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sábado, 7 de maio de 2011

O que é aquilo – filosofia pop!

O que é aquilo – filosofia pop!
Marcos Carvalho Lopes
(doutorando em filosofia na UFRJ – bolsista da CAPES)
marcosclopes@gmail.com

(Primeira parte da comunicação que apresentei na XII semana dos alunos de pós-graduação em filosofia da PUC-RJ na quinta-feira passada 05/05) 


Na capa de Mais além da caixa de brillo, livro do filósofo norte-americano Arthur Danto, o pintor Russell Connor substitui o cadáver da Lição de Anatomia de Rembrandt pela Caixa de Brillo de Andy Warhol (veja aqui o texto de Danto O filósofo como Andy Warhol). Para Danto é como se os circunspetos alunos do doutor Tulp no século XVII fossem desafiados a entender aquele objeto artístico do século XX. Tarefa impossível, já que aquele objeto não cabia no conceito que tinham de arte. Coerentemente a caixa ocupa o lugar de um corpo morto. Será que só podemos fazer anatomia “teórica” de corpos que já não possuem vida?  Será que, pelo contrário, devemos nos aprisionar na exegese de filósofos mortos ao invés de buscar entender o que esta vivo e nos causa espanto?

Estas interrogações são o mote para introduzir o objeto da minha comunicação: a filosofia pop como descrita por Charles Feitosa. O texto principal em que o Charles trata deste tema diretamente é o artigo “O que é isto – Filosofia Pop?”, publicado em 2001. Desde então ele tem desenvolvido e aplicado sua filosofia pop em diversas situações (artigos, entrevistas e, principalmente, no livro Explicando Filosofia com Arte); de tal modo que, sua concepção atual é provavelmente seja daquela que esboçou em seu “artigo-manifesto”.
Neste período também o número de publicações filosóficas que tem apelo popular se multiplicou. Um exemplo é a pioneira série americana da Open Court sobre Cultura Popular e Filosofia, que na época do artigo de Feitosa tinha apenas 2 títulos e hoje já tem mais de 60 (sendo alguns deles traduzidos para o português) e  a concorrência de diversas outras coleções que trabalham com a mesma articulação entre cultura pop e a Filosofia. Ainda que a Academia se mantenha distante de fomentar esse tipo de diálogo a demanda (de editoras, da televisão, da Internet etc.) faz com que diversos nomes de reconhecida competência procurem desenvolver esta articulação.  
No artigo de 2001 Feitosa faz uma distinção (operacional) entre o que é urgente e o que é essencial. Urgentes seriam as demandas que pedem da filosofia participação no debate público, mas de tal forma, que sua fala se tornaria domesticada, inócua, atendendo a perspectivas prévias. Quando nos detemos somente ao que é urgente, não haveria espaço para o questionamento do que chama de essencial, “questões acerca das múltiplas relações de diferenças, singularidades e identidades que permeiam implicitamente todo o campo de questões ditas urgentes” (2001). Como hoje se diz da política, que fica presa a administrar questões urgentes sem que seja possível ou aja espaço para governar.  Não haveria espaço para questionar pressupostos e a forma mesmo de discurso que sustenta o “urgente”.
Utilizando os termos de Feitosa, podemos dizer que a interrogação sobre a filosofia pop hoje aparece como urgente. Contudo, é preciso tomar cuidado para que estes termos (urgente e essencial) não nos levem a uma perspectiva essencialista, como um novo dualismo; acredito que não há por parte do autor a postulação de nenhuma propriedade não-relacional. Ainda assim, cabe por em questão e reavaliar até que ponto a seguinte descrição feita por Feitosa pode ser interessante: 

