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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Escrever como exercício espiritual

Faz um tempo que não tomo escrever como um hábito. Este silêncio pode pender entre dois extremos: a ausência de palavras de quem não percebe/desvenda sentido, quem deixa de sustentar qualquer significação e a mesma incapacidade de quem esta de tal modo atrelado aos seus prórpios agoras que não consegue elaborar uma fala, se intimida ante a própria contingência. O silêncio não deixa de ser uma forma de abrir as portas para o misticismo, uma maneira de adornar uma aura de sagrado. Não é a toa que o poder da palavra se liga ao poder do sagrado em suas origens (na antiguidade ou nas tatuagens). Fazer filosofia é encenar uma das máscaras de Sócrates, é inventar para este uma vida e um sentido para sua narrativa: este, como afirma Harold Bloom, por não ter escrito será sempre o único e verdadeiro filósofo (assim como Cristo é o único e verdadeiro cristão). Pensadores como Nietzsche perceberam que com sua escrita escreviam sua biografia, transformavam sua vida e se inventavam como outros. Escrever e ler a si mesmo como outro. A possibilidade de cultivar um silêncio diferente. Exercício espiritual.
Não, não é sempre assim que acontece. Lista de itens para lavanderia, catalogos de objetos catalogáveis, identificação de cada coisa em seu lugar, etiquetar o mundo também pode ser uma forma de exercitar o absurdo. Mas exercícios espirituais pedem uma trilha diferente, uma coisa que talvez exista na oração, ou numa canção que canta um ritual (como Gilberto Gil em Se o eu quiser falar com Deus)...




Richard Rorty distingue romancistas que servem para exercícios espirituais e outros que confirmam nossas perspectivas e ampliam nosso horizonte de identificação moral com outros. Estes últimos ampliam o solo sobre nossos pés, aumentando o alcance da palavra nós, os primeiros nos retiram o chão, provocam terremotos e geram dúvida sobre nossos sentimentos e forma de nós descrever. No primeiro grupo coloca Henry James e Marcel Proust; no segundo autores como Charles Dickens. Proust e James serviriam como exercícios espirituais para redenção do egotismo, uma forma de conforto distinta da que se teria na promessa universal e eterna de Religião e Filosofia, uma redenção que afirma a contingência e ensina a finitude.
O silêncio de Sócrates tem algo de sagrado quando o percebemos conectado a uma missão religiosa que ganha voz em seu daimon. Talvez esse seja o segredo para que possa dar a sua voz uma dimensão dupla, pessoal e mística, particular, mas de alguma forma vinculada e buscando (a promessa d)o universal. O silêncio e o furor agônico de sua dialética se harmonizam, causando espanto nos que "enfrenta" e "seduz", provocando o silêncio denso de quem se confronta com suas certezas em contradição. Silêncio como si denso (que não se define). Eudaimonia, que é como diziam a felicidade plena, a realização de uma vida, é ter um bom daimon, algo externo e reconhecível publicamente. A vida de Sócrates seria de eudaimonia, Platão, Nietzsche e Proust tiveram que escrever, inventar a sua. 
Todos que tentaram seguir este modo de vida teórico enfrentaram esta mesma tensão e desafio da voz, que em sua entonação particular pretende-se universal. Nesta sagração da palavra, numa busca de iluminar todos os aspectos o silêncio é uma solução mística dos que cultivam a profundidade, a matemática seria o gancho celeste dos que querem a elevação. Matematizar o silêncio seria a epifania do niilismo. Razão= virtude = felicidade. O que hoje corresponderia aos termos dessa igualdade? Em tempos de razão comunicativa quais seriam os post(e)s que iluminariam essa highway do lugar comum? A sede do diálogo, do re-conhecimento parece mesmo ser a droga da escrita, que pode ampliar, dissolver o seu poder como exercício. Nietzsche poderia dar marteladas no twitter?
O deus da canção é o mesmo da literatura e causa sem oferecer uma razão, um salto sem a certeza do que há no outro lado. Existirmos a que será que se destina...

sábado, 3 de julho de 2010

Faz de conta que o mundo não está ficando Cinza

Faz de conta que o mundo não está ficando Cinza
Marcos Carvalho Lopes
(marcosclopes@gmail.com)

