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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Cem anos de Camus

camusflyer
Todas as palestras serão no Auditório PPGI (Auditório pequeno do CCET) – Térreo do Prédio do CCET
Av. Pasteur, 458 – Praia Vermelha – Urca
4 de novembro de 2013
17h45 – Apresentação geral do Evento 100 anos de Albert Camus
18h00 -  “De guerra em guerra. A situação filosófica e literária na França entre 1944 e 1962: Camus, Sartre, Céline”.
Baptiste Noël Auguste Grasset (UNIRIO)
Mediadores: Ericka Itokazu e Andréa Bieri
19h15 -  “Albert Camus: A Revolta e a Política contemporânea”
Georgia Amitrano (UFU)
Mediadores:  Baptiste Grasset e Rossano Peccoraro
20h30 – “Albert Camus e o desafio do absurdo”.
Ronaldo Lima Lins (UFRJ)
Mediadores: Georgia Amitrano e Nilton dos Anjos
5 de novembro de 2013
18h00 – “Engenheiros do Hawaii e Albert Camus: um absurdo como outro qualquer”.
Marcos Carvalho Lopes
Mediadores: Baptiste Grasset e Nilton dos Anjos
18h45 -  “Suicídio, Revolta, Poder: ecos camusianos na era bio-digital”.
Rossano Peccoraro (UNIRIO)
Mediadores: Marcos Lopes e Nílton dos Anjos
19h30: Intervalo.
19h45 -  “Entre o absurdo e a revolta, há lugar para a mentira?”
Andrea Bieri (UNIRIO)
Mediadores: Baptiste Grasset e Marcos Lopes
20h45-  “Compreensão mítica: a poética da queda em Camus.”
Franklin Leopoldo e Silva (USP e UFSCAR)
Mediadores: Andréa Bieri e Baptiste Grasset

terça-feira, 2 de julho de 2013

A terra treme no país de desigualdades e paradoxos - Luiz Eduardo Soares



A terra treme no país de desigualdades e paradoxos
Luiz Eduardo Soares
Fonte: http://lareviewofbooks.org/article.php?type=&id=1821&fulltext=1&media=#article-text-cutpoint


A noite de domingo ,30 de junho de 2013, termina em tom épico para os brasileiros: a seleção de futebol conquistou a copa das confederações, vencendo a Espanha por 3 X 0, e a aprovação da presidente da República caiu 27 pontos em duas semanas, de 57% para 30%, tornando imprevisíveis as eleições de 2014. Tudo o que era sólido está se desmanchando no ar: por um lado, a invencibilidade da seleção espanhola e da presidente Dilma Rousseff, e, por outro, o êxito econômico e social do país e a apatia política nacional. A análise do inesperado resultado no futebol está acima de minha competência, mas acredito poder sugerir algumas reflexões sobre o declínio meteórico da popularidade da presidente e de todas as autoridades públicas, descrevendo o que ocorreu nos últimos 15 dias.
A sociedade brasileira está vivendo a maior mobilização de sua história. A primeira convocada por meio de redes sociais virtuais, inteiramente espontânea, isto é, desprovida de lideranças, organização centralizada, vínculos partidários ou mesmo de uma agenda uniforme. A população tem ido às ruas protestar, nos grandes centros urbanos e nas pequenas cidades do interior. E isso acontece, paradoxalmente, no momento em que a opinião pública global contempla com curiosidade este país 85% urbano, de quase 200 milhões de habitantes, que se tornou a sexta economia do mundo, atravessou a crise financeira internacional mantendo indicadores de pleno emprego, crescimento (ainda que modesto), redução de desigualdades e aprovação recorde dos presidentes Lula da Silva (ex-líder sindical) e, até 15 dias atrás, Dilma Rousseff, sua sucessora (ex-presa política, torturada pela ditadura militar nos anos 1960 e 1970), ambos do Partido dos Trabalhadores (PT), uma agremiação de origem esquerdista, hoje social-democrata.

I. Progresso como condição da revolta

A série de eventos surpreendentes começou com o movimento pela redução do preço do transporte público, em São Paulo. Até aí, tudo parecia relativamente rotineiro, sob a crítica da mídia conservadora, ao som de declarações arrogantes do governador direitista e do prefeito esquerdista, que se recusavam a sequer negociar a redução das tarifas. O cenário era típico e os desdobramentos, previsíveis. A conjuntura apontava para o declínio das manifestações, que provavelmente permaneceriam locais. Contudo, no segundo dia de manifestações, a polícia militar paulista deu sua inestimável contribuição à história do país, agindo com brutalidade criminosa, inclusive contra jornalistas. Era o bastante para incendiar a alma dos brasileiros. Em poucos dias os aumentos nas tarifas foram revogados, mas a massa inflamada não recuou.
As primeiras respostas da população jogaram por terra tudo o que se supunha saber sobre a relação do país consigo mesmo: centenas de milhares de pessoas, principalmente (mas não exclusivamente) jovens, de diferentes classes sociais, aderiram a passeatas, em todo o país. No Rio, a maior manifestação, entre tantas que se sucederam, reuniu, segundo a polícia, 300 mil pessoas. Outros, entre os quais me incluo, avaliam que havia ali pelo menos um milhão de pessoas. O mais extraordinário, entretanto, não é propriamente a escala, ainda que seja assombrosa, mas sua rápida difusão por todas as regiões.
O ponto de partida justifica-se: no Rio e em São Paulo, trabalhadores gastam até quatro horas por dia deslocando-se em espaços urbanos entupidos de automóveis, cujo número multiplicou-se em razão do ingresso de 40 milhões de brasileiros na classe média, ao longo da última década. O efeito não-antecipado e contraditório da combinação entre redução das desigualdades e desenvolvimento acelerado –um de cujos focos tendo sido a indústria automobilística-- foi a crise na mobilidade urbana. Além disso, mais consumidores, mais acesso à educação e a valorização cultural da cidadania produziram um contexto novo, na esfera dos sentimentos e da disposição participativa. Ou seja, melhorias combinaram-se para tornar inaceitáveis situações que, em condições anteriores, caso existissem, seriam toleradas, passivamente. Esse aparente paradoxo não é novo: Alexis de Tocqueville, no século XIX, nos ensinou que os grupos sociais mais dispostos a agir e reagir não são os mais pobres e impotentes, mas aqueles que têm o que perder. Isso significa que os avanços sociais das últimas duas décadas (sobretudo da última) no Brasil ampliaram a faixa da população potencialmente disposta a resistir ante o risco de perda. Aqueles que ascenderam não entregarão sem luta suas conquistas.
A que conquistas, exatamente, me refiro?

