A Utopia socialista e a resposta cética: o Anarquismo
Este texto foi preparado para uma aula no ensino médio como principio de debate. Tinha alguns alunos punks e o símbolo do anarquismo vivia aparecendo no quadro, nos cadernos, em suas roupas, nos murros etc. Achei que essa canção dos Engenheiros do Hawaii seria um bom princípio para dialogar.
toda forma de poder (Humberto Gessinger)
Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada
Fidel e Pinochet tiram sarro de você
Que não faz nada
E eu começo a achar normal que algum boçal
Atire bombas na embaixada
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer
Toda forma de poder
E uma forma de morrer por nada
Toda forma de conduta
Se transforma numa luta armada
A história se repete
Mas a força deixa a estória mal contada
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer
O fascismo e fascinante
Deixa a gente ignorante fascinada
E tão fácil ir adiante
E esquecer que a coisa toda está errada
Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer...
Hoje em dia é comum que, de vez em quando, a gente encontre por aí, pichado nos muros, ou em cadernos e mochilas, o símbolo do anarquismo. Porém, é de se duvidar de que as pessoas que os ostentam se preocupem, ou mesmo, saibam o que significa, em termos de proposta política, o anarquismo. Isto se deve, em grande parte, ao fato do anarquismo não ser algo sistemático, que possa ser descrito de maneira rígida. Mesmo o seu principal teórico, Bakunin (1814-1865), não deixava as coisas claras, já que dificilmente concluía as obras que começava. Nem por isso devemos cair no erro fundamental de confundir anarquismo com bagunça.
O anarquismo surgiu historicamente como uma espécie de dissidência do marxismo. Karl Marx achava que os trabalhadores deveriam tomar o poder e manter uma espécie de ditadura ( a ditadura do proletariado) a fim de evitar que a burguesia retornasse (com uma contra-revolução). O estágio em que o Estado estaria nas mãos dos trabalhadores seria o socialismo, que, aos poucos seria substituído pelo comunismo, onde não haveria mais espaço para Estado ou luta de classes.
Bakunin considerava Marx otimista e ingênuo: o poder corrompe as pessoas e quem quer que o tome, acaba por querê-lo para si. Qualquer classe, ao chegar ao poder, dele se apossaria. A “ditadura do proletariado” acabaria construindo uma hierarquia de funcionários públicos e tecnocratas que haveria de querer perpetuar-se como dominante. A solução estaria em tentar o salto direto para o comunismo, que seria uma espécie de governo sem governantes: o anarquismo (anarquismo significa “sem governante”).
O anarquismo não constituiria partido ou teses dogmáticas, evitando “toda forma de poder”, ele seria um movimento vivo, como um organismo, fundado na cooperação e não na organização burocrática. Os anarquistas não acreditam na “representação política” e procuram limitar o espaço para esse tipo de prática ao mínimo possível: quando necessário se elegeriam delegados com o tempo de mandato limitado e sujeito a revogação. O anarquismo previa a supressão da propriedade privada dos meios de produção, que daria lugar a cooperativas, onde as decisões seriam comuns. Dá mesma forma os anarquistas negam a Igreja: “para afirmar o homem, é preciso negar Deus”. Em certa medida, podem-se comparar as idéias anarquistas com a democracia radical de Jean-Jacques Rousseau. Pode ser considerar heranças anarquistas a idéia de orçamento participativo: o importante é manter a consulta direta as pessoas envolvidas.[1]
O anarquismo em poucos momentos teve uma verdadeira força política: ganhou espaço no sindicalismo (que desembarcou no Brasil juntamente com os italianos) entre o fim do século XIX e início do século XX, e teve seu momento de maior força durante a Guerra Civil Espanhola. A desobediência civil de Mahatma Gandhi, na luta pela independência da Índia pode ser considerada um exemplo de prática anarquista.
Após a Segunda Guerra Mundial o anarquismo foi trivializado ressurgindo em diversos movimentos que parecem muito mais expressar o individualismo da burguesia capitalista: como no caso do movimento hippie, do maio de 1968, ou mesmo do movimento punk. Rejeitar o poder político é uma coisa, recusar-se a participar dele, mas tentar fazer o pentágono levitar já é algo muito “desgovernado”, mas que, ainda assim, gerou resultados: “Em Outubro [1967 contra a Guerra do Vietnã], em Washington, 50 mil pessoas marcharam sobre o Departamento de Defesa. Vestidos como vagabundos, risonhos como palhaços, carregavam flores, sugeriam que se fizesse amor e não guerra. Nessa manifestação que o professor americano Allen Matusow chama de “um dos mais significativos acontecimentos da história dos Estados Unidos”, um grupo de hippies tentou fazer levitar o Pentágono. A imensa construção, que abriga os maiores corredores do mundo, não levitou, mas hoje se sabe que por conta daqueles hippies ela sem dúvida saiu do lugar”[2].
[1] Janos Biro, filósofo que muito me incentivou com sues comentários e participação no blog filosofia pop, quanto a esse texto ponderou: “A idéia do anarquismo para mim é que não existe uma forma correta de reger a humanidade, logo o próprio anarquismo não poderia ser isso. Ele não é uma proposta, é um questionamento somente. As pessoas que o transformam em proposta para mim deixam de ser anarquistas. A anarquia não faz parte da história”. A história de colocar coisas como orçamento participativo como cristalizações do anarquismo é um erro então: quem participa do orçamento participativo?
[2] Gaspari, Elio. “A roda de Aquarius” In: A Ditadura Envergonhada São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p.234