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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Ouvindo Utopias

o filósofo autodidata brasileiro (tcheco naturalizado) multiplicando perspectivas


“Já sem se sentir cansado, Henry se afasta da parede onde estava recostado e caminha para o meio do auditório escuro, na direção da grande máquina de som. Deixa que o som o envolva. Existem esses raros momentos em que, juntos, músicos atingem algo mais doce do que tudo que já obtiveram antes, nos ensaios e nas apresentações, algo além da mera competência técnica e cooperativa, quando a expressão deles se torna tão fácil e elegante quanto a amizade ou o amor. É então que nos proporcionam um relance do que poderíamos ser, do que temos de melhor, e de um mundo impossível em que damos para os outros tudo o que temos, mas sem perdermos nada. No mundo real existem planos minuciosos, projetos visionários de reinos de paz, todos os conflitos resolvidos, felicidade para todos, para sempre – miragens em nome das quais as pessoas estão dispostas a morrer e matar. O reino de Cristo na terra, o paraíso dos trabalhadores, o estado islâmico ideal. Mas só na música, e só em raras ocasiões, a cortina, de fato, se levanta para esse sonho de comunidade, e ele é evocado de forma fascinante, antes de se dissolver junto com as últimas notas”.[1] 
Este trecho do romance Sábado do escritor britânico Ian McEwan fala de uma utopia estética passageira, porém marcante, que só seria possível pela música. A canção seria capaz de nos transmitir uma forma de harmonia e sentimento de identificação que faria com que, por instantes nos sentíssemos congregados em uma comunidade unida por um sentimento fraterno de amor ou de amizade. Aqui a palavra Utopia adquire um sentido não-usual, já que, de Thomas Morus a Karl Marx, esta forma de ideal sempre pede a anulação do "eu" em favor de um "nós" que se espera construir. A teoria utópica fundamentaria essa nova realidade. O tipo de utopia que o trecho de McEwan parece propor não tem letras maiúsculas, não pede este apagamento do "eu", mas seu prolongamento, numa perspectiva que poderíamos chamar de lírica (seguindo Emil Staiger e o trabalho de Renato Janine Ribeiro sobre Chico Buarque de Hollanda) ou liberal (tomando por referência Richard Rorty). Assim, teríamos não uma Utopia fechada em uma Teoria que deveria ser realizada, mas sim, uma forma de esperança, uma fé que pode servir de inspiração, mas não trás todas soluções e respostas definidas. Uma experiência como a descrita no trecho citado, faz crer que a cooperação que os músicos conseguiram para realizar sua arte poderia ser prolongada para a sociedade.
McEwan sabe que as pessoas geralmente não vão concordar sobre quando e onde esse tipo de experiência aconteceria: para alguns na música, outros na dança ou no esporte, outros a partir da literatura etc. Há ainda os que não acreditam talvez nem acreditem que tais momentos de utopia lírica sejam  realmente factíveis.  Para que se conceba a possibilidade do evento descrito por McEwan é preciso aceitar que a música proporcionaria uma espécie de de experiência religiosa. Porque, se real é aquilo no qual acreditamos, o “senso de realidade” não deixa de ser, como ensinou Vilém Flusser, sinônimo de “religiosidade”.[2] A palavra religião significa algo que nos religa a realidade, que nos faz retomar o sentido do mundo, a canção seria um forte instrumento para promover esse tipo de sensação. Mas, o que hoje formula nosso “senso de realidade”? Durante muito tempo nosso "senso de realidade" foi moldado por livros sagrados, que para sua divulgação por meio das religiões, utilizavam (e utilizam) a arte como forma de apresentar sua descrição da realidade como o Real. A crença em livros sagrados nos oferecia um fundamento da Realidade. Hoje  tal descrição não se sustenta, já que com o desenvolvimento técnico-científico a crença de que alguma obra poderia conter dentro de si todas as respostas perdeu força (ou teve seu sentido deslocado). Cotidianamente não são mais estes livros que formulam o que aceitamos como factível. Nosso senso de realidade é alimentado tanto pelo desencantamento promovido pela ciência, quanto por imagens na televisão, no cinema, na internet, em canções, em jogos de videogame, na literatura de auto-ajuda etc. De tal forma que as crenças são cada vez mais contingentes e menos "sagradas"., sem a aura de algo imaculado que justificaria nossa existência com uma resposta definida. Alguns vêem nesse contexto a formação de uma impossível sociedade de ciclopes, que com o empobrecimento da percepção cotidiana de Realidade, se conduzem cada vez mais através de perspectiva egoistas e tacanha, sem o vinculo, o compromisso com o que é comum. Os laços de amor e amizade não são tomados como parte efetiva da vida social a não ser como miragens. 
Para Flusser “somos seres em transição e em busca do futuro”, na medida em que “com nosso intelecto ainda somos modernos, mas com nossa religiosidade já participamos de uma época vindoura”[3]. O anúncio de Flusser de uma época vindoura, tráz uma utopia teórica que pode parecer irrelevante para muitas pessoas que acham esse “papo de filosofia” mais “conversa fiada”. Estes preconceitos de principio não devem ser empecilho para que aprendamos a dar de ombros para as diferenças e promover formas de convivência em que possamos respeitar e aceitar as escolhas e crenças de outras pessoas. O trecho descrito por McEwan justifica uma utopia fraca, que nada mais sustenta do que a inspiração para pensar neste projeto como algo comum. Vale a comparação entre a religiosidade, musicalidade e filosofia: existem pessoas mais e menos aptas para buscar o sagrado, existem pessoas com maior ou menos aptidão para tocar um instrumento ou apreciar sons, assim como, pessoas que tomam questões filosóficas como fundamentais e outras que as acham irrelevantes. Por isso, independentemente de onde encontremos os momentos poéticos de nossa vida, algumas pequenas coisas podem aumentar nossa fé nessa possibilidade de utopia de convivência hospitaleira para com as diferenças. Nestes momentos, que são sempre um desafio para a linguagem, aceitamos que conviver é caminho para crescermos, para nos tornarmos melhores e mais sensíveis para com a dor de outros. Então preferências musicais, religiosas, filosóficas etc., são irrelevantes porque o sentimento de simpatia faz com que leiamos com amor a presença do outro, como quando namorados seguram as mãos e com este gesto, com um olhar, sabem se entender e inventam caminhos e prazer em viver juntos.