II. Conquistas recentes da sociedade brasileira

Aplicando-se o índice de Gini para medir a desigualdade de renda, conclui-se que em 2011 o Brasil alcançou o nível mais baixo desde 1960, ano em que pela primeira vez realizou-se o cálculo. Entre 1960 e 1990, a desigualdade cresceu de 0,5367 para 0,6091. Desde então decresceu até 2010, quando atingiu 0,5304 (Neri, Marcelo. A Nova classe média. São Paulo: Saraiva, 2011: 26), e continuou caindo: o índice de 0,527, em 2011 (segundo a PNAD –Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar, do IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), foi o menor da série histórica. Mesmo sendo o patamar mais baixo desde quando aplicamos esse método para identificar a desigualdade, o Brasil continua sendo um dos 12 países mais desiguais do mundo. A boa nova é a afirmação de uma tendência que começa a reverter esse quadro e que se realiza em uma escala considerável.
Na primeira década do século XXI,  a taxa acumulada de crescimento da renda para os 10% mais ricos foi de 10,03%, enquanto para os 50% mais pobres foi de 67,93%. Conforme destaca Ricardo Paes de Barros, os 10% mais pobres obtiveram uma elevação de renda per capita em torno de 7% ao ano, entre 2001 e 2009, só um pouco mais baixa que a celebrada média anual de crescimento da renda per capita na China (Paes de Barros citado por Rafael Cariello em “O liberal contra a miséria” in Revista Piauí, número 74, novembro de 2012: 30).
Paes de Barros avalia que dificilmente algum país terá obtido resultado comparável ao que o Brasil alcançou, em matéria de redução de desigualdade de renda, entre 1999 e 2009, ainda que essas mudanças sejam insuficientes: os 10% mais ricos detinham 47% da renda nacional e passaram a controlar 43%, enquanto os 50% mais pobres, que possuíam 12,65 da renda total, no começo da série histórica, passaram a receber 15% no final do período (idem; ibidem).
O dado mais ostensivo e impactante é o seguinte: em 1993, ano anterior à implantação do Plano Real (bem sucedido no controle da inflação), 23% da população brasileira vivia em situação de pobreza extrema, ou seja, não tinham acesso a renda que lhes proporcionasse consumir o número mínimo de calorias indispensável à sobrevivência saudável. O Plano Real transformou esse cenário devastador em um ano: em 1995 –primeiro ano do primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso-- o percentual da população submetido a essas condições desumanas decrescera para 17%. Em 2003, o contingente populacional em pobreza extrema ainda era o mesmo. Em 2009, caíra para 8,4%. Uma quantidade ainda excessivamente elevada, inaceitável, mas muito menor do que no começo da última década do século XX.
Em 1993, os brasileiros cuja renda domiciliar ficava abaixo de R$ 752,00 (valor de 2011) eram 51 milhões (51.613.412). Em 2001, eram 46 milhões (46. 896.647). Em 2011, passaram a ser 24 milhões (24,684.517). Aqueles cuja renda domiciliar ficava entre R$ 751,00 e R$ 1.200,00, eram, em 1993, 41 milhões (41.255.368). Esse grupo diminuiu para 38 milhões (38.907.544), no ano de 2011. Por outro lado, os brasileiros cuja renda domiciliar se situava entre R$ 1.200,00 e R$ 5.174,00 eram 45 milhões (45.646.118), no ano de 1993. Em 2011, o segmento mais do que dobrou, chegando a 105 milhões (105.468.908).
Registre-se que nesse período de 18 anos a população brasileira cresceu a um ritmo mais lento. O crescimento acelerado verificado nas décadas de 1940 (quando a taxa média foi 2,39) e de 1950 (quando alcançou 2,99), reduziu-se nos anos 1990 (para 1,64) e ainda mais (para 1,17) na primeira década do século XXI. (cf. Elza Berquó. “Evolução demográfica” in Ignacy Sachs, Jorge Wilheim e Paulo Sérgio Pinheiro [org]. Brasil, um século de transformações. SP: Cia das Letras, 2001: 17).
O processo virtuoso de declínio de desigualdades revela melhor sua significação quando se leva em conta a dinâmica demográfica.  São esses dados que conduzirão Marcelo Neri a afirmar que “39,6 milhões de brasileiros ingressaram nas fileiras da chamada nova classe média (classe C) entre 2003 e 2011 (59,8 milhões desde 1993)” (Neri, op.cit: 27).

