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domingo, 3 de março de 2013

Longe demais das Capitais

Um texto de ficção que parte das letras do disco Longe demais das capitais dos Engenheiros do Hawaii. Cada canção desse disco nomeia os capítulo da narrativa, neles a história gera um dalogo com as letras e seu contexto. 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Entrevista para O Popular (10/02/2013) Canção, estética e política: ensaios legionários

Entrevista/Marcos Carvalho Lopes

“A Legião Urbana procurou representar o País”

Autor do livro Canção, Estética e Política – Ensaios Legionários (Ed. Mercado de Letras), o professor Marcos Carvalho Lopes faz uma leitura sob um prisma diferente das canções da Legião Urbana. Na obra, ele salienta os aspectos filosóficos das músicas da banda e suas articulações com o contexto histórico em que produziram. Com mestrado em Filosofia pela UFG e fazendo doutorado na área na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Marcos, que é natural de Jataí, liga Renato Russo a ideias de, entre outros pensadores, Heidegger e Rousseau, sem lhe negar toda o patrimônio musical que recebeu e produziu. Nesta entrevista, Marcos comenta algumas das canções mais emblemáticas do grupo, defende que o rock dos anos 1980 deu continuidade a uma evolução da MPB e discorda da ideia de que os jovens daquela década fossem mais politizados.


Conteúdo completo e sem edição da entrevista para Rogério Borges (de O popular)


Em seu livro, você investiga as questões filosóficas presentes na obra musical do Legião Urbana. Como elas se apresentam e quais são suas principais marcas?

Uma perspectiva filosófica aparece na obra da Legião Urbana de diversos modos e nem sempre como questões específicas ou distintamente filosóficas. Já no sobrenome artístico "Russo" que Renato escolheu para si, haveria uma junção de referências entre os filósofos Bertrand Russel, Jean-Jacques Rousseau, o pintor primitivista francês Henry Rousseau e a expressão "tá russo". Mas esta escolha não é apenas uma citação indireta, já que Renato em seu trabalho inicial pressupõe uma perspectiva utópica que se justificaria por uma natureza humana de tendência positiva (o bom selvagem) que foi corrompida pelo desenvolvimento da técnica. É o ideal de bom selvagem que acena toda vez que a Legião fala em "índios". Esta questão sobre o resgate de uma natureza romântica que foi corrompida se reconfigura de formas diversas formas dentro da obra da Legião, alegoricamente (como em Faroeste Caboclo), ceticamente (como em "Índios") e até mesmo de modo contraditório (em Sereníssima, por exemplo, Utilizam a descrição que Rousseau fazia do homem como "animal sentimental" para, a seguir afirmar: "não estou mais interessado no que sinto, não acredito em nada além do que duvido"). As transformações destas descrições se ligam aquilo que a Legião Urbana herdou da chamada Música Popular Brasileira: o desafio de representar o país e seu sentido. Esta dimensão política não se separava de interrogações existenciais, como por exemplo sobre a forma que cotidianamente escondemos de nós mesmos a finitude, fingimos não reconhecer que somos mortais (o que Heidegger chama de ser-para-a-morte acena em Tempo Perdido). Enfim, há um projeto que se desdobra em canções, discos e num discurso reflexivo que procura se aperfeiçoar na forma de pensar o individuo e o país. 

As pessoas parecem ter a tendência de achar que algo popular, de consumo de massa, é necessariamente algo superficial. O Legião Urbana desmente isso?

Este tipo de juízo é ele mesmo superficial e parece ser uma tentativa de justificar algum tipo de ressentimento. Dentro daquilo que geralmente se qualifica como produtos voltados para o consumo das "massas" há um espectro de obras que podem ser classificadas tanto positivamente como negativamente. O mesmo acontece na chamada cultura erudita: existem coisas boas e coisas ruins. As melhores geralmente ajudam as pessoas a se transformarem, modificando sua autoimagem dê modo a se adaptar e mudar hábitos que se mostram ultrapassados ou prejudiciais. As ruins afirmam "mais do mesmo", não provocam reflexão e reafirmam certos comportamentos padronizados como corretos. É difícil negar a importância de Bob Dylan, dos Beatles, de Caetano Veloso, da Legião Urbana etc. numa onda que vêm se acelerando a partir da década de 60, universalizando a ideia existencialista de autocriação e busca por algo que de modo vago podemos chamar de "autenticidade". 
 
O contexto histórico em que o grupo surgiu, em sua opinião, foi preponderante para o caminho que ele tomou, para os problemas que abordou e para as formas como fez isso?

Sim. Como o melhor daquilo que chamaram de MPB, a Legião Urbana procurou representar o país e traduzir seu tempo em canção. Uma leitura cuidadosa facilmente refuta a ideia de que o rock brasileiro dos anos 80 representou um retrocesso no que Caetano chamava de caminho evolutivo da canção popular no Brasil. Na década de 80,sem os limites da ditadura, o rock dos anos 80 pode radicalizar e desenvolver o anseio de autocriação que já acenava no tropicalismo. Isso significava tomar como relevante e dar mais espaço para o desejo em sentido democrático, ao invez de pressupor uma convergência de todos as canções numa verdade redentora, numa utopia revolucionária contra à Ditadura. Nos anos 80 a redenção e a utopia não tinham mais lugar ou eram uma pálida lembrança. A Legião teve que lidar com um contexto que corresponde a descrição de Cazuza em Ideologia, com heróis autodestrutivos que morreram de overdose, num horizonte político conservador e contrário aos anseios democráticos.
 
Você identifica algumas fases dos discursos do grupo, que foram mudando com o tempo e as transformações sociais que o Brasil vivia nos anos 1980. Quais são elas e que especificidades traziam?

