No Rio de Janeiro os dois migrantes-poetas se encontraram, e é certa a
identificação, já que Drummond inventou Itabira e Minas Gerais, como
Gilberto Mendonça Teles fez com Bela Vista e Goiás
Drummond de Andrade
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Marcos Carvalho LopesEspecial para o Jornal Opção
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No livro póstumo “Farewell”, de 1996, Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987) começa o seu poema “A ilusão do migrante” com os seguintes
versos: “Quando vim de minha terra,/ se é que vim da minha terra/ (não
estou morto por lá?),/ a correnteza do rio/ me sussurrou vagamente/ que
eu havia de quedar/ lá donde me despedia”. No cair da tarde, os morros
perdendo a cor “pareciam me dizer/ que não se pode voltar,/ porque tudo é
consequência/ de um certo nascer ali”. Se muito do alimento dos versos
de Drummond provém do fato de enunciar uma forma de vida mineira,
consequência de ser itabirano, fazendeiro do ar, nestes versos
publicados postumamente o poeta reconhece que nunca teria saído
efetivamente de sua terra natal, estaria por lá enterrado “por baixo das
falas mansas,/ [...] por baixo, eu sei, de mim mesmo,/ este vivente
enganado, enganoso”.
Em “Quando vim da minha terra” Drummond transfere para o contexto
lírico uma imagem que apareceu no poema “Ser tão Camões”, de Gilberto
Mendonça Teles, publicado no livro “Saciologia Goiana” (1982). Neste
poema épico-lírico, o poeta transmutado em erói (sem h) e saci é
surpreendido no meio de uma pescaria na planície goiana e arrastado
pelas águas do rio que lhe revelam “o mistério mais fundo do sertão”.
Este mistério é uma armadilha no mais intimo de seu ser (a máquina do
medo), que lhe sentencia como seu destino inelutável as “vastidões e
limites” que correspondem a palavra “Goiás”; por mais que tente
transcender tais fronteiras, sempre será alvo do ressentimento e das
tocais das vozes que se acomodam no refrigério redentor da paisagem do
cerrado. O poeta-saci depois de ouvir estas palavras sente sua
“pe(r)na” enrijecendo, é que será por meio das mandingas da escrita sua
tentativa vã de desafiar o desígnio das águas: inventando Goiás com
seus versos, cantando seus mitos e lendas, fazendo ecoar em sua paisagem
a herança, também insuperável, de Homero e Camões.
Ora, é certo que Drummond conhecia e apreciava o poema de Gilberto Mendonça Teles. Os dois eram amigos, uma amizade de cerca de 20 anos. No começo de suas conversas/correspondências está o trabalho “Drummond — A Estilística da Repetição” que Gilberto Mendonça Teles desenvolveu como tese de livre-docência em 1969, sendo publicado em 1972. O espírito antiuniversitário de Drummond reconheceu no trabalho de Gilberto Mendonça Teles, para além de todo o método, uma qualidade que atribuía muito ao fato do autor ser também poeta. Este “algo mais” não passou indiferente a Drummond, que afirmou, com interesse e espanto, ter aprendido muito de seus “segredos” com a obra de Gilberto Mendonça Teles. O que seria o “segredo” revelado neste trabalho crítico? Para além do trabalho metódico de análise estilística, Gilberto Mendonça Teles anuncia nesta obra uma “angustiosa concepção do fenômeno literário”: “O poeta sente mais do que pode realmente exprimir. Tem que limitar-se aos elementos da língua. Além disso, vê-se preso as solicitações do vocabulário e dos temas de sua época e deseja imprimir neles a sua marca pessoal e autêntica. E nessa ânsia de originalidade, o poeta se atira contra as fronteiras do idioma, ampliando-as e tornando-as maleáveis as estruturas que as convenções gramaticais haviam ‘fixado’ num ‘plano ideal’, mais estático. Todo grande poeta ‘inventa’ a sua linguagem, como Dante, Camões, Góngora, Byron, Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé e Drummond”. No caso de Drummond, defende Gilberto Mendonça Teles, que sua marca de expressão poética estaria na forma particular com que utiliza a repetição em seus versos. A repetição nos versos de Drummond seriam um sintoma da ânsia de superação do indizível. Uma angústia mais originária que aquela descrita anos mais tarde por Harold Bloom como angústia da influência, aqui Gilberto Mendonça Teles aponta para uma angústia do silêncio.
