o chão, os olhares das personagens de Machado de Assis... o olhar tanto transformar em pedra quanto dar vida. Precisamos ouvir o silêncio, sentir as diferenças, farejar novidades? Sim... Mas não vejo nada intrinsecamente negativo nas metáforas visuais se tomamos alguns cuidados para não repetir antigos erros. Lembro de um poema de Camões, nosso poeta que perdeu um olho, que diz algo que me interessou:
MOTE
Pus o coração nos olhos
e os olhos pus no chão
por vingar o coração.
VOLTA
O coração envejoso
como dos olhos andava,
sempre remoques me dava
que não era o meu mimoso.
Venho eu, de piadoso
do senhor meu coração,
boto os meus olhos no chão.
Pus o coração nos olhos
e os olhos pus no chão
por vingar o coração.
VOLTA
O coração envejoso
como dos olhos andava,
sempre remoques me dava
que não era o meu mimoso.
Venho eu, de piadoso
do senhor meu coração,
boto os meus olhos no chão.
Os olhos podem, nesse caminho de identificação, levar uma pessoa para habitar nosso coração. O que trazemos dentro do peito. É o que temos respeito. Olhemos então os problemas que nos comicham todos os dias: não faltam motivos pra se respeitar nossas vidas finitas e humanas.
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Dar sentido p’ra existência: um esporte (extremamente) radical
Neste trabalho tento olhar mais de perto a canção Esportes Radicais do álbum Surfando Karmas e DNA. É uma continuação do texto acerca de Novos Horizontes (feito no mesmo dia).
Um detalhe que me chamou atenção no encarte foi a forma de diagramação da letra. Parece-me que ajuda a compreender o que está em questão. Então , citarei a letra com seus negritos e itálicos originais seguindo e comentando parágrafo por parágrafo. Trata-se de uma interpretação. Seu objetivo: um experimento de pensar...
A letra começa:
preso no trânsito de astros imóveis
faço as contas na ponta do lápis
e nada faz sentido
Pode-se pensar de início que esses versos não fazem sentido: “trânsito de astros imóveis?” Seriam esses “astros imóveis” elementos do star system de nossa sociedade de espetáculo? Não sei. Sigo em outro caminho com espírito de Parsifal: Kant, o grande iluminista alemão em sua crença imperturbável na razão, afirmava que nada lhe causava mais admiração do que “o sol estrelado sobre mim e a lei moral em mim”. Kant tendo como pressuposto a física de Newton, tentou pensar um conjunto de regras éticas que deveriam conduzir o homem em sua existência. A idéia era conseguir a mesma necessidade da física de Newton: assim com a lei da gravidade vale para todos os corpos, a lei moral deveria se impor a todos os seres dotados de razão. O grande problema estaria em como submeter a vontade humana a essas leis da razão. Se Kant tivesse chance de ver o dano causado pelo fascismo/nazismo provavelmente seria mais cético quanto ao poder e sentido da racionalidade humana...
De qualquer forma, hoje não faz mais sentido pensar numa “ordenação cósmica” de valores imutáveis e eternos que possa orientar a vontade do homem. Como sabemos por Novos Horizontes o universo segue em movimento, em expansão. A analogia entre o universo ordenado da física newtoniana e o formalismo da ética kantiana, fazendo “as contas na ponta do lápis”, não faz mais sentido. Provavelmente as referências do compositor são diferentes, mas acredito que essa primeira estrofe aponta para a ausência de uma racionalidade universal hoje... a letra segue
adrenalina é uma menina dormindo
dançando em silêncio imaginando um reggae
cansei de alimentar os motores
agora quero freios e airbag
pois nada faz sentido
dançando em silêncio imaginando um reggae
cansei de alimentar os motores
agora quero freios e airbag
pois nada faz sentido
Essa segunda estrofe trataria das emoções. O tema é introduzido com a palavra ‘adrenalina’. Por um lado não faz sentido manter uma postura passiva, apática... por outro, não faz sentido entrar no jogo dos “esportes radicais” buscando na promessa de aventura e velocidade sua dimensão mais destrutiva: “cansei de alimentar os motores/ agora quero freios e air bag”. No entanto, nada aqui faz sentido.