III. A agenda plural do movimento e o colapso da representação política

A agenda do movimento não é uniforme e cada participante ergue seu pequeno cartaz com uma proposta, uma crítica, uma exigência, em linguagem formal ou bem humorada, seja contra a homofobia ou o autoritarismo tecnocrático dos governos. Entretanto, a despeito da imensa dispersão temática, alguns tópicos são constantes: transportes públicos, mobilidade urbana, corrupção, brutalidade policial, desigualdade no acesso à Justiça, mais recursos para educação e saúde, e menos para a construção de estádios suntuosos para a Copa do Mundo de futebol, em 2014, e para os jogos Olímpicos, que ocorrerão no Rio, em 2016. Portanto, o valor do transporte apenas pôs em circulação uma cadeia metonímica no imaginário individual e coletivo, conectando os mais diferentes problemas nacionais contemporâneos. E cada indivíduo sentiu-se estimulado a incluir, nessa longa narrativa épica, sua própria descrição do que lhe parece ser o drama fundamental e urgente. Registre-se que a legitimidade do governo federal nunca foi seriamente questionada.
O eixo comum, sob a diversidade de  reivindicações, é a proclamação indignada do colapso da representação política. Em poucas palavras, os manifestantes não acreditam em partidos e políticos que renovam seus mandatos no mercado de votos, sem perceber que o mero respeito às regras do jogo não é suficiente para manter a democracia de pé. Há no Brasil o Estado democrático de direito, desde a promulgação da Constituição, em 1988, depois de 21 anos de ditadura militar, seguidos por três anos híbridos. Mas a institucionalidade democrática passou a ser vista pela maior parte da sociedade como um carcaça oca, uma forma sem conteúdo, tomada por agentes políticos inescrupulosos. O endosso formal a parlamentares e governantes pelo voto, em um país onde é obrigatório votar, não garante legitimidade, do ponto de vista da percepção social. A ruína da representação vinha ocorrendo sem que as lideranças dessem mostras de compreender a magnitude do abismo que se abrira --e aprofundava-se, celeremente-- entre a institucionalidade política e o sentimento da maioria. O que farão, agora?
A marca do movimento é a intensidade. Os protestos se realizam na linguagem dos excessos: muita gente, todo dia, todos os temas --e sempre há a minoria exaltada e violenta que depreda prédios públicos. Nesta franja do fenômeno pegam carona alguns profissionais do furto e do roubo, e os que se divertem destruindo sem propósito. Por que a paixão e a intensidade? Ouso uma hipótese: os elos de contiguidade simbólica e política conectam problemas entre si, conforme expliquei, acentuando sua característica permanente: a desigualdade. E o fazem em um contexto normativo e institucional, o Estado democrático de direito, no qual o princípio enunciado e reiterado é a equidade. Por isso, os significados negativos se agravam, acentuando a intensidade emocional em que são apreendidos e comunicados: eles se destacam porque remetem à desigualdade, a qual contrasta fortemente com as expectativas geradas pelo pacto constitucional. Afinal, a conversa sobre cidadania é ou não para valer?
***

