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sábado, 3 de julho de 2010

Sócrates pop star


Sócrates pop star 
Marcos Carvalho Lopes, Jataí (GO) · 30/8/2006 18:24

 
Acabei de ler o Eutífron de Platão. Nele Sócrates e Eutífron discutem sobre a piedade. A questão é o que faz de um homem piedoso ou não? O tema vai bem a calhar porque Sócrates acabava de ser acusado de impiedade, por não venerar aos deuses existentes e criar novos, assim corromperia aos jovens... Por sinal, Eutífron também estava ligado a uma questão jurídica: acabava de acusar o próprio pai de assassinato. Um de seus empregados havia se desentendido com outro trabalhador e o matado. O assassino foi amarrado enquanto o pai de Eutífron foi a cidade saber o que deveria fazer com ele... Demorou em demasia e o assassino morreu. Eutífron dizia que era seu dever denunciar o próprio pai já que para os deuses não há diferença em ser parente ou não: o importante é a justiça. Esse é o mote do diálogo: Socrátes quer
saber como Eutifron tem tanta certeza sobre o que é ser piedoso, como sabe realmente que agrada aos deuses? Se Sócrates soubesse isso poderia livrar-se da acusação ante o tribunal...


Mas como sempre nos diálogos socráticos, a cada argumento de Eutífron surge a réplica de Sócrates, que mostra que ele pouco sabe sobre o que antes dizia ser seu conhecimento... quando Sócrates insiste em questionar Eutífron diz que não pode ficar, que tem mais coisa a fazer.. e vai embora.


Mais do que nunca, a filosofia parece ter retomado Sócrates: a sua idéia de diálogo é bastante atual... no entanto, me parece mais uma ideal. Hoje a liberdade parece consistir em fazer o que faz Eutífron: não discutir esse tipo de coisa, não colocar os preconceitos em jogo, não se meter em política... Ninguém tem tempo para ficar debatendo indefinidamente um tema como queria Sócrates: por isso pagamos por nossos representantes no parlamento...


Ainda assim Donald Davidson está certo (veja esse ótimo texto ):somente quando expomos nossas idéias podemos nós aperfeiçoar, lapidar nossos juízos para que sejam mais claros, perceber erros... deveriamos conversar mais. O engraçado é que hoje na literatura o que mais se aproxima do formato de diálogo são as entrevistas. De repente você lê uma entrevista de uma figura que escreve de forma obscura e nela o autor expõe as questões de maneira surpreendentemente clara... As entrevistas são sim um gênero que nos aproxima dalguma forma da filosofia... Mas quem dá entrevistas? Quem tem direito a palavra e que merece ser ouvido? Que tipo de questões são formuladas? Hoje a sociedade segue mais as imagens que brilham nas prateleiras do que as palavras de livros sagrados, hoje os jovens se identificam mais pelo som que escutam do que por alguma posição ideológica... Sócrates hoje deveria ser um pop star?... Parece que só essas figuras são questionadas sobre todos os temas, sobre valores morais, religiosos, políticos, ecológicos... Ou Sócrates teria um talk-show? Ou Sócrates não teria mais lugar?

Quando as armas químicas não estão lá... Quando os poemas nos enganam...

Quando as armas químicas não estão lá... Quando os poemas nos enganam...