se capricórnio fosse câncer, se Califórnia fosse França
a rampa que lança o skate ao céu seria nosso chão
180, 360, 540 graus, girando, esquentando
só pra ver até quando o motor agüenta o caos
a rampa que lança o skate ao céu seria nosso chão
180, 360, 540 graus, girando, esquentando
só pra ver até quando o motor agüenta o caos
Se: entramos no universo da suposição. Poderia ser o mundo diferente?! Qual diferença a letra postula: a adrenalina do esporte radical estaria em nossa vida cotidiana como intensidade e não como desperdício e auto-destrutividade. Por isso o refrão anuncia:
não vou ficar parado, não vou passar batido
se nada faz sentido, há muito que fazer
se nada faz sentido, há muito que fazer
Não deveríamos nos entregar a apatia e ao comodismo, nem nos deixar dominar pelas emoções (por vezes destrutivas ): se o mundo parece não ter sentido, devemos construir um sentido: existe muita coisa para fazer.
Isso é posto na canção como uma necessidade:
não há alternativa, é a única opção
unir otimismo da vontade e o pessimismo da razão
contra toda expectativa, contra qualquer previsão
há um ponto de partida, há um ponto de união :
sentir com inteligência, pensar com emoção
unir otimismo da vontade e o pessimismo da razão
contra toda expectativa, contra qualquer previsão
há um ponto de partida, há um ponto de união :
sentir com inteligência, pensar com emoção
A única opção que temos estaria em seguir o exemplo de determinação dado pelo filósofo italiano Antonio Gramsci que, preso pelos fascistas e padecendo com diversas doenças nunca se curvou diante da situação totalmente desfavorável, pelo contrário: no cárcere por dez anos, produziu de maneira incessante (o que resultou em mais de 4 mil páginas de um trabalho de filosofia política, profundo e original ). Tentando descrever o estado de animo que o cárcere lhe proporcionou Gramsci utilizou uma frase do escritor francês Romain Rollain, mostrando que trazia juntos “o pessimismo da razão e o otimismo da vontade”.
O trabalho de Gramsci levou o marxismo a superar o determinismo econômico, o direcionando para uma transformação intelectual e moral da sociedade. Seria necessário “lutar” para construir uma nova cultura, um novo humanismo “com base na crítica dos costumes, dos sentimentos, das concepções de mundo, da estética e da arte.” É no sentido dessa transformação que Gessinger repete:
não vou ficar parado, não vou passar batido
se nada faz sentido, há muito que fazer
se nada faz sentido, há muito que fazer
Sobre essa canção Humberto Gessinger disse que lhe parecia uma continuação de Infinita Higway: se naquela canção temos o existencialismo-beat afirmando que “a estrada é a vida”, Esportes Radicais esclarece a direção a ser seguida.
13/06/2006
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Dar sentido p’ra existência: um esporte (extremamente) radical
Neste trabalho tento olhar mais de perto a canção Esportes Radicais do álbum Surfando Karmas e DNA. É uma continuação do texto acerca de Novos Horizontes (feito no mesmo dia).
Um detalhe que me chamou atenção no encarte foi a forma de diagramação da letra. Parece-me que ajuda a compreender o que está em questão. Então , citarei a letra com seus negritos e itálicos originais seguindo e comentando parágrafo por parágrafo. Trata-se de uma interpretação. Seu objetivo: um experimento de pensar...