IV. As persistentes inquidades históricas

Apesar de tão significativa redução de desigualdades, elas persistem, sob as mais diferentes formas. Assim como persiste a violência e a brutalidade policial letal contra os pobres e os negros.
A ultrajante desigualdade entre negros e brancos vem diminuindo, mas persiste, exibindo o racismo estrutural brasileiro. Entre 1950 e 1980, os brancos viveram 7,5 anos a mais que os pretos e pardos --classificação usada à época (Wood, C.H. & Webster, P.L. Racial inequality and child mortality in Brazil. Mimeo: 1987, APUD Berquó, op.cit.: 27). Em 1980, a expectativa de vida dos negros ainda não passava de 59 anos. Em 1987, a população branca vivia, em média, 72 anos, enquanto os negros viviam 64,5 anos (idem; ibidem). Outro dado escabroso confirma os precedentes: em 1980, a taxa de mortalidade infantil de pretos e pardos era igual à taxa de mortalidade de crianças brancas menores de um ano, em 1960: 105 a cada mil nascidas vivas (Garcia Tamburo, E.M. “Mortalidade infantil da população negra brasileira”. Texto NEPO 11, Campinas, NEPO/UNICAMP, 1987, APUD Berquó, op.cit.). A cor da pele, que nada significa segundo os que crêem no mito da democracia racial brasileira, separava em 20 anos os pretos e pardos dos avanços sociais alcançados pela população branca, avanços que seriam impossíveis sem o trabalho dos não-brancos.
Marcelo Neri oferece dados esclarecedores sobre três fenômenos cujos significados históricos, a meu ver, são profundos. Em primeiro lugar, o efeito demográfico da construção cidadã da identidade social: a parcela da sociedade que se declara negra vem crescendo expressivamente. Comparando-se os dois últimos Censos do IBGE, 2000 e 2010, aumentou em 22,6% a partipação de negros na população brasileira (Neri, op.cit: 226). A meu juízo, o principal motivo é a expansão da consciência política dos afro-descendentes, que cada vez mais assumem com orgulho sua cor e o que ela significa.
O segundo fenômeno estudado por Marcelo Neri são as ostensivas e chocantes desigualdades: “A probabilidade de uma pessoa que se diz branca ser pobre é 49% menor que de um negro e 56% menor que de um pardo. (…) Mesmo quando comparamos pessoas com os mesmos atributos, exceto raça, digamos, analfabeta de meia idade, que mora numa favela de Salvador, a probabilidade de uma branca ser pobre é 29,4% menor do que uma não branca” (op.cit.: 227). Antes de Neri, o Censo de 2010 deixara evidente a cor da desigualdade econômica, indicando que 70% dos brasileiros extremamente pobres são negros.
Posso acrescentar outros dados alarmantes relativos a violência, às instituições de segurança pública e ao sistema de Justiça penal. O “Mapa da Violência”, publicado em 2011[1], revela que, de 2002 a 2008, o número de negros assassinados elevou-se em 20,2%, enquanto diminuiu, em 22,3%, o número de brancos vítimas do mesmo tipo de crime. Não há dúvida de que negros e pobres são as principais vítimas do crime mais grave, o homicídio doloso. Assim como são as principais vítimas da brutalidade policial letal e das abordagens ilegais (Silvia Ramos e Leonarda Musumeci. Elemento suspeito. RJ: Civilização Brasileira, 2005).
Em terceiro lugar, a boa notícia: “Entre 2001 e 2009 o crescimento de renda foi 44,6% dos pretos, 48,2% dos pardos contra 21,6% dos brancos” (Neri, op.cit.: 226). Esse dado combinado ao aumento da participação de negros na população e à importantíssima chegada de negros em grande número à universidade, graças a políticas afirmativas e distributivas, como o Programa Universidade para Todos (Pro-Uni) e as cotas para negros, cria um novo cenário que justifica expectativas positivas relativamente ao futuro da democratização substantiva da sociedade brasileira. De acordo com dados divulgados pelo IPEA, em seu Boletim Políticas Públicas: acompanhamento e análise, número 19, a taxa líquida de matrícula de estudantes na faixa etária entre 18 e 24 anos[2] cresceu mais de cinco vezes de 1992 a 2009. Enquanto em 1992 somente 1,5% dos jovens negros ingressaram na universidade, em 2009, 8,3% lograram cursar o ensino superior. Nesse período, a taxa líquida de matrículas dos jovens brancos saltou de 7,2% para 21,3%, mas o contingente de estudantes negros que não era mais que 20,8% do segmento branco, em 1992, passou a representar 38,9%, em 2009 (cf. www.ipea.gov.br/igualdaderacial).

V. Protagonistas da narrativa global: da invisibilidade à luta por reconhecimento

Outro aspecto decisivo é o acesso à internet: em 2011, 115 milhões e 433 mil brasileiros, com 10 anos de idade ou mais, possuíam telefone celular (eram 56 milhões, 104 mil e 605, em 2005) e 77 milhões 672 mil navegavam na internet. A participação em redes ampliou-se e viabilizou as manifestações, que passou a dispor de mídia própria. Ademais, permitiu aos brasileiros identificar-se e colocar em prática o modelo globalizado de tomada dos espaços públicos como método de democracia direta, ou de ação política não mediada por instituições, partidos e representantes. Evidentemente, o modelo remete à ideia clássica da democracia direta como tipo ideal, sem cumpri-lo inteiramente, uma vez que as mediações nunca deixam de atuar, conectando diferentes procedimentos institucionalizados à energia da massa nas praças. O que conta, neste cenário dramatúrgico, são a memória idealizada e a linguagem comum, como se os eventos se citassem mutuamente, construindo uma constelação virtual de hipertextos. Neste cenário, tornam-se possíveis: incluir-se na narrativa transnacional sobre a nova democracia; o orgulho de quem era invisível para o poder público e sentia-se desrespeitado; a identificação com a persona do heroi cívico; a política vivida em grupo como entretenimento cult antipolítico (ainda que envolva risco de morte); a experiência gregária fraterna (ante um inimigo tão abstrato e fantasmático quanto óbvio e imediato, com o rosto policial e o sentido da tragédia); a vivência que enche o coração de júbilo, exaltando os sentimentos e os elevando a uma escala quase espiritual.
O povo assiste, atualmente, à Copa das Confederações de futebol, em várias cidades brasileiras, competição internacional que antecede em um ano a Copa do mundo. Este esporte é a paixão nacional. Gastos bilionários foram decididos pelos governos sem consulta popular. Os estádios, construídos com verbas governamentais, foram inaugurados e apresentam qualidade admirável. Mas a saúde pública e a educação continuam relegadas pelas políticas públicas. Além disso, os altos preços dos ingressos excluem a grande maioria dos torcedores.  Em síntese, o esporte popular, depois de custos bilionários assumidos autocraticamente pelos governos, expressaram a adoção de prioridades incompatíveis com as necessidades sociais e implicaram o veto à participação popular. Agora, por meio das manifestações, a massa inscreveu-se na grande narrativa nacional, deslocou o campo em que ocorrem os eventos significativos, converteu-se em protagonista central e mudou o jogo.

