Pesquisar este blog

terça-feira, 2 de julho de 2013

A terra treme no país de desigualdades e paradoxos - Luiz Eduardo Soares



A terra treme no país de desigualdades e paradoxos
Luiz Eduardo Soares
Fonte: http://lareviewofbooks.org/article.php?type=&id=1821&fulltext=1&media=#article-text-cutpoint


A noite de domingo ,30 de junho de 2013, termina em tom épico para os brasileiros: a seleção de futebol conquistou a copa das confederações, vencendo a Espanha por 3 X 0, e a aprovação da presidente da República caiu 27 pontos em duas semanas, de 57% para 30%, tornando imprevisíveis as eleições de 2014. Tudo o que era sólido está se desmanchando no ar: por um lado, a invencibilidade da seleção espanhola e da presidente Dilma Rousseff, e, por outro, o êxito econômico e social do país e a apatia política nacional. A análise do inesperado resultado no futebol está acima de minha competência, mas acredito poder sugerir algumas reflexões sobre o declínio meteórico da popularidade da presidente e de todas as autoridades públicas, descrevendo o que ocorreu nos últimos 15 dias.
A sociedade brasileira está vivendo a maior mobilização de sua história. A primeira convocada por meio de redes sociais virtuais, inteiramente espontânea, isto é, desprovida de lideranças, organização centralizada, vínculos partidários ou mesmo de uma agenda uniforme. A população tem ido às ruas protestar, nos grandes centros urbanos e nas pequenas cidades do interior. E isso acontece, paradoxalmente, no momento em que a opinião pública global contempla com curiosidade este país 85% urbano, de quase 200 milhões de habitantes, que se tornou a sexta economia do mundo, atravessou a crise financeira internacional mantendo indicadores de pleno emprego, crescimento (ainda que modesto), redução de desigualdades e aprovação recorde dos presidentes Lula da Silva (ex-líder sindical) e, até 15 dias atrás, Dilma Rousseff, sua sucessora (ex-presa política, torturada pela ditadura militar nos anos 1960 e 1970), ambos do Partido dos Trabalhadores (PT), uma agremiação de origem esquerdista, hoje social-democrata.

I. Progresso como condição da revolta

A série de eventos surpreendentes começou com o movimento pela redução do preço do transporte público, em São Paulo. Até aí, tudo parecia relativamente rotineiro, sob a crítica da mídia conservadora, ao som de declarações arrogantes do governador direitista e do prefeito esquerdista, que se recusavam a sequer negociar a redução das tarifas. O cenário era típico e os desdobramentos, previsíveis. A conjuntura apontava para o declínio das manifestações, que provavelmente permaneceriam locais. Contudo, no segundo dia de manifestações, a polícia militar paulista deu sua inestimável contribuição à história do país, agindo com brutalidade criminosa, inclusive contra jornalistas. Era o bastante para incendiar a alma dos brasileiros. Em poucos dias os aumentos nas tarifas foram revogados, mas a massa inflamada não recuou.
As primeiras respostas da população jogaram por terra tudo o que se supunha saber sobre a relação do país consigo mesmo: centenas de milhares de pessoas, principalmente (mas não exclusivamente) jovens, de diferentes classes sociais, aderiram a passeatas, em todo o país. No Rio, a maior manifestação, entre tantas que se sucederam, reuniu, segundo a polícia, 300 mil pessoas. Outros, entre os quais me incluo, avaliam que havia ali pelo menos um milhão de pessoas. O mais extraordinário, entretanto, não é propriamente a escala, ainda que seja assombrosa, mas sua rápida difusão por todas as regiões.
O ponto de partida justifica-se: no Rio e em São Paulo, trabalhadores gastam até quatro horas por dia deslocando-se em espaços urbanos entupidos de automóveis, cujo número multiplicou-se em razão do ingresso de 40 milhões de brasileiros na classe média, ao longo da última década. O efeito não-antecipado e contraditório da combinação entre redução das desigualdades e desenvolvimento acelerado –um de cujos focos tendo sido a indústria automobilística-- foi a crise na mobilidade urbana. Além disso, mais consumidores, mais acesso à educação e a valorização cultural da cidadania produziram um contexto novo, na esfera dos sentimentos e da disposição participativa. Ou seja, melhorias combinaram-se para tornar inaceitáveis situações que, em condições anteriores, caso existissem, seriam toleradas, passivamente. Esse aparente paradoxo não é novo: Alexis de Tocqueville, no século XIX, nos ensinou que os grupos sociais mais dispostos a agir e reagir não são os mais pobres e impotentes, mas aqueles que têm o que perder. Isso significa que os avanços sociais das últimas duas décadas (sobretudo da última) no Brasil ampliaram a faixa da população potencialmente disposta a resistir ante o risco de perda. Aqueles que ascenderam não entregarão sem luta suas conquistas.
A que conquistas, exatamente, me refiro?