A letra começa:
preso no trânsito de astros imóveis
faço as contas na ponta do lápis
e nada faz sentido
Pode-se pensar de início que esses versos não fazem sentido: “trânsito de astros imóveis?” Seriam esses “astros imóveis” elementos do star system de nossa sociedade de espetáculo? Não sei. Sigo em outro caminho com espírito de Parsifal: Kant, o grande iluminista alemão em sua crença imperturbável na razão, afirmava que nada lhe causava mais admiração do que “o sol estrelado sobre mim e a lei moral em mim”. Kant tendo como pressuposto a física de Newton, tentou pensar um conjunto de regras éticas que deveriam conduzir o homem em sua existência. A idéia era conseguir a mesma necessidade da física de Newton: assim com a lei da gravidade vale para todos os corpos, a lei moral deveria se impor a todos os seres dotados de razão. O grande problema estaria em como submeter a vontade humana a essas leis da razão. Se Kant tivesse chance de ver o dano causado pelo fascismo/nazismo provavelmente seria mais cético quanto ao poder e sentido da racionalidade humana...
De qualquer forma, hoje não faz mais sentido pensar numa “ordenação cósmica” de valores imutáveis e eternos que possa orientar a vontade do homem. Como sabemos por Novos Horizontes o universo segue em movimento, em expansão. A analogia entre o universo ordenado da física newtoniana e o formalismo da ética kantiana, fazendo “as contas na ponta do lápis”, não faz mais sentido. Provavelmente as referências do compositor são diferentes, mas acredito que essa primeira estrofe aponta para a ausência de uma racionalidade universal hoje... a letra segue
adrenalina é uma menina dormindo
dançando em silêncio imaginando um reggae
cansei de alimentar os motores
agora quero freios e airbag
pois nada faz sentido
dançando em silêncio imaginando um reggae
cansei de alimentar os motores
agora quero freios e airbag
pois nada faz sentido
Essa segunda estrofe trataria das emoções. O tema é introduzido com a palavra ‘adrenalina’. Por um lado não faz sentido manter uma postura passiva, apática... por outro, não faz sentido entrar no jogo dos “esportes radicais” buscando na promessa de aventura e velocidade sua dimensão mais destrutiva: “cansei de alimentar os motores/ agora quero freios e air bag”. No entanto, nada aqui faz sentido.
se capricórnio fosse câncer, se Califórnia fosse França
a rampa que lança o skate ao céu seria nosso chão
180, 360, 540 graus, girando, esquentando
só pra ver até quando o motor agüenta o caos
a rampa que lança o skate ao céu seria nosso chão
180, 360, 540 graus, girando, esquentando
só pra ver até quando o motor agüenta o caos
Se: entramos no universo da suposição. Poderia ser o mundo diferente?! Qual diferença a letra postula: a adrenalina do esporte radical estaria em nossa vida cotidiana como intensidade e não como desperdício e auto-destrutividade. Por isso o refrão anuncia:
não vou ficar parado, não vou passar batido
se nada faz sentido, há muito que fazer
se nada faz sentido, há muito que fazer
Não deveríamos nos entregar a apatia e ao comodismo, nem nos deixar dominar pelas emoções (por vezes destrutivas ): se o mundo parece não ter sentido, devemos construir um sentido: existe muita coisa para fazer.
Isso é posto na canção como uma necessidade:
não há alternativa, é a única opção
unir otimismo da vontade e o pessimismo da razão
contra toda expectativa, contra qualquer previsão
há um ponto de partida, há um ponto de união :
sentir com inteligência, pensar com emoção
unir otimismo da vontade e o pessimismo da razão
contra toda expectativa, contra qualquer previsão
há um ponto de partida, há um ponto de união :
sentir com inteligência, pensar com emoção
A única opção que temos estaria em seguir o exemplo de determinação dado pelo filósofo italiano Antonio Gramsci que, preso pelos fascistas e padecendo com diversas doenças nunca se curvou diante da situação totalmente desfavorável, pelo contrário: no cárcere por dez anos, produziu de maneira incessante (o que resultou em mais de 4 mil páginas de um trabalho de filosofia política, profundo e original ). Tentando descrever o estado de animo que o cárcere lhe proporcionou Gramsci utilizou uma frase do escritor francês Romain Rollain, mostrando que trazia juntos “o pessimismo da razão e o otimismo da vontade”.
