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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A cumplicidade entre Carlos Drummond de Andrade e Gilberto Mendonça Teles



No Rio de Janeiro os dois migrantes-poetas se encontraram, e é certa a identificação, já que Drummond inventou Itabira e Minas Gerais, como Gilberto Mendonça Teles fez com Bela Vista e Goiás
Drummond de Andrade
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Marcos Carvalho Lopes
Especial para o Jornal Opção
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No livro póstumo “Fa­rewell”, de 1996, Car­los Drummond de Andrade (1902-1987) começa o seu poema “A ilusão do migrante” com os seguintes versos: “Quando vim de minha terra,/ se é que vim da minha terra/ (não estou morto por lá?),/ a correnteza do rio/ me sussurrou vagamente/ que eu havia de quedar/ lá donde me despedia”. No cair da tarde, os morros perdendo a cor “pareciam me dizer/ que não se pode voltar,/ porque tudo é consequência/ de um certo nascer ali”. Se muito do alimento dos versos de Drummond provém do fato de enunciar uma forma de vida mineira, consequência de ser itabirano, fazendeiro do ar, nestes versos publicados postumamente o poeta reconhece que nunca teria saído efetivamente de sua terra natal, estaria por lá enterrado “por baixo das falas mansas,/ [...] por baixo, eu sei, de mim mesmo,/ este vivente enganado, enganoso”.
Em “Quando vim da minha terra” Drummond transfere para o contexto lírico uma imagem que a­pareceu no poema “Ser tão Ca­mões”, de Gilberto Mendonça Te­les, publicado no livro “Sa­ciologia Goiana” (1982). Neste poema épi­co-lírico, o poeta transmutado em erói (sem h) e saci é surpreendido no meio de uma pescaria na planície goiana e arrastado pelas águas do rio que lhe revelam “o mistério mais fundo do sertão”. Este mistério é uma armadilha no mais intimo de seu ser (a máquina do medo), que lhe sentencia como seu destino inelutável as “vastidões e limites” que correspondem a palavra “Goiás”; por mais que tente transcender tais fronteiras, sempre será alvo do ressentimento e das tocais das vozes que se acomodam no refrigério redentor da paisagem do cerrado. O poeta-saci depois de ouvir estas palavras sente sua “pe­(r)na” enrijecendo, é que será por meio das mandingas da escrita sua tentativa vã de desafiar o desígnio das águas: inventando Goiás com seus versos, cantando seus mitos e lendas, fazendo ecoar em sua paisagem a herança, também insuperável, de Homero e Camões.

Ora, é certo que Drummond conhecia e apreciava o poema de Gilberto Mendonça Teles. Os dois eram amigos, uma amizade de cerca de 20 anos. No começo de suas conversas/correspondências está o trabalho “Drummond — A Estilís­tica da Repetição” que Gilberto Mendonça Teles desenvolveu como tese de livre-docência em 1969, sendo publicado em 1972. O espírito antiuniversitário de Drummond reconheceu no trabalho de Gilberto Mendonça Teles, para além de todo o método, uma qualidade que atribuía muito ao fato do autor ser também poeta. Este “algo mais” não pas­sou indiferente a Drummond, que afirmou, com interesse e espanto, ter aprendido muito de seus “segredos” com a obra de Gilberto Mendonça Teles. O que seria o “segredo” revelado neste trabalho crítico? Para além do trabalho metódico de análise estilística, Gilberto Mendonça Teles anuncia nesta obra uma “angustiosa concepção do fe­nômeno literário”: “O poeta sente mais do que pode realmente exprimir. Tem que limitar-se aos elementos da língua. Além disso, vê-se preso as solicitações do vocabulário e dos temas de sua época e deseja im­primir neles a sua marca pessoal e autêntica. E nessa ânsia de originalidade, o poeta se atira contra as fronteiras do idioma, ampliando-as e tornando-as maleáveis as estruturas que as convenções gramaticais haviam ‘fixado’ num ‘plano ideal’, mais estático. Todo grande poeta ‘inventa’ a sua linguagem, como Dante, Ca­mões, Góngora, Byron, Baude­laire, Rimbaud, Mallarmé e Drum­mond”. No caso de Drummond, defende Gilberto Mendonça Teles, que sua marca de expressão poética estaria na forma particular com que utiliza a repetição em seus versos. A repetição nos versos de Drummond se­ri­am um sintoma da ânsia de superação do indizível. Uma angústia mais originária que aquela descrita anos mais tarde por Harold Bloom como angústia da influência, aqui Gilberto Mendonça Teles aponta para uma angústia do silêncio. 