VI. Efeitos produzidos pela cooptação do PT (o grande partido popular) e dos movimentos sociais

Por que a explosão de protestos nesse momento? O executivo prestigiado, em contexto de dinamismo econômico, pleno emprego e redução de desigualdades, sob a aura carismática do presidente Lula, entre 2003 e 2010, freiou o desgaste do Estado, já avançado em sua face parlamentar. Quando o modelo econômico começa a dar sinais de que está claudicando, a corrosão contamina a legitimidade (a credibilidade) de todas as áreas do Estado.
Se a economia vai razoavelmente bem, apesar dos problemas --como a taxa diminuta de crescimento (espera-se no máximo 2,6% em 2013), o repique inflacionário e deficiências crônicas na infra-estrutura--, porque a desaceleração ainda não afetou o emprego e as políticas sociais compensatórias e distributivas evitam a degradação das condições de vida dos mais vulneráveis, por que rompeu-se o laço Estado e sociedade? A resposta é simples: porque o partido do governo, o PT, antes cercado por uma aura de pureza e sempre disposto a enfrentar o poder, mostrou-se igual aos demais, isto é, cooptável e suscetível à corrupção. Explico, retornando às manifestações.
A maioria dos manifestantes é jovem e estudante. No entanto, é surpreendente e sintomática a ausência da União Nacional dos Estudantes, entidade que participou com destaque de todos os momentos importantes da história política brasileira das últimas décadas. A UNE foi cooptada pelo governo federal desde que o PT chegou ao poder –com dois mandatos de Lula da Silva e um, em curso, de Dilma Rousseff. O novo personagem coletivo, a massa de jovens nas ruas, nasceu sobre os despojos da entidade. Tampouco têm estado presentes tantos outros personagens coletivos de nossa dramaturgia política popular e democrática. Muitos deles trocaram a autonomia pelas benesses do poder, sem perceber que a cooptação esteriliza. O preço dos privilégios é a impotência. Receberam verbas e apoio oficial, mas perderam a confiança das bases e os vínculos com a sociedade civil. Do mesmo modo, o maior partido popular brasileiro perdeu as ruas.
Ao PT que venceu, o país deve muito. Os governos Lula, e mesmo Dilma, ficarão na história como marcos fundamentais na redução das desigualdades. Contudo, quais têm sido suas contribuições para o aprimoramento da democracia e para a mudança das relações entre Estado e sociedade, governos e movimentos sociais?
Pode-se, como têm feito os governantes petistas, ostentar a arrogância tecnocrática e abraçar os adversários, antes hostilizados e acusados de corrupção, porque os fins sempre justificariam os meios? Os apologistas petistas do pragmatismo ilimitado não se deram conta de que os meios são os fins, quando a perspectiva adotada é a confiança da sociedade no Estado, em especial a credibilidade do instituto da representação. Hoje, tantos que acreditaram na dignidade da política vagam sem norte como zumbis da desilusão. E a juventude procura um caminho para chamar de seu. São dez anos de PT no poder: uma geração não o conheceu na oposição e não sabe o que é um grande partido de massas, não cooptado, comprometido com as causas populares e democráticas. Por mais que se façam críticas pertinentes à forma partido, é indiscutível sua importância na transmissão de experiências acumuladas e na formação da militância. Até a linguagem das massas nas ruas tem sua gramática. A espontaneidade é a energia, mas a organização a potencializa e canaliza.
No momento em que emerge o novo protagonismo, com compreensível mas perigosa repulsa por tudo o que de longe soe a partido, deparamo-nos com o vácuo oceânico produzido pelo esvaziamento do PT como agente político independente, esvaziamento por sua vez provocado pela sobreposição entre Estado, governo e partido.