“Se pop for o urgente, então a filosofia pop não é filosofia, mas sim jornalismo, propaganda. Numa expressão de Nietzsche, um pensamento que é “escravo do atual, do moderno, do instante”. A filosofia pop cumpre o que sua época exige: busca atender as tarefas que a sociedade lhe impõe. Mas ao contrário do que às vezes se espera na mídia e na sociedade, o pensar não tem que conduzir a nenhum saber técnico como o das ciências, não tem necessariamente que trazer nenhuma sabedoria de vida utilizável, nem que solucionar nenhum mistério do mundo. A filosofia propriamente dita não tem compromisso com o atual, mas sim com o inatual. Na verdade, a filosofia tem um quê de anti-moda, de extemporâneo, de não-pop” (2001). 
Ora, se a filosofia pop é um modo de ver e interpretar nosso contexto, a maneira com que lidamos com as coisas ditas urgentes pode ser a diferença essencial. Se diante de perguntas novas utilizamos respostas antigas, “eternas e imutáveis”, condenamos o discurso filosófico a uma constante reafirmação do platonismo e sua separação entre a Filosofia e o restante da cultura. Acredito que a filosofia deve perder o medo de ser útil, mantendo sua perspectiva utópica, preocupando-se menos em definir o que somos, do que em fomentar o que queremos ser, procurando equilibrar inteligência e emoção.
Feitosa em outras formulações chama a sua filosofia pop de “filosofia híbrida”, “pensamento finito” ou “racionalidade afetiva”. Neste sentido “sincrético” quero propor mais um enxerto e diálogo (direto) com a (menosprezada) tradição americana de pensamento. Sendo a pop art uma eminente criação da cultura norte-americana, quando a filosofia questiona ou se aproxima do que é “pop” inevitavelmente lida com esta tradição.
 O título “O que é isto – filosofia pop?” ecoa o nome de uma famosa conferência de Martin Heidegger “O que é isto – a Filosofia?”. Sabemos que este pensador alemão em seu romantismo nostálgico rejeitaria qualquer referência ao “pop” caracterizando-a como mais um momento de domínio da técnica sobre o pensamento, marca de uma era em que a criatividade humana cede lugar ao empreedimento comercial. O mesmo Heidegger afirmava que "a interpretação americana do americanismo, por via do pragmatismo, permanece ainda fora do domínio da metafísica". De acordo com a perspectiva heideggeriana, isso significava dizer que os americanos eram tão presos ao paradigma da cultura tecnológica que nem chegaram a fazer “verdadeira Filosofia”. Isso Heidegger dizia do pragmatismo de Peirce, James, Dewey etc. O que não diria ao saber que as Academias norte-americanas no pós-guerra foram dominadas por uma tendência profissionalizante que abraçou perspetivas derivadas do positivismo lógico como via para seguir no caminho seguro da Ciência? Neste trabalho além de descrever sumariamente a filosofia pop de Charles Feitosa, vou tentar ler Heidegger a contrapelo e tomar sua descrição como um elogio a filosofia pragmatista (e a qualquer filosofia brasileira possível): ter ficado de fora do domínio da metafísica pode ser uma vantagem.  

Um pequeno trecho da obra de Deleuze inspirou a investigação de Charles Feitosa sobre o que seria, ou o que poderia ser uma filosofia pop: 

“Os conceitos são como sons, cores ou imagens, são intensidades que vós convém ou não, que passam ou não passam. Pop’ philosophie. Não há nada a compreender, nada a interpretar”.  