O trabalho de Gramsci levou o marxismo a superar o determinismo econômico, o direcionando para uma transformação intelectual e moral da sociedade. Seria necessário “lutar” para construir uma nova cultura, um novo humanismo “com base na crítica dos costumes, dos sentimentos, das concepções de mundo, da estética e da arte.” É no sentido dessa transformação que Gessinger repete:
não vou ficar parado, não vou passar batido
se nada faz sentido, há muito que fazer
se nada faz sentido, há muito que fazer
Sobre essa canção Humberto Gessinger disse que lhe parecia uma continuação de Infinita Higway: se naquela canção temos o existencialismo-beat afirmando que “a estrada é a vida”, Esportes Radicais esclarece a direção a ser seguida.
13/06/2006
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Novos Horizontes dos Engenheiros do Hawaii
Novos Horizontes dos Engenheiros do Hawaii
A canção Novos Horizontes apareceu no álbum ao vivo dos Engenheiros do Hawaii 10.000 destinos de 2000. Neste texto tento entende-la e mostrar como ela antecipa a temática do trabalho seguinte da banda.
novos horizontes
(gessinger)
corpos em movimento
universo em expansão
o apartamento que era tão pequeno
não acaba mais
Uma epifania: da explosão inicial de um big bang principia o universo, que continua sempre em expansão. Esse é o seu movimento. Um apartamento pequeno que também se expande. Ele agora está crescendo: existe uma falta dentro dele, um vazio que cresce da mesma forma que o universo.
vamos dar um tempo
não sei quem deu a sugestão
aquele sentimento que era passageiro
não acaba mais
não sei quem deu a sugestão
aquele sentimento que era passageiro
não acaba mais
“Vamos dar um tempo”. Vamos nos separar: com o tempo os corpos se afastam, vamos nos distanciar como o universo que se expande. Não sei quem deu a sugestão: mas faria diferença se soubesse? O que importa é que o sentimento que deveria ser passageiro também vai se ampliando. Qual sentimento?
quero explodir as grades
e voar
não tenho pra onde ir
não quero ficar
Também quero essa expansão, quero me libertar desses limites e ser livre: não sei bem para onde ou porque, mas sei que não quero ficar aqui. Quero coisas novas, novas experiências...
novos horizontes
?se não for isso, o que será?
quem constrói a ponte
não conhece o lado de lá
?se não for isso, o que será?
quem constrói a ponte
não conhece o lado de lá
Para viver algo diferente, para agir é necessário se arriscar. É preciso estar pronto para também mudar, para se reconstruir. Só quem enfrenta a angústia de saltar o abismo pode alcançar o outro lado e desvendar novos horizontes...encontrar novamente o chão e não deixar-se cair
suspender a queda livre
libertar
Na hora de agir não existem pressupostos que possam nos proteger do vazio e da “expansão do universo”. Os que não querem se acomodar numa situação que lhes é desagradável, devem estar prontos para enfrentar a angústia de agir. Todo ato que merece esse nome implica numa transformação de quem age. Impõe a necessidade de se reinventar... arriscar...querer o novo...já que
o que não tem fim sempre acaba assim
A canção termina... sobra você e o universo: em expansão?...falta um sentido para isso...o álbum seguinte dos Engenheiros do Hawaii se chama Surfando Karmas e DNA e ira repetir e aprofundar esse tema. Na canção de abertura e que dá nome ao álbum, se lembra que, muitas vezes, temos de enfrentar situações nas quais as lembranças estão no espelho e a “esperança na outra margem”: a ação, desafiar o que é posto como destino e considerado “natural” (karma ou DNA ) é ter coragem para inventar a própria liberdade...