P.S: A Carmélia leu a primeira versão do meu texto e teve o carinho de mostrar como estava confuso, fez sugestões e inspirou a tentativa de reescrever e tentar ser menos leviano. Obrigado pelo cuidado de inventar sentido para meus mal entendidos!



[1] McEwan, Ian. Sábado. Trad. Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p.208.
[2] FLUSSER, Vilém. Da religiosidade: a literatura e o senso de realidade. São Paulo: Escrituras, 2002. p.13
[3] Idem. p.21.

Escrever como exercício espiritual

Faz um tempo que não tomo escrever como um hábito. Este silêncio pode pender entre dois extremos: a ausência de palavras de quem não percebe/desvenda sentido, quem deixa de sustentar qualquer significação e a mesma incapacidade de quem esta de tal modo atrelado aos seus prórpios agoras que não consegue elaborar uma fala, se intimida ante a própria contingência. O silêncio não deixa de ser uma forma de abrir as portas para o misticismo, uma maneira de adornar uma aura de sagrado. Não é a toa que o poder da palavra se liga ao poder do sagrado em suas origens (na antiguidade ou nas tatuagens). Fazer filosofia é encenar uma das máscaras de Sócrates, é inventar para este uma vida e um sentido para sua narrativa: este, como afirma Harold Bloom, por não ter escrito será sempre o único e verdadeiro filósofo (assim como Cristo é o único e verdadeiro cristão). Pensadores como Nietzsche perceberam que com sua escrita escreviam sua biografia, transformavam sua vida e se inventavam como outros. Escrever e ler a si mesmo como outro. A possibilidade de cultivar um silêncio diferente. Exercício espiritual.
Não, não é sempre assim que acontece. Lista de itens para lavanderia, catalogos de objetos catalogáveis, identificação de cada coisa em seu lugar, etiquetar o mundo também pode ser uma forma de exercitar o absurdo. Mas exercícios espirituais pedem uma trilha diferente, uma coisa que talvez exista na oração, ou numa canção que canta um ritual (como Gilberto Gil em Se o eu quiser falar com Deus)...