Cada álbum de estúdio da Legião Urbana traz um discurso que tentar representar o país. Cada um traz transformações importantes. Mas de modo geral afirmo que houve um movimento geral da cultura brasileira a partir da chamada Era Collor que teve um significado terrível para a cultura brasileira, na medida em que colocou em xeque os anseios épicos da democracia e como isso a própria possibilidade do cantor se identificar com o país. Num sentido isso trouxe o fim da MPB, aqueles que cantam o país passaram a descrevê-lo como algo exterior e não mais de forma lírica, por isso as canções políticas passaram a flertar ou assumir a forma do rap. Essa grande mudança aparece no álbum V em sua representação surrealista da Era Collor e em o descobrimento do Brasil com o enterro de nossos problemas de dimensão pública (em Perfeição) e a "fuga" para a vida privada. Descrevo diversas mudanças anteriores com mais detalhes no livro, mas prefiro destacar aqui esta mais ampla, que apaga a marca forte de uma Utopia Lírica que acenava desde a década de 60 nas canções de Chico Buarque, Caetano Veloso, Bob Dylan, Beatles etc. 

O jovem dos anos 1980 estava mais disposto a pensar, a refletir, a debater?
Realmente o futuro não é mais como era antigamente. O tempo parece mesmo ter se achatado em um eterno presente. Com certeza o jovem dos anos 80 não tinha os mesmos desafios que assombram a juventude atual, por isso qualquer comparação é problemática e redutora. Nasci em 1980, e, para mim, a figuras caricaturais que encontrei nos livros didáticos na quarta-série (em 1989) mostrando de um lado um urso raivoso com estrela e martelo da URSS ameaçando um Tio Sam também cheio de dentes, já não era algo com muito significado para além de um maniqueísmo de desenho animado (no qual não sabia qual lado seria o "bom"). Todos pensam e "refletem" na medida em que sentem que existem problemas que lhes diz respeito, quando sentem que as coisas tem que mudar porque não estão funcionando adequadamente. Resumindo, não acho que os jovens dos anos 80 eram mais reflexivos.   

A banda Legião Urbana cantou um país em polvorosa, de fracassos econômicos, instabilidades políticas, incertezas sociais tremendas. Em sua avaliação, até onde aquele país mudou?
De modo geral os últimos anos tem sido de um progresso gradual que se traduz efetivamente na diminuição das desigualdades sociais. Um jovem no Brasil provavelmente espera ganhar mais e viver melhor do que seus pais, o que não vale para um jovem europeu (e cada vez menos para um norte-americano ou japonês). A relativa estabilidade econômica e política dá mais espaço para que as pessoas cuidem de seus desejos individuais e esqueçam o bem comum, a coisa pública. A Legião Urbana – como o rock em geral – se filia ao desejo e a busca individual de autenticidade (ainda que tal procura tenha uma dimensão pública). Se algo mudou, espero que seja um anseio cada vez maior de um desenvolvimento republicano, de uma classe média e baixa que ascende a partir de seus próprios méritos e que prosaicamente tenta modificar os costumes clientelistas. Talvez essa descrição seja uma forma de esperança: é que quero ampliar o futuro! 

 Qual a sua canção preferida da Legião Urbana e por quê?

A minha favorita é Metal Contra as Nuvens, talvez porque seja a mais longa. Mas uma explicação mais razoável está no desafio que suas múltiplas vozes trouxe para o meu trabalho: demorei alguns anos tentando entender o Lado A de V, onde esta canção aparece. Melancolia, surrealismo, ideais (adolescentes) de honra, esperança, crítica social... há um bocado disso nesta canção. 

Os roqueiros universitários da Legião foram substituídos pelos sertanejos universitários, tão na moda hoje? Teríamos involuído?

Não acredito que exista parentesco entre estes grupos para além, talvez, da afirmação de que camadas mais humildes da sociedade estão cada vez mais conseguindo frequentar a universidade, no entanto, sem que isso modifique de forma relevante seu discurso e desejo. Nas universidades cada vez mais temos um lugar de instrução e menos de formação. Há dois polos apelativos e vulgares para se fazer canção popular: o amor eterno ou o prazer constante. Parece que o sertanejo mais recente deixou de lado as promessas e ilusões inevitáveis do amor eterno (um discurso que tem em comum com os emos) e passou para o outro polo, celebrando o prazer constante (algo mais próximo do funk carioca). Vejo um progresso de costumes nesta transição entre estes polos, apesar de que a realização de qualquer deles é impossível. A Legião geralmente fugia destes dois extremos, mas isso não é algo que possa se dizer de todo rock feito por aqui. Há coisas boas e ruins, e como diz Caetano, diversas harmonias possíveis sem um juízo final.  

sábado, 17 de novembro de 2012

Na Revista Filosofia Conhecimento Prático (número 39): "Entre o jargão eo refrão"

Na revista Filosofia Conhecimento Prático de número 39 (novembro de 2012) publiquei um pequeno depoimento sobre como o projeto do livro Canção, estética e política: ensaios legionários (Mercado de Letras, 2012) surgiu e se desenvolveu. De certa forma ele foi uma forma de conciliar uma obsessão privada com a necessidade pública e mais concreta vivência de sala de aula. Clique na capa e confira o texto: "Entre o jargão e o refrão"!

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A cumplicidade entre Carlos Drummond de Andrade e Gilberto Mendonça Teles