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Freud Flintstone e os deuses da propriedade privada
Freud Flintstone e os deuses da propriedade privada
A canção Freud Flintstone dos Engenheiros do Hawaii traz referências as primeiras formações patriarcais, que deram origem a propriedade privada do solo. Essa estrutura era comum na Antiguidade Clássica (Grécia e Roma). No entanto, a música pode ser interpretada como uma narrativa que descreve a criação do “deus” da propriedade privada.
Na sociedade atual os ídolos não permanecem nos altares: para o capitalismo é sempre necessário criar novos, e, para isso, esquecer/destruir os antigos. Isso acontece na moda, na informática, na música, na televisão, no cinema etc. ídolos são criados e consumidos com avidez.
Os artistas são colocados no altar. Uma vez lá, as pessoas passam a querer saber tudo sobre suas vidas: o que pensam, o que vestem, o que sentem, o que os faz sofrer, o que acham da política, do buraco na camada de ozônio... Querem consumir seu ídolo.
Esse consumir tem um sentido pesado: muitas vezes os artistas são privados de suas próprias vidas e se tornam reféns da fama. Contudo, a dor deles vende: as revistas de fofoca não são à toa as mais vendidas. As pessoas acham “emocionantes” as corridas na TV quando ocorrem acidentes. Vão para o rodeio ( na maioria das vezes ) pra ver os tombos..querem a morte de seu ídolos...e, quando eles morrem vão novamente para o altar...os ídolos são literalmente consumidos. . .
Transcrevo a letra e depois um comentário sobre como, na Antiguidade Clássica, a existência de deuses familiares se liga a invenção da propriedade privada do solo.
Freud Flinstone
(Humberto Gessinguer)
Querem sangue, querem lama,
Querem à força o beijo na lona
E querem ao vivo
Querem à lágrima doida
Do ídolo caindo
Em câmera lenta
Querem lutar pelo que amam
Conquistar e destruir
O que amavam tanto
Faça uma prece p’ra Freud Flintstone
Acenda uma vela p’ra Freud Flintstone
Sacrifique o bom senso no seu altar
Na areia da arena
Saí de cena por decreto
A flor do deserto
Gran finale, ultima cena.
No ar pelas antenas
A morte do toureiro
Faça uma prece p’ra Freud Flintstone
Acenda uma vela p’ra Freud Flintstone
Que o satélite lhe seja leve
Esqueça a prece p’ra Freud Flintstone
Acenda a fogueira p’ra Freud Flintstone
Vamos queimá-lo vivo, enterrá-lo vivo,
O preço é uma prece, pague p’ra ver,
Compre ingresso, adeus Pink Floid Flintstone,
Fama, fogo, fúria, fé no clube Freud Flintstone
Que o satélite lhe seja leve
Família, Religião Doméstica e Propriedade Privada
(Humberto Gessinguer)
Querem sangue, querem lama,
Querem à força o beijo na lona
E querem ao vivo
Querem à lágrima doida
Do ídolo caindo
Em câmera lenta
Querem lutar pelo que amam
Conquistar e destruir
O que amavam tanto
Faça uma prece p’ra Freud Flintstone
Acenda uma vela p’ra Freud Flintstone
Sacrifique o bom senso no seu altar
Na areia da arena
Saí de cena por decreto
A flor do deserto
Gran finale, ultima cena.
No ar pelas antenas
A morte do toureiro
Faça uma prece p’ra Freud Flintstone
Acenda uma vela p’ra Freud Flintstone
Que o satélite lhe seja leve
Esqueça a prece p’ra Freud Flintstone
Acenda a fogueira p’ra Freud Flintstone
Vamos queimá-lo vivo, enterrá-lo vivo,
O preço é uma prece, pague p’ra ver,
Compre ingresso, adeus Pink Floid Flintstone,
Fama, fogo, fúria, fé no clube Freud Flintstone
Que o satélite lhe seja leve
Família, Religião Doméstica e Propriedade Privada
O surgimento da propriedade privada do solo na Antigüidade clássica se liga a existência de uma religião doméstica que fundamentava a unidade das famílias e a unidade do território.
