Freud Flintstone e os deuses da propriedade privada
A canção Freud Flintstone dos Engenheiros do Hawaii traz referências as primeiras formações patriarcais, que deram origem a propriedade privada do solo. Essa estrutura era comum na Antiguidade Clássica (Grécia e Roma). No entanto, a música pode ser interpretada como uma narrativa que descreve a criação do “deus” da propriedade privada.
Na sociedade atual os ídolos não permanecem nos altares: para o capitalismo é sempre necessário criar novos, e, para isso, esquecer/destruir os antigos. Isso acontece na moda, na informática, na música, na televisão, no cinema etc. ídolos são criados e consumidos com avidez.
Os artistas são colocados no altar. Uma vez lá, as pessoas passam a querer saber tudo sobre suas vidas: o que pensam, o que vestem, o que sentem, o que os faz sofrer, o que acham da política, do buraco na camada de ozônio... Querem consumir seu ídolo.
Esse consumir tem um sentido pesado: muitas vezes os artistas são privados de suas próprias vidas e se tornam reféns da fama. Contudo, a dor deles vende: as revistas de fofoca não são à toa as mais vendidas. As pessoas acham “emocionantes” as corridas na TV quando ocorrem acidentes. Vão para o rodeio ( na maioria das vezes ) pra ver os tombos..querem a morte de seu ídolos...e, quando eles morrem vão novamente para o altar...os ídolos são literalmente consumidos. . .
Transcrevo a letra e depois um comentário sobre como, na Antiguidade Clássica, a existência de deuses familiares se liga a invenção da propriedade privada do solo.
Freud Flinstone
(Humberto Gessinguer)
Querem sangue, querem lama,
Querem à força o beijo na lona
E querem ao vivo
Querem à lágrima doida
Do ídolo caindo
Em câmera lenta
Querem lutar pelo que amam
Conquistar e destruir
O que amavam tanto
Faça uma prece p’ra Freud Flintstone
Acenda uma vela p’ra Freud Flintstone
Sacrifique o bom senso no seu altar
Na areia da arena
Saí de cena por decreto
A flor do deserto
Gran finale, ultima cena.
No ar pelas antenas
A morte do toureiro
Faça uma prece p’ra Freud Flintstone
Acenda uma vela p’ra Freud Flintstone
Que o satélite lhe seja leve
Esqueça a prece p’ra Freud Flintstone
Acenda a fogueira p’ra Freud Flintstone
Vamos queimá-lo vivo, enterrá-lo vivo,
O preço é uma prece, pague p’ra ver,
Compre ingresso, adeus Pink Floid Flintstone,
Fama, fogo, fúria, fé no clube Freud Flintstone
Que o satélite lhe seja leve
Família, Religião Doméstica e Propriedade Privada
(Humberto Gessinguer)
Querem sangue, querem lama,
Querem à força o beijo na lona
E querem ao vivo
Querem à lágrima doida
Do ídolo caindo
Em câmera lenta
Querem lutar pelo que amam
Conquistar e destruir
O que amavam tanto
Faça uma prece p’ra Freud Flintstone
Acenda uma vela p’ra Freud Flintstone
Sacrifique o bom senso no seu altar
Na areia da arena
Saí de cena por decreto
A flor do deserto
Gran finale, ultima cena.
No ar pelas antenas
A morte do toureiro
Faça uma prece p’ra Freud Flintstone
Acenda uma vela p’ra Freud Flintstone
Que o satélite lhe seja leve
Esqueça a prece p’ra Freud Flintstone
Acenda a fogueira p’ra Freud Flintstone
Vamos queimá-lo vivo, enterrá-lo vivo,
O preço é uma prece, pague p’ra ver,
Compre ingresso, adeus Pink Floid Flintstone,
Fama, fogo, fúria, fé no clube Freud Flintstone
Que o satélite lhe seja leve
Família, Religião Doméstica e Propriedade Privada
O surgimento da propriedade privada do solo na Antigüidade clássica se liga a existência de uma religião doméstica que fundamentava a unidade das famílias e a unidade do território.
Havia uma verdadeira “religião da morte”[1] baseada na crença de que com a morte não havia uma separação total entre corpo e alma (não se concebia tal distinção), ocorria, em verdade, uma mudança de vida: os mortos continuariam a viver na terra junto dos vivos como demônios poderosos. Os gregos chamavam as almas humanas divinizadas pela morte de demônios, ou heróis. Os latinos as denominavam de manes, lares ou gênios.
Para garantir a paz na vida cotidiana (tendo em vista o poder dos lares ) era necessário seguir os preceitos de uma religião familiar centrada na figura do patriarca fundador. A presença desse demônio era marcada pela existência de um fogo sagrado na casa de cada família. O fogo só deixava de brilhar quando toda família estivesse extinta; lar extinto, família extinta.
