A terra treme no país de desigualdades e paradoxos
Fonte: http://lareviewofbooks.org/article.php?type=&id=1821&fulltext=1&media=#article-text-cutpoint
A noite de domingo ,30 de junho de 2013, termina em
tom épico para os brasileiros: a seleção de futebol conquistou a copa das
confederações, vencendo a Espanha por 3 X 0, e a aprovação da presidente da
República caiu 27 pontos em duas semanas, de 57% para 30%, tornando
imprevisíveis as eleições de 2014. Tudo o que era sólido está se desmanchando
no ar: por um lado, a invencibilidade da seleção espanhola e da presidente
Dilma Rousseff, e, por outro, o êxito econômico e social do país e a apatia
política nacional. A análise do inesperado resultado no futebol está acima de
minha competência, mas acredito poder sugerir algumas reflexões sobre o
declínio meteórico da popularidade da presidente e de todas as autoridades
públicas, descrevendo o que ocorreu nos últimos 15 dias.
A sociedade brasileira está vivendo a maior
mobilização de sua história. A primeira convocada por meio de redes sociais
virtuais, inteiramente espontânea, isto é, desprovida de lideranças,
organização centralizada, vínculos partidários ou mesmo de uma agenda uniforme.
A população tem ido às ruas protestar, nos grandes centros urbanos e nas
pequenas cidades do interior. E isso acontece, paradoxalmente, no momento em
que a opinião pública global contempla com curiosidade este país 85% urbano, de
quase 200 milhões de habitantes, que se tornou a sexta economia do mundo,
atravessou a crise financeira internacional mantendo indicadores de pleno
emprego, crescimento (ainda que modesto), redução de desigualdades e aprovação
recorde dos presidentes Lula da Silva (ex-líder sindical) e, até 15 dias atrás,
Dilma Rousseff, sua sucessora (ex-presa política, torturada pela ditadura
militar nos anos 1960 e 1970), ambos do Partido dos Trabalhadores (PT), uma
agremiação de origem esquerdista, hoje social-democrata.
I.
Progresso como condição da revolta
A série de eventos surpreendentes começou com o
movimento pela redução do preço do transporte público, em São Paulo. Até aí,
tudo parecia relativamente rotineiro, sob a crítica da mídia conservadora, ao
som de declarações arrogantes do governador direitista e do prefeito
esquerdista, que se recusavam a sequer negociar a redução das tarifas. O
cenário era típico e os desdobramentos, previsíveis. A conjuntura apontava para
o declínio das manifestações, que provavelmente permaneceriam locais. Contudo,
no segundo dia de manifestações, a polícia militar paulista deu sua inestimável
contribuição à história do país, agindo com brutalidade criminosa, inclusive
contra jornalistas. Era o bastante para incendiar a alma dos brasileiros. Em
poucos dias os aumentos nas tarifas foram revogados, mas a massa inflamada não
recuou.
As primeiras respostas da população jogaram por
terra tudo o que se supunha saber sobre a relação do país consigo mesmo:
centenas de milhares de pessoas, principalmente (mas não exclusivamente)
jovens, de diferentes classes sociais, aderiram a passeatas, em todo o país. No
Rio, a maior manifestação, entre tantas que se sucederam, reuniu, segundo a
polícia, 300 mil pessoas. Outros, entre os quais me incluo, avaliam que havia
ali pelo menos um milhão de pessoas. O mais extraordinário, entretanto, não é
propriamente a escala, ainda que seja assombrosa, mas sua rápida difusão por
todas as regiões.