Havia uma verdadeira “religião da morte”[1] baseada na crença de que com a morte não havia uma separação total entre corpo e alma (não se concebia tal distinção), ocorria, em verdade, uma mudança de vida: os mortos continuariam a viver na terra junto dos vivos como demônios poderosos. Os gregos chamavam as almas humanas divinizadas pela morte de demônios, ou heróis. Os latinos as denominavam de manes, lares ou gênios.
Para garantir a paz na vida cotidiana (tendo em vista o poder dos lares ) era necessário seguir os preceitos de uma religião familiar centrada na figura do patriarca fundador. A presença desse demônio era marcada pela existência de um fogo sagrado na casa de cada família. O fogo só deixava de brilhar quando toda família estivesse extinta; lar extinto, família extinta.
No infortúnio, o homem chorava suas mazelas para o fogo, dirigindo-lhe repreensões; na felicidade rendia-lhe graças. O soldado ao voltar ileso da guerra, agradecia por ter-lhe preservado dos perigos.
Só o pai, único interprete e único pontífice de sua religião, tinha o poder de ensinar tal religião e só o podia fazer a seu filho. Ninguém mais podia ser instruído nas regras da sua religião caseira.
Só o pai, único interprete e único pontífice de sua religião, tinha o poder de ensinar tal religião e só o podia fazer a seu filho. Ninguém mais podia ser instruído nas regras da sua religião caseira.
Os limites das terras da família marcavam também os limites do domínio desse deus patriarcal. Os membros da família deviam sempre ser enterrados nesse limite, geralmente em túmulos coletivos. Assim a propriedade da terra tinha, inicialmente, uma fundamentação religiosa. Mais tarde, quando se tornou comum a venda de territórios, era necessário garantir que os membros da família continuariam sendo enterrados no domínio do seu deus e seguindo as atividades dessa religião.
Assim, havia uma constante troca de serviços entre vivos e mortos. Abandonar um corpo sem túmulo era condenar a alma a errância, sobre forma de larva ou fantasma, sem receber as oferendas de que necessitava, essa alma se tornaria perversa, provocando doenças, devastando plantações.
A cerimônia fúnebre tinha, então, um grande significado. Era comum chamar por três vezes a alma do morto pelo nome que havia usado em vida, dizer-lhe por três vezes “passe bem” e acrescentar “que a terra lhe seja leve”.
A cerimônia fúnebre tinha, então, um grande significado. Era comum chamar por três vezes a alma do morto pelo nome que havia usado em vida, dizer-lhe por três vezes “passe bem” e acrescentar “que a terra lhe seja leve”.
Palavra(s) do autor:
Esses são trechos de alguns chats que Humberto Gessinger participou:
Questão: Os romanos escreviam no túmulo, "que a terra lhe seja leve" quando enterravam alguém que prezavam. É issoem Freud Flintstone ?
HG: é isso, antonio.
Humberto o que você quer dizer na música Freud Flintstone com, "que o satélite lhe seja leve"?
HG: "que a terra lhe seja leve" é a expressão clássica: a terra que fica sobre o caixão, a morte, o julgamento... usei satélite pois hoje é o que nos julga...temos uma existência virtual, através dele, principalmente nós, teimosos de comunicar.
Esses são trechos de alguns chats que Humberto Gessinger participou:
Questão: Os romanos escreviam no túmulo, "que a terra lhe seja leve" quando enterravam alguém que prezavam. É isso
HG: é isso, antonio.
Humberto o que você quer dizer na música Freud Flintstone com, "que o satélite lhe seja leve"?