No infortúnio, o homem chorava suas mazelas para o fogo, dirigindo-lhe repreensões; na felicidade rendia-lhe graças. O soldado ao voltar ileso da guerra, agradecia por ter-lhe preservado dos perigos.
Só o pai, único interprete e único pontífice de sua religião, tinha o poder de ensinar tal religião e só o podia fazer a seu filho. Ninguém mais podia ser instruído nas regras da sua religião caseira.
Só o pai, único interprete e único pontífice de sua religião, tinha o poder de ensinar tal religião e só o podia fazer a seu filho. Ninguém mais podia ser instruído nas regras da sua religião caseira.
Os limites das terras da família marcavam também os limites do domínio desse deus patriarcal. Os membros da família deviam sempre ser enterrados nesse limite, geralmente em túmulos coletivos. Assim a propriedade da terra tinha, inicialmente, uma fundamentação religiosa. Mais tarde, quando se tornou comum a venda de territórios, era necessário garantir que os membros da família continuariam sendo enterrados no domínio do seu deus e seguindo as atividades dessa religião.
Assim, havia uma constante troca de serviços entre vivos e mortos. Abandonar um corpo sem túmulo era condenar a alma a errância, sobre forma de larva ou fantasma, sem receber as oferendas de que necessitava, essa alma se tornaria perversa, provocando doenças, devastando plantações.
A cerimônia fúnebre tinha, então, um grande significado. Era comum chamar por três vezes a alma do morto pelo nome que havia usado em vida, dizer-lhe por três vezes “passe bem” e acrescentar “que a terra lhe seja leve”.
A cerimônia fúnebre tinha, então, um grande significado. Era comum chamar por três vezes a alma do morto pelo nome que havia usado em vida, dizer-lhe por três vezes “passe bem” e acrescentar “que a terra lhe seja leve”.
Palavra(s) do autor:
Esses são trechos de alguns chats que Humberto Gessinger participou:
Questão: Os romanos escreviam no túmulo, "que a terra lhe seja leve" quando enterravam alguém que prezavam. É issoem Freud Flintstone ?
HG: é isso, antonio.
Humberto o que você quer dizer na música Freud Flintstone com, "que o satélite lhe seja leve"?
HG: "que a terra lhe seja leve" é a expressão clássica: a terra que fica sobre o caixão, a morte, o julgamento... usei satélite pois hoje é o que nos julga...temos uma existência virtual, através dele, principalmente nós, teimosos de comunicar.
Esses são trechos de alguns chats que Humberto Gessinger participou:
Questão: Os romanos escreviam no túmulo, "que a terra lhe seja leve" quando enterravam alguém que prezavam. É isso
HG: é isso, antonio.
Humberto o que você quer dizer na música Freud Flintstone com, "que o satélite lhe seja leve"?
HG: "que a terra lhe seja leve" é a expressão clássica: a terra que fica sobre o caixão, a morte, o julgamento... usei satélite pois hoje é o que nos julga...temos uma existência virtual, através dele, principalmente nós, teimosos de comunicar.
8 comentários:
É a minha música preferida deles, legal sua interpretação, cabível sobretudo.
Tudo bem, houve um esforço por parte de quem pesquisou e tentou "explicar a canção. Mas, vamos por o pingo no "I", onde fica Freud na explicação? que relação existe com o que quer ser dito na canção? Eu mesmo até hoje nunca entendie.
Tudo bem, não houve esforço nenhum de sua parte Felipe para entender nada! Já ouviu falara em "complexo de édipo"? Totem e tabu...
É uma dicotomia, Freud é o lado racional e Flinstone é o lado primitivo.
é uma dicotomia, Freud significa o lado racional e Flinstone o lado primitivo.
Onde fica Freud na explicação?
Freud no caso dentro da canção é exatamente o SER que morre para animar a platéia. Aquele que por pensar se torna diferente, mas acaba deixando de ser um pensador ou simplesmente para se tornar um objeto de consumo. Na nossa socidade consumista um ser que só serve para alimentar a necessidade de ser consumido e expiado em seu prazer/sofrimento para alimentar a máquina da devoração/ devoção dos inconscientes que não quero pensar, sequer raciocinar apenas consumir o que resta do que o satélite ainda não enterrou!
O Freud é o sujeito que sofre a ação de ser expiado e sacrificado para alimentar os Flinstones ávidos de consumir o ser que pensa para que inclusive não tenham a necessidade de entender a própria fome de consumo alimentada pela mídea dos dias de hoje. Na realidade é o Racional subjugado pela vontade do Animal, por não conseguir reverter o quadro de domínio mental uma vez que nossa sociedade valoriza o ter em detrimento do ser daí a presença do ser silencioso na canção Freud Flinstone que quase não é percebido por ter se tornado um objeto de consumo.
Ótimo texto!
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