No Rio de Janeiro os dois migrantes-poetas se encontraram, e é certa a identificação, já que Drummond inventou Itabira e Minas Gerais, como Gilberto Mendonça Teles fez com Bela Vista e Goiás
Drummond de Andrade
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Marcos Carvalho Lopes
Especial para o Jornal Opção
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No livro póstumo “Fa­rewell”, de 1996, Car­los Drummond de Andrade (1902-1987) começa o seu poema “A ilusão do migrante” com os seguintes versos: “Quando vim de minha terra,/ se é que vim da minha terra/ (não estou morto por lá?),/ a correnteza do rio/ me sussurrou vagamente/ que eu havia de quedar/ lá donde me despedia”. No cair da tarde, os morros perdendo a cor “pareciam me dizer/ que não se pode voltar,/ porque tudo é consequência/ de um certo nascer ali”. Se muito do alimento dos versos de Drummond provém do fato de enunciar uma forma de vida mineira, consequência de ser itabirano, fazendeiro do ar, nestes versos publicados postumamente o poeta reconhece que nunca teria saído efetivamente de sua terra natal, estaria por lá enterrado “por baixo das falas mansas,/ [...] por baixo, eu sei, de mim mesmo,/ este vivente enganado, enganoso”.
Em “Quando vim da minha terra” Drummond transfere para o contexto lírico uma imagem que a­pareceu no poema “Ser tão Ca­mões”, de Gilberto Mendonça Te­les, publicado no livro “Sa­ciologia Goiana” (1982). Neste poema épi­co-lírico, o poeta transmutado em erói (sem h) e saci é surpreendido no meio de uma pescaria na planície goiana e arrastado pelas águas do rio que lhe revelam “o mistério mais fundo do sertão”. Este mistério é uma armadilha no mais intimo de seu ser (a máquina do medo), que lhe sentencia como seu destino inelutável as “vastidões e limites” que correspondem a palavra “Goiás”; por mais que tente transcender tais fronteiras, sempre será alvo do ressentimento e das tocais das vozes que se acomodam no refrigério redentor da paisagem do cerrado. O poeta-saci depois de ouvir estas palavras sente sua “pe­(r)na” enrijecendo, é que será por meio das mandingas da escrita sua tentativa vã de desafiar o desígnio das águas: inventando Goiás com seus versos, cantando seus mitos e lendas, fazendo ecoar em sua paisagem a herança, também insuperável, de Homero e Camões.

Ora, é certo que Drummond conhecia e apreciava o poema de Gilberto Mendonça Teles. Os dois eram amigos, uma amizade de cerca de 20 anos. No começo de suas conversas/correspondências está o trabalho “Drummond — A Estilís­tica da Repetição” que Gilberto Mendonça Teles desenvolveu como tese de livre-docência em 1969, sendo publicado em 1972. O espírito antiuniversitário de Drummond reconheceu no trabalho de Gilberto Mendonça Teles, para além de todo o método, uma qualidade que atribuía muito ao fato do autor ser também poeta. Este “algo mais” não pas­sou indiferente a Drummond, que afirmou, com interesse e espanto, ter aprendido muito de seus “segredos” com a obra de Gilberto Mendonça Teles. O que seria o “segredo” revelado neste trabalho crítico? Para além do trabalho metódico de análise estilística, Gilberto Mendonça Teles anuncia nesta obra uma “angustiosa concepção do fe­nômeno literário”: “O poeta sente mais do que pode realmente exprimir. Tem que limitar-se aos elementos da língua. Além disso, vê-se preso as solicitações do vocabulário e dos temas de sua época e deseja im­primir neles a sua marca pessoal e autêntica. E nessa ânsia de originalidade, o poeta se atira contra as fronteiras do idioma, ampliando-as e tornando-as maleáveis as estruturas que as convenções gramaticais haviam ‘fixado’ num ‘plano ideal’, mais estático. Todo grande poeta ‘inventa’ a sua linguagem, como Dante, Ca­mões, Góngora, Byron, Baude­laire, Rimbaud, Mallarmé e Drum­mond”. No caso de Drummond, defende Gilberto Mendonça Teles, que sua marca de expressão poética estaria na forma particular com que utiliza a repetição em seus versos. A repetição nos versos de Drummond se­ri­am um sintoma da ânsia de superação do indizível. Uma angústia mais originária que aquela descrita anos mais tarde por Harold Bloom como angústia da influência, aqui Gilberto Mendonça Teles aponta para uma angústia do silêncio. 

Para demonstrar que Drum­mond possuía consciência ao utilizar a repetição como forma de expressão poética, Gilberto Men­donça Te­les cita um artigo que o poeta mineiro escreveu sobre a obra de Augusto Frederico Sch­midt. Segundo Drum­mond, Sc­midt se vale de elementos banais que p­lo curso de enervante repetição acabam “se impondo ao leitor como indicações primárias de uma profunda e substancial poesia, recriadora de vocábulos, imagens, associações misteriosas e estranhos apelos”. Este elemento que Drum­mond vê na obra de Schmidt, seria, na verdade, marca de sua forma própria de expressão poética. Outro texto que Gilberto Men­donça Teles não cita serviria melhor para fundamentar a importância da repetição na obra de Drummond: a crônica “Autorretrato”, publicada em 1943, mas que só apareceu em livro em 1989. Nele, com ironia profunda, o poeta mineiro avalia a notoriedade e polêmica em torno de seu poema “No meio do caminho”, afirmando que “quem se der o trabalho de examinar-lhe o texto verificará que se trata tão somente da repetição, oito vezes seguidas, dos substantivos ‘meio’, ‘caminho’ e ‘pe­dra’, li­gados por preposições, artigos e um verbo. Não há nisso poema algum, bom ou mau. Há apenas alguns vocábulos, que podem ser encontrados facilmente no ‘Pe­queno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa’, revisto pelo sr. Aurélio Buarque de Holanda”. Esta dica maliciosa que o poeta oferece aos seus críticos e exegetas sublinham a diferença entre a acumulação de palavras em um poema e a abertura para o sentido e possibilidade da poesia. O recurso da repetição, segundo Gil­berto Mendonça Teles, tem por fim “ativar a imaginação”, convidando “o leitor a prolongar em si aquele instante do ato criador em que o esforço da intuição e da inteligência pressiona o material linguístico, amoldando-o ao individualismo da fala, ou do estilo”. Desta for­ma, sem diluir o sentido multiplicando sinônimos, a repetição intensifica a força da expressão lírica ao exigir aber­tura do leitor para desvendar os s­us sentidos.  