HG: "que a terra lhe seja leve" é a expressão clássica: a terra que fica sobre o caixão, a morte, o julgamento... usei satélite pois hoje é o que nos julga...temos uma existência virtual, através dele, principalmente nós, teimosos de comunicar.
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Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter
Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter
Para Wallace Stevens a imaginação é a mente reagindo à pressão da realidade. No entanto, o que chamamos hoje de realidade seria simplesmente a imaginação dos mortos: desta forma, ser realista é outro nome para o conservadorismo. Precisamos da imaginação para inventar novos caminhos, seja para a nossa vida pessoal, seja para a sociedade como um todo.
O grafite de Maio de 1968 “a imaginação no poder” surgiu como uma metáfora que não parecia fazer sentido: apontando para uma utopia “romântica” que não trazia consigo a bandeira vermelha do socialismo, ou melhor, que não se deixava dobrar por nenhuma formula pronta.
O existencialismo vai ser o que fizermos dele, dizia Sartre. Dizia também que o homem não tinha uma essência e seria resultado de suas ações. Para John Lennon o rock seria o que “fizermos” dele. Para os jovens de então a política deveria ter essa mesma abertura para o novo. O que seria esse novo? O que nossa imaginação permitir.
O grande inconsciente da sociedade atual está implantado justamente na incapacidade de pensar em alternativas: as coisas são como estão e não existem alternativas. Essa é para Slavoj Zizek a grande ideologia pós-moderna. Se antes a ideologia se dava no nível do saber, ou seja, promovendo certo “ocultamento”; hoje ela se dá no nível do fazer: todos sabem, mas continuam cinicamente fazendo o que sempre fizeram. Como um nazi-fascista que justificasse seus crimes falando em premissas sociológicas e culturais, mas continuasse com seu comportamento violento e preconceituoso, tomando-o como natural. Vemos o aquecimento global, a destruição das reservas naturais, o colapso de nosso sistema energético etc., e não consideramos a possibilidade real de pensar em alternativas: mais cômodo imaginar o fim-do-mundo!
Essa situação é representada bem pelas palavras de jovem Theo, protagonista do romance Sábado de Ian MacEwan, que com seus 18 anos renega qualquer utopia política:“Quando pensamos nas coisas grandes – a situação política, o aquecimento global, a pobreza mundial –, tudo parece realmente terrível, nada está melhorando, não há nada a esperar. Mas, quando penso pequeno, mais perto –você sabe, numa garota que acabei de conhecer ou na canção que estou compondo com Chas ou em fazer "snowboard" no mês que vem, tudo parece ótimo. Por isso, este será meu lema: Pense pequeno"[1].
Há pouco tempo, atrás Humberto Gessinger soltou uma nota no site dos Engenheiros do Hawaii sobre a música Somos quem podemos ser, dizia: “Uma questão específica de um cara que está estudando a cena musical recente talvez interesse a mais alguém: ele pergunta sobre Somos Quem podemos Ser. Me lembro que esta música provocava duas críticas. A primeira delas é de que soava muito brasileiro, clube da esquina. Eu tomava isso como elogio e agradeço ao acorde com sétima aumentada. A segunda crítica se referia a uma possível passividade da letra. Acho uma leitura apressada. Não estou dizendo que só podemos ser o que já somos...estou dizendo que somos tudo que pudermos sonhar...eu acho...na verdade só parei pra pensar nessa música por que o menino perguntou...e só pensei no refrão...pensar em música pra mim é parecido com fazer exame de sangue...”. O sangue é mesmo burro: corre nas veias sem saber. Só na hora de fazer exame sabemos que ele existe. Se Gessinger não sabe bem o que queria dizer, tem certeza do que não queria... ”Não sei para onde vou, só sei que não vou por aí”, como no poema de José Régio.[2]
Essa canção começa com os versos:
um dia me disseram
que as nuvens não eram de algodão
um dia me disseram
que os ventos as vezes erram a direção
e tudo ficou tão claro
um intervalo na escuridão
(uma estrela de brilho raro
um disparo pára um coração)
O que se “descobre”, o grande segredo que aqui se desvenda, parece ser justamente o grande ‘sintoma’ da ideologia: não se trata de encontrar um rosto atrás da máscara, mas do fato de que sempre existe uma máscara. Ao se descrever o sintoma a repetição se desfaz. Não é a toa que, para Lacan, foi Karl Marx quem descobriu o sintoma ao analisar a transição do feudalismo para o capitalismo: se na ordem feudal existiam relações formais de subordinação, nas categorias de suserania e vassalagem, na ordem capitalista essa situação foi camuflada pela liberdade de cada qual para vender sua força de trabalho. Existira a dominação, mas não existiria mais – aparentemente – o dominador. Perspectivas tomadas como naturais de repente aparecem como construtos sociais: é exatamente isso que Marx desvendou ao analisar o fetichismo da mercadoria na sociedade capitalista.