Para demonstrar que Drum­mond possuía consciência ao utilizar a repetição como forma de expressão poética, Gilberto Men­donça Te­les cita um artigo que o poeta mineiro escreveu sobre a obra de Augusto Frederico Sch­midt. Segundo Drum­mond, Sc­midt se vale de elementos banais que p­lo curso de enervante repetição acabam “se impondo ao leitor como indicações primárias de uma profunda e substancial poesia, recriadora de vocábulos, imagens, associações misteriosas e estranhos apelos”. Este elemento que Drum­mond vê na obra de Schmidt, seria, na verdade, marca de sua forma própria de expressão poética. Outro texto que Gilberto Men­donça Teles não cita serviria melhor para fundamentar a importância da repetição na obra de Drummond: a crônica “Autorretrato”, publicada em 1943, mas que só apareceu em livro em 1989. Nele, com ironia profunda, o poeta mineiro avalia a notoriedade e polêmica em torno de seu poema “No meio do caminho”, afirmando que “quem se der o trabalho de examinar-lhe o texto verificará que se trata tão somente da repetição, oito vezes seguidas, dos substantivos ‘meio’, ‘caminho’ e ‘pe­dra’, li­gados por preposições, artigos e um verbo. Não há nisso poema algum, bom ou mau. Há apenas alguns vocábulos, que podem ser encontrados facilmente no ‘Pe­queno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa’, revisto pelo sr. Aurélio Buarque de Holanda”. Esta dica maliciosa que o poeta oferece aos seus críticos e exegetas sublinham a diferença entre a acumulação de palavras em um poema e a abertura para o sentido e possibilidade da poesia. O recurso da repetição, segundo Gil­berto Mendonça Teles, tem por fim “ativar a imaginação”, convidando “o leitor a prolongar em si aquele instante do ato criador em que o esforço da intuição e da inteligência pressiona o material linguístico, amoldando-o ao individualismo da fala, ou do estilo”. Desta for­ma, sem diluir o sentido multiplicando sinônimos, a repetição intensifica a força da expressão lírica ao exigir aber­tura do leitor para desvendar os s­us sentidos.  

Drummond conheceu o trabalho de Gilberto Mendonça Teles antes de sua publicação e, em 1970, numa dedicatória de sua “Obra Completa” para o poeta e crítico goiano fez os seguintes versos: “Repito aqui — repetição/ é meu forte ou meu fraco? — tudo/ que floresce em admiração/ no itabirano peito rudo/ (e em grata amizade também)/ ao professor, melhor, ao poeta/ que de Goiás ao Rio vem,/ palmilhando rota indireta, /mostrar — com um ou com dois eles/ no nome — que ciência e poesia/ em Gilberto Men­donça Teles /são acordes de uma harmonia”. Nestes versos se percebe, além da gratidão de Drummond, certa angústia ante a reificação inevitável que uma obra crítica produz. Estava ele próximo de completar 70 anos, reconhecido e celebrado como o maior poeta do país, por isso mesmo é certo que se questionasse e se debatesse contra a possibilidade de ficar preso no mito e seus versos tornarem-se radiação fóssil, o medo de ser um sobrevivente (como aparece no poema “De­claração de Juízo”).

No livro de 1973, “As Impurezas do Branco”, esta angústia quanto à sobrevivência de sua marca-cega lhe persegue e, no poema — adequadamente denominado — “Confissão” avalia: “É certo que me repito,/ é certo que me refuto/ e que, decidido, hesito/ no entra-e-sai de um minuto. // É certo que irresoluto/ entre o velho e o novo rito/ atiro à cesta o absoluto/ como inútil papelito.// É tão certo que me aperto/ numa tenaz de mosquito/ como é trinta vezes certo/ que me oculto no meu grito.// Certo, certo, certo, certo/ que mais sinto que reflicto/ as fábulas do deserto/ do raciocínio infinito.// É tudo certo e prescrito/ em nebuloso estatuto./ O homem, chamar-lhe mito/ não passa de anacoluto”. 

Drummond sabia como o recurso da redundância pode ter um caráter infantilizador. Com ironia, em uma crônica avaliou o resultado teológico de uma multidão de vozes repetindo o refrão da canção “Jesus Cristo” de Roberto Carlos: “Por mais bem intencionado que esteja ele com relação a nossas ilustres pessoinhas, a natureza e a repetição coral, mundial da notícia, hão de molestá-lo, pois ninguém, nem mesmo Deus, suportaria a vociferação bilionar de eu estou aqui, eu estou aqui, eu estou aqui. Estou aí, e daí? É o caso de o Senhor nos responder. O Senhor decerto nos perdoará, mas conservando de nós uma triste impressão”. Nesse horizonte onde o “Deus Ko­muni­khassão” surge como “chave da vida”, cada vez mais perdemos o sentido de nossa própria existência como seres humanos. Se for para reestabelecer esse “sentido perdido” e redimir esse estado de coisas, Drum­mond pergunta quando Jesus Cristo voltará, e pede “lembre-se de que estou aqui aqui aqui. (E o meu caro Gilberto Men­donça Teles, estudioso da estilísticas da repetição, que me perdoe mais esta)”. 