O filósofo norte-americano Richard Rorty, depois dos atentados de onze de setembro, passou a temer que o Ocidente renegasse o ideal democrático e desse espaço para atitudes totalitárias na busca pela manutenção da hegemonia econômica. Pior ainda do que essa mudança na vida política seria o fato de que as pessoas, diante da ameaça eminente e fantasmagórica, perdessem qualquer interesse em arregaçar as mangas para buscar reformar a sociedade. Rorty capta bem esse perigo quando cita as palavras do jovem Theo, protagonista do romance Sábado de Ian MacEwan, que com seus 18 anos renega qualquer utopia política: “Quando pensamos nas coisas grandes - a situação política, o aquecimento global, a pobreza mundial-, tudo parece realmente terrível, nada está melhorando, não há nada a esperar. Mas, quando penso pequeno, mais perto - você sabe, numa garota que acabei de conhecer ou na canção que estou compondo com Chas ou em fazer "snowboard" no mês que vem, tudo parece ótimo. Por isso, este será meu lema: Pense pequeno”.[1]
Nesse “pensar pequeno”, a separação entre vida privada e vida pública se torna tão grande que qualquer idéia de responsabilidade não mais se sustenta. O cimento que sustentaria e manteria os laços sociais estaria ausente, com isso, qualquer discurso que tenta transcender os interesses individuais imediatos parece cair no vazio da indiferença. 
Richard Rorty tentou com sua filosofia colocar a imaginação no lugar antes ocupado pela razão: só assim poderíamos construir uma sociedade democrática em que autoridade de quem corrige o olhar do espectador seria substituída pelo diálogo constante. É difícil não considerar que Rorty tenha sido influenciado pelas pequenas utopias dos anos sessenta e pela idéia de “imaginação no poder”. O filósofo americano lembrava que o mundo não tem legenda, ele não fala: é com nossa linguagem que o descrevemos. Assim, as metáforas trariam consigo a possibilidade de criação de novas visões de mundo. Rorty queria abrir espaço para novas formas de pensar e para a esperança de uma vaga utopia de um mundo diferente. Para ele as narrativas teriam maior poder de convencimento do que as teorias: “por esta razão que o romance, o filme e o programa de televisão vieram a substituir, de forma gradual, mas constante, o sermão e o tratado, enquanto veículos principais de mudança e progresso no plano moral”. [2]
Quando Bob Dylan cantava, no início dos anos sessenta, que havia uma “resposta sendo soprada pelo vento” ou anunciava “as mudanças dos tempos”, não era possível entender claramente o que isso poderia significar, contudo, naquele momento a frase ganhou um sentido social na luta pelos direitos civis. Em verdade, as canções de Dylan tiveram maior impacto do que qualquer discurso poderia conseguir, justamente porque com a música sua mensagem pedia de quem ouvia certa participação afetiva, completando seu sentido. Somente na medida em passamos a ver os outros como um de “nós” e não como “eles” podemos, tocados inicialmente pelos sentimentos, alargar nosso horizonte de identificação moral. Só então o velho imperativo de “não fazer com o outros, o que você não quer que seja feito com você” pode ganhar vida em nossas ações como uma crença.
Essa perspectiva de Bob Dylan quanto à canção repercutiu no mundo todo. Com o desenvolvimento dos meios de comunicação: em vários países, o poder da música popular em relação às possibilidades de transformação política, ganhou vida. A banda de Chico Buarque queria contagiar a cidade e fazê-la em conjunto cantar o amor. No ano seguinte, em Alegria, Alegria, Caetano Veloso encarnou a banda em sua atitude de flanar pela cidade “sem lenço, nem documento”. Com o golpe militar e o pequeno desenvolvimento de nossa “indústria cultural”, as possibilidades de questionamento político foram cerceadas. Por isso nos anos oitenta o rock nacional tratou de retomar a perspectiva de Bob Dylan, como mostram as palavras de Renato Russo:O que a Legião Urbana tenta fazer é provar que os anos 80, no Brasil, você ainda pode tentar seguir o caminho que eu aprendi com o Dylan e os Stones e quem quer que seja. Que a gente possa ser a trilha sonora verdadeira, factual, para quando tiver o programa sobre ecologia eu não precise ir lá debater ecologia. Basta colocar as crianças cantando a nossa música, eu acho que se a gente conseguiu fazer isso já é uma coisa muito importante.”[3]
O filósofo Renato Janine Ribeiro, ao analisar a obra de Chico Buarque de Hollanda, fala em Utopia Lírica: a idéia de que o cantor poderia contagiar pelos sentimentos as pessoas em direção a uma perspectiva de transformação social utópica. Acredito que as esperanças em torno da democracia continuaram sendo o norte da dimensão utópica da canção brasileira, até mesmo porque, o fantasma da ditadura deu para nossa sociedade um inimigo bem real para combater. Contudo, depois do desastre que foi a Era Collor, a tendência de nossa canção foi em geral, deixar de falar da política de forma utópica e abandonar a perspectiva lírica: passamos ao domínio da prosa e a uma separação mais nítida entre público e privado.  Quando se trata de falar de questões sociais elas são colocadas do lado de fora, como um objeto exterior: por isso mesmo o rap mais e mais se coloca como o formato musical mais utilizado para o questionamento social e político. A dimensão lírica da canção popular alienou-se na vida privada.[4]