Marcos Carvalho Lopes

Há poucos dias, assisti o documentário The Pervert's Guide to Cinema (de Sophie Fiennes, Grã-Bretanha/Aústria/ Holanda, 2006), apresentado pelo filósofo e psicanalista Slavoj Zizek (lê-se Slavói Chichec). Zizek é um pensador que tem se tornado popular por oferecer uma releitura da tradição marxista a partir de uma perspectiva que cria uma síntese entre Hegel e Lacan. Sua posição tinha tudo para ser excessivamente hermética, gerando um discurso difícil e assustador para a maioria das pessoas. Ocorre o contrário. Zizek conecta seu pensamento aos signos de nosso tempo, falando sobre eventos atuais, de jogos de videogame (como o Second Life), canções e, principalmente, de filmes.
Uma noção central para as análises de Zizek é a idéia de “paixão pelo Real”, que estaria presente tanto nos atos revolucionários quanto no terrorismo. Zizek aponta aqui para um antagonismo: existiria uma “má paixão” que defenderia a idéia de que “a única experiência potente é a experiência de transgressão, seja na figura da violência política, da sexualidade sadomasoquista etc”. Esta dimensão maléfica da paixão pelo Real estaria presente no “terrorismo e, por exemplo, na fascinação do revolucionário que, para defender a causa, não teme ir até o fim e fazer o trabalho sujo que vai contra os seus princípios morais privados.” Já o lado “bom” desta “paixão pelo real” estaria na valorização do espetáculo, do virtual, do cinema etc. O paradoxo é que o lado “ruim” e o lado “bom” da paixão pelo real estariam interligados hoje. Um exemplo dessa junção estaria no terrorismo: “por um lado, ele é resultado de uma paixão pelo real, paixão daqueles que afirmam: “vamos agir brutalmente”, mas seu efeito é de um grande espetáculo explosivo que nos fascina”.
O documentário pode servir de introdução para a leitura da obra de Zizek, até mesmo porque, grande parte de seus espectadores sentir-se-ão em dúvida: será que este psicanalista descobriu a “real” intenção dos cineastas (David Lynch, Charles Chaplin, Alfred Hitchcock etc.) ou ele está inventando tudo isso para encaixar sua teoria? Será que este espetáculo é mais real do que os outros? O autor, a partir de sua confortável posição de psicanalista poderia rir e afirmar que essas questões são mais uma manifestação de “paixão pelo real”. O espectador poderia rebater: “o mais apaixonado é você, assim como o diabo é quem mais ama Deus”. Este impasse não deve ter solução e sim servir como inspiração para que se leia a obra deste autor. A leitura de Zizek pode servir para que, com maior distanciamento, possamos compreender o que ele está querendo fazer com seu discurso. Fica a dica.

No documentário, uma das cenas que me instigaram, foi a da análise de Zizek da parcialidade das opções oferecidas a Neo em uma famosa cena de Matrix. Nela, o herói tem que escolher entre a pílula vermelha, que traria como efeito a revelação da Verdadeira Natureza da Realidade, e a pílula azul, com a qual permaneceria iludido pelas aparências, o “espetáculo” de vida virtual oferecido pelo “gênio maligno” da Matrix.
A idéia de que existe um “Real” esperando por ser desvendado estando sobreposto a uma grande ficção, um mundo de aparências, é um dos fetiches mais caros da modernidade.[1] Zizek prefere pensar numa terceira pílula, que fosse capaz de nos mostrar o quanto de ilusão e ficção são necessárias para cimentar a percepção de realidade. É esta intuição que vou tentar desenvolver a partir da canção Armas químicas e poemas (http://www2.uol.com.br/engenheirosdohawaii/player/player_armas.htm), dos Engenheiros do Hawaii.
Armas químicas e poemas foi lançada em 2004, no álbum Acústico MTV Engenheiros do Hawaii. Ela apresenta, já em seu título, um elemento de denúncia: a existência no Iraque de “armas químicas”, armas de destruição em massa, foi a desculpa utilizada pelos EUA para justificar, como ação preventiva, a invasão daquele país. A ficção fundou a realidade do conflito atual. Parece ser um nonsense a idéia de unir no título da canção “armas químicas” e “poemas”. Este tipo de aparente contradição é algo recorrente nas letras de Humberto Gessinger, servindo para apontar e provocar espanto com as coisas que não se encaixam muito bem: clichês inéditos, exército de um homem só, esquerda light etc. É esse tipo de jogo que parece surgir nos primeiros versos da canção:


“eu me lembro muito bem, como se fosse amanhã
o sol nascendo sem saber o que iria iluminar(...)”

Parece estranho a canção começar com esse nascer do sol que é também promessa: recordamos algo que ainda não ocorreu. O poema usa do artifício do “como se fosse”, da imaginação que cria analogias que não tem sustentação na realidade. São metáforas para tentar dizer algo ou fazer algo que não é comum. O poeta, como já sabia Platão (o maior de todos os poetas), institui a realidade. Á medida em que suas metáforas se tornam moedas correntes perdem o poder de espanto e tornam-se triavilidade: palavras gastas dão sentido ao literal.[2]  O poder do “como se fosse” nos faz olhar de modo diferente para o que é (ou está). Recordar algo que ainda não ocorreu? Saudade do futuro? Nossa sensibilidade romântica se manifesta na recusa de nos limitarmos ao aqui e agora. O horizonte só surge como esperança. Preenchemos o futuro com expectativas. “Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter...”.
O fato de nos relacionarmos com nosso próprio futuro, nos direciona para algo que consideramos como bom e nos levam a atuar. Se perguntam “Como você está?”[3], a resposta mais comum fala de um estado de ânimo, apontando uma perspectiva de julgamento em relação a existência como um todo, aos projetos e esperanças. A vida ganha sentido a partir desses sonhos de futuro, dessas promessas do que ainda não é. A letra continua:
“eu abri meu coração como se fosse um motor
e na hora de voltar sobravam peças pelo chão
mesmo assim eu fui à luta... eu quis pagar pra ver(...)”

O “como se fosse” reaparece na comparação do coração (do sentimento), com um motor (um mecanismo): no confronto entre o ideal e o real sobram “peças pelo chão”. Entre os sonhos e sua realização, existe uma distância, uma falha. Entre a satisfação oferecida pela propaganda e a realidade do consumo, entre as promessas de amor eterno e a busca de prazer constante, entre o “como se fosse” da poesia e o que é: sobram peças pelo chão. Ainda assim, o que nos resta é seguir em frente: pagar p’ra ver.
A letra segue:
“aonde leva essa loucura
qual é a lógica do sistema
onde estavam as armas químicas
o que diziam os poemas”(...)

Qual é a lógica do sistema que une a vontade de mudança e aquisição com a economia de consumo? A felicidade paradoxal do consumismo; a sede do heroísmo romântico, a busca pelo “real”. Filmes de guerra continuam lado a lado com canções de amor. Quando descobrimos que não existiam armas químicas, que os poemas não descreviam exatamente a realidade, o que nos resta a fazer? Criamos tantas expectativas em relação a um sonho e somos desmentidos pelo mundo. Quando se descobre que os dragões são moinhos de vento, quando Dom Quixote se torna também um mito...segue combatendo: é o que sabe fazer.

afinal de contas
?o que nos trouxe até aqui, medo ou coragem?
talvez nenhum dos dois
sopra o vento um carro passa pela praça
e já foi... já foi
por acaso eu fui à luta... eu quis pagar pra ver

Atrás das armas químicas existia o interesse pelo petróleo (o carro passa pela praça e já foi...). O que sustentam os poemas? Existiria amor atrás das promessas da poesia? Na insatisfação com o mundo que aí está, precisamos imaginar outro, mais real para nossos sonhos, para o sol de amanhã. Precisamos dessa dimensão utópica para “remar contra a corrente” (ou acreditar nisso). Precisamos alimentar a fé em nossas “causas perdidas”, sonhos sinceros...

“o tempo nos faz esquecer o que nos trouxe até aqui
mas eu lembro muito bem como se fosse amanhã

?quem prometeu descanso em paz
depois dos comerciais?
?quem ficou pedindo mais
armas químicas e poemas?”


Como diferenciar armas químicas e poemas? Existe diferença entre armas químicas e poemas? Ficção e realidade se cruzam, as águas se tornam turvas e a certeza é só uma: o mundo não tem legenda.


[1] Sobre esta questão vale a pena ler o texto do filósofo norte-americano Richard Rorty Fora da Matrix , em que ele, a partir da análise do filme, faz uma introdução ao pensamento de Donald Davidson.
[2] Interroga-se Nietzsche: “O que é verdade portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas.” (NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas. In. Os Pensadores. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 48).
[3] Fiquei intrigado com a diferença deste “Como você está?” em relação ao já mais desinteressado “Tudo bem [com você]?”. A segunda pergunta já pressupõe de modo forte uma resposta, já aponta para o que seria a resposta standard.