O que era raro torna-se comum ao ganhar valor de mercado. Todas as coisas devem se adequar a esse padrão. Como numa propaganda recente de cartão de crédito, que dizia o preço de vários itens de consumo e a seguir apontava para uma determinada satisfação emocional do consumidor, concluindo: “certas coisas não tem preço, para as outras você tem o cartão de crédito x”. Justamente ao pontuar que “certas coisas não tem preço” a propaganda quer vender cartão de crédito, colocando tudo (até os sentimentos) nesse jogo de valoração mercadológico. Normalizam-se as diferenças, aparam-se as arestas e tudo se torna igual.
Exemplo paradigmático, o slogan “ser diferente é normal”, que utiliza uma qualificação psiquiátrica – o discutível padrão de normalidade – e a ele subordina todas as diferenças. Em verdade, melhor que inverter o dito, num “normal é ser diferente”, seria rejeitar esse padrão de “normalidade” de pressupostos nefastos.
Ao se desvelar algo como ideológico não temos por si só uma solução: a contradição explode como aparência: devemos lidar com ela, tentar novos caminhos, ou empurrá-las para baixo do tapete. A letra continua:
a vida imita o vídeo
garotos inventam um novo inglês
vivendo num país sedento
um momento de embriaguez
A gravação de Somos quem podemos ser é de 1988. Nessa data não existia ainda Big Brother, mas “a vida já imitava o vídeo” e não ao contrário. Num país cheio de sede, teríamos um momento de embriaguez: a abertura política nos dava amplas possibilidades de escolher novos caminhos, mas deveríamos assumir que:
"somos quem podemos ser
sonhos que podemos ter"
Somos romanticamente responsáveis pela nossa auto-criação: se não tivermos sonhos, se não tivermos esperança, estaremos condenados a aceitar as coisas como estão. E de quem seria a “culpa” nesse caso:
"quem ocupa o trono tem culpa
quem oculta o crime também
quem dúvida da vida tem culpa
quem evita a dúvida também tem"
A culpa seria de todos aqueles que se deixam dominar pela ilusão. Que apesar de saberem dos problemas preferem agir como se não soubessem e se negam a pensar em alternativas, em algo diferente. Karl Marx lembrava a dialética hegeliana entre senhor e escravo nO Capital dizendo que ”um rei só é rei porque outros homens colocam-se numa relação de súditos com ele. E eles, ao contrário, imaginam ser súditos por ele ser rei.” Lacan, foi mais longe, ao afirmar que, um louco que acredita que é rei não é mais louco que um rei que acredita que é rei!
Se não pudermos imaginar alternativas, estaremos desde já condenados cinicamente a viver nossa autodestruição.
[1] Citado por Richard Rorty em Nausea em Londres. Folha 05/02/2006 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0502200616.htm
[2] Leia em: http://www.astormentas.com/regio.htm
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