Aparentemente esta fala é inconsistente. Isso acontece porque geralmente partimos de um vocabulário que pressupõe a separação entre o dado e a interpretação. Descartando o chamado Mito do Dado (Sellars) eliminamos a distância entre dado e interpretação, espaço que permitiria o enquadramento da interpretação em um método teórico prévio. Acredito que Deleuze quer realmente se desviar da idolatria do método, que promove a repetição do mesmo e não a criação. No entanto, para entender como a filosofia pop pode se ligar à imaginação e ao que Schiller chamou de “jogo” (NOTA 1), e não a repetição, o “espírito de gravidade” descrito por Nietzsche.; precisamos problematizar o termo pop; e é isso que Charles Feitosa faz distinguindo para ele dois sentidos. 
Haveria o pop1 que remete a algo alternativo, marginal e específico; e o pop2, comercial, industrial e genérico. O primeiro se ligaria à arte pop da década de 60 e seu anseio de aproximar a arte da vida cotidiana subvertendo a hierarquia entre popular e erudito, inferior e superior, construindo “uma sátira sutil ao materialismo da cultura moderna de massa”. É a esta forma de descrição do termo pop que uma possível filosofia pop deveria se ligar; neste sentido, Feitosa destaca, como Deleuze elogiou e se apropriou criativamente de alguns procedimentos da arte pop, “como a colagem ou a assim chamada tática de “pick up” (captar a onda, a ocasião, a oportunidade), escrever através da des-territorialização constante das ideias”. A arte pop promoveria uma espécie de violência criativa que “produz diferenças através das repetições”.
Ora, o pop2 seria marcado justamente pela repetição do mesmo (correspondendo ao que Heidegger chama de impessoal, Adorno de massa), Este segundo sentido, o pop2, teria emergido na década de 90. É contra ele e sua reificação que qualquer filosofia deve se voltar, promovendo o questionamento de seus pressupostos ou/e desenvolvendo novas descrições que o subvertam.
O pop2 marcaria a transformação das metáforas do pop1 em moedas gastas, que não causam mais espanto, por terem se tornado algo canonizado, trivializado. Feitosa explica que não podemos retornar ao pop1, nossa tarefa é de construir o pop3, pop4 etc. Cabe observar que a distinção de pop 1 e pop2 não se refere a fronteiras ontológicas, mas trata de "distinções operacionais". Feitosa mais tarde utilizou a ideia de hibridismo de Nestor Canclini para sublinhar a necessidade de romper com perspectivas que vêem a cultura dividida em camadas estanques.
O conceito que me parece fundamental para a filosofia pop proposta por Charles Feitosa surge em seu diálogo com Deleuze. Seria a ideia de ex-versão das dicotomias e hierarquias, que corresponde ao termo renversement utilizado por Deleuze em Lógica do Sentido ou o de Herausdrehen no vocabulário heideggeriano. Este conceito marca um movimento de ataque ao platonismo e a filosofia da representação. Segundo Deleuze, o platonismo seria dominado pelo privilégio do que é idêntico, que permite a distinção entre a boa e a má cópia. Na medida em que valorizamos os simulacros damos um passo nietzschiano para a abolição do dualismo entre essência e aparência. Segundo Feitosa, “Deleuze diz que o momento da arte pop é justamente um dos ápices desta capacidade que a arte moderna tem de transformar o artificial do cotidiano em simulacro e com isto destruir a suposta realidade dos modelos em que as cópias se apóiam”.
A tendência dos filósofos é de retirar a fala ou o que analisam de seu contexto e descrições cotidianas e apontar para a busca de essências; fazem isso ao invés de ouvir o que o outro lhe diz. Este é um jogo que torna impossível aos filósofos dialogar com não-filósofos. Fazer a filosofia pop é abrir espaço para ouvir e dialogar com o não filosófico. Feitosa privilegia o encontro com a arte, e quer que sua filosofia com ela se contamine.

Nota 1: Cabe observar que Feitosa prefere utilizar o termo "brincar" ao invés de "jogar". A diferença estaria de que no primeiro caso existe uma ênfase menor na regra e uma abertura maior para sua subversão e invenção. Fala então de uma filosofia brincante, termo que também é utilizado por Márcia Tiburi. Este me parece ser um termo importante dentro da cultura nordestina; mas não sei como (e se) esta apropriação filosófica se articula com tal tradição. 

In-versões: "Um fio de cabelo de Benjamin no terno de Adorno: vestígio, aura e experiência"

Algumas ideias de textos não passam disso: títulos para provocar polémica. É certo que muito da teoria de Adormo sobre narcisismo, infantilização, consciência etc., pode ser utilizada por alguém que não gosta de, por exemplo, música sertaneja. Uma canção como aquela que fala do "Fio de cabelo" seria tão estruturalmente infantilizadora e redundante que não provocaria a "verdadeira" reflexão. Bem, mas vamos ao argumento infame...