Richard Rorty distingue romancistas que servem para exercícios espirituais e outros que confirmam nossas perspectivas e ampliam nosso horizonte de identificação moral com outros. Estes últimos ampliam o solo sobre nossos pés, aumentando o alcance da palavra nós, os primeiros nos retiram o chão, provocam terremotos e geram dúvida sobre nossos sentimentos e forma de nós descrever. No primeiro grupo coloca Henry James e Marcel Proust; no segundo autores como Charles Dickens. Proust e James serviriam como exercícios espirituais para redenção do egotismo, uma forma de conforto distinta da que se teria na promessa universal e eterna de Religião e Filosofia, uma redenção que afirma a contingência e ensina a finitude.
O silêncio de Sócrates tem algo de sagrado quando o percebemos conectado a uma missão religiosa que ganha voz em seu daimon. Talvez esse seja o segredo para que possa dar a sua voz uma dimensão dupla, pessoal e mística, particular, mas de alguma forma vinculada e buscando (a promessa d)o universal. O silêncio e o furor agônico de sua dialética se harmonizam, causando espanto nos que "enfrenta" e "seduz", provocando o silêncio denso de quem se confronta com suas certezas em contradição. Silêncio como si denso (que não se define). Eudaimonia, que é como diziam a felicidade plena, a realização de uma vida, é ter um bom daimon, algo externo e reconhecível publicamente. A vida de Sócrates seria de eudaimonia, Platão, Nietzsche e Proust tiveram que escrever, inventar a sua. 
Todos que tentaram seguir este modo de vida teórico enfrentaram esta mesma tensão e desafio da voz, que em sua entonação particular pretende-se universal. Nesta sagração da palavra, numa busca de iluminar todos os aspectos o silêncio é uma solução mística dos que cultivam a profundidade, a matemática seria o gancho celeste dos que querem a elevação. Matematizar o silêncio seria a epifania do niilismo. Razão= virtude = felicidade. O que hoje corresponderia aos termos dessa igualdade? Em tempos de razão comunicativa quais seriam os post(e)s que iluminariam essa highway do lugar comum? A sede do diálogo, do re-conhecimento parece mesmo ser a droga da escrita, que pode ampliar, dissolver o seu poder como exercício. Nietzsche poderia dar marteladas no twitter?
O deus da canção é o mesmo da literatura e causa sem oferecer uma razão, um salto sem a certeza do que há no outro lado. Existirmos a que será que se destina...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Márcia Tiburi no Café Filosófico- Radiohead e Flusser: a lírica do homem-máquina

Parte 1

parte 2

parte 3

parte 4

parte 5

parte 6

Fake Plastic Trees


Her green plastic watering can
For her fake Chinese rubber plant
In the fake plastic earth
That she bought from a rubber man
In a town full of rubber plans
To get rid of itself


It wears her out, it wears her out
It wears her out, it wears her out


She lives with a broken man
A cracked polystyrene man
Who just crumbles and burns
He used to do surgery
For girls in the eighties
But gravity always wins


It wears him out, it wears him out
It wears him out, it wears him out


She looks like the real thing
She tastes like the real thing
My fake plastic love
But I can't help the feeling
I could blow through the ceiling
If I just turn and run


It wears me out, it wears me out
It wears me out, it wears me out


If I could be who you wanted
If I could be who you wanted all the time


All the time...

Falsas Árvores de Plástico
  
O seu regador verde de plástico
Para a sua falsa planta artificial
Na terra artificial de plástico
Que ela comprou a um homem de borracha
Numa cidade cheia de planos de borracha
Para se livrar de si mesma


Isso a desgasta, isso a desgasta
Isso a desgasta, isso a desgasta


Ela mora com um homem quebrado
Um homem de polistireno lascado
Que apenas se destrói e se queima
Ele costumava fazer cirurgias
Para garotas nos anos 80
Mas a gravidade sempre vence


Isso o desgasta, isso o desgasta
Isso o desgasta, isso o desgasta


Ela parece a real coisa
Ela tem o gosto real
Meu amor artificial de plástico
Mas não posso evitar o sentimento
Eu poderia explodir através do teto
Se eu simplesmente me virar e correr


Isso me desgasta, isso me desgasta
Isso me desgasta, isso me desgasta


Se eu pudesse ser quem você deseja
Se eu pudesse ser quem você deseja o tempo todo


O tempo todo...