O ponto de partida justifica-se: no Rio e em São
Paulo, trabalhadores gastam até quatro horas por dia deslocando-se em espaços
urbanos entupidos de automóveis, cujo número multiplicou-se em razão do
ingresso de 40 milhões de brasileiros na classe média, ao longo da última
década. O efeito não-antecipado e contraditório da combinação entre redução das
desigualdades e desenvolvimento acelerado –um de cujos focos tendo sido a
indústria automobilística-- foi a crise na mobilidade urbana. Além disso, mais
consumidores, mais acesso à educação e a valorização cultural da cidadania
produziram um contexto novo, na esfera dos sentimentos e da disposição
participativa. Ou seja, melhorias combinaram-se para tornar inaceitáveis
situações que, em condições anteriores, caso existissem, seriam toleradas,
passivamente. Esse aparente paradoxo não é novo: Alexis de Tocqueville, no
século XIX, nos ensinou que os grupos sociais mais dispostos a agir e reagir
não são os mais pobres e impotentes, mas aqueles que têm o que perder. Isso
significa que os avanços sociais das últimas duas décadas (sobretudo da última)
no Brasil ampliaram a faixa da população potencialmente disposta a resistir
ante o risco de perda. Aqueles que ascenderam não entregarão sem luta suas
conquistas.
A que conquistas, exatamente, me refiro?
II.
Conquistas recentes da sociedade brasileira
Aplicando-se o índice de Gini para medir a
desigualdade de renda, conclui-se que em 2011 o Brasil alcançou o nível mais
baixo desde 1960, ano em que pela primeira vez realizou-se o cálculo. Entre
1960 e 1990, a desigualdade cresceu de 0,5367 para 0,6091. Desde então
decresceu até 2010, quando atingiu 0,5304 (Neri, Marcelo. A Nova classe
média. São Paulo: Saraiva, 2011: 26), e continuou caindo: o índice de
0,527, em 2011 (segundo a PNAD –Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar, do
IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), foi o menor da série
histórica. Mesmo sendo o patamar mais baixo desde quando aplicamos esse método
para identificar a desigualdade, o Brasil continua sendo um dos 12 países mais
desiguais do mundo. A boa nova é a afirmação de uma tendência que começa a reverter
esse quadro e que se realiza em uma escala considerável.
Na primeira década do século XXI, a taxa
acumulada de crescimento da renda para os 10% mais ricos foi de 10,03%,
enquanto para os 50% mais pobres foi de 67,93%. Conforme destaca Ricardo Paes
de Barros, os 10% mais pobres obtiveram uma elevação de renda per capita
em torno de 7% ao ano, entre 2001 e 2009, só um pouco mais baixa que a
celebrada média anual de crescimento da renda per capita na China (Paes
de Barros citado por Rafael Cariello em “O liberal contra a miséria” in
Revista Piauí, número 74, novembro de 2012: 30).
Paes de Barros avalia que dificilmente algum país
terá obtido resultado comparável ao que o Brasil alcançou, em matéria de
redução de desigualdade de renda, entre 1999 e 2009, ainda que essas mudanças
sejam insuficientes: os 10% mais ricos detinham 47% da renda nacional e
passaram a controlar 43%, enquanto os 50% mais pobres, que possuíam 12,65 da
renda total, no começo da série histórica, passaram a receber 15% no final do período
(idem; ibidem).
O dado mais ostensivo e impactante é o seguinte: em
1993, ano anterior à implantação do Plano Real (bem sucedido no controle da
inflação), 23% da população brasileira vivia em situação de pobreza extrema, ou
seja, não tinham acesso a renda que lhes proporcionasse consumir o número
mínimo de calorias indispensável à sobrevivência saudável. O Plano Real
transformou esse cenário devastador em um ano: em 1995 –primeiro ano do
primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso-- o percentual da
população submetido a essas condições desumanas decrescera para 17%. Em 2003, o
contingente populacional em pobreza extrema ainda era o mesmo. Em 2009, caíra
para 8,4%. Uma quantidade ainda excessivamente elevada, inaceitável, mas muito
menor do que no começo da última década do século XX.
Em 1993, os brasileiros cuja renda domiciliar
ficava abaixo de R$ 752,00 (valor de 2011) eram 51 milhões (51.613.412). Em
2001, eram 46 milhões (46. 896.647). Em 2011, passaram a ser 24 milhões
(24,684.517). Aqueles cuja renda domiciliar ficava entre R$ 751,00 e R$
1.200,00, eram, em 1993, 41 milhões (41.255.368). Esse grupo diminuiu para 38
milhões (38.907.544), no ano de 2011. Por outro lado, os brasileiros cuja renda
domiciliar se situava entre R$ 1.200,00 e R$ 5.174,00 eram 45 milhões
(45.646.118), no ano de 1993. Em 2011, o segmento mais do que dobrou, chegando
a 105 milhões (105.468.908).