Para demonstrar que Drummond possuía consciência ao utilizar a repetição como forma de expressão poética, Gilberto Mendonça Teles cita um artigo que o poeta mineiro escreveu sobre a obra de Augusto Frederico Schmidt. Segundo Drummond, Scmidt se vale de elementos banais que plo curso de enervante repetição acabam “se impondo ao leitor como indicações primárias de uma profunda e substancial poesia, recriadora de vocábulos, imagens, associações misteriosas e estranhos apelos”. Este elemento que Drummond vê na obra de Schmidt, seria, na verdade, marca de sua forma própria de expressão poética. Outro texto que Gilberto Mendonça Teles não cita serviria melhor para fundamentar a importância da repetição na obra de Drummond: a crônica “Autorretrato”, publicada em 1943, mas que só apareceu em livro em 1989. Nele, com ironia profunda, o poeta mineiro avalia a notoriedade e polêmica em torno de seu poema “No meio do caminho”, afirmando que “quem se der o trabalho de examinar-lhe o texto verificará que se trata tão somente da repetição, oito vezes seguidas, dos substantivos ‘meio’, ‘caminho’ e ‘pedra’, ligados por preposições, artigos e um verbo. Não há nisso poema algum, bom ou mau. Há apenas alguns vocábulos, que podem ser encontrados facilmente no ‘Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa’, revisto pelo sr. Aurélio Buarque de Holanda”. Esta dica maliciosa que o poeta oferece aos seus críticos e exegetas sublinham a diferença entre a acumulação de palavras em um poema e a abertura para o sentido e possibilidade da poesia. O recurso da repetição, segundo Gilberto Mendonça Teles, tem por fim “ativar a imaginação”, convidando “o leitor a prolongar em si aquele instante do ato criador em que o esforço da intuição e da inteligência pressiona o material linguístico, amoldando-o ao individualismo da fala, ou do estilo”. Desta forma, sem diluir o sentido multiplicando sinônimos, a repetição intensifica a força da expressão lírica ao exigir abertura do leitor para desvendar os sus sentidos.
Drummond conheceu o trabalho de Gilberto Mendonça Teles antes de sua publicação e, em 1970, numa dedicatória de sua “Obra Completa” para o poeta e crítico goiano fez os seguintes versos: “Repito aqui — repetição/ é meu forte ou meu fraco? — tudo/ que floresce em admiração/ no itabirano peito rudo/ (e em grata amizade também)/ ao professor, melhor, ao poeta/ que de Goiás ao Rio vem,/ palmilhando rota indireta, /mostrar — com um ou com dois eles/ no nome — que ciência e poesia/ em Gilberto Mendonça Teles /são acordes de uma harmonia”. Nestes versos se percebe, além da gratidão de Drummond, certa angústia ante a reificação inevitável que uma obra crítica produz. Estava ele próximo de completar 70 anos, reconhecido e celebrado como o maior poeta do país, por isso mesmo é certo que se questionasse e se debatesse contra a possibilidade de ficar preso no mito e seus versos tornarem-se radiação fóssil, o medo de ser um sobrevivente (como aparece no poema “Declaração de Juízo”).
No livro de 1973, “As Impurezas do Branco”, esta angústia quanto à sobrevivência de sua marca-cega lhe persegue e, no poema — adequadamente denominado — “Confissão” avalia: “É certo que me repito,/ é certo que me refuto/ e que, decidido, hesito/ no entra-e-sai de um minuto. // É certo que irresoluto/ entre o velho e o novo rito/ atiro à cesta o absoluto/ como inútil papelito.// É tão certo que me aperto/ numa tenaz de mosquito/ como é trinta vezes certo/ que me oculto no meu grito.// Certo, certo, certo, certo/ que mais sinto que reflicto/ as fábulas do deserto/ do raciocínio infinito.// É tudo certo e prescrito/ em nebuloso estatuto./ O homem, chamar-lhe mito/ não passa de anacoluto”.
Drummond sabia como o recurso da redundância pode ter um caráter infantilizador. Com ironia, em uma crônica avaliou o resultado teológico de uma multidão de vozes repetindo o refrão da canção “Jesus Cristo” de Roberto Carlos: “Por mais bem intencionado que esteja ele com relação a nossas ilustres pessoinhas, a natureza e a repetição coral, mundial da notícia, hão de molestá-lo, pois ninguém, nem mesmo Deus, suportaria a vociferação bilionar de eu estou aqui, eu estou aqui, eu estou aqui. Estou aí, e daí? É o caso de o Senhor nos responder. O Senhor decerto nos perdoará, mas conservando de nós uma triste impressão”. Nesse horizonte onde o “Deus Komunikhassão” surge como “chave da vida”, cada vez mais perdemos o sentido de nossa própria existência como seres humanos. Se for para reestabelecer esse “sentido perdido” e redimir esse estado de coisas, Drummond pergunta quando Jesus Cristo voltará, e pede “lembre-se de que estou aqui aqui aqui. (E o meu caro Gilberto Mendonça Teles, estudioso da estilísticas da repetição, que me perdoe mais esta)”.