parte 7

parte 8



Fitter Happier

Fitter, happier, more productive,
comfortable,
not drinking too much,
regular exercise at the gym
(3 days a week),
getting on better with your associate employee contemporaries,
at ease,
eating well
(no more microwave dinners and saturated fats),
a patient better driver,
a safer car
(baby smiling in back seat),
sleeping well
(no bad dreams),
no paranoia,
careful to all animals
(never washing spiders down the plughole),
keep in contact with old friends
(enjoy a drink now and then),
will frequently check credit at (moral) bank (hole in the wall),
favors for favors,
fond but not in love,
charity standing orders,
on Sundays ring road supermarket
(no killing moths or putting boiling water on the ants),
car wash
(also on Sundays),
no longer afraid of the dark or midday shadows
nothing so ridiculously teenage and desperate,
nothing so childish - at a better pace,
slower and more calculated,
no chance of escape,
now self-employed,
concerned (but powerless),
an empowered and informed member of society
(pragmatism not idealism),
will not cry in public,
less chance of illness,
tires that grip in the wet
(shot of baby strapped in back seat),
a good memory,
still cries at a good film,
still kisses with saliva,
no longer empty and frantic like a cat tied to a stick,
that's driven into frozen winter shit
(the ability to laugh at weakness),
calm,
fitter,
healthier and more productive
a pig in a cage on antibiotics.

Em Forma Mais Feliz

Em forma, mais feliz, mais produtivo,
confortável,
sem beber demais,
exercícios regulares na academia
(3 vezes por semana)
se relacionando melhor com seus sócios e empregados,
à vontade,
comendo bem
(nada de comidas de microondas e gorduras saturadas),
um motorista mais paciente e melhor,
um carro mais seguro
(um bebê sorrindo no banco de trás),
dormindo melhor
(sem pesadelos),
sem paranoia,
cuidadoso com todos os animais
(nunca lavando aranhas nos buracos das tomadas),
mantendo contato com velhos amigos
(desfrutar de uma bebida de vez em quando),
Frequentemente checar o crédito no banco (moral)(um buraco na parede),
favores por favores,
apaixonado, mas não amando,
ordens permanentes de caridade,
aos domingos super-mercados "anéis viários"
(não matar traças ou colocar água fervente em formigas),
lavar o carro
(também aos domingos),
já sem medo do escuro ou das sombras do meio-dia
nada tão ridiculamente adolescente e deseperado,
nada tão infantil - em um ritmo melhor,
mais devagar e calculado,
sem chance de escapar,
agora empregado de si mesmo,
em causa (mas impotente),
um membro da sociedade informado e habilitado
(pragmatismo, não idealismo),
não vai chorar em público,
menos chances de doenças,
pneus que aderem no molhado
(foto do bebê com cinto de segurança no banco traseiro),
uma boa memória,
ainda chora em um filme bom,
ainda beija com saliva,
não mais vazio e frenético como um gato amarrado a um pedaço de pau,
que é levado à merda do inverno congelado
(a capacidade de rir de fraqueza),
calmo,
em forma,
saudável e mais produtivo
um porco em uma gaiola de antibióticos.



parte 9

parte 10

parte 11

parte 12

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

sábado, 17 de julho de 2010

Programa Logofonia (PET filosofia - UFMG)

O programa LOGOFONIA feito na UFMG em pareceria com o PET de Filosofia. Posto aqui a lista dos programas que temos na net diponiveis. 
P.S: computador em manutencao... teclado sem til e qualquer agudo ou circunflexo ou... etc. por isso nao escrevi(o) mais hoje.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Encontro do GT de Pragmatismo e Filosofia Norte-americana

 Desde sua fundação, o GT-Pragmatismo e Filosofia Americana da ANPOF, o mais antigo da instituição, sempre procurou manter um encontro independente anual, fora da reunião da ANPOF. Este ano de 2010 o Encontro terá como temática O Corpo, e será na UFRJ no dia 23 de julho. Para maiores detalhes basta entrar em contato com a filósofa Susana de Castro, coordenadora do GT: decastrosusana@terra.com.br . Para fomentar o debate inicial, Sérgio Oliveira fez um texto com o título Corpo, filosofia e arte. Dando continuidade à conversação, o professor Paulo Ghiraldelli Jr. respondeu com o texto  Platão sem amor platônico.    O dialogo continua no encontro, venha participar! Assim que meu texto estiver pronto o postarei aqui. O titulo de minha contribuicao Rorty fazendo rafting (e o gol de Ronaldinho): sobre um possivel sublime do corpo. (meu teclado esta com problemas, desculpe).