II. Conquistas recentes da sociedade brasileira

Aplicando-se o índice de Gini para medir a desigualdade de renda, conclui-se que em 2011 o Brasil alcançou o nível mais baixo desde 1960, ano em que pela primeira vez realizou-se o cálculo. Entre 1960 e 1990, a desigualdade cresceu de 0,5367 para 0,6091. Desde então decresceu até 2010, quando atingiu 0,5304 (Neri, Marcelo. A Nova classe média. São Paulo: Saraiva, 2011: 26), e continuou caindo: o índice de 0,527, em 2011 (segundo a PNAD –Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar, do IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), foi o menor da série histórica. Mesmo sendo o patamar mais baixo desde quando aplicamos esse método para identificar a desigualdade, o Brasil continua sendo um dos 12 países mais desiguais do mundo. A boa nova é a afirmação de uma tendência que começa a reverter esse quadro e que se realiza em uma escala considerável.
Na primeira década do século XXI,  a taxa acumulada de crescimento da renda para os 10% mais ricos foi de 10,03%, enquanto para os 50% mais pobres foi de 67,93%. Conforme destaca Ricardo Paes de Barros, os 10% mais pobres obtiveram uma elevação de renda per capita em torno de 7% ao ano, entre 2001 e 2009, só um pouco mais baixa que a celebrada média anual de crescimento da renda per capita na China (Paes de Barros citado por Rafael Cariello em “O liberal contra a miséria” in Revista Piauí, número 74, novembro de 2012: 30).
Paes de Barros avalia que dificilmente algum país terá obtido resultado comparável ao que o Brasil alcançou, em matéria de redução de desigualdade de renda, entre 1999 e 2009, ainda que essas mudanças sejam insuficientes: os 10% mais ricos detinham 47% da renda nacional e passaram a controlar 43%, enquanto os 50% mais pobres, que possuíam 12,65 da renda total, no começo da série histórica, passaram a receber 15% no final do período (idem; ibidem).
O dado mais ostensivo e impactante é o seguinte: em 1993, ano anterior à implantação do Plano Real (bem sucedido no controle da inflação), 23% da população brasileira vivia em situação de pobreza extrema, ou seja, não tinham acesso a renda que lhes proporcionasse consumir o número mínimo de calorias indispensável à sobrevivência saudável. O Plano Real transformou esse cenário devastador em um ano: em 1995 –primeiro ano do primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso-- o percentual da população submetido a essas condições desumanas decrescera para 17%. Em 2003, o contingente populacional em pobreza extrema ainda era o mesmo. Em 2009, caíra para 8,4%. Uma quantidade ainda excessivamente elevada, inaceitável, mas muito menor do que no começo da última década do século XX.
Em 1993, os brasileiros cuja renda domiciliar ficava abaixo de R$ 752,00 (valor de 2011) eram 51 milhões (51.613.412). Em 2001, eram 46 milhões (46. 896.647). Em 2011, passaram a ser 24 milhões (24,684.517). Aqueles cuja renda domiciliar ficava entre R$ 751,00 e R$ 1.200,00, eram, em 1993, 41 milhões (41.255.368). Esse grupo diminuiu para 38 milhões (38.907.544), no ano de 2011. Por outro lado, os brasileiros cuja renda domiciliar se situava entre R$ 1.200,00 e R$ 5.174,00 eram 45 milhões (45.646.118), no ano de 1993. Em 2011, o segmento mais do que dobrou, chegando a 105 milhões (105.468.908).
Registre-se que nesse período de 18 anos a população brasileira cresceu a um ritmo mais lento. O crescimento acelerado verificado nas décadas de 1940 (quando a taxa média foi 2,39) e de 1950 (quando alcançou 2,99), reduziu-se nos anos 1990 (para 1,64) e ainda mais (para 1,17) na primeira década do século XXI. (cf. Elza Berquó. “Evolução demográfica” in Ignacy Sachs, Jorge Wilheim e Paulo Sérgio Pinheiro [org]. Brasil, um século de transformações. SP: Cia das Letras, 2001: 17).
O processo virtuoso de declínio de desigualdades revela melhor sua significação quando se leva em conta a dinâmica demográfica.  São esses dados que conduzirão Marcelo Neri a afirmar que “39,6 milhões de brasileiros ingressaram nas fileiras da chamada nova classe média (classe C) entre 2003 e 2011 (59,8 milhões desde 1993)” (Neri, op.cit: 27).

