Entrevista
com Antonio Cícero
O filósofo
Antonio Cicero e o poeta Wally Salomão trouxeram Richard Rorty ao Brasil em
1994 para o ciclo de conferencias “O relativismo enquanto visão de mundo”, que
depois deu origem a um livro de mesmo nome. (CICERO, A. e SALOMÃO, W. (Org.). O
relativismo enquanto visão do mundo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1994).
Essa foi a primeira visita de Rorty ao país. Cícero afirma que ele era
simpaticíssimo e afirma o prazer que teve conversando algumas vezes com o
filósofo norte-americano.
Cicero é
também o primeiro filósofo que procurei entrevistar nesse projeto. Faço então
uma breve apresentação de como esse autor (que além de filósofo é poeta,
letrista, ensaísta e inclusive atuou no filme de Caetano Veloso Cinema Falado) me “apareceu”, como
contextualização para a entrevista (e também para instigar o leitor a procurar
ler mais sobre/de Cícero).
Antonio Cicero
é um dos autores que vem a cabeça quando alguém diz que não existe filosofia
brasileira. Mas não costumo entrar nessas discussões, porque são infrutíferas e
cansativas: o termo “filosofia” é flexível o suficiente para atender a diversas
interpretações. O que falta no Brasil é uma cultura do diálogo, de ler e se
citar seus pares, de fazer do debate uma prática viva. Como afirma Paulo
Margutti, nossa cordialidade acaba deslocando esse enfrentamento para esse
mantra da “ausência de filosofia” e o ressentido costume de ignorar como
idiossincráticas as tentativas de quebrar essa barreira.
Não precisamos nem devemos tomar
debates teóricos como conflitos pessoais: é possível admirar uma pessoa e
manter com ela amizade, ainda que dela discordemos em questões filosóficas. O
dogmatismo e o autoritarismo são pressupostos que descartam o convívio com
diferenças e, com isso, a própria possibilidade criativa. Antonio Cícero, assim
como Arthur C. Danto, sublinha sua admiração por Richard Rorty como pessoa, ao
mesmo tempo, que dele divergem em termos filosóficos.
Cícero surgiu
para mim como filósofo numa apresentação hiperbólica que dele faz Caetano
Veloso em seu livro Verdade Tropical,
onde qualifica a obra do pensador carioca O
mundo desde o fim como “um dos maiores acontecimentos intelectuais do final
do milênio no Brasil” (p.448). Caetano queria destacar a contribuição de Cícero
e provocar seu leitor para que procurassem verificar por si mesmo a verdade de
sua avaliação. Para o ex-estudante de filosofia baiano Cícero é uma inspiração
para imaginar o Brasil em sentido utópico. Caetano Veloso fornece uma resenha
rápida de O mundo desde o fim: “Trata-se
de uma petulante retomada do cogito cartesiano em termos radicais, o que vale
por um escândalo no ambiente acadêmico brasileiro, dividido entre comentadores
e do marxismo frankfurtiano e comentadores do pós-estruturalismo francês. Se eu
lera, em 68, em Tristes Trópicos, de
Lévi-Strauss, que "o eu não é simplesmente abjeto - ele também é
impossível", e reconheço no esforço para superar o cogito - sobretudo no
esforço para fingir-se que se o superou - a motivação básica das pretensões intelectuais
e filosóficas do nosso século, não posso deixar de considerar o tamanho da
ousadia de Cícero. E o próprio tom do livro - escrito num português
excepcionalmente belo e sereno - revela que ele chegou a esse lugar depois de
percorrer com sinceridade e inteligência os problemas essenciais que tal
posição implica. O livro é uma afirmação radical da modernidade nascida com
Descartes - contra todas as investidas antiiluministas que inspiraram grande
parte do pensamento contemporâneo - e põe o Brasil na responsabilidade extrema
de ser, não o grande exotismo ilegível que se opõe à razão européia, mas o
espaço aberto para a transição para (parafraseando Fernando Pessoa sobre Mário
de Sá Carneiro) um Ocidente ao ocidente de Ocidente. O que não é, de modo nenhum,
a mesma coisa que inibir o Brasil, como querem fazer muitos acadêmicos que se
crêem antifolclorizantes, reduzindo-o a um bom comportamento dentro de
parâmetros "ocidentais" cristalizados. Com isso, Cícero destrói a
falsa opção para o Brasil entre a bizarria estridente e imitação modesta.” (p
448-449).
Caetano Veloso
vai se apoiar em Cícero dentre outros autores, para pensar o lugar da canção
popular brasileira, como um exemplo da “pletora de alegria” que marcaria o ser
profundo do país, algo que Helio Oiticica chamava de uma “vontade construtiva
geral”.
Continuo em
dívida com a provocação de Caetano, já que ainda não li o ensaio O mundo desde o fim, mas, agora mesmo
tenho-o nas mãos, aguardando um momento menos tumultuado pelas obrigações
acadêmicas. Hoje com o lançamento de Poesia e Filosofia a dívida se
multiplicou, porém, não é total, já que,
procurei ler textos menores de Cícero. Dentre eles considero oportuno lembrar
os ensaios “Brasil
feito brasa” e “O
trânsito no Brasil”.
O primeiro
pensa a questão do multiculturalismo de um ponto de vista que seria endossado
por Rorty, tomando o impulso de sincretismo cultural como nossa possibilidade
genuína de construir uma civilização original, ressaltando que “o Brasil não se
realiza – e menos ainda se apresenta como exemplar – senão enquanto radicaliza a afirmação americana da
oportunidade universal e da liberdade individual, isto é, da democracia”.
Por outro
lado, o ensaio “O trânsito no Brasil” ressalta a dificuldade de construir um
senso de comunidade em nosso país, quando nem as leis de transito são
respeitadas. A forma irresponsável de agir do brasileiro no trânsito seria um
sintoma de sua incapacidade de agir com autonomia, e, assim comportar-se
eticamente. Para Cícero se conseguíssemos ao menos instaurar efetivamente o
respeito às leis de trânsito, ainda que de modo isolado, teríamos com isso
alcançado “um progresso mais real e de maior conseqüência do que qualquer
desenvolvimento que pudesse ser representado pelas variações dos índices
econômicos”.
Cícero como
filósofo mantém uma posição realista e preserva a herança da modernidade. Ao
mesmo tempo, é poeta e mantém acesso o “fogo da vida” de que Rorty fala em seu
derradeiro texto. Ele inspira Caetano a manter sua postura de mais irracional
dos racionalistas e pode inspirar mais gente a pensar a filosofia de forma
honesta e clara.
Esta
entrevista foi concedida por email em Maio de 2009 e permanecia inédita. Nela
fiz perguntas sobre questões que me intrigam hoje: Richard Rorty (tema da minha
tese de doutorado e por isso obcessão imperativa), filosofia pop... leia
abaixo:
1) Que impacto a obra de Richard Rorty
teve em sua reflexão filosófica? Como o Sr. vê a presença de seu trabalho na
filosofia brasileira?
Eu
quis trazer o Rorty ao Brasil porque era um dos filósofos vivos mais
interessantes e influentes na época, mas escrevevo filosofia por outros
caminhos. Não sou pragmatista, como, aliás, você pode verificar no meu blog, na
discussão sobre o relativismo (http://antoniocicero.blogspot.com/2007/12/o-relativismo-e-modernidade.html).
Mas eu admirava o Rorty e gostava muito dele pessoalmente.
2) Como o Sr. vê a relação da
filosofia com o restante da cultura?
Não
vejo a filosofia como expressão cultural, mas como manifestação da razão, que,
a meu ver, não pertence a cultura nenhuma. Ao contrário: a meu ver, a filosofia
funciona como crítica à cultura.
3) O tipo de proposta desenvolvida
pelo Pólo de Pensamento contemporâneo (POP - www.polodepensamento.com.br ) parece-me que se distância e se
diferencia do tipo de trabalho desenvolvido nas academias. Existe aí mesmo uma
diferença? Por que?
Ajudei
a conceber o POP, mas não tenho ligação institucional como ele. Ele é, de fato,
diferente das academias e não pretende competir com elas, pois oferece apenas
cursos extra-curriculares, pontuais e de curta duração para pessoas menos
interessadas em carreira ou profissão do que em cultivar o seu otium cum dignitate,
como dizia o velho Cicero.
4) No filme O cinema falado o
Sr. enuncia uma reflexão sobre e contra a idéia de uma filosofia pop. O que o
Sr. pensa sobre esse fenômeno de misturar filosofia com fenômenos culturais de
massa?
Não
tenho nada contra mistura nenhuma. É possível uma leitura pop da filosofia, mas
o que não se pode é reduzir toda filosofia a um fenômeno pop. Não concordo
com Deleuze, quando ele diz que “uma boa maneira de ler, hoje em dia, seria
tratar um livro da mesma maneira que se escuta um disco, que se vê um filme ou
um programa de televisão, da mesma maneira que se acolhe uma canção”. É claro
que é possível ler dessa maneira, mas não é uma maneira boa, e sim
ruim, empobrecida, de ler filosofia ou poesia. Do mesmo modo, você
pode ouvir um quarteto de Beethoven como música de fundo, mas é uma maneira
ruim, empobrecida, e não boa, de ouvir tal música.
5) Em seu (provável) último
texto, O
fogo da vida, Rorty comenta sua relação com o câncer e a redenção que
dentro dos horizontes da finitude encontrava na poesia e lamenta não ter se
dedicado mais a apreciar a poesia (o que teria tornado sua vida mais rica).
Como o Sr. como poeta vê a relação entre filosofia e poesia? Ela
teria algum poder de “redenção” (de epifania da contingência) capaz de promover
uma cultura secular ocupando o lugar hoje dado para a religião?
O
texto de Rorty é muito bonito. Mas não acho que a poesia substitua a religião,
pois esta empobrece a vida, e deve ser simplesmente abandonada, e não substituída;
já aquela, como diz Rorty, torna a vida mais rica.
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- "A filosofia e a língua alemã", por Antonio Cicero
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