Uma das poucas anomalias nesse discurso sobre a música popular brasileira me parece ser a posição dos Engenheiros do Hawaii, que ainda hoje tentam manter as lições de Dylan. Essa posição transparece no álbum Dançando em Campo Minado de, onde nas canções Segunda-feira Blues, se faz um balanço das esperanças perdidas desde a década de sessenta e lança questões como:

? onde estão os caras que lutavam dia-a-dia sem perder a ternura jamais ?
? onde estão os caras que desmaterializavam moedas de dez mil reais ?
? onde estão os caras que desconheciam limites ... universal e singular ?
? onde estão os caras que desenhavam novas cidades
em guardanapos na mesa de um bar?

 Apesar de “acordar” em uma segunda-feira melancólica (blues), a banda confirma sua posição utópica na canção Dom Quixote, que reafirma a esperança romântica de transformação da realidade, em detrimento do senso prático “sanchesco” de aceitação das coisas como estão:

tudo bem...até pode ser
que os dragões sejam moinhos de vento
tudo bem...seja o que for
seja por amor às causas perdidas
por amor às causas perdidas

Na canção seguinte deste álbum, a banda lembra a posição de resistência de Cuba e reafirma que seguira Até o fim na busca por alguma transformação:
a ilha não se curva noite a dentro vida afora
toda a vida, o dia inteiro
não seria exagero
se depender de mim eu vou até o fim

cada célula, todo fio de cabelo
falando assim parece exagero
mas se depender de mim
eu vou até o fim

A última canção do álbum, Outono em Porto Alegre, fala de uma transformação do olhar individual: a pessoa olha ao redor e percebe que amadureceu e que apesar de tudo é feliz. Podemos caminhar pela cidade e reconstruí-la com um olhar otimista
o mundo fica para outro dia
andar por aí era tudo que eu queria

No novo álbum, Novos Horizontes, a canção Cinza busca falar do aquecimento global tomando uma perspectiva lírica, como explica Gessinger: “Em vez das grandes corporações, o foco é a maneira infantilizada como vivemos, querendo tudo e querendo agora”. O mergulho alienado na vida privada, que o jovem Theo considera ser a solução para sua felicidade, é o alvo da crítica dos Engenheiros do Hawaii:
o mundo é teu, é teu umbigo
chapado e aquecido
deve ser o fogo amigo
queimando tudo, joio e trigo

corre mundo um aviso:
corre risco teu umbigo
se correr o bicho pega
se ficar corre perigo

bruxas dançam na fogueira
inimigos na trincheira
um calor infernal congela teu sorriso
e o paraíso tropical (nada mal)