Digamos que alguém redigisse o artigo "Um fio de cabelo de Benjamin no terno de Adorno: vestígio, aura e experiência". Que experiência Adorno teria ao encontrar um fio de cabelo de Benjamin em seu paleto? Teria aura este fio de cabelo? Seria um vestígio capaz de reconstruir uma experiência ou não, mera marca e ruína de uma vivência? Não seria o sentido de aura que o eu-lírico coloca no fio de cabelo o responsável por sua angústia metafísica? Não seria a sagração desta aura o grande problema para superar a "angústia do fio de cabelo"? Não haveria uma angústia da inveja capilar como emulo dialeticamente implicado nesta relação?Sobram questões sem resposta.

Abaixo a canção onde vestígio, aura e etc. se entrelaçam como questão!


sábado, 19 de fevereiro de 2011

Dois textos

Os dois últimos textos que disponibilizei na net:


Longe demais das Capitais Uma ficção breve que se inspira no álbum de mesmo nome dos Engenheiros do Hawaii. Cada canção deu lugar a um pequeno capítulo.


O silêncio eloquente de Gilberto Mendonça Teles resenha do livro "Linear G"(2010) do poeta e crítico goiano Gilberto Mendonça Teles

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Ouvindo Utopias

o filósofo autodidata brasileiro (tcheco naturalizado) multiplicando perspectivas