III. A agenda plural do movimento e o colapso da representação política

A agenda do movimento não é uniforme e cada participante ergue seu pequeno cartaz com uma proposta, uma crítica, uma exigência, em linguagem formal ou bem humorada, seja contra a homofobia ou o autoritarismo tecnocrático dos governos. Entretanto, a despeito da imensa dispersão temática, alguns tópicos são constantes: transportes públicos, mobilidade urbana, corrupção, brutalidade policial, desigualdade no acesso à Justiça, mais recursos para educação e saúde, e menos para a construção de estádios suntuosos para a Copa do Mundo de futebol, em 2014, e para os jogos Olímpicos, que ocorrerão no Rio, em 2016. Portanto, o valor do transporte apenas pôs em circulação uma cadeia metonímica no imaginário individual e coletivo, conectando os mais diferentes problemas nacionais contemporâneos. E cada indivíduo sentiu-se estimulado a incluir, nessa longa narrativa épica, sua própria descrição do que lhe parece ser o drama fundamental e urgente. Registre-se que a legitimidade do governo federal nunca foi seriamente questionada.
O eixo comum, sob a diversidade de  reivindicações, é a proclamação indignada do colapso da representação política. Em poucas palavras, os manifestantes não acreditam em partidos e políticos que renovam seus mandatos no mercado de votos, sem perceber que o mero respeito às regras do jogo não é suficiente para manter a democracia de pé. Há no Brasil o Estado democrático de direito, desde a promulgação da Constituição, em 1988, depois de 21 anos de ditadura militar, seguidos por três anos híbridos. Mas a institucionalidade democrática passou a ser vista pela maior parte da sociedade como um carcaça oca, uma forma sem conteúdo, tomada por agentes políticos inescrupulosos. O endosso formal a parlamentares e governantes pelo voto, em um país onde é obrigatório votar, não garante legitimidade, do ponto de vista da percepção social. A ruína da representação vinha ocorrendo sem que as lideranças dessem mostras de compreender a magnitude do abismo que se abrira --e aprofundava-se, celeremente-- entre a institucionalidade política e o sentimento da maioria. O que farão, agora?
A marca do movimento é a intensidade. Os protestos se realizam na linguagem dos excessos: muita gente, todo dia, todos os temas --e sempre há a minoria exaltada e violenta que depreda prédios públicos. Nesta franja do fenômeno pegam carona alguns profissionais do furto e do roubo, e os que se divertem destruindo sem propósito. Por que a paixão e a intensidade? Ouso uma hipótese: os elos de contiguidade simbólica e política conectam problemas entre si, conforme expliquei, acentuando sua característica permanente: a desigualdade. E o fazem em um contexto normativo e institucional, o Estado democrático de direito, no qual o princípio enunciado e reiterado é a equidade. Por isso, os significados negativos se agravam, acentuando a intensidade emocional em que são apreendidos e comunicados: eles se destacam porque remetem à desigualdade, a qual contrasta fortemente com as expectativas geradas pelo pacto constitucional. Afinal, a conversa sobre cidadania é ou não para valer?
***