Como vimos, Gilberto Mendonça Teles não era somente amigo de Drummond. Numa carta o poeta mineiro afirmou de outra forma sua gratidão: “Você tem sido ‘generoso cúmplice’ da minha poesia, analisando-a e valorizando-a como eu jamais poderia esperar”. Esta generosa cumplicidade provavelmente se distancia do modelo agônico de apreciação literária que Harold Bloom propõe para a poesia. Talvez aprender as cumplicidades da amizade seja uma tarefa mais difícil. No Rio de Janeiro os dois mi­grantes-poetas se encontraram, e é certa a identificação, já que Drum­mond inventou Itabira e Minas Gerais, como Gilberto Mendonça Teles fez com Bela Vista e Goiás. 

No atual horizonte nominalista da filosofia, Richard Rorty dá uma direção romântica à compreensão de que “ser que pode ser dito é linguagem”. Para isso, no lugar de qualquer ontologia, reitera a contingencia da linguagem, que em suas mutações transformam nossa forma de vida. O contingente é aquilo que é possível, mas não é necessário, por isso se desvia de qualquer reificação essencialista. A contingência da linguagem se soma a contingência de nossa identidade: não temos essência, somos o que fizermos de nós mesmos. Lidar com a contingência é lidar com aquilo que o sociólogo Zigmunt Bauman, inspirando-se em Rorty, chamou de sociedade líquida, onde os valores, a identidade, a cultura, sofrem com o trauma de ter que lidar com o devir do rio de Heráclito. As correntezas não mais te afirmam uma essência, mas te desafiam a criar o seu próprio. Se a filosofia antiga se ligava ao lema “conheça-te a ti mesmo”, Rorty se alinha com Emerson e Nietzsche sublinhando o anseio de “chegar a ser quem se é”, a necessidade poética de cada pes­soa/nação de construir o próprio destino, inventar para si o que os gregos chamavam de telos. Desta forma, talvez seja inevitável ao poeta cantar o próprio mito, valorizar/procurar a sua marca-cega que anseia que sobreviva ao silêncio como poesia. Drummond, em seu ceticismo, viu a máquina do mundo e rejeitou o mito; já Gilberto Mendonça Teles leu Drummond, compreendeu a máquina do medo e abraçou tudo. Então, Drummond leu Gilberto Mendonça Teles, assim escutou as palavras da correnteza, retirou o épico do lírico e — a seu modo — também traduziu o silêncio do rio. A intimidade com a poesia de um autor é uma forma de amizade, uma forma de se religar ao tipo de sentimento que rompe o silêncio do lugar-comum e nos traz o espanto da palavra com o reconhecimento, a identificação. Por isso é aconselhável cultivar o gosto profundo por mais de um poeta, mas não por demasiados: a amizade exige certa cumplicidade, cultivo e cuidado para fazer a rima de vida e poesia. No mais, todo intelectual moderno é Ha­mlet e sabe que o resto é silêncio.
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Marcos Carvalho Lopes é filósofo, professor na Unirio e doutorando na UFRJ. 


Poemas de Drummond e Teles

Confidência do itabirano
Carlos Drummond de Andrade
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida 
é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa 
o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, 
sem mulheres e sem
horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas diversas que 
ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro 
Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá 
da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!


No curso do dia 
Gilberto Mendonça Teles
Agora que me vou é que me deixo 
ficar perdidamente nesta estrada: 
vou numa roda viva, mas sem eixo, 
numa coisa futura, mas passada. 
Vou e não vou e assim se vai compondo 
o que me está aos poucos dividindo: 
não a zoada azul de um marimbondo, 
mas a certeza de um amor tão lindo. 
Alguma coisa vai ficando, além do 
tempo em que me dou e me reparto: 
ficou meu coração, ficou batendo, 
batendo na penumbra de algum quarto. 
Ficou o que mais quero e vai comigo: 
molharam nalgum curso os seus cabelos 
para compor as novas semifusas 
dos meus silêncios, dos meus atropelos. 
Mas no curso dos dias que há por dentro 
de cada um de nós, na nossa história, 
alguém por certo encontrará o centro 
de tudo que ficou na trajetória. 
E o que ficou, ficou: raiz noturna 
enterrada nas ruas, nos quintais; 
vento varrendo o pó de alguma furna, 
chuvas de pedra, alguns trovões, Goiás.
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Fonte: Jornal Opção: http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/a-cumplicidade-entre-carlos-drummond-de-andrade-e-gilberto-mendonca-teles
 

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