Nesse mergulho alienado na vida privada, as pessoas colocam qualquer questão social numa posição muito distante (separadas, por muros e grades). A idéia do aquecimento global aponta para os limites da terra em relação ao desejo do homem. A economia permanece tomando por base a física clássica como explica Hugo Penteado: “todas as vertentes da economia assumem ainda hoje, corajosamente, que o sistema econômico é neutro para o meio ambiente e que este é inesgotável. Robert Solow, o pai da teoria do crescimento, dizem que as economias podem se ver livres dos recursos naturais, dado que o capital é um perfeito substituto da natureza. E foi além: afirmou que o ser humano será capaz de produzir outros fatores materiais que não os da natureza”.
Parece que hoje, idéias universais não têm o mesmo apelo que há tempos lhes eram conferidas. É preciso considerar as diferenças e o contexto para que se justifique uma afirmação. A física clássica foi tomada como modelo tanto para a ética (como descrevi na analise que fiz de Esportes Radicais), quanto na economia. Como explica o economista Hugo Penteado: “todas[5] as vertentes da economia assumem ainda hoje, corajosamente, que o sistema econômico é neutro para o meio ambiente e que este é inesgotável. Robert Solow, o pai da teoria do crescimento, diz que as economias podem se ver livres dos recursos naturais, dado que o capital é um perfeito substituto da natureza. E foi além: afirmou que o ser humano será capaz de produzir outros fatores materiais que não os da natureza”.
Para Penteado é fácil perceber que esse discurso não se sustenta: a natureza continua sendo a fonte de qualquer recurso. Sentencia então: “a economia está em xeque com a realidade. Propor crescimento sem avaliar as condições necessárias e sem mensurar os resultados sócio-ambientais não se justifica mais, tanto pelas descobertas ambientais quanto pelas questões sociais, como a concentração de riqueza forte dentro e fora das nações”.
Podemos nos aproximar dessa necessidade de cuidado com as conseqüências e a responsabilidade tomando com mais seriedade a noção de irreversibilidade. A canção Faz de conta ilustra essa questão na perspectiva de uma relação afetiva: assim como uma pedra ao caia n’água produz ondas, nossas ações repercutem tanto no ambiente quanto em nossas vidas pessoais. Quando uma atitude nos faz perder o encanto, não adianta pedir algo como, “faz de conta que eu fui mais legal...”.




A irreversibilidade é o preço que pagamos por não vivermos em um universo em que todas as ações correspondem a uma ordem pré-estabelecida (como o universo descrito na canção A Fábula). Para o físico Marcelo Gleiser “o preço do novo é o declínio da ordem”, e a idéia de irreversibilidade ilustraria nossa relação com o tempo. Exemplifica-o: “um cubo de açúcar dissolve-se espontaneamente numa xícara de café, mas jamais observamos os grãos de açúcar se reorganizarem espontaneamente voltando à forma de cubo. Uma omelete não se transforma espontaneamente em ovos crus. Moléculas de perfume escapando de um vidro aberto não retornam ao seu interior. Água morna não se divide em água fria e água quente”.[6]
Aplicando essa idéia em termos ecológicos: do que adianta desmatar uma floresta e depois plantar o equivalente em eucalipto?  Mais radicalmente: por mais que tentássemos, a floresta original se perdeu para sempre. Quanto mais complexo o sistema, mais pertinência ganha o conceito de irreversibilidade.
Aplicação do conceito de irreversibilidade em termos de relações interpessoais deve ser considerada com cautela. Para o filósofo alemão Jürgen Habermas (pensando no contexto dos atentados de 11 de setembro): “O que antes de mais nada na verdade nos intranqüiliza é a irreversibilidade do sofrimento passado, a injustiça em relação aos inocentemente maltratados, desonrados e assassinados, injustiça que ultrapassa toda escala de reparação humana possível”.[7]
Acho que aqui entra em cena novamente nosso horizonte de identificação afetiva. No meio da barbárie, dos problemas que parecem nos tragar para o universo da indiferença, a existência de uma pessoa com a qual nos identificamos sentimentalmente surge como uma mágica que nos salva do ceticismo, como aparece na canção No meio de tudo você:
selva
a gente se acostuma a muito pouco
a gente fica achando que é demais
quando chega em casa do trabalho
quase vivo
selva
a gente se acostuma a muito pouco
a gente fica achando que é o máximo
liberdade pra escolher a cor da embalagem
nessa selva
a gente se acostuma a muito pouco
a gente fica achando que é o normal
entrar na fila, pagar ingresso
pra levar porrada
no meio de tudo, você
me salva da selva


selva
a gente se acostuma a muito pouco
a gente fica achando que é demais
um pouco de silêncio
um copo de água pura