IV. As persistentes inquidades históricas

Apesar de tão significativa redução de desigualdades, elas persistem, sob as mais diferentes formas. Assim como persiste a violência e a brutalidade policial letal contra os pobres e os negros.
A ultrajante desigualdade entre negros e brancos vem diminuindo, mas persiste, exibindo o racismo estrutural brasileiro. Entre 1950 e 1980, os brancos viveram 7,5 anos a mais que os pretos e pardos --classificação usada à época (Wood, C.H. & Webster, P.L. Racial inequality and child mortality in Brazil. Mimeo: 1987, APUD Berquó, op.cit.: 27). Em 1980, a expectativa de vida dos negros ainda não passava de 59 anos. Em 1987, a população branca vivia, em média, 72 anos, enquanto os negros viviam 64,5 anos (idem; ibidem). Outro dado escabroso confirma os precedentes: em 1980, a taxa de mortalidade infantil de pretos e pardos era igual à taxa de mortalidade de crianças brancas menores de um ano, em 1960: 105 a cada mil nascidas vivas (Garcia Tamburo, E.M. “Mortalidade infantil da população negra brasileira”. Texto NEPO 11, Campinas, NEPO/UNICAMP, 1987, APUD Berquó, op.cit.). A cor da pele, que nada significa segundo os que crêem no mito da democracia racial brasileira, separava em 20 anos os pretos e pardos dos avanços sociais alcançados pela população branca, avanços que seriam impossíveis sem o trabalho dos não-brancos.
Marcelo Neri oferece dados esclarecedores sobre três fenômenos cujos significados históricos, a meu ver, são profundos. Em primeiro lugar, o efeito demográfico da construção cidadã da identidade social: a parcela da sociedade que se declara negra vem crescendo expressivamente. Comparando-se os dois últimos Censos do IBGE, 2000 e 2010, aumentou em 22,6% a partipação de negros na população brasileira (Neri, op.cit: 226). A meu juízo, o principal motivo é a expansão da consciência política dos afro-descendentes, que cada vez mais assumem com orgulho sua cor e o que ela significa.
O segundo fenômeno estudado por Marcelo Neri são as ostensivas e chocantes desigualdades: “A probabilidade de uma pessoa que se diz branca ser pobre é 49% menor que de um negro e 56% menor que de um pardo. (…) Mesmo quando comparamos pessoas com os mesmos atributos, exceto raça, digamos, analfabeta de meia idade, que mora numa favela de Salvador, a probabilidade de uma branca ser pobre é 29,4% menor do que uma não branca” (op.cit.: 227). Antes de Neri, o Censo de 2010 deixara evidente a cor da desigualdade econômica, indicando que 70% dos brasileiros extremamente pobres são negros.
Posso acrescentar outros dados alarmantes relativos a violência, às instituições de segurança pública e ao sistema de Justiça penal. O “Mapa da Violência”, publicado em 2011[1], revela que, de 2002 a 2008, o número de negros assassinados elevou-se em 20,2%, enquanto diminuiu, em 22,3%, o número de brancos vítimas do mesmo tipo de crime. Não há dúvida de que negros e pobres são as principais vítimas do crime mais grave, o homicídio doloso. Assim como são as principais vítimas da brutalidade policial letal e das abordagens ilegais (Silvia Ramos e Leonarda Musumeci. Elemento suspeito. RJ: Civilização Brasileira, 2005).
Em terceiro lugar, a boa notícia: “Entre 2001 e 2009 o crescimento de renda foi 44,6% dos pretos, 48,2% dos pardos contra 21,6% dos brancos” (Neri, op.cit.: 226). Esse dado combinado ao aumento da participação de negros na população e à importantíssima chegada de negros em grande número à universidade, graças a políticas afirmativas e distributivas, como o Programa Universidade para Todos (Pro-Uni) e as cotas para negros, cria um novo cenário que justifica expectativas positivas relativamente ao futuro da democratização substantiva da sociedade brasileira. De acordo com dados divulgados pelo IPEA, em seu Boletim Políticas Públicas: acompanhamento e análise, número 19, a taxa líquida de matrícula de estudantes na faixa etária entre 18 e 24 anos[2] cresceu mais de cinco vezes de 1992 a 2009. Enquanto em 1992 somente 1,5% dos jovens negros ingressaram na universidade, em 2009, 8,3% lograram cursar o ensino superior. Nesse período, a taxa líquida de matrículas dos jovens brancos saltou de 7,2% para 21,3%, mas o contingente de estudantes negros que não era mais que 20,8% do segmento branco, em 1992, passou a representar 38,9%, em 2009 (cf. www.ipea.gov.br/igualdaderacial).