Drummond conheceu o trabalho de Gilberto Mendonça Teles antes de sua publicação e, em 1970, numa dedicatória de sua “Obra Completa” para o poeta e crítico goiano fez os seguintes versos: “Repito aqui — repetição/ é meu forte ou meu fraco? — tudo/ que floresce em admiração/ no itabirano peito rudo/ (e em grata amizade também)/ ao professor, melhor, ao poeta/ que de Goiás ao Rio vem,/ palmilhando rota indireta, /mostrar — com um ou com dois eles/ no nome — que ciência e poesia/ em Gilberto Men­donça Teles /são acordes de uma harmonia”. Nestes versos se percebe, além da gratidão de Drummond, certa angústia ante a reificação inevitável que uma obra crítica produz. Estava ele próximo de completar 70 anos, reconhecido e celebrado como o maior poeta do país, por isso mesmo é certo que se questionasse e se debatesse contra a possibilidade de ficar preso no mito e seus versos tornarem-se radiação fóssil, o medo de ser um sobrevivente (como aparece no poema “De­claração de Juízo”).

No livro de 1973, “As Impurezas do Branco”, esta angústia quanto à sobrevivência de sua marca-cega lhe persegue e, no poema — adequadamente denominado — “Confissão” avalia: “É certo que me repito,/ é certo que me refuto/ e que, decidido, hesito/ no entra-e-sai de um minuto. // É certo que irresoluto/ entre o velho e o novo rito/ atiro à cesta o absoluto/ como inútil papelito.// É tão certo que me aperto/ numa tenaz de mosquito/ como é trinta vezes certo/ que me oculto no meu grito.// Certo, certo, certo, certo/ que mais sinto que reflicto/ as fábulas do deserto/ do raciocínio infinito.// É tudo certo e prescrito/ em nebuloso estatuto./ O homem, chamar-lhe mito/ não passa de anacoluto”. 

Drummond sabia como o recurso da redundância pode ter um caráter infantilizador. Com ironia, em uma crônica avaliou o resultado teológico de uma multidão de vozes repetindo o refrão da canção “Jesus Cristo” de Roberto Carlos: “Por mais bem intencionado que esteja ele com relação a nossas ilustres pessoinhas, a natureza e a repetição coral, mundial da notícia, hão de molestá-lo, pois ninguém, nem mesmo Deus, suportaria a vociferação bilionar de eu estou aqui, eu estou aqui, eu estou aqui. Estou aí, e daí? É o caso de o Senhor nos responder. O Senhor decerto nos perdoará, mas conservando de nós uma triste impressão”. Nesse horizonte onde o “Deus Ko­muni­khassão” surge como “chave da vida”, cada vez mais perdemos o sentido de nossa própria existência como seres humanos. Se for para reestabelecer esse “sentido perdido” e redimir esse estado de coisas, Drum­mond pergunta quando Jesus Cristo voltará, e pede “lembre-se de que estou aqui aqui aqui. (E o meu caro Gilberto Men­donça Teles, estudioso da estilísticas da repetição, que me perdoe mais esta)”. 

Como vimos, Gilberto Mendonça Teles não era somente amigo de Drummond. Numa carta o poeta mineiro afirmou de outra forma sua gratidão: “Você tem sido ‘generoso cúmplice’ da minha poesia, analisando-a e valorizando-a como eu jamais poderia esperar”. Esta generosa cumplicidade provavelmente se distancia do modelo agônico de apreciação literária que Harold Bloom propõe para a poesia. Talvez aprender as cumplicidades da amizade seja uma tarefa mais difícil. No Rio de Janeiro os dois mi­grantes-poetas se encontraram, e é certa a identificação, já que Drum­mond inventou Itabira e Minas Gerais, como Gilberto Mendonça Teles fez com Bela Vista e Goiás. 

No atual horizonte nominalista da filosofia, Richard Rorty dá uma direção romântica à compreensão de que “ser que pode ser dito é linguagem”. Para isso, no lugar de qualquer ontologia, reitera a contingencia da linguagem, que em suas mutações transformam nossa forma de vida. O contingente é aquilo que é possível, mas não é necessário, por isso se desvia de qualquer reificação essencialista. A contingência da linguagem se soma a contingência de nossa identidade: não temos essência, somos o que fizermos de nós mesmos. Lidar com a contingência é lidar com aquilo que o sociólogo Zigmunt Bauman, inspirando-se em Rorty, chamou de sociedade líquida, onde os valores, a identidade, a cultura, sofrem com o trauma de ter que lidar com o devir do rio de Heráclito. As correntezas não mais te afirmam uma essência, mas te desafiam a criar o seu próprio. Se a filosofia antiga se ligava ao lema “conheça-te a ti mesmo”, Rorty se alinha com Emerson e Nietzsche sublinhando o anseio de “chegar a ser quem se é”, a necessidade poética de cada pes­soa/nação de construir o próprio destino, inventar para si o que os gregos chamavam de telos. Desta forma, talvez seja inevitável ao poeta cantar o próprio mito, valorizar/procurar a sua marca-cega que anseia que sobreviva ao silêncio como poesia. Drummond, em seu ceticismo, viu a máquina do mundo e rejeitou o mito; já Gilberto Mendonça Teles leu Drummond, compreendeu a máquina do medo e abraçou tudo. Então, Drummond leu Gilberto Mendonça Teles, assim escutou as palavras da correnteza, retirou o épico do lírico e — a seu modo — também traduziu o silêncio do rio. A intimidade com a poesia de um autor é uma forma de amizade, uma forma de se religar ao tipo de sentimento que rompe o silêncio do lugar-comum e nos traz o espanto da palavra com o reconhecimento, a identificação. Por isso é aconselhável cultivar o gosto profundo por mais de um poeta, mas não por demasiados: a amizade exige certa cumplicidade, cultivo e cuidado para fazer a rima de vida e poesia. No mais, todo intelectual moderno é Ha­mlet e sabe que o resto é silêncio.
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Marcos Carvalho Lopes é filósofo, professor na Unirio e doutorando na UFRJ. 