selva
a gente se acostuma a muito pouco
a gente fica achando que é o máximo
se o cara mente
mas tem cara de honesto
nessa selva
a gente se acostuma a muito pouco
a gente fica achando que é o normal
finge que não vê, diz que não foi nada
e leva mais porrada
no meio de tudo, você
me salva da selva
no meio de tudo, você
acima de tudo
no meio de tudo você
O que era impessoal se torna importante na medida em que existe identificação. Para Habermas, por conta desse tipo de relação pessoal, podemos diferenciar o plano da descrição (em termos de causa e efeito, perspectiva observadora) e o da justificação (perspectiva participante). Só quando tratamos de justificar nossas ações para um “você”, podemos encarar de forma direta a questão da responsabilidade e desenvolver consciência em relação aos efeitos de nossas ações. O filósofo alemão apela pra um tom emotivo quando afirma que “o amor não pode existir sem o reconhecimento em um outro, a liberdade não pode existir sem admissão mútua”.[8] A razão não tem lugar quando não existe diálogo.
Para Rorty o que podemos fazer é contar histórias que atentem para os pormenores do sofrimento de outras pessoas, para os problemas de nossa forma de agir: só assim, pelo sentimento, teríamos uma identificação moral que levaria a mudança na forma de agir. Não existe para Rorty lugar para o papel ideal da “consciência”, nem para a divisão entre descrição e justificação: o que muda é o público, o contexto. De qualquer forma ambos apontam na mesma direção democrática.[9]
Acredito que as canções, os filmes, a arte em geral, podem ser usados para ajudar na tentativa de educação moral. Na medida em que ouvimos uma canção e buscamos desenvolver uma narrativa que a leve a fazer sentido dentro de nossa vida, ela pode servir para nossa autoformação. O cineasta russo Serguei Eisenstein falava de um caminho da imagem para o sentimento e deste para a idéia. Não existe a necessidade de desenvolver esse tipo de questionamento: muitas vezes, ou melhor, na maioria das vezes, ficamos no meio do caminho, só com a emoção. Tudo bem que uma vida não meditada não merece ser vivida. Mas, também é verdade que uma vida não vivida não merece ser meditada. Se podemos tentar nos aprimorar, por que não tentar fazer isso? Se estamos muito satisfeitos com as coisas como estão ou se temos medo, não existe espaço para a imaginação; para a coragem de buscar caminhos diferentes. A filosofia existe para questionar pressupostos e propor diálogo. A filosofia só serve pra quem está a caminho, por isso é bom pensar que podemos “sentir com inteligência, pensar com emoção”, tentar equilibrar sentimento e razão... e seguir viagem.


[1]   MacEwan, Ian. Sábado Citado por RORTY, Richard. “Náusea em Londres”. Folha 05/02/2006 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0502200616.htm
[2]   RORTY, Richard. Contingência, Ironia e solidariedade. p.19
[3]          Conversações com Renato Russo. Campo Grande (MS): Letra Livre. Pág.73.
[4]   Nos meus Ensaios Legionários, que estão prontos e na gaveta, tento explicar melhor estas questões. Por hora o melhor é afirmá-las de modo dogmático sem cuidar de nuances e explicar detalhes.
[5]   Um amigo me alertou para a radicalidade da afirmação de Penteado: afinal ele mesmo não é economista? Então não são “todas as teorias econômicas” etc.
[6]GLEISER, Marcelo. A dança do universo: dos mitos de Criação ao Big Bang São Paulo : Companhia das Letras, 1997. p.219.
[7]   HABERMAS, J. Fé e conhecimento. Folha de São Paulo 06/01/2002.  Disponível em: http://www1folha.uol.com.br/fsp/mais/fso601200206.htm. Consultado no dia 11/08/2007.
[8]   HABERMAS, J. Fé e conhecimento. Folha de São Paulo 06/01/2002.  Disponível em: http://www1folha.uol.com.br/fsp/mais/fso601200206.htm. Consultado no dia 11/08/2007.
[9]   Para uma introdução didática ao debate entre Habermas e Rorty: http://www.serbi.luz.edu.ve/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1315-52162005004000004&lng=es&nrm=is Outro texto, um pouco mais técnico, que trata deste debate esta em: http://www.filosofia.pro.br/modules.php?name=News&file=article&sid=43 Ambos são de Paulo Ghiraldelli Jr.