V. Protagonistas da narrativa global: da invisibilidade à luta por reconhecimento

Outro aspecto decisivo é o acesso à internet: em 2011, 115 milhões e 433 mil brasileiros, com 10 anos de idade ou mais, possuíam telefone celular (eram 56 milhões, 104 mil e 605, em 2005) e 77 milhões 672 mil navegavam na internet. A participação em redes ampliou-se e viabilizou as manifestações, que passou a dispor de mídia própria. Ademais, permitiu aos brasileiros identificar-se e colocar em prática o modelo globalizado de tomada dos espaços públicos como método de democracia direta, ou de ação política não mediada por instituições, partidos e representantes. Evidentemente, o modelo remete à ideia clássica da democracia direta como tipo ideal, sem cumpri-lo inteiramente, uma vez que as mediações nunca deixam de atuar, conectando diferentes procedimentos institucionalizados à energia da massa nas praças. O que conta, neste cenário dramatúrgico, são a memória idealizada e a linguagem comum, como se os eventos se citassem mutuamente, construindo uma constelação virtual de hipertextos. Neste cenário, tornam-se possíveis: incluir-se na narrativa transnacional sobre a nova democracia; o orgulho de quem era invisível para o poder público e sentia-se desrespeitado; a identificação com a persona do heroi cívico; a política vivida em grupo como entretenimento cult antipolítico (ainda que envolva risco de morte); a experiência gregária fraterna (ante um inimigo tão abstrato e fantasmático quanto óbvio e imediato, com o rosto policial e o sentido da tragédia); a vivência que enche o coração de júbilo, exaltando os sentimentos e os elevando a uma escala quase espiritual.
O povo assiste, atualmente, à Copa das Confederações de futebol, em várias cidades brasileiras, competição internacional que antecede em um ano a Copa do mundo. Este esporte é a paixão nacional. Gastos bilionários foram decididos pelos governos sem consulta popular. Os estádios, construídos com verbas governamentais, foram inaugurados e apresentam qualidade admirável. Mas a saúde pública e a educação continuam relegadas pelas políticas públicas. Além disso, os altos preços dos ingressos excluem a grande maioria dos torcedores.  Em síntese, o esporte popular, depois de custos bilionários assumidos autocraticamente pelos governos, expressaram a adoção de prioridades incompatíveis com as necessidades sociais e implicaram o veto à participação popular. Agora, por meio das manifestações, a massa inscreveu-se na grande narrativa nacional, deslocou o campo em que ocorrem os eventos significativos, converteu-se em protagonista central e mudou o jogo.