Registre-se que nesse período de 18 anos a
população brasileira cresceu a um ritmo mais lento. O crescimento acelerado verificado
nas décadas de 1940 (quando a taxa média foi 2,39) e de 1950 (quando alcançou
2,99), reduziu-se nos anos 1990 (para 1,64) e ainda mais (para 1,17) na
primeira década do século XXI. (cf. Elza Berquó. “Evolução demográfica” in
Ignacy Sachs, Jorge Wilheim e Paulo Sérgio Pinheiro [org]. Brasil, um século
de transformações. SP: Cia das Letras, 2001: 17).
O processo virtuoso de declínio de desigualdades
revela melhor sua significação quando se leva em conta a dinâmica
demográfica. São esses dados que conduzirão Marcelo Neri a afirmar que
“39,6 milhões de brasileiros ingressaram nas fileiras da chamada nova classe
média (classe C) entre 2003 e 2011 (59,8 milhões desde 1993)” (Neri, op.cit:
27).
III. A
agenda plural do movimento e o colapso da representação política
A agenda do movimento não é uniforme e cada
participante ergue seu pequeno cartaz com uma proposta, uma crítica, uma
exigência, em linguagem formal ou bem humorada, seja contra a homofobia ou o
autoritarismo tecnocrático dos governos. Entretanto, a despeito da imensa
dispersão temática, alguns tópicos são constantes: transportes públicos,
mobilidade urbana, corrupção, brutalidade policial, desigualdade no acesso à
Justiça, mais recursos para educação e saúde, e menos para a construção de
estádios suntuosos para a Copa do Mundo de futebol, em 2014, e para os jogos
Olímpicos, que ocorrerão no Rio, em 2016. Portanto, o valor do transporte
apenas pôs em circulação uma cadeia metonímica no imaginário individual e
coletivo, conectando os mais diferentes problemas nacionais contemporâneos. E
cada indivíduo sentiu-se estimulado a incluir, nessa longa narrativa épica, sua
própria descrição do que lhe parece ser o drama fundamental e urgente.
Registre-se que a legitimidade do governo federal nunca foi seriamente
questionada.
O eixo comum, sob a diversidade de
reivindicações, é a proclamação indignada do colapso da representação
política. Em poucas palavras, os manifestantes não acreditam em partidos e
políticos que renovam seus mandatos no mercado de votos, sem perceber que o
mero respeito às regras do jogo não é suficiente para manter a democracia de
pé. Há no Brasil o Estado democrático de direito, desde a promulgação da
Constituição, em 1988, depois de 21 anos de ditadura militar, seguidos por três
anos híbridos. Mas a institucionalidade democrática passou a ser vista pela
maior parte da sociedade como um carcaça oca, uma forma sem conteúdo, tomada
por agentes políticos inescrupulosos. O endosso formal a parlamentares e
governantes pelo voto, em um país onde é obrigatório votar, não garante
legitimidade, do ponto de vista da percepção social. A ruína da representação
vinha ocorrendo sem que as lideranças dessem mostras de compreender a magnitude
do abismo que se abrira --e aprofundava-se, celeremente-- entre a
institucionalidade política e o sentimento da maioria. O que farão, agora?
A marca do movimento é a intensidade. Os protestos
se realizam na linguagem dos excessos: muita gente, todo dia, todos os temas
--e sempre há a minoria exaltada e violenta que depreda prédios públicos. Nesta
franja do fenômeno pegam carona alguns profissionais do furto e do roubo, e os
que se divertem destruindo sem propósito. Por que a paixão e a intensidade?
Ouso uma hipótese: os elos de contiguidade simbólica e política conectam
problemas entre si, conforme expliquei, acentuando sua característica
permanente: a desigualdade. E o fazem em um contexto normativo e institucional,
o Estado democrático de direito, no qual o princípio enunciado e reiterado é a
equidade. Por isso, os significados negativos se agravam, acentuando a
intensidade emocional em que são apreendidos e comunicados: eles se destacam
porque remetem à desigualdade, a qual contrasta fortemente com as expectativas
geradas pelo pacto constitucional. Afinal, a conversa sobre cidadania é ou não
para valer?
***
IV. As
persistentes inquidades históricas
Apesar de tão significativa redução de
desigualdades, elas persistem, sob as mais diferentes formas. Assim como
persiste a violência e a brutalidade policial letal contra os pobres e os
negros.
A ultrajante desigualdade entre negros e brancos
vem diminuindo, mas persiste, exibindo o racismo estrutural brasileiro. Entre
1950 e 1980, os brancos viveram 7,5 anos a mais que os pretos e pardos
--classificação usada à época (Wood, C.H. & Webster, P.L. Racial
inequality and child mortality in Brazil. Mimeo: 1987, APUD Berquó,
op.cit.: 27). Em 1980, a expectativa de vida dos negros ainda não passava de 59
anos. Em 1987, a população branca vivia, em média, 72 anos, enquanto os negros
viviam 64,5 anos (idem; ibidem). Outro dado escabroso confirma os precedentes:
em 1980, a taxa de mortalidade infantil de pretos e pardos era igual à taxa de
mortalidade de crianças brancas menores de um ano, em 1960: 105 a cada mil
nascidas vivas (Garcia Tamburo, E.M. “Mortalidade infantil da população negra
brasileira”. Texto NEPO 11, Campinas, NEPO/UNICAMP, 1987, APUD Berquó,
op.cit.). A cor da pele, que nada significa segundo os que crêem no mito da
democracia racial brasileira, separava em 20 anos os pretos e pardos dos
avanços sociais alcançados pela população branca, avanços que seriam
impossíveis sem o trabalho dos não-brancos.
Marcelo Neri oferece dados esclarecedores sobre
três fenômenos cujos significados históricos, a meu ver, são profundos. Em
primeiro lugar, o efeito demográfico da construção cidadã da identidade social:
a parcela da sociedade que se declara negra vem crescendo expressivamente.
Comparando-se os dois últimos Censos do IBGE, 2000 e 2010, aumentou em 22,6% a
partipação de negros na população brasileira (Neri, op.cit: 226). A meu juízo,
o principal motivo é a expansão da consciência política dos afro-descendentes,
que cada vez mais assumem com orgulho sua cor e o que ela significa.
O segundo fenômeno estudado por Marcelo Neri são as
ostensivas e chocantes desigualdades: “A probabilidade de uma pessoa que se diz
branca ser pobre é 49% menor que de um negro e 56% menor que de um pardo. (…)
Mesmo quando comparamos pessoas com os mesmos atributos, exceto raça, digamos,
analfabeta de meia idade, que mora numa favela de Salvador, a probabilidade de
uma branca ser pobre é 29,4% menor do que uma não branca” (op.cit.: 227). Antes
de Neri, o Censo de 2010 deixara evidente a cor da desigualdade econômica,
indicando que 70% dos brasileiros extremamente pobres são negros.
Posso acrescentar outros dados alarmantes relativos
a violência, às instituições de segurança pública e ao sistema de Justiça
penal. O “Mapa da Violência”, publicado em 2011[1], revela que, de 2002 a 2008, o
número de negros assassinados elevou-se em 20,2%, enquanto diminuiu, em 22,3%,
o número de brancos vítimas do mesmo tipo de crime. Não há dúvida de que negros
e pobres são as principais vítimas do crime mais grave, o homicídio doloso.
Assim como são as principais vítimas da brutalidade policial letal e das
abordagens ilegais (Silvia Ramos e Leonarda Musumeci. Elemento suspeito.
RJ: Civilização Brasileira, 2005).
Em terceiro lugar, a boa notícia: “Entre 2001 e
2009 o crescimento de renda foi 44,6% dos pretos, 48,2% dos pardos contra 21,6%
dos brancos” (Neri, op.cit.: 226). Esse dado combinado ao aumento da
participação de negros na população e à importantíssima chegada de negros em
grande número à universidade, graças a políticas afirmativas e distributivas,
como o Programa Universidade para Todos (Pro-Uni) e as cotas para negros, cria
um novo cenário que justifica expectativas positivas relativamente ao futuro da
democratização substantiva da sociedade brasileira. De acordo com dados
divulgados pelo IPEA, em seu Boletim Políticas Públicas: acompanhamento e
análise, número 19, a taxa líquida de matrícula de estudantes na faixa
etária entre 18 e 24 anos[2] cresceu mais de cinco vezes de
1992 a 2009. Enquanto em 1992 somente 1,5% dos jovens negros ingressaram na
universidade, em 2009, 8,3% lograram cursar o ensino superior. Nesse período, a
taxa líquida de matrículas dos jovens brancos saltou de 7,2% para 21,3%, mas o
contingente de estudantes negros que não era mais que 20,8% do segmento branco,
em 1992, passou a representar 38,9%, em 2009 (cf.
www.ipea.gov.br/igualdaderacial).
V.
Protagonistas da narrativa global: da invisibilidade à luta por reconhecimento
Outro aspecto decisivo é o acesso à internet: em
2011, 115 milhões e 433 mil brasileiros, com 10 anos de idade ou mais, possuíam
telefone celular (eram 56 milhões, 104 mil e 605, em 2005) e 77 milhões 672 mil
navegavam na internet. A participação em redes ampliou-se e viabilizou
as manifestações, que passou a dispor de mídia própria. Ademais, permitiu aos
brasileiros identificar-se e colocar em prática o modelo globalizado de tomada
dos espaços públicos como método de democracia direta, ou de ação política não
mediada por instituições, partidos e representantes. Evidentemente, o modelo
remete à ideia clássica da democracia direta como tipo ideal, sem cumpri-lo
inteiramente, uma vez que as mediações nunca deixam de atuar, conectando
diferentes procedimentos institucionalizados à energia da massa nas praças. O
que conta, neste cenário dramatúrgico, são a memória idealizada e a linguagem
comum, como se os eventos se citassem mutuamente, construindo uma constelação
virtual de hipertextos. Neste cenário, tornam-se possíveis: incluir-se
na narrativa transnacional sobre a nova democracia; o orgulho de quem era
invisível para o poder público e sentia-se desrespeitado; a identificação com a
persona do heroi cívico; a política vivida em grupo como entretenimento cult
antipolítico (ainda que envolva risco de morte); a experiência gregária
fraterna (ante um inimigo tão abstrato e fantasmático quanto óbvio e imediato,
com o rosto policial e o sentido da tragédia); a vivência que enche o coração
de júbilo, exaltando os sentimentos e os elevando a uma escala quase
espiritual.
O povo assiste, atualmente, à Copa das
Confederações de futebol, em várias cidades brasileiras, competição
internacional que antecede em um ano a Copa do mundo. Este esporte é a paixão
nacional. Gastos bilionários foram decididos pelos governos sem consulta
popular. Os estádios, construídos com verbas governamentais, foram inaugurados
e apresentam qualidade admirável. Mas a saúde pública e a educação continuam
relegadas pelas políticas públicas. Além disso, os altos preços dos ingressos
excluem a grande maioria dos torcedores. Em síntese, o esporte popular,
depois de custos bilionários assumidos autocraticamente pelos governos,
expressaram a adoção de prioridades incompatíveis com as necessidades sociais e
implicaram o veto à participação popular. Agora, por meio das manifestações, a
massa inscreveu-se na grande narrativa nacional, deslocou o campo em que
ocorrem os eventos significativos, converteu-se em protagonista central e mudou
o jogo.
VI.
Efeitos produzidos pela cooptação do PT (o grande partido popular) e dos
movimentos sociais
Por que a explosão de protestos nesse momento? O
executivo prestigiado, em contexto de dinamismo econômico, pleno emprego e
redução de desigualdades, sob a aura carismática do presidente Lula, entre 2003
e 2010, freiou o desgaste do Estado, já avançado em sua face parlamentar.
Quando o modelo econômico começa a dar sinais de que está claudicando, a
corrosão contamina a legitimidade (a credibilidade) de todas as áreas do
Estado.
Se a economia vai razoavelmente bem, apesar dos
problemas --como a taxa diminuta de crescimento (espera-se no máximo 2,6% em
2013), o repique inflacionário e deficiências crônicas na infra-estrutura--,
porque a desaceleração ainda não afetou o emprego e as políticas sociais
compensatórias e distributivas evitam a degradação das condições de vida dos
mais vulneráveis, por que rompeu-se o laço Estado e sociedade? A resposta é
simples: porque o partido do governo, o PT, antes cercado por uma aura de
pureza e sempre disposto a enfrentar o poder, mostrou-se igual aos demais, isto
é, cooptável e suscetível à corrupção. Explico, retornando às manifestações.
A maioria dos manifestantes é jovem e estudante. No
entanto, é surpreendente e sintomática a ausência da União Nacional dos
Estudantes, entidade que participou com destaque de todos os momentos
importantes da história política brasileira das últimas décadas. A UNE foi
cooptada pelo governo federal desde que o PT chegou ao poder –com dois mandatos
de Lula da Silva e um, em curso, de Dilma Rousseff. O novo personagem coletivo,
a massa de jovens nas ruas, nasceu sobre os despojos da entidade. Tampouco têm
estado presentes tantos outros personagens coletivos de nossa dramaturgia
política popular e democrática. Muitos deles trocaram a autonomia pelas
benesses do poder, sem perceber que a cooptação esteriliza. O preço dos
privilégios é a impotência. Receberam verbas e apoio oficial, mas perderam a
confiança das bases e os vínculos com a sociedade civil. Do mesmo modo, o maior
partido popular brasileiro perdeu as ruas.
Ao PT que venceu, o país deve muito. Os governos
Lula, e mesmo Dilma, ficarão na história como marcos fundamentais na redução
das desigualdades. Contudo, quais têm sido suas contribuições para o
aprimoramento da democracia e para a mudança das relações entre Estado e
sociedade, governos e movimentos sociais?
Pode-se, como têm feito os governantes petistas,
ostentar a arrogância tecnocrática e abraçar os adversários, antes hostilizados
e acusados de corrupção, porque os fins sempre justificariam os meios? Os
apologistas petistas do pragmatismo ilimitado não se deram conta de que os
meios são os fins, quando a perspectiva adotada é a confiança da sociedade no
Estado, em especial a credibilidade do instituto da representação. Hoje, tantos
que acreditaram na dignidade da política vagam sem norte como zumbis da desilusão.
E a juventude procura um caminho para chamar de seu. São dez anos de PT no
poder: uma geração não o conheceu na oposição e não sabe o que é um grande
partido de massas, não cooptado, comprometido com as causas populares e
democráticas. Por mais que se façam críticas pertinentes à forma partido, é
indiscutível sua importância na transmissão de experiências acumuladas e na
formação da militância. Até a linguagem das massas nas ruas tem sua gramática.
A espontaneidade é a energia, mas a organização a potencializa e canaliza.
No momento em que emerge o novo protagonismo, com
compreensível mas perigosa repulsa por tudo o que de longe soe a partido,
deparamo-nos com o vácuo oceânico produzido pelo esvaziamento do PT como agente
político independente, esvaziamento por sua vez provocado pela sobreposição
entre Estado, governo e partido.
VII.
Especulações sobre o futuro e o conflito de interpretações
E o futuro? O movimento omnibus tem diante
de si os mais variados cenários, e outros a inventar. Seu destino provavelmente
dependerá de sua capacidade de diferenciar a crítica política da crítica à
política, e de não confundir a rejeição ao atual sistema político-eleitoral, e
partidário, com uma recusa da própria democracia, em qualquer formato. Essas
distinções provocarão divisões internas profundas e inconciliáveis, que já
estão aflorando. Toda essa magnífica energia fluirá para o ralo do ceticismo,
abrindo mais um ciclo de apatia? A indignação encontrará traduções autoritárias
e ultra-conservadoras? Múltiplos afluentes seguirão cursos inauditos, nos
supreendendo com sua criatividade e mudando o país, no âmbito da democracia? As
respostas não dependem só do movimento, mas também dos que não têm participado
e das lideranças governamentais e parlamentares.
Ante o fenômeno massivo e inusitado, jornalistas,
políticos e intelectuais estão perplexos. Nos primeiros dias, buscaram
explicações, mas constataram a insuficiência dos velhos modelos analíticos.
Aplicando-os sobre o novo objeto, eles só permitem identificar o que falta ao
movimento, aquilo que ele não é: não organizado, sem liderança, sem metas
definidas, sem agenda unificada, sem conexões institucionais, sem vínculos
políticos, sem plano de ação. O que, entretanto, ele é? Como descrever sua
positividade? Esse é o maior desafio.
Nas próximas semanas, é possível que a energia
inicial não seja sustentada, as massas se cansem, o movimento se divida em
inúmeros segmentos, em torno de muitas demandas distintas. Nesse caso, a
disputa se deslocará para o campo das interpretações. O fenômeno terá sido o
que dissermos que ele foi. São os intérpretes que se tornarão protagonistas do
conflito em torno das atribuições de sentido. Mesmo porque todo esforço de
entendimento, toda interpretação é também intervenção, é também ação social e
política.
Eu me preparava para enviar este artigo quando a
presidente Dilma Rousseff reuniu todos os 27 governadores e os prefeitos das
capitais para, ao vivo pela TV, anunciar uma proposta de repactuação nacional,
em torno dos grandes temas, suscitados pelas demandas populares: educação
pública, mobilidade urbana, controle de gastos públicos e da corrupção, e um
plebiscito para a reforma política. Quanto à reforma das polícias e a
desmilitarização das polícias militares, nenhuma palavra. De todo modo, um novo
capítulo abre-se. O horizonte permanece imprevisível e conturbado. Nada do que
eu disse acima foi revogado pela intervenção presidencial. Entretanto, um dado
novo incorporou-se à cena: a presidente pretende disputar o protagonismo com as
ruas ou, pelo menos, reconectar-se à sociedade, deixando os ônus com o
Parlamento e os partidos. Ano que vem ela disputa a reeleição à presidência.
O movimento da presidenta talvez tenha sido tardio.
Sua vitória, até duas semanas atrás, parecia assegurada. Hoje, quem fala sobre
o futuro com mais certezas do que dúvidas não merece ser ouvido. A prova
concreta de que o tsunami político está exercendo um impacto profundo com
consequências que ninguém consegue, hoje, antecipar, foi o resultado, já
mencionado, das últimas pesquisas sobre avaliação do governo, e a nova
distribuição das intenções de voto na eleição presidencial de 2014. Segundo o
instituto DataFolha, a presidente teria, hoje, 30% dos votos (tinha 51% há três
semanas), contra 23% de Marina Silva, líder dos ambientalistas (que tinha 7%).
Outros candidatos também cresceram e entraram no páreo, ainda que em posições
inferiores. Poucos duvidam de que uma nova hipótese esteja sendo cogitada pelo
PT: “Rousseff desiste de concorrer à reeleição, em 2014, e o ex-presidente
Lula da Silva, que já cumpriu dois mandatos e mantém 46% de intenções de voto,
volta a concorrer, o que é legalmente possível no Brasil”. Mas não nos
iludamos: hipóteses criativas serão concebidas a cada dia, enquanto as ruas
ferverem, derretendo certezas e trazendo de volta ao palco da história a
liberdade criativa da agência humana coletiva.
[1] Pesquisa coordenada por
Julio Jacobo Waiselfisz, realizada com apoio do Ministério da Justiça.
[2] A taxa líquida de matrícula
obtém-se contrastando o número de matriculados com aquele que seria adequado caso
se verificasse uma distribuição normal do acesso à universidade entre todos os
segmentos da população no grupo de idade pertinent


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