Cultura livre e filosofia aberta (do filosofia pop)


Cultura livre e filosofia aberta
Marcos Carvalho Lopes

Certas analogias podem ser bastante produtivas, contudo, devemos estar atentos para pensar seus limites. Devemos estar prontos para rir delas, para sermos irônicos e secar os excessos de nossas metáforas.
Richard Rorty, explicando o seu behaviorismo epistemológico - ou seja, sua idéia de que o conhecimento advem de necessidades práticas, numa relação de estímulo- resposta - compara nosso cérebro a um hardware e a cultura a softwares. Essa analogia me parece bastante frutífera e nesse texto tentarei ampliá-la pensando no fenômeno do software livre e na filosofia de Rorty.
Rorty questiona a crença comum na filosofia em entidades que fornecraim ao filósofo um acesso privilegiado à Verdade. A Razão não seria mais do que um substituto para Deus: a necessidade desses termos atemporais e universais sustentaria a pretensão dos filósofos de se colocarem acima da sociedade, “revelando”, “espelhando”, “representando” a Realidade Tal como Ela É. Os racionalistas querem nos elevar, os românticos querem ser profundos: todos acham que podem revelar a Verdade. Rorty acredita que a filosofia seria muito mais útil se ao invés de tomar uma perspectiva vertical, tentasse ser horizontal, ou seja, tornar-se conversacional. Mas ele não pode “provar” isso: só pode contar histórias sobre as vantagens de sua posição. Se tentasse provar cairia no mesmo jogo... Uma cultura conversacional seria também repleta de narrativas, seria uma cultura literária.
Alguns temem que sem a marca da Razão cairíamos em um relativismo sem regras que geraria um colapso, um caos insustentável, onde nada mais teria valor. Pois bem, transportemos essa situação para outro campo.
Muitos acreditam que sem uma marca paga, sem o padrão-Windows, nenhum software seria confiável: a idéia de código aberto geraria caos, não haveria qualquer controle possivel sobre os resultados dessa brincadeira irresponsável. O que dizer então dá idéia de uma enciclopédia aberta e participativa, em que qualquer um poderia mexer em seu conteúdo? Se não separamos os a(u)tores dos que devem ser iluminados pelas luzes da razão - e do espetáculo - a própria idéia de conhecimento cairia por terra!
Podemos rir, juntamente com Rorty, dos que temiam que a democratização seria sinônimo de caos. Podemos aprender a lição que o software livre traz, assim como as enciclopédias abertas (como a Wikepédia ), ou mesmo sites participativos (como o Overmundo ) e... o que mais pode vir...
Rorty pretende substituir a razão pela imaginação: essa é a conseqüência principal de pensarmos numa cultura aberta em que ninguém se auto-elege dono da verdade. A objetividade dos que pretendem que algo seja universal e atemporal, não passa de certa solidariedade profissional dos que são guardiões da Razão, o mesmo tipo de estrutura de crença que manteria uma Igreja funcionando.
Para Rorty poderíamos construir outro tipo de solidariedade conversacional, em que o que chamariamos de racionalidade seria a capacidade de adaptabilidade, tomada em termos darwinianos.
Uma vantagem evidente do software livre é a de que, por ter o código aberto, esse pode ser adaptado para funções específicas de maneira muito mais segura que um programa de código fechado: se você pretende ter maior segurança sobre o programa que usa, o melhor é conhecer tudo sobre ele e não ficar nas mãos de alguns iniciados. Pois bem, uma filosofia aberta e conversacional é o que precisamos se queremos ter uma sociedade democrática de cultura aberta.
Os limites dessa analogia são algo que também deve ser destacado. Nem todos que usam a internet participam ou têm condições de participar do jogo conversacional que ela possibilita. Sem certas condições econômicas e sociais é dificil pensar em participação democrática. Mais: a Utopia de Rorty é tomada muitas vezes como conservadora. Por quê? Por questões de hegemonia: quem decide onde termina o diálogo e começa a imposição?
Pensemos no nosso sistema de propriedade, que também remonta a Platão, em sua idéia de preservar o que é de cada qual excluindo os outros. Pois bem, precisamos de outro sistema de propriedade aberto, que permita a conversação... Contudo, muitos conversam até certo ponto: depois se impõe no antigo sistema de propriedade.
Pensemos em cantores que se lançaram a partir do mercado de CD pirata, como a dupla goiana Bruno e Marrone, e hoje fazem sucesso em grandes gravadoras... em versões de softwares livres que são vendidas...etc. A questão da hegemonia se apresenta então: a conversa vai até que ponto? Onde começa o silêncio? Quem participa do diálogo? Garantida a hegemonia quem garante que não trocaremos de marca”... Tenho questões.
Mas acho que o pior é quando não existe nem a possibilidade de abertura. Precisamos abrir caminhos para construir um futuro melhor. Conversemos então...