Como vimos, Gilberto Mendonça Teles não era somente amigo de Drummond. Numa carta o poeta mineiro afirmou de outra forma sua gratidão: “Você tem sido ‘generoso cúmplice’ da minha poesia, analisando-a e valorizando-a como eu jamais poderia esperar”. Esta generosa cumplicidade provavelmente se distancia do modelo agônico de apreciação literária que Harold Bloom propõe para a poesia. Talvez aprender as cumplicidades da amizade seja uma tarefa mais difícil. No Rio de Janeiro os dois migrantes-poetas se encontraram, e é certa a identificação, já que Drummond inventou Itabira e Minas Gerais, como Gilberto Mendonça Teles fez com Bela Vista e Goiás.
No atual horizonte nominalista da filosofia, Richard Rorty dá uma direção romântica à compreensão de que “ser que pode ser dito é linguagem”. Para isso, no lugar de qualquer ontologia, reitera a contingencia da linguagem, que em suas mutações transformam nossa forma de vida. O contingente é aquilo que é possível, mas não é necessário, por isso se desvia de qualquer reificação essencialista. A contingência da linguagem se soma a contingência de nossa identidade: não temos essência, somos o que fizermos de nós mesmos. Lidar com a contingência é lidar com aquilo que o sociólogo Zigmunt Bauman, inspirando-se em Rorty, chamou de sociedade líquida, onde os valores, a identidade, a cultura, sofrem com o trauma de ter que lidar com o devir do rio de Heráclito. As correntezas não mais te afirmam uma essência, mas te desafiam a criar o seu próprio. Se a filosofia antiga se ligava ao lema “conheça-te a ti mesmo”, Rorty se alinha com Emerson e Nietzsche sublinhando o anseio de “chegar a ser quem se é”, a necessidade poética de cada pessoa/nação de construir o próprio destino, inventar para si o que os gregos chamavam de telos. Desta forma, talvez seja inevitável ao poeta cantar o próprio mito, valorizar/procurar a sua marca-cega que anseia que sobreviva ao silêncio como poesia. Drummond, em seu ceticismo, viu a máquina do mundo e rejeitou o mito; já Gilberto Mendonça Teles leu Drummond, compreendeu a máquina do medo e abraçou tudo. Então, Drummond leu Gilberto Mendonça Teles, assim escutou as palavras da correnteza, retirou o épico do lírico e — a seu modo — também traduziu o silêncio do rio. A intimidade com a poesia de um autor é uma forma de amizade, uma forma de se religar ao tipo de sentimento que rompe o silêncio do lugar-comum e nos traz o espanto da palavra com o reconhecimento, a identificação. Por isso é aconselhável cultivar o gosto profundo por mais de um poeta, mas não por demasiados: a amizade exige certa cumplicidade, cultivo e cuidado para fazer a rima de vida e poesia. No mais, todo intelectual moderno é Hamlet e sabe que o resto é silêncio.
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Marcos Carvalho Lopes é filósofo, professor na Unirio e doutorando na UFRJ.
Poemas de Drummond e Teles
Confidência do itabirano
Carlos Drummond de Andrade
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida
é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa
o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas,
sem mulheres e sem
horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas diversas que
ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro
Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá
da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
No curso do dia
Gilberto Mendonça Teles
Agora que me vou é que me deixo
ficar perdidamente nesta estrada:
vou numa roda viva, mas sem eixo,
numa coisa futura, mas passada.
Vou e não vou e assim se vai compondo
o que me está aos poucos dividindo:
não a zoada azul de um marimbondo,
mas a certeza de um amor tão lindo.
Alguma coisa vai ficando, além do
tempo em que me dou e me reparto:
ficou meu coração, ficou batendo,
batendo na penumbra de algum quarto.
Ficou o que mais quero e vai comigo:
molharam nalgum curso os seus cabelos
para compor as novas semifusas
dos meus silêncios, dos meus atropelos.
Mas no curso dos dias que há por dentro
de cada um de nós, na nossa história,
alguém por certo encontrará o centro
de tudo que ficou na trajetória.
E o que ficou, ficou: raiz noturna
enterrada nas ruas, nos quintais;
vento varrendo o pó de alguma furna,
chuvas de pedra, alguns trovões, Goiás.
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Fonte: Jornal Opção:
http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/a-cumplicidade-entre-carlos-drummond-de-andrade-e-gilberto-mendonca-teles
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