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Decálogo para pensar a cultura atual (Alejandro Rozitchner)

Alejandro Rozitchner e seus três ateuzinhos


Há alguns anos fiz um post no antigo blog filosofia pop no Overmundo divulgando o trabalho do filósofo argentino Alejandro Rozitchner. Me interesso pelo trabalho deste autor por sua radicalidade em tentar trilhar caminhos inusitados e propor diálogo constante. Uma pena que não consegui ter acesso a livros como Conciencia rockera. La experiencia del mundo ou 
Escuchá qué tema. La filosofía del rock nacional, em que análisa a partir de uma perspectiva filosófica diversas letras do rock argentino. É uma inspiração e algo que me intessa... Por enquanto, por essas bandas, temos traduzid0 apenas um livro de Rozitchner escrito juntamente com Ximena Ianantuoni sobre como criar filhos ateus (Filhos sem deus: ensinando as crianças um estilo ateu de viver, Martins Fontes, 2008), causando (alguma) polêmica com declarações como está, feita numa entrevista para a revista Época:


ÉPOCA – Vocês já pensaram o que vão dizer a seus filhos quando eles perguntarem pela primeira vez sobre Deus?

Rozitchner - Vou explicar que Deus é só uma idéia criada pelos homens como uma necessidade de explicar o mundo. E que, por isso, não deixa de ser um personagem, tal como o Buzz Lightyear ou o Woody do Toy Story(...)

Leia a reportagem inteira de uma página gospel e o(s) (primeiro!) comentário(s) clicando aqui.


Traduzi um post bem provocativo do blog de Rozitchner chamado Decálogo para pensar a cultura atual. É este que podem ler abaixo:



Decálogo para pensar a cultura atual Alejandro Rozitchner


Não me lembro para qual evento escrevi este decálogo justiceiro e provocativo, porém o encontrei a pouco e me pareceu valioso. Aqui vai:

Interpretar os índices de leitura como uma decepção e traçar outra vez um quadro de catástrofe é repetir um costume cultural argentino e estéril: saborear o abismo. Esta atitude é mais a causa de nossa pobreza cultural que um fator de avanço. Como compreender a cultura para aumentar sua vitalidade? Sugiro estas idéias para discussão:

1. A cultura é o que há de mais valioso em uma sociedade: o que coroa sua existência, o que lhe permite formular suas estratégias de crescimento, o refinamento de sua visão do mundo, a elaboração da felicidade de seus membros.

2. A pobreza material é criada pela pobreza cultural: nossa produção de miséria é nosso fracasso na criação de uma cultura vital. Em vez de nos atarmos a uma visão tradicional da cultura se faz necessário reformula-la para reverter à situação.

3. Cultura é criatividade, não respeito. Atrevimento e ousadia, não repetição e rigor (mortis). Cultura não é venerar sempre aos mesmos. Mais que venerar é respirar e querer, viver a própria vida com autenticidade e vigor.

4. Internet é cultura: se lê menos, se escreve mais, de outra forma, os índices para compreender a cultura de 50 anos atrás não podem aplicar-se hoje. Existe um mundo novo.

5. O pensamento crítico inibe a produção de cultura: temos idolatrado a objeção, a distância objetiva, a suspeita e a interpretação cínica. Isto gera a queda; não nós salva, nos oprime.

6. Cultura é pensamento: ver as coisas de novo, não aferrar-se as mesmas idéias de sempre para salvar-se do mundo, mas sim, buscar idéias novas para querê-lo e produzi-lo.

7. Cultura é mercado. Produtos, consumo, inversão, ambição, ganância, desejo de mais feito arte. Lutar com a sociedade de consumo é ignorância, visão estreita, debilidade mental.

8. Cultura é arte de viver. O que os espanhóis demonstram o prazer de estar ocioso e ser, de quere-se e enfrentar os conflitos. Não distanciar-se das coisas e sentir-se superior, ser, pelo contrario, capaz de querê-las mais.

9. Cultura é crescimento político. Reformas - se reformas são necessárias -, oposição inteligente e não somente partido hegemônico. Aceitação dos limites do mundo político e trabalho para defender e melhorar as instituições humanas.

10. Atualizar os valores é fortalecer a cultura. Dar-se conta de que os valores não morrem, mas sim, que se transformam, aprender a ver que existem valores novos que são superiores a muitos dos valores perdidos. Devemos nos colocar a altura das circunstâncias.