VII. Especulações sobre o futuro e o conflito de interpretações

E o futuro? O movimento omnibus tem diante de si os mais variados cenários, e outros a inventar. Seu destino provavelmente dependerá de sua capacidade de diferenciar a crítica política da crítica à política, e de não confundir a rejeição ao atual sistema político-eleitoral, e partidário, com uma recusa da própria democracia, em qualquer formato. Essas distinções provocarão divisões internas profundas e inconciliáveis, que já estão aflorando. Toda essa magnífica energia fluirá para o ralo do ceticismo, abrindo mais um ciclo de apatia? A indignação encontrará traduções autoritárias e ultra-conservadoras? Múltiplos afluentes seguirão cursos inauditos, nos supreendendo com sua criatividade e mudando o país, no âmbito da democracia? As respostas não dependem só do movimento, mas também dos que não têm participado e das lideranças governamentais e parlamentares.
Ante o fenômeno massivo e inusitado, jornalistas, políticos e intelectuais estão perplexos. Nos primeiros dias, buscaram explicações, mas constataram a insuficiência dos velhos modelos analíticos. Aplicando-os sobre o novo objeto, eles só permitem identificar o que falta ao movimento, aquilo que ele não é: não organizado, sem liderança, sem metas definidas, sem agenda unificada, sem conexões institucionais, sem vínculos políticos, sem plano de ação. O que, entretanto, ele é? Como descrever sua positividade? Esse é o maior desafio.
Nas próximas semanas, é possível que a energia inicial não seja sustentada, as massas se cansem, o movimento se divida em inúmeros segmentos, em torno de muitas demandas distintas. Nesse caso, a disputa se deslocará para o campo das interpretações. O fenômeno terá sido o que dissermos que ele foi. São os intérpretes que se tornarão protagonistas do conflito em torno das atribuições de sentido. Mesmo porque todo esforço de entendimento, toda interpretação é também intervenção, é também ação social e política.
Eu me preparava para enviar este artigo quando a presidente Dilma Rousseff reuniu todos os 27 governadores e os prefeitos das capitais para, ao vivo pela TV, anunciar uma proposta de repactuação nacional, em torno dos grandes temas, suscitados pelas demandas populares: educação pública, mobilidade urbana, controle de gastos públicos e da corrupção, e um plebiscito para a reforma política. Quanto à reforma das polícias e a desmilitarização das polícias militares, nenhuma palavra. De todo modo, um novo capítulo abre-se. O horizonte permanece imprevisível e conturbado. Nada do que eu disse acima foi revogado pela intervenção presidencial. Entretanto, um dado novo incorporou-se à cena: a presidente pretende disputar o protagonismo com as ruas ou, pelo menos, reconectar-se à sociedade, deixando os ônus com o Parlamento e os partidos. Ano que vem ela disputa a reeleição à presidência.
O movimento da presidenta talvez tenha sido tardio. Sua vitória, até duas semanas atrás, parecia assegurada. Hoje, quem fala sobre o futuro com mais certezas do que dúvidas não merece ser ouvido. A prova concreta de que o tsunami político está exercendo um impacto profundo com consequências que ninguém consegue, hoje, antecipar, foi o resultado, já mencionado, das últimas pesquisas sobre avaliação do governo, e a nova distribuição das intenções de voto na eleição presidencial de 2014. Segundo o instituto DataFolha, a presidente teria, hoje, 30% dos votos (tinha 51% há três semanas), contra 23% de Marina Silva, líder dos ambientalistas (que tinha 7%). Outros candidatos também cresceram e entraram no páreo, ainda que em posições inferiores. Poucos duvidam de que uma nova hipótese esteja sendo cogitada pelo PT: “Rousseff desiste de concorrer à reeleição, em 2014, e o ex-presidente Lula da Silva, que já cumpriu dois mandatos e mantém 46% de intenções de voto, volta a concorrer, o que é legalmente possível no Brasil”. Mas não nos iludamos: hipóteses criativas serão concebidas a cada dia, enquanto as ruas ferverem, derretendo certezas e trazendo de volta ao palco da história a liberdade criativa da agência humana coletiva.




[1]  Pesquisa coordenada por Julio Jacobo Waiselfisz, realizada com apoio do Ministério da Justiça.
[2] A taxa líquida de matrícula obtém-se contrastando o número de matriculados com aquele que seria adequado caso se verificasse uma distribuição normal do acesso à universidade entre todos os segmentos da população no grupo de idade pertinent

sexta-feira, 10 de maio de 2013

o "como" de uma filosofia pop

Primeira parte da apresentação de Marcos Carvalho Lopes no filosofia pop 2.0 da UFSC em 26/4.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Filosofia Pop 2 - UFSC 24 a 26 de Abril

Nos dias 24, 25 e 26 de abril, no auditório do CFH/UFSC, ocorrerá o Filosofia Pop II. O encontro tem a intenção de estabelecer uma conexão entre o cotidiano e a formação acadêmica, mas não em defesa de uma filosofia simples e rasa (qual o nome pode sugerir). Como disse recentemente Suassuna, “A universidade brasileira ensina de costas para o Brasil e seu povo”. Desejamos promover um diálogo entre discentes, docentes e interessados, em torno de questões filosóficas e contemporâneas, ampliando o exercício do pensamento através da formação, mídia, tecnologia e cultura popular.

Cada convidado apresentará um tema, que para além de ser o seu proponente, tem também o papel de conduzir o debate. As conversas não se tratam de uma imposição ou busca por uma verdade plena, mas sim por uma erotização dos discursos, gerando movimento, pensamento e um diálogo aberto e rico em suas pontuações e construção.

Entre os convidados, estão os professores Celso Braida, Roberto Wu, Claudia Drucker e Maria de Lourdes, do departamento de Filosofia da UFSC. Também conta com a presença do músico/compositor/escritor Alberto Heller, Marcia Tiburi (Mackenzie/SP) e Marcos Carvalho Lopes (UNIRIO).
O encontro é coordenado pelo prof. Roberto Wu, organizado pelos alunos Mateus Machado, Michelle Belatto e com apoio da SeCult.


PROGRAMAÇÃO

* 24 DE ABRIL
18h30 – Abertura

19h00 – Marcia Tiburi
A filosofia e seus conteúdos desprezados – fundamentos de uma Filosofia Pop


* 25 DE ABRIL
15h00 – Roberto Wu
Lugares de indeterminação na obra musical

16h30 – Alexandre Meyer Luz
Oss – A Filosofia visita o Dojo

18h30 – Claudia Drucker
“Toda mulher gosta de apanhar?” – A ética amorosa de Nelson Rodrigues

19h45 – Maria de Lourdes Borges
Sobre o terrorismo jurídico


* 26 DE ABRIL
15h00 – Celso Braida
A atual constituição de si por meio da retocável imagem da perfeição técnica

16h30 – Alberto Heller
Clássicos e Pops: a quem (ainda) interessa estabelecer fronteiras

18h30 – Marcos Carvalho Lopes
Sobre ‘índios’, dândis e vampiros: Legião Urbana e Engenheiros do Hawaii como Filosofia


AUDITÓRIO DO CFH/UFSC

domingo, 3 de março de 2013

Longe demais das Capitais

Um texto de ficção que parte das letras do disco Longe demais das capitais dos Engenheiros do Hawaii. Cada canção desse disco nomeia os capítulo da narrativa, neles a história gera um dalogo com as letras e seu contexto. 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Entrevista para O Popular (10/02/2013) Canção, estética e política: ensaios legionários