Poemas de Drummond e Teles

Confidência do itabirano
Carlos Drummond de Andrade
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida 
é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa 
o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, 
sem mulheres e sem
horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas diversas que 
ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro 
Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá 
da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!


No curso do dia 
Gilberto Mendonça Teles
Agora que me vou é que me deixo 
ficar perdidamente nesta estrada: 
vou numa roda viva, mas sem eixo, 
numa coisa futura, mas passada. 
Vou e não vou e assim se vai compondo 
o que me está aos poucos dividindo: 
não a zoada azul de um marimbondo, 
mas a certeza de um amor tão lindo. 
Alguma coisa vai ficando, além do 
tempo em que me dou e me reparto: 
ficou meu coração, ficou batendo, 
batendo na penumbra de algum quarto. 
Ficou o que mais quero e vai comigo: 
molharam nalgum curso os seus cabelos 
para compor as novas semifusas 
dos meus silêncios, dos meus atropelos. 
Mas no curso dos dias que há por dentro 
de cada um de nós, na nossa história, 
alguém por certo encontrará o centro 
de tudo que ficou na trajetória. 
E o que ficou, ficou: raiz noturna 
enterrada nas ruas, nos quintais; 
vento varrendo o pó de alguma furna, 
chuvas de pedra, alguns trovões, Goiás.
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Fonte: Jornal Opção: http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/a-cumplicidade-entre-carlos-drummond-de-andrade-e-gilberto-mendonca-teles
 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Entrevista com Antonio Cícero


Entrevista com Antonio Cícero



O filósofo Antonio Cicero e o poeta Wally Salomão trouxeram Richard Rorty ao Brasil em 1994 para o ciclo de conferencias “O relativismo enquanto visão de mundo”, que depois deu origem a um livro de mesmo nome. (CICERO, A. e SALOMÃO, W. (Org.). O relativismo enquanto visão do mundo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1994). Essa foi a primeira visita de Rorty ao país. Cícero afirma que ele era simpaticíssimo e afirma o prazer que teve conversando algumas vezes com o filósofo norte-americano.
Cicero é também o primeiro filósofo que procurei entrevistar nesse projeto. Faço então uma breve apresentação de como esse autor (que além de filósofo é poeta, letrista, ensaísta e inclusive atuou no filme de Caetano Veloso Cinema Falado) me “apareceu”, como contextualização para a entrevista (e também para instigar o leitor a procurar ler mais sobre/de Cícero).

Antonio Cicero é um dos autores que vem a cabeça quando alguém diz que não existe filosofia brasileira. Mas não costumo entrar nessas discussões, porque são infrutíferas e cansativas: o termo “filosofia” é flexível o suficiente para atender a diversas interpretações. O que falta no Brasil é uma cultura do diálogo, de ler e se citar seus pares, de fazer do debate uma prática viva. Como afirma Paulo Margutti, nossa cordialidade acaba deslocando esse enfrentamento para esse mantra da “ausência de filosofia” e o ressentido costume de ignorar como idiossincráticas as tentativas de quebrar essa barreira.
Não precisamos nem devemos tomar debates teóricos como conflitos pessoais: é possível admirar uma pessoa e manter com ela amizade, ainda que dela discordemos em questões filosóficas. O dogmatismo e o autoritarismo são pressupostos que descartam o convívio com diferenças e, com isso, a própria possibilidade criativa. Antonio Cícero, assim como Arthur C. Danto, sublinha sua admiração por Richard Rorty como pessoa, ao mesmo tempo, que dele divergem em termos filosóficos.
Cícero surgiu para mim como filósofo numa apresentação hiperbólica que dele faz Caetano Veloso em seu livro Verdade Tropical, onde qualifica a obra do pensador carioca O mundo desde o fim como “um dos maiores acontecimentos intelectuais do final do milênio no Brasil” (p.448). Caetano queria destacar a contribuição de Cícero e provocar seu leitor para que procurassem verificar por si mesmo a verdade de sua avaliação. Para o ex-estudante de filosofia baiano Cícero é uma inspiração para imaginar o Brasil em sentido utópico. Caetano Veloso fornece uma resenha rápida de O mundo desde o fim: “Trata-se de uma petulante retomada do cogito cartesiano em termos radicais, o que vale por um escândalo no ambiente acadêmico brasileiro, dividido entre comentadores e do marxismo frankfurtiano e comentadores do pós-estruturalismo francês. Se eu lera, em 68, em Tristes Trópicos, de Lévi-Strauss, que "o eu não é simplesmente abjeto - ele também é impossível", e reconheço no esforço para superar o cogito - sobretudo no esforço para fingir-se que se o superou - a motivação básica das pretensões intelectuais e filosóficas do nosso século, não posso deixar de considerar o tamanho da ousadia de Cícero. E o próprio tom do livro - escrito num português excepcionalmente belo e sereno - revela que ele chegou a esse lugar depois de percorrer com sinceridade e inteligência os problemas essenciais que tal posição implica. O livro é uma afirmação radical da modernidade nascida com Descartes - contra todas as investidas antiiluministas que inspiraram grande parte do pensamento contemporâneo - e põe o Brasil na responsabilidade extrema de ser, não o grande exotismo ilegível que se opõe à razão européia, mas o espaço aberto para a transição para (parafraseando Fernando Pessoa sobre Mário de Sá Carneiro) um Ocidente ao ocidente de Ocidente. O que não é, de modo nenhum, a mesma coisa que inibir o Brasil, como querem fazer muitos acadêmicos que se crêem antifolclorizantes, reduzindo-o a um bom comportamento dentro de parâmetros "ocidentais" cristalizados. Com isso, Cícero destrói a falsa opção para o Brasil entre a bizarria estridente e imitação modesta.” (p 448-449).
Caetano Veloso vai se apoiar em Cícero dentre outros autores, para pensar o lugar da canção popular brasileira, como um exemplo da “pletora de alegria” que marcaria o ser profundo do país, algo que Helio Oiticica chamava de uma “vontade construtiva geral”.
Continuo em dívida com a provocação de Caetano, já que ainda não li o ensaio O mundo desde o fim, mas, agora mesmo tenho-o nas mãos, aguardando um momento menos tumultuado pelas obrigações acadêmicas. Hoje com o lançamento de Poesia e Filosofia a dívida se multiplicou, porém,  não é total, já que, procurei ler textos menores de Cícero. Dentre eles considero oportuno lembrar os ensaios “Brasil feito brasa” e “O trânsito no Brasil”.
O primeiro pensa a questão do multiculturalismo de um ponto de vista que seria endossado por Rorty, tomando o impulso de sincretismo cultural como nossa possibilidade genuína de construir uma civilização original, ressaltando que “o Brasil não se realiza – e menos ainda se apresenta como exemplar – senão enquanto radicaliza a afirmação americana da oportunidade universal e da liberdade individual, isto é, da democracia”.
Por outro lado, o ensaio “O trânsito no Brasil” ressalta a dificuldade de construir um senso de comunidade em nosso país, quando nem as leis de transito são respeitadas. A forma irresponsável de agir do brasileiro no trânsito seria um sintoma de sua incapacidade de agir com autonomia, e, assim comportar-se eticamente. Para Cícero se conseguíssemos ao menos instaurar efetivamente o respeito às leis de trânsito, ainda que de modo isolado, teríamos com isso alcançado “um progresso mais real e de maior conseqüência do que qualquer desenvolvimento que pudesse ser representado pelas variações dos índices econômicos”.
Cícero como filósofo mantém uma posição realista e preserva a herança da modernidade. Ao mesmo tempo, é poeta e mantém acesso o “fogo da vida” de que Rorty fala em seu derradeiro texto. Ele inspira Caetano a manter sua postura de mais irracional dos racionalistas e pode inspirar mais gente a pensar a filosofia de forma honesta e clara.
Esta entrevista foi concedida por email em Maio de 2009 e permanecia inédita. Nela fiz perguntas sobre questões que me intrigam hoje: Richard Rorty (tema da minha tese de doutorado e por isso obcessão imperativa), filosofia pop... leia abaixo:


1) Que impacto a obra de Richard Rorty teve em sua reflexão filosófica? Como o Sr. vê a presença de seu trabalho na filosofia brasileira?  

Eu quis trazer o Rorty ao Brasil porque era um dos filósofos vivos mais interessantes e influentes na época, mas escrevevo filosofia por outros caminhos. Não sou pragmatista, como, aliás, você pode verificar no meu blog, na discussão sobre o relativismo (http://antoniocicero.blogspot.com/2007/12/o-relativismo-e-modernidade.html). Mas eu admirava o Rorty e gostava muito dele pessoalmente.

2) Como o Sr. vê a relação da filosofia com o restante da cultura?

Não vejo a filosofia como expressão cultural, mas como manifestação da razão, que, a meu ver, não pertence a cultura nenhuma. Ao contrário: a meu ver, a filosofia funciona como crítica à cultura.

3) O tipo de proposta desenvolvida pelo Pólo de Pensamento contemporâneo (POP - www.polodepensamento.com.br ) parece-me que se distância e se diferencia do tipo de trabalho desenvolvido nas academias. Existe aí mesmo uma diferença? Por que?

Ajudei a conceber o POP, mas não tenho ligação institucional como ele. Ele é, de fato, diferente das academias e não pretende competir com elas, pois oferece apenas cursos extra-curriculares, pontuais e de curta duração para pessoas menos interessadas em carreira ou profissão do que em cultivar o seu otium cum dignitate, como dizia o velho Cicero.

4) No filme O cinema falado o Sr. enuncia uma reflexão sobre e contra a idéia de uma filosofia pop. O que o Sr. pensa sobre esse fenômeno de misturar filosofia com fenômenos culturais de massa?

Não tenho nada contra mistura nenhuma. É possível uma leitura pop da filosofia, mas o que não se pode é reduzir toda filosofia a um fenômeno pop. Não concordo com Deleuze, quando ele diz que “uma boa maneira de ler, hoje em dia, seria tratar um livro da mesma maneira que se escuta um disco, que se vê um filme ou um programa de televisão, da mesma maneira que se acolhe uma canção”. É claro que é possível ler dessa maneira, mas não é uma maneira boa, e sim ruim, empobrecida, de ler filosofia ou poesia. Do mesmo modo, você pode ouvir um quarteto de Beethoven como música de fundo, mas é uma maneira ruim, empobrecida, e não boa, de ouvir tal música.

 5) Em seu (provável) último texto, O fogo da vida, Rorty comenta sua relação com o câncer e a redenção que dentro dos horizontes da finitude encontrava na poesia e lamenta não ter se dedicado mais a apreciar a poesia (o que teria tornado sua vida mais rica).  Como o Sr. como poeta vê a relação entre filosofia e poesia?  Ela teria algum poder de “redenção” (de epifania da contingência) capaz de promover uma cultura secular ocupando o lugar hoje dado para a religião?

O texto de Rorty é muito bonito. Mas não acho que a poesia substitua a religião, pois esta empobrece a vida, e deve ser simplesmente abandonada, e não substituída; já aquela, como diz Rorty, torna a vida mais rica.

  Entrevista Antonio Cicero

sábado, 10 de março de 2012

Convite para Lançamento de Canção, Estética e Política: Ensaios Legionários











  
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sábado, 22 de outubro de 2011

Sobre quadrinhos, filosofia e autobiografia (techo)

Sobre quadrinhos, filosofia e autobiografia 

(trecho de travalho apresentado no Rio Comicon onde apresentei trabalho sobre A misteriosa chama da rainha Loana de Umberto Eco)
Marcos Carvalho Lopes (marcosclopes@gmail.com)

Quando alguém se propõe a fazer um trabalho sobre quadrinhos e filosofia geralmente tem que lidar com o ceticismo daqueles que descartam seu trabalho antes mesmo de ter contato com ele, questionando se o que fazem é realmente “Filosofia” e se seu objeto de trabalho é realmente os “Quadrinhos”.
Este tipo de objeção é comum entre os filósofos e consiste na alegação de que os termos do trabalho não foram definidos com precisão e, por isso, ele é inconsistente. Desta forma a filosofia se esquiva para uma agenda essencialista e dá as costas para a possibilidade de qualquer diálogo diferente do “o que é o que é”, impondo também este mesmo jogo aos que tentam fazer uma “filosofia dos quadrinhos”: é necessário construir uma ontologia dos quadrinhos definindo o que eles são em si mesmos.
Por outro lado, como explica John Lent, quando se pergunta a um autor de comics “Qual a filosofia de sua obra?”, as respostas variam entre os que afirmam “Eu não tenho filosofia” ou “Por que deveria responder a esta questão?” até  os que fornecem uma lista de leituras que possuem mais densidade filosófica do que a totalidade de seu trabalho. Este espectro de avaliações tende a afugentar os essencialistas e as tentativas de defender uma definição da relação entre quadrinhos e filosofia.
Este desconforto é camuflado pelo argumento (platônico) de que os quadrinhos não seriam um objeto com “valor estético intrínseco” que justifique investigações filosóficas. Essa ideia de que as obras de arte deveriam ter um valor estético intrínseco se mantém vinculada a distinção descrita nas críticas kantianas entre os campos cognitivo, moral e estético. Tal dimensão essencialista se mantém junto com a crença de que existe na obra considerada estética um valor não-relacional, algo que se mantém de modo independente dos hábitos e interesses humanos. Assim, a perspectiva kantiana sustenta que poderíamos isolar o valor estético como oposto aos valores políticos, morais e históricos.
Na avaliação de Arthur Danto, em Kant teríamos mais uma tentativa de manter a condenação de Platão aos poetas, que seriam perigosos politicamente por desviarem as pessoas de modo sedutor da realidade em si mesma para a aparência de aparência. Para Danto esta seria uma forma de condenar a arte, vista como não tendo valor cognitivo e, além disso, como sendo perigosa para aqueles que querem viver uma vida justa. Na descrição de Alexander Nehamas o motivo pelo qual Platão condena os poetas (no Livro X da República) seria o mesmo pelo qual hoje se critica a cultura de massa: sua capacidade de fazer com que pessoas imitem formas de agir de modo irrefletido. Os platônicos de nossos dias condenam os quadrinhos, a televisão, a internet, os games etc. partindo da mesma avaliação essencialista.
Por outro lado existem os que tratam da relação entre quadrinhos e filosofia de um modo relacionista, sem, contudo, tratar dos quadrinhos: eles são motivo para a aplicação de teorias prévias, de devires que ficam devendo qualquer sentido, métodos avançados de abordagem quase-científica do sentido do significado da referência semântico-pragmática ou crítica ideológica do mais eminente e apocalíptico sublime pós-moderno. O filósofo norte-americano Richard Rorty sublinhou a falta de sentido prático da Esquerda Cultural que se detém em investigações abstratas que não possuem nenhum foco de transformação social. Diz ele que, por exemplo, a análise dos pressupostos imperialistas do universo Marvel tornou-se um fetiche que gera debates bizantinos sem qualquer efeito prático. 
O mesmo Richard Rorty considerava que romances, documentários, histórias em quadrinhos, biografias etc. podem fazer mais para a educação moral do que tratados filosóficos. O que justifica sua posição é tendência que temos para nos solidarizar com aquelas pessoas com as quais nos identificamos, e, por isso, descrições detalhadas de formas de vida e de motivos pelos quais as pessoas sofrem, podem nos ajudar a ampliar nosso horizonte moral mais do que princípios abstratos. Ora, para Rorty não existe nenhum tipo de propriedade não relacional, nenhum contexto que nos dê a perspectiva de um ‘olho-de-deus’ a partir da qual saberíamos a forma correta de agir em qualquer contexto: todas as descrições correspondem a determinados usos e interesses. Por isso, perguntas essencialistas não lhe interessam: melhor do que perguntar pelo que é é questionar pelo que deveria ser. Esta segunda questão envolve quem a faz e não pede uma despersonalização. Em verdade, apesar da necessidade de justificação pública do jogo de pedir e dar razões da filosofia, Rorty assume as consequências da denúncia nietzschiana de que os sistemas metafísicos não são mais do que autobiografias disfarçadas (acrescentando uma nota khuniana, que afirma que a epistemologia é um tipo de sociologia inconsciente de si mesma). Assim, turva a relação entre crítica e clínica: como ser críticos se não começamos por criticar nossos próprios pressupostos?
Descartando a ideia kantiana de um valor estético intrínseco o que justificaria a escolha de um determinado livro ou filme ou quadrinho como objeto de pesquisa seria a perspectiva de que tal obra possa ter um efeito transformador, que possam inspirar nossa autocriação. Explica Rorty que o “valor dos livros estudados nos departamentos de literatura e filosofia, esta em que eles cumpram a mesma função que torsos arcaicos de Apolo, telas de Vermeer e concertos do Greatful Dead. Ocasionalmente sugerem as pessoas que elas podem mudar suas vidas, e, talvez até sugiram como eles podem fazer isso. Sendo todas estas coisas equivalentes, não devemos nos dedicar ao ensino de livros ao menos que estes tenham mudado nossas vidas, ou a vida da pessoa que conhecemos, ou a vida de um grande número de pessoas no passado, ou, ao menos, temos alguma outra razão para crer que os estudando talvez mudem algo na vida de nossos estudantes”. É questionando esta dimensão autobiográfica que aqui quero pensar a relação entre quadrinhos e filosofia.

Trechos de A misteriosa Chama da Rainha Loana:

“Mas foi justamente em alguns exemplares de Mickey que pude discernir os acontecimentos de 1941, quando em dezembro, Itália e Alemanha declararam guerra aos Estados Unidos (...) Eu achava que, a certa altura, os americanos tivessem se cansado das travessuras de Hitler e tivessem entrado em guerra, mas não, foram Hitler e Mussolini que declararam guerra a eles, pensando talvez que pudessem pô-los fora de combate em poucos meses, com a ajuda dos japoneses. Como era evidentemente difícil mandar um punhado de SS ou de Camisas Negras para ocupar Nova York, começaram alguns anos antes com a guerra aos quadrinhos e desapareceram com os balões, substituídos por legendas sob os desenhos. Depois, como vi em outras revistinhas, havia tempos tinham sumido no nada os personagens americanos, substituídos por imitações italianas e por fim, creio que foi a última e dolorosa barreira a ser superada, Mickey foi assassinado. De uma semana para outra, sem nenhum aviso, a mesma aventura de Mickey continuava como se nada tivesse acontecido, mas o protagonista agora era um tal de Toffolino, humano, não mais animal, sempre com quatro dedos na mão como os animais antropomórficos de Disney, e seus amigos continuavam a se chamar Mimma e Pippo. Como recebi então aquele desmoronamento de um mundo? Talvez com tranquilidade, dado que, de um momento para outro os americanos tornaram-se malvados.

“[Flash] Gordon não, batia-se pela liberdade contra um déspota, talvez na época eu pensasse que Ming era como o terrível Stalin, o ogro vermelho do Kremlim, mas não podia deixar de reconhecer em seus traços também aqueles do Ditador da casa, dotado de indiscutível poder de vida e morte sobre seus fiéis. Logo, creio que tive em Flash Gordon a primneira imagem de um herói – é verdade que só podia dizê-lo agora, relendo, não na época – de uma guerra de libertação combatida em um Alhures Absoluto, fazendo explodirem asteroides fortificados em galáxias distantes. (p.236-237)

Mais lido que todos os outros, a julgar pelo estado periclitante do meu exemplar, o Mickey jornalista: era impensável que o regime deixasse passar uma história sobre a liberdade de imprensa, mas percebe-se que, para os censores de Estado, histórias de animais não poderiam ser realistas e perigosas. (...) Em todo caso, Mickey ergue com escassos recursos o seu Eco do Mundo – o primeiro número sai com horríveis erros de impressão – e continua impávido a publicar all the newa that´s fit to print, mesmo que gangsters sem escrúpulos e políticos corruptos tentem detê-lo por todos os meios. Quem, até então, ousara me falar de uma imprensa livre, capaz de subtrair-se a qualquer censura? (p.242)

Alguns mistérios de minha esquizofrenia infantil começaram a se esclarecer. Lia os livros escolares e os quadrinhos, e provavelmente, era nos quadrinhos que construía, com muito esforço, uma consciência civil. Por isso, com toda certeza, conservei esses cacos de minha memória desmoronada mesmo depois da guerra, quando algumas páginas dos jornais de lá chegaram às minhas mãos (talvez traziadas por tropas americanas), com tirinhas coloridas de domingo apresentando novos heróis, como Li’l Abner ou Dick Tracy. Creio que nossos editores de antes da guerra não ousavam publica-los porque o traço era ultrajosamente modernista e evocava aquela que os nazistas chamavam de arte degenerada.
Já crescido em idade e sabedoria, teria me aproximado de Picasso sob a influência de Dick Tracy? (p.242-243)

Entre outras coisas, como eu já vira em outras histórias em quadrinhos, tanto as mulheres como os homens satânicos (como Ming com Dale Arden) nunca queriam possuir, violentar, aprisionar em seu harém, unir-se carnalmente com o objeto de seu desejo. Queriam sempre casar. (p.252)

Trechos de Cinco escritos morais:

Em 1942, com a idade de dez anos, ganhei o primeiro prêmio nos Ludi Juveniles (um concurso com livre participação obrigatória para jovens fascistas italianos - o que vale dizer para todos os jovens italianos). Tinha trabalhado com virtuosismo retórico sobre o tema: “Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?” Minha resposta foi afirmativa. Eu era um garoto esperto.
Depois, em 1943, descobri o significado da palavra “liberdade”. Contarei esta história no fim de meu discurso. Naquele momento “liberdade” ainda não significava “liberação”.
Passei dois dos meus primeiros anos entre SS, fascistas e resistentes, que disparavam uns nos outros, e aprendi a esquivar-me das balas. Não foi mal como exercício.
Em abril de 1945, a Resistência tomou Milão. Dois dias depois os resistentes chegaram à pequena cidade em que eu vivia. Foi um momento de alegria.
Alguns dias depois vi os primeiros soldados americanos. Eram afroamericanos. O primeiro ianque que encontrei era um negro, Joseph, que me apresentou às maravilhas de Dick Tracy e Ferdinando Buscapé. Seus gibis eram coloridos e tinham um cheiro bom.

Na manhã de 27 de julho de 1943 foi-me dito que, segundo informações lidas na rádio, o fascismo havia caído e Mussolini tinha sido feito prisioneiro. Minha mãe mandou-me comprar o jornal. Fui ao jornaleiro mais próximo e vi que os jornais estavam lá, mas os nomes eram diferentes. Além disso, depois de uma breve olhada nos títulos, percebi que cada jornal dizia coisas diferentes. Comprei um, ao acaso, e li uma mensagem impressa na primeira página, assinada por cinco ou seis partidos políticos como Democracia Cristã, Partido Comunista, Partido Socialista, Partido de Ação, Partido Liberal. Até aquele momento pensei que só existisse um partido em todas as cidades e que na Itália só existisse, portanto, o Partido Nacional Fascista. Eu estava descobrindo que, no meu país, podiam existir diversos partidos ao mesmo tempo. E não só isso: como eu era um garoto esperto, logo me dei conta de que era impossível que tantos partidos tivessem aparecido de um dia para o outro. Entendi assim que eles já existiam como organizações clandestinas.