VI. Efeitos produzidos pela cooptação do PT (o grande partido popular) e dos movimentos sociais

Por que a explosão de protestos nesse momento? O executivo prestigiado, em contexto de dinamismo econômico, pleno emprego e redução de desigualdades, sob a aura carismática do presidente Lula, entre 2003 e 2010, freiou o desgaste do Estado, já avançado em sua face parlamentar. Quando o modelo econômico começa a dar sinais de que está claudicando, a corrosão contamina a legitimidade (a credibilidade) de todas as áreas do Estado.
Se a economia vai razoavelmente bem, apesar dos problemas --como a taxa diminuta de crescimento (espera-se no máximo 2,6% em 2013), o repique inflacionário e deficiências crônicas na infra-estrutura--, porque a desaceleração ainda não afetou o emprego e as políticas sociais compensatórias e distributivas evitam a degradação das condições de vida dos mais vulneráveis, por que rompeu-se o laço Estado e sociedade? A resposta é simples: porque o partido do governo, o PT, antes cercado por uma aura de pureza e sempre disposto a enfrentar o poder, mostrou-se igual aos demais, isto é, cooptável e suscetível à corrupção. Explico, retornando às manifestações.
A maioria dos manifestantes é jovem e estudante. No entanto, é surpreendente e sintomática a ausência da União Nacional dos Estudantes, entidade que participou com destaque de todos os momentos importantes da história política brasileira das últimas décadas. A UNE foi cooptada pelo governo federal desde que o PT chegou ao poder –com dois mandatos de Lula da Silva e um, em curso, de Dilma Rousseff. O novo personagem coletivo, a massa de jovens nas ruas, nasceu sobre os despojos da entidade. Tampouco têm estado presentes tantos outros personagens coletivos de nossa dramaturgia política popular e democrática. Muitos deles trocaram a autonomia pelas benesses do poder, sem perceber que a cooptação esteriliza. O preço dos privilégios é a impotência. Receberam verbas e apoio oficial, mas perderam a confiança das bases e os vínculos com a sociedade civil. Do mesmo modo, o maior partido popular brasileiro perdeu as ruas.
Ao PT que venceu, o país deve muito. Os governos Lula, e mesmo Dilma, ficarão na história como marcos fundamentais na redução das desigualdades. Contudo, quais têm sido suas contribuições para o aprimoramento da democracia e para a mudança das relações entre Estado e sociedade, governos e movimentos sociais?
Pode-se, como têm feito os governantes petistas, ostentar a arrogância tecnocrática e abraçar os adversários, antes hostilizados e acusados de corrupção, porque os fins sempre justificariam os meios? Os apologistas petistas do pragmatismo ilimitado não se deram conta de que os meios são os fins, quando a perspectiva adotada é a confiança da sociedade no Estado, em especial a credibilidade do instituto da representação. Hoje, tantos que acreditaram na dignidade da política vagam sem norte como zumbis da desilusão. E a juventude procura um caminho para chamar de seu. São dez anos de PT no poder: uma geração não o conheceu na oposição e não sabe o que é um grande partido de massas, não cooptado, comprometido com as causas populares e democráticas. Por mais que se façam críticas pertinentes à forma partido, é indiscutível sua importância na transmissão de experiências acumuladas e na formação da militância. Até a linguagem das massas nas ruas tem sua gramática. A espontaneidade é a energia, mas a organização a potencializa e canaliza.
No momento em que emerge o novo protagonismo, com compreensível mas perigosa repulsa por tudo o que de longe soe a partido, deparamo-nos com o vácuo oceânico produzido pelo esvaziamento do PT como agente político independente, esvaziamento por sua vez provocado pela sobreposição entre Estado, governo e partido.