Entrevista/Marcos Carvalho Lopes

“A Legião Urbana procurou representar o País”

Autor do livro Canção, Estética e Política – Ensaios Legionários (Ed. Mercado de Letras), o professor Marcos Carvalho Lopes faz uma leitura sob um prisma diferente das canções da Legião Urbana. Na obra, ele salienta os aspectos filosóficos das músicas da banda e suas articulações com o contexto histórico em que produziram. Com mestrado em Filosofia pela UFG e fazendo doutorado na área na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Marcos, que é natural de Jataí, liga Renato Russo a ideias de, entre outros pensadores, Heidegger e Rousseau, sem lhe negar toda o patrimônio musical que recebeu e produziu. Nesta entrevista, Marcos comenta algumas das canções mais emblemáticas do grupo, defende que o rock dos anos 1980 deu continuidade a uma evolução da MPB e discorda da ideia de que os jovens daquela década fossem mais politizados.


Conteúdo completo e sem edição da entrevista para Rogério Borges (de O popular)


Em seu livro, você investiga as questões filosóficas presentes na obra musical do Legião Urbana. Como elas se apresentam e quais são suas principais marcas?

Uma perspectiva filosófica aparece na obra da Legião Urbana de diversos modos e nem sempre como questões específicas ou distintamente filosóficas. Já no sobrenome artístico "Russo" que Renato escolheu para si, haveria uma junção de referências entre os filósofos Bertrand Russel, Jean-Jacques Rousseau, o pintor primitivista francês Henry Rousseau e a expressão "tá russo". Mas esta escolha não é apenas uma citação indireta, já que Renato em seu trabalho inicial pressupõe uma perspectiva utópica que se justificaria por uma natureza humana de tendência positiva (o bom selvagem) que foi corrompida pelo desenvolvimento da técnica. É o ideal de bom selvagem que acena toda vez que a Legião fala em "índios". Esta questão sobre o resgate de uma natureza romântica que foi corrompida se reconfigura de formas diversas formas dentro da obra da Legião, alegoricamente (como em Faroeste Caboclo), ceticamente (como em "Índios") e até mesmo de modo contraditório (em Sereníssima, por exemplo, Utilizam a descrição que Rousseau fazia do homem como "animal sentimental" para, a seguir afirmar: "não estou mais interessado no que sinto, não acredito em nada além do que duvido"). As transformações destas descrições se ligam aquilo que a Legião Urbana herdou da chamada Música Popular Brasileira: o desafio de representar o país e seu sentido. Esta dimensão política não se separava de interrogações existenciais, como por exemplo sobre a forma que cotidianamente escondemos de nós mesmos a finitude, fingimos não reconhecer que somos mortais (o que Heidegger chama de ser-para-a-morte acena em Tempo Perdido). Enfim, há um projeto que se desdobra em canções, discos e num discurso reflexivo que procura se aperfeiçoar na forma de pensar o individuo e o país. 

As pessoas parecem ter a tendência de achar que algo popular, de consumo de massa, é necessariamente algo superficial. O Legião Urbana desmente isso?

Este tipo de juízo é ele mesmo superficial e parece ser uma tentativa de justificar algum tipo de ressentimento. Dentro daquilo que geralmente se qualifica como produtos voltados para o consumo das "massas" há um espectro de obras que podem ser classificadas tanto positivamente como negativamente. O mesmo acontece na chamada cultura erudita: existem coisas boas e coisas ruins. As melhores geralmente ajudam as pessoas a se transformarem, modificando sua autoimagem dê modo a se adaptar e mudar hábitos que se mostram ultrapassados ou prejudiciais. As ruins afirmam "mais do mesmo", não provocam reflexão e reafirmam certos comportamentos padronizados como corretos. É difícil negar a importância de Bob Dylan, dos Beatles, de Caetano Veloso, da Legião Urbana etc. numa onda que vêm se acelerando a partir da década de 60, universalizando a ideia existencialista de autocriação e busca por algo que de modo vago podemos chamar de "autenticidade". 
 
O contexto histórico em que o grupo surgiu, em sua opinião, foi preponderante para o caminho que ele tomou, para os problemas que abordou e para as formas como fez isso?

Sim. Como o melhor daquilo que chamaram de MPB, a Legião Urbana procurou representar o país e traduzir seu tempo em canção. Uma leitura cuidadosa facilmente refuta a ideia de que o rock brasileiro dos anos 80 representou um retrocesso no que Caetano chamava de caminho evolutivo da canção popular no Brasil. Na década de 80,sem os limites da ditadura, o rock dos anos 80 pode radicalizar e desenvolver o anseio de autocriação que já acenava no tropicalismo. Isso significava tomar como relevante e dar mais espaço para o desejo em sentido democrático, ao invez de pressupor uma convergência de todos as canções numa verdade redentora, numa utopia revolucionária contra à Ditadura. Nos anos 80 a redenção e a utopia não tinham mais lugar ou eram uma pálida lembrança. A Legião teve que lidar com um contexto que corresponde a descrição de Cazuza em Ideologia, com heróis autodestrutivos que morreram de overdose, num horizonte político conservador e contrário aos anseios democráticos.
 
Você identifica algumas fases dos discursos do grupo, que foram mudando com o tempo e as transformações sociais que o Brasil vivia nos anos 1980. Quais são elas e que especificidades traziam?

Cada álbum de estúdio da Legião Urbana traz um discurso que tentar representar o país. Cada um traz transformações importantes. Mas de modo geral afirmo que houve um movimento geral da cultura brasileira a partir da chamada Era Collor que teve um significado terrível para a cultura brasileira, na medida em que colocou em xeque os anseios épicos da democracia e como isso a própria possibilidade do cantor se identificar com o país. Num sentido isso trouxe o fim da MPB, aqueles que cantam o país passaram a descrevê-lo como algo exterior e não mais de forma lírica, por isso as canções políticas passaram a flertar ou assumir a forma do rap. Essa grande mudança aparece no álbum V em sua representação surrealista da Era Collor e em o descobrimento do Brasil com o enterro de nossos problemas de dimensão pública (em Perfeição) e a "fuga" para a vida privada. Descrevo diversas mudanças anteriores com mais detalhes no livro, mas prefiro destacar aqui esta mais ampla, que apaga a marca forte de uma Utopia Lírica que acenava desde a década de 60 nas canções de Chico Buarque, Caetano Veloso, Bob Dylan, Beatles etc. 

O jovem dos anos 1980 estava mais disposto a pensar, a refletir, a debater?
Realmente o futuro não é mais como era antigamente. O tempo parece mesmo ter se achatado em um eterno presente. Com certeza o jovem dos anos 80 não tinha os mesmos desafios que assombram a juventude atual, por isso qualquer comparação é problemática e redutora. Nasci em 1980, e, para mim, a figuras caricaturais que encontrei nos livros didáticos na quarta-série (em 1989) mostrando de um lado um urso raivoso com estrela e martelo da URSS ameaçando um Tio Sam também cheio de dentes, já não era algo com muito significado para além de um maniqueísmo de desenho animado (no qual não sabia qual lado seria o "bom"). Todos pensam e "refletem" na medida em que sentem que existem problemas que lhes diz respeito, quando sentem que as coisas tem que mudar porque não estão funcionando adequadamente. Resumindo, não acho que os jovens dos anos 80 eram mais reflexivos.   

A banda Legião Urbana cantou um país em polvorosa, de fracassos econômicos, instabilidades políticas, incertezas sociais tremendas. Em sua avaliação, até onde aquele país mudou?
De modo geral os últimos anos tem sido de um progresso gradual que se traduz efetivamente na diminuição das desigualdades sociais. Um jovem no Brasil provavelmente espera ganhar mais e viver melhor do que seus pais, o que não vale para um jovem europeu (e cada vez menos para um norte-americano ou japonês). A relativa estabilidade econômica e política dá mais espaço para que as pessoas cuidem de seus desejos individuais e esqueçam o bem comum, a coisa pública. A Legião Urbana – como o rock em geral – se filia ao desejo e a busca individual de autenticidade (ainda que tal procura tenha uma dimensão pública). Se algo mudou, espero que seja um anseio cada vez maior de um desenvolvimento republicano, de uma classe média e baixa que ascende a partir de seus próprios méritos e que prosaicamente tenta modificar os costumes clientelistas. Talvez essa descrição seja uma forma de esperança: é que quero ampliar o futuro! 

 Qual a sua canção preferida da Legião Urbana e por quê?

A minha favorita é Metal Contra as Nuvens, talvez porque seja a mais longa. Mas uma explicação mais razoável está no desafio que suas múltiplas vozes trouxe para o meu trabalho: demorei alguns anos tentando entender o Lado A de V, onde esta canção aparece. Melancolia, surrealismo, ideais (adolescentes) de honra, esperança, crítica social... há um bocado disso nesta canção. 

Os roqueiros universitários da Legião foram substituídos pelos sertanejos universitários, tão na moda hoje? Teríamos involuído?

Não acredito que exista parentesco entre estes grupos para além, talvez, da afirmação de que camadas mais humildes da sociedade estão cada vez mais conseguindo frequentar a universidade, no entanto, sem que isso modifique de forma relevante seu discurso e desejo. Nas universidades cada vez mais temos um lugar de instrução e menos de formação. Há dois polos apelativos e vulgares para se fazer canção popular: o amor eterno ou o prazer constante. Parece que o sertanejo mais recente deixou de lado as promessas e ilusões inevitáveis do amor eterno (um discurso que tem em comum com os emos) e passou para o outro polo, celebrando o prazer constante (algo mais próximo do funk carioca). Vejo um progresso de costumes nesta transição entre estes polos, apesar de que a realização de qualquer deles é impossível. A Legião geralmente fugia destes dois extremos, mas isso não é algo que possa se dizer de todo rock feito por aqui. Há coisas boas e ruins, e como diz Caetano, diversas harmonias possíveis sem um juízo final.  

sábado, 17 de novembro de 2012

Na Revista Filosofia Conhecimento Prático (número 39): "Entre o jargão eo refrão"

Na revista Filosofia Conhecimento Prático de número 39 (novembro de 2012) publiquei um pequeno depoimento sobre como o projeto do livro Canção, estética e política: ensaios legionários (Mercado de Letras, 2012) surgiu e se desenvolveu. De certa forma ele foi uma forma de conciliar uma obsessão privada com a necessidade pública e mais concreta vivência de sala de aula. Clique na capa e confira o texto: "Entre o jargão e o refrão"!