Despotismo Esclarecido na Hora do Mergulho
Hora do Mergulho
(Humberto Gessinger)
Feche a porta, esqueça o barulho
Feche os olhos tome ar: é hora do mergulho
Eu sou moço, seu moço, e o poço não é tão fundo
Super-homem não supera superfície
Nós mortais viemos do fundo
Eu sou velho, meu velho, tão velho quanto o mundo
Eu quero paz:
Uma trégua do lilás-néon-Las Vegas
Profundidade: 20.000 léguas
"Se queres paz, te prepara para a guerra"
"Se não queres nada, descansa em paz"
"Luz" -pediu o poeta
últimas palavras lucidez completa
Depois: silêncio
Esqueça a luz... respire o fundo
Eu sou um déspota esclarecido
Nessa escura e profunda mediocracia
Hora do mergulho é a primeira faixa do disco Simples de Coração dos Engenheiros do Hawaii. Esse é o primeiro disco sem a formação clássica da banda: Humberto Gessinger (baixo ), Augusto Licks (guitarra (que havia deixado a banda ) e Carlos Maltz (bateria ).
Nesta canção Gessinger chama quem ouve para a “hora do mergulho”. Mergulhar aonde? Quem sabe um mergulho interior: cita de passagem o super-homem que não supera a superfície (o além do homem de Nietzsche ). Pede paz, trégua do néon-Las Vegas. Trégua das luzes da mídia, da propaganda que brilha, como que contendo luz própria e anunciando os cassinos do jogo de cartas marcadas do mercado: “ eles” ganham a corrida antes mesmo da largada. O caminho, a direção, é a profundidade de 20 000 léguas (submarinas). Uma referência ao fantástico de Júlio Verne, que no século XIX previa coisas como a viagem do homem à lua (arremessado dentro de um projétil de um imenso canhão).
Gessinger cita uma máxima romana atribuida ao escritor Publio Flávio Vegécio: “se queres paz te prepara para a guerra" (Em latim, Se vis pacem, para bellum. Cabe notar que a expressão original no livro de Vegécio - um Compendio Militar - é "igitur qui desiderat pacem, praeparet bellum", "assim , quem deseja paz que prepare a guerra"). Complementa este lema com uma visão da necessidade de decidir: "se não queres nada descansa em paz”. É preciso sempre querer. Como o poeta Goethe que, segundo a lenda, na hora do morte pedia “Luz, mais luz”. Goethe se inscrevia dentro da tradição romântica, iluminista, que se propunha a espalhar/procurar a luz natural da razão (separando-a das trevas). A morte do poeta traz o silêncio.
A canção se aproxima do desfecho: Gessinger pede para que esqueçamos a luz, a idéia iluminista da razão, da ordenação, do método...respiremos o fundo, de onde provêm os mortais, apontando para uma valorização dos sentimentos. Nesse contexto, o cantor se auto-proclama um déspota esclarecido no meio de uma “escura e profunda mediocracia”. Alguém que tenta manter o poder sobre o seu destino em meio aos que querem ser apenas iguais.
É uma inversão da posição dos déspotas esclarecidos do século XVIII, que, para manterem seu poder centralizado, adotaram medidas liberais/iluministas. Agora, ao contrário, Gessinger para manter o seu poder de decisão individual foge das idéias iluministas (que quer todos iguais). Os do século XVIII eram déspotas, porém esclarecidos, agora o ideal é ser esclarecido (já que não há como fugir da luz néon), porém déspota (tentar lutar por alguma diferença, alguma paz ).
O coro que entoa um "lá-lá-lá" indeciso no começo da música e em seu fim mostra os ecos da mediocracia, da padronização: não é à toa que Gessinguer é fã do Pink Floid...
Escrito por Marcos Carvalho Lopes (marcosclopes@gmail.com)
Nesta canção Gessinger chama quem ouve para a “hora do mergulho”. Mergulhar aonde? Quem sabe um mergulho interior: cita de passagem o super-homem que não supera a superfície (o além do homem de Nietzsche ). Pede paz, trégua do néon-Las Vegas. Trégua das luzes da mídia, da propaganda que brilha, como que contendo luz própria e anunciando os cassinos do jogo de cartas marcadas do mercado: “ eles” ganham a corrida antes mesmo da largada. O caminho, a direção, é a profundidade de 20 000 léguas (submarinas). Uma referência ao fantástico de Júlio Verne, que no século XIX previa coisas como a viagem do homem à lua (arremessado dentro de um projétil de um imenso canhão).
Gessinger cita uma máxima romana atribuida ao escritor Publio Flávio Vegécio: “se queres paz te prepara para a guerra" (Em latim, Se vis pacem, para bellum. Cabe notar que a expressão original no livro de Vegécio - um Compendio Militar - é "igitur qui desiderat pacem, praeparet bellum", "assim , quem deseja paz que prepare a guerra"). Complementa este lema com uma visão da necessidade de decidir: "se não queres nada descansa em paz”. É preciso sempre querer. Como o poeta Goethe que, segundo a lenda, na hora do morte pedia “Luz, mais luz”. Goethe se inscrevia dentro da tradição romântica, iluminista, que se propunha a espalhar/procurar a luz natural da razão (separando-a das trevas). A morte do poeta traz o silêncio.
A canção se aproxima do desfecho: Gessinger pede para que esqueçamos a luz, a idéia iluminista da razão, da ordenação, do método...respiremos o fundo, de onde provêm os mortais, apontando para uma valorização dos sentimentos. Nesse contexto, o cantor se auto-proclama um déspota esclarecido no meio de uma “escura e profunda mediocracia”. Alguém que tenta manter o poder sobre o seu destino em meio aos que querem ser apenas iguais.
É uma inversão da posição dos déspotas esclarecidos do século XVIII, que, para manterem seu poder centralizado, adotaram medidas liberais/iluministas. Agora, ao contrário, Gessinger para manter o seu poder de decisão individual foge das idéias iluministas (que quer todos iguais). Os do século XVIII eram déspotas, porém esclarecidos, agora o ideal é ser esclarecido (já que não há como fugir da luz néon), porém déspota (tentar lutar por alguma diferença, alguma paz ).
O coro que entoa um "lá-lá-lá" indeciso no começo da música e em seu fim mostra os ecos da mediocracia, da padronização: não é à toa que Gessinguer é fã do Pink Floid...
Escrito por Marcos Carvalho Lopes (marcosclopes@gmail.com)
10 comentários:
Muito boa análise cara!. Sou fã do Humberto e dos antigos Engenheiros do Hawaii. Muito bom seu blog! Achei-o escrevendo a letra da música na pesquisa do google. Tenho esse cd, é bom demais. Abraço!!
Obrigado pelos créditos de autoria...
(y)
Parabéns pela ótimo análise literária de uma das mais belas músicas de Gessinger...
Parabéns pela ótima análise literária de uma das mais belas músicas de Gessinger ...
Análise muito interessante. Parabéns ! Somos os De Fé !
Análise muito interessante. Parabéns ! Somos os De Fé !
A sonoridade me lembra Comfortably Numb...
A sonoridade me lembra Comfortably Numb...
Essa análise ficou incrível!!! Penso que nem o Gessinger faria um texto tão profundo como este. Adorei!!! Parabéns!!!
Muito interessante essa análise, acho que nem o Gessinger a faria tão bem... Parabéns!!!
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