VII. Especulações sobre o futuro e o conflito de interpretações

E o futuro? O movimento omnibus tem diante de si os mais variados cenários, e outros a inventar. Seu destino provavelmente dependerá de sua capacidade de diferenciar a crítica política da crítica à política, e de não confundir a rejeição ao atual sistema político-eleitoral, e partidário, com uma recusa da própria democracia, em qualquer formato. Essas distinções provocarão divisões internas profundas e inconciliáveis, que já estão aflorando. Toda essa magnífica energia fluirá para o ralo do ceticismo, abrindo mais um ciclo de apatia? A indignação encontrará traduções autoritárias e ultra-conservadoras? Múltiplos afluentes seguirão cursos inauditos, nos supreendendo com sua criatividade e mudando o país, no âmbito da democracia? As respostas não dependem só do movimento, mas também dos que não têm participado e das lideranças governamentais e parlamentares.
Ante o fenômeno massivo e inusitado, jornalistas, políticos e intelectuais estão perplexos. Nos primeiros dias, buscaram explicações, mas constataram a insuficiência dos velhos modelos analíticos. Aplicando-os sobre o novo objeto, eles só permitem identificar o que falta ao movimento, aquilo que ele não é: não organizado, sem liderança, sem metas definidas, sem agenda unificada, sem conexões institucionais, sem vínculos políticos, sem plano de ação. O que, entretanto, ele é? Como descrever sua positividade? Esse é o maior desafio.
Nas próximas semanas, é possível que a energia inicial não seja sustentada, as massas se cansem, o movimento se divida em inúmeros segmentos, em torno de muitas demandas distintas. Nesse caso, a disputa se deslocará para o campo das interpretações. O fenômeno terá sido o que dissermos que ele foi. São os intérpretes que se tornarão protagonistas do conflito em torno das atribuições de sentido. Mesmo porque todo esforço de entendimento, toda interpretação é também intervenção, é também ação social e política.
Eu me preparava para enviar este artigo quando a presidente Dilma Rousseff reuniu todos os 27 governadores e os prefeitos das capitais para, ao vivo pela TV, anunciar uma proposta de repactuação nacional, em torno dos grandes temas, suscitados pelas demandas populares: educação pública, mobilidade urbana, controle de gastos públicos e da corrupção, e um plebiscito para a reforma política. Quanto à reforma das polícias e a desmilitarização das polícias militares, nenhuma palavra. De todo modo, um novo capítulo abre-se. O horizonte permanece imprevisível e conturbado. Nada do que eu disse acima foi revogado pela intervenção presidencial. Entretanto, um dado novo incorporou-se à cena: a presidente pretende disputar o protagonismo com as ruas ou, pelo menos, reconectar-se à sociedade, deixando os ônus com o Parlamento e os partidos. Ano que vem ela disputa a reeleição à presidência.
O movimento da presidenta talvez tenha sido tardio. Sua vitória, até duas semanas atrás, parecia assegurada. Hoje, quem fala sobre o futuro com mais certezas do que dúvidas não merece ser ouvido. A prova concreta de que o tsunami político está exercendo um impacto profundo com consequências que ninguém consegue, hoje, antecipar, foi o resultado, já mencionado, das últimas pesquisas sobre avaliação do governo, e a nova distribuição das intenções de voto na eleição presidencial de 2014. Segundo o instituto DataFolha, a presidente teria, hoje, 30% dos votos (tinha 51% há três semanas), contra 23% de Marina Silva, líder dos ambientalistas (que tinha 7%). Outros candidatos também cresceram e entraram no páreo, ainda que em posições inferiores. Poucos duvidam de que uma nova hipótese esteja sendo cogitada pelo PT: “Rousseff desiste de concorrer à reeleição, em 2014, e o ex-presidente Lula da Silva, que já cumpriu dois mandatos e mantém 46% de intenções de voto, volta a concorrer, o que é legalmente possível no Brasil”. Mas não nos iludamos: hipóteses criativas serão concebidas a cada dia, enquanto as ruas ferverem, derretendo certezas e trazendo de volta ao palco da história a liberdade criativa da agência humana coletiva.




[1]  Pesquisa coordenada por Julio Jacobo Waiselfisz, realizada com apoio do Ministério da Justiça.
[2] A taxa líquida de matrícula obtém-se contrastando o número de matriculados com aquele que seria adequado caso se verificasse uma distribuição normal do acesso à universidade entre todos os segmentos da população no grupo de idade pertinent

Nenhum comentário: