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sábado, 3 de julho de 2010

Luz, onde estão teus olhos

Luz, onde estão teus olhos
Marcos Carvalho Lopes


Ultimamente – depois de Nietzsche – é comum que se critique as perspectivas platônicas que permeiam a filosofia. É que as perguntas por essências atemporais levaram a filosofia para um caminho que parece hoje ter se tornado improdutivo: como lembra o filósofo norte-americano Hilary Putnam, ninguém pode alcançar a perspectiva de um “olho de Deus”. Mas, deve ficar a dúvida: Platão não era Platônico! É que hoje alguns identificam Platão com a figura do rei-filósofo, aquele personagem que no Mito da Caverna consegue contemplar a luz da verdade e volta para tentar libertar os que estão acorrentados em meio às sombras. Essa idéia de que o filósofo teria um acesso especial à Verdade tem uma dimensão mais religiosa do que algo que se possa justificar quando se mantém um diálogo aberto.
Mas o Mito da Caverna, como bem mostrou Heidegger, funda a autoridade da teoria, quando Platão, ao falar do caminho de ascensão do filósofo fala em verdade (aletheia), mas, quando se refere a volta dele para a caverna passa a falar em ortótes , a idéia de correção do olhar: o sábio deveria corrigir o olhar dos acorrentados de modo a levá-los a direcionar-se para a luz do saber. Não é um diálogo: o filósofo tem autoridade porque sabe onde está a Verdade! Teoria seria contemplar o que é, olhos humanos deveriam se voltar para as essências ao invés de ficar preso as aparências. Ficar preso às aparências seria ficar preso às coisas fugidias, a vida prática: a vida do filósofo deveria ser contemplativa, ou seja, sua função seria olhar o mundo. 
Pense num professor que faz seu mestrado/doutorado no exterior e volta para o Brasil para dirigir o olhar de seus alunos para as verdades mais reluzentes. Pense na necessidade que existe de justificar qualquer trabalho recorrendo-se a certo cânone que, nos garantiria acesso à verdade: o negócio nesse jogo de ócio não é debater idéias, mas citar gente que concorda com a gente. Como diz o professor Valdir Heitor Barzotto a fórmula parece ser citar três estrangeiros, um brasileiro que se alinha a um estrangeiro, outro que discorda e pronto. Mestrado e Doutorado garantidos por ter dado prova de poder olhar para a luz que advém do exterior. Nossa cordial desconversação! Um exotismo inventado...
Fazer teoria é dirigir o olhar para algum lugar. Então deveríamos parar de tentar fazer teoria, parar de tentar atingir essências absolutas e passar a conversar, a aceitar o debate e o diálogo. Assim como, a imperfeição do inacabado, o acaso que sempre pode acenar. Assumiríamos, assim, nossa finitude e, com ela, a finitude de tudo o que é humano. Os que nos pedem para tentar esse outro caminho, de dialogo, pedem que abandonemos as metáforas visuais: ver, contemplar etc.; já que não existe nenhuma Realidade pura e imaculada para ser desvendada. A marca da serpente humana está em toda parte...
Se a idéia é dialogar, podemos partir de qualquer elemento de nossa cultura. Ao invés de tentar falar todas as línguas vivas e mortas, poderíamos dialogar a partir de diversas linguagens.  É o caso desse texto: decidi fazê-lo depois de ouvir a demo de uma canção dos Engenheiros do Hawaii – leia-se Humberto Gessinger. A letra de Luz põe em cena essa necessidade do olhar que permeia nossa cultura:


Onde estão teus olhos
agora que tô bem na foto
agora que achei o foco
onde estão teus olhos

sem eles não existo
fico cego invisível
queimo o filme rasgo a foto

onde estão teus olhos
agora que domei a fera
agora que a dor já era
onde estão teus olhos

sem eles não existo
fico cego invisível
só enxergo o silêncio

juntos para sempre
objeto e observador
física moderna
velhas canções de amor

onde estão teus olhos(2x)
longe deles nada existe

(solo de gaita)

onde estão teus olhos(2x)
longe deles nada existe 



Luz é uma metáfora recorrente na tradição filosófica para se falar em razão. Trazer à luz algo para que possa ser visto: teorizar tudo e dominar qualquer acaso! Somos os observadores que querem objetificar tudo, reificar tudo a nossa volta. É isso que a modernidade quis; matematizar a realidade, partindo do Plano Cartesiano, da física moderna de Newton etc., inspiraram-se em buscar a função que descrevesse toda a Realidade (noutra das canções demo divulgadas por Humberto Gessinger a letra de Pra quem gosta de nós diz: Mapearam o genoma/ O acaso vai dançar/Sem a senha só em sonho/ Impossível disfarçar”).  Mesmo a relação amorosa na modernidade passa a ser crivada desse ideal; o romantismo amoroso em sua contradição fundamental denunciada por Jurandir Freire Costa:  ao tentar combinar “amor eterno” e “prazer constante”. Sem esse olhar de autoridade poderíamos sobreviver?
Quando pensamos na prática, as teorias que buscas princípios eternos acabam, mais cedo ou mais tarde, sendo refutadas pela realidade. Deveríamos então ser mais flexíveis e abandonar essas questões platônicas por essências. Saber e querer não bastam: o difícil é agir e aí, nenhuma teoria pode nos salvar de nossa própria contingência. Humanistas tem fome, diria Quincas Borba. Melhor dos mundos: impossível...

Por outro lado, acho que esse ataque às metáforas visuais é um tanto vazio. Não podemos deixar de ter esse sentido, tais metáforas correspondem mais a nossa condição física do que a qualquer teoria. Deveríamos arrancar os olhos, como Édipo, para viver sem complexos? O olhar também é uma forma de identificar-se com o outro. Olhar nos olhos, olhar para o chão, os olhares das personagens de Machado de Assis... o olhar tanto transformar em pedra quanto dar vida. Precisamos ouvir o silêncio, sentir as diferenças, farejar novidades? Sim... Mas não vejo nada intrinsecamente negativo nas metáforas visuais se tomamos alguns cuidados para não repetir antigos erros. Lembro de um poema de Camões, nosso poeta que perdeu um olho, que diz algo que me interessou:
MOTE
Pus o coração nos olhos
e os olhos pus no chão
por vingar o coração.

VOLTA
O coração envejoso
como dos olhos andava,
sempre remoques me dava
que não era o meu mimoso.
Venho eu, de piadoso
do senhor meu coração,
boto os meus olhos no chão.

Os olhos podem, nesse caminho de identificação, levar uma pessoa para habitar nosso coração. O que trazemos dentro do peito. É o que temos respeito. Olhemos então os problemas que nos comicham todos os dias: não faltam motivos pra se respeitar nossas vidas finitas e humanas.

Despotismo Esclarecido na Hora do Mergulho


Despotismo Esclarecido na Hora do Mergulho

Hora do Mergulho
(Humberto Gessinger)

Feche a porta, esqueça o barulho
Feche os olhos tome ar: é hora do mergulho
Eu sou moço, seu moço, e o poço não é tão fundo
Super-homem não supera superfície
Nós mortais viemos do fundo
Eu sou velho, meu velho, tão velho quanto o mundo
Eu quero paz:
Uma trégua do lilás-néon-Las Vegas
Profundidade: 20.000 léguas
"Se queres paz, te prepara para a guerra"
"Se não queres nada, descansa em paz"
"Luz" -pediu o poeta
últimas palavras lucidez completa
Depois: silêncio

Esqueça a luz... respire o fundo
Eu sou um déspota esclarecido
Nessa escura e profunda mediocracia



Hora do mergulho é a primeira faixa do disco Simples de Coração dos Engenheiros do Hawaii. Esse é o primeiro disco sem a formação clássica da banda: Humberto Gessinger (baixo ), Augusto Licks (guitarra (que havia deixado a banda ) e Carlos Maltz (bateria ).
Nesta canção Gessinger chama quem ouve para a “hora do mergulho”. Mergulhar aonde? Quem sabe um mergulho interior: cita de passagem o super-homem que não supera a superfície (o além do homem de Nietzsche ). Pede paz, trégua do néon-Las Vegas. Trégua das luzes da mídia, da propaganda que brilha, como que contendo luz própria e anunciando os cassinos do jogo de cartas marcadas do mercado: “ eles” ganham a corrida antes mesmo da largada. O caminho, a direção, é a profundidade de 20 000 léguas (submarinas). Uma referência ao fantástico de Júlio Verne, que no século XIX previa coisas como a viagem do homem à lua (arremessado dentro de um projétil de um imenso canhão).
Gessinger cita uma máxima romana atribuida ao escritor Publio Flávio Vegécio: “se queres paz te prepara para a guerra" (Em latim, Se vis pacem, para bellum. Cabe notar que a expressão original no livro de Vegécio - um Compendio Militar -  é "igitur qui desiderat pacem, praeparet bellum", "assim , quem deseja paz que prepare a guerra"). Complementa este lema com uma visão da necessidade de decidir: "se não queres nada descansa em paz. É preciso sempre querer. Como o poeta Goethe que, segundo a lenda, na hora do morte pedia “Luz, mais luz”. Goethe se inscrevia dentro da tradição romântica, iluminista, que se propunha a espalhar/procurar a luz natural da razão (separando-a das trevas). A morte do poeta traz o silêncio.
A canção se aproxima do desfecho: Gessinger pede para que esqueçamos a luz, a idéia iluminista da razão, da ordenação, do método...respiremos o fundo, de onde provêm os mortais, apontando para uma valorização dos sentimentos. Nesse contexto, o cantor se auto-proclama um déspota esclarecido no meio de uma “escura e profunda mediocracia”. Alguém que tenta manter o poder sobre o seu destino em meio aos que querem ser apenas iguais.
É uma inversão da posição dos déspotas esclarecidos do século XVIII, que, para manterem seu poder centralizado, adotaram medidas liberais/iluministas. Agora, ao contrário, Gessinger para manter o seu poder de decisão individual foge das idéias iluministas (que quer todos iguais). Os do século XVIII eram déspotas, porém esclarecidos, agora o ideal é ser esclarecido (já que não há como fugir da luz néon), porém déspota (tentar lutar por alguma diferença, alguma paz ).
O coro que entoa um "lá-lá-lá" indeciso no começo da música e em seu fim mostra os ecos da mediocracia, da padronização: não é à toa que Gessinguer é fã do Pink Floid...

Escrito por Marcos Carvalho Lopes (marcosclopes@gmail.com)