“Já sem se sentir cansado, Henry se afasta da parede onde estava recostado e caminha para o meio do auditório escuro, na direção da grande máquina de som. Deixa que o som o envolva. Existem esses raros momentos em que, juntos, músicos atingem algo mais doce do que tudo que já obtiveram antes, nos ensaios e nas apresentações, algo além da mera competência técnica e cooperativa, quando a expressão deles se torna tão fácil e elegante quanto a amizade ou o amor. É então que nos proporcionam um relance do que poderíamos ser, do que temos de melhor, e de um mundo impossível em que damos para os outros tudo o que temos, mas sem perdermos nada. No mundo real existem planos minuciosos, projetos visionários de reinos de paz, todos os conflitos resolvidos, felicidade para todos, para sempre – miragens em nome das quais as pessoas estão dispostas a morrer e matar. O reino de Cristo na terra, o paraíso dos trabalhadores, o estado islâmico ideal. Mas só na música, e só em raras ocasiões, a cortina, de fato, se levanta para esse sonho de comunidade, e ele é evocado de forma fascinante, antes de se dissolver junto com as últimas notas”.[1] 
Este trecho do romance Sábado do escritor britânico Ian McEwan fala de uma utopia estética passageira, porém marcante, que só seria possível pela música. A canção seria capaz de nos transmitir uma forma de harmonia e sentimento de identificação que faria com que, por instantes nos sentíssemos congregados em uma comunidade unida por um sentimento fraterno de amor ou de amizade. Aqui a palavra Utopia adquire um sentido não-usual, já que, de Thomas Morus a Karl Marx, esta forma de ideal sempre pede a anulação do "eu" em favor de um "nós" que se espera construir. A teoria utópica fundamentaria essa nova realidade. O tipo de utopia que o trecho de McEwan parece propor não tem letras maiúsculas, não pede este apagamento do "eu", mas seu prolongamento, numa perspectiva que poderíamos chamar de lírica (seguindo Emil Staiger e o trabalho de Renato Janine Ribeiro sobre Chico Buarque de Hollanda) ou liberal (tomando por referência Richard Rorty). Assim, teríamos não uma Utopia fechada em uma Teoria que deveria ser realizada, mas sim, uma forma de esperança, uma fé que pode servir de inspiração, mas não trás todas soluções e respostas definidas. Uma experiência como a descrita no trecho citado, faz crer que a cooperação que os músicos conseguiram para realizar sua arte poderia ser prolongada para a sociedade.
McEwan sabe que as pessoas geralmente não vão concordar sobre quando e onde esse tipo de experiência aconteceria: para alguns na música, outros na dança ou no esporte, outros a partir da literatura etc. Há ainda os que não acreditam talvez nem acreditem que tais momentos de utopia lírica sejam  realmente factíveis.  Para que se conceba a possibilidade do evento descrito por McEwan é preciso aceitar que a música proporcionaria uma espécie de de experiência religiosa. Porque, se real é aquilo no qual acreditamos, o “senso de realidade” não deixa de ser, como ensinou Vilém Flusser, sinônimo de “religiosidade”.[2] A palavra religião significa algo que nos religa a realidade, que nos faz retomar o sentido do mundo, a canção seria um forte instrumento para promover esse tipo de sensação. Mas, o que hoje formula nosso “senso de realidade”? Durante muito tempo nosso "senso de realidade" foi moldado por livros sagrados, que para sua divulgação por meio das religiões, utilizavam (e utilizam) a arte como forma de apresentar sua descrição da realidade como o Real. A crença em livros sagrados nos oferecia um fundamento da Realidade. Hoje  tal descrição não se sustenta, já que com o desenvolvimento técnico-científico a crença de que alguma obra poderia conter dentro de si todas as respostas perdeu força (ou teve seu sentido deslocado). Cotidianamente não são mais estes livros que formulam o que aceitamos como factível. Nosso senso de realidade é alimentado tanto pelo desencantamento promovido pela ciência, quanto por imagens na televisão, no cinema, na internet, em canções, em jogos de videogame, na literatura de auto-ajuda etc. De tal forma que as crenças são cada vez mais contingentes e menos "sagradas"., sem a aura de algo imaculado que justificaria nossa existência com uma resposta definida. Alguns vêem nesse contexto a formação de uma impossível sociedade de ciclopes, que com o empobrecimento da percepção cotidiana de Realidade, se conduzem cada vez mais através de perspectiva egoistas e tacanha, sem o vinculo, o compromisso com o que é comum. Os laços de amor e amizade não são tomados como parte efetiva da vida social a não ser como miragens. 
Para Flusser “somos seres em transição e em busca do futuro”, na medida em que “com nosso intelecto ainda somos modernos, mas com nossa religiosidade já participamos de uma época vindoura”[3]. O anúncio de Flusser de uma época vindoura, tráz uma utopia teórica que pode parecer irrelevante para muitas pessoas que acham esse “papo de filosofia” mais “conversa fiada”. Estes preconceitos de principio não devem ser empecilho para que aprendamos a dar de ombros para as diferenças e promover formas de convivência em que possamos respeitar e aceitar as escolhas e crenças de outras pessoas. O trecho descrito por McEwan justifica uma utopia fraca, que nada mais sustenta do que a inspiração para pensar neste projeto como algo comum. Vale a comparação entre a religiosidade, musicalidade e filosofia: existem pessoas mais e menos aptas para buscar o sagrado, existem pessoas com maior ou menos aptidão para tocar um instrumento ou apreciar sons, assim como, pessoas que tomam questões filosóficas como fundamentais e outras que as acham irrelevantes. Por isso, independentemente de onde encontremos os momentos poéticos de nossa vida, algumas pequenas coisas podem aumentar nossa fé nessa possibilidade de utopia de convivência hospitaleira para com as diferenças. Nestes momentos, que são sempre um desafio para a linguagem, aceitamos que conviver é caminho para crescermos, para nos tornarmos melhores e mais sensíveis para com a dor de outros. Então preferências musicais, religiosas, filosóficas etc., são irrelevantes porque o sentimento de simpatia faz com que leiamos com amor a presença do outro, como quando namorados seguram as mãos e com este gesto, com um olhar, sabem se entender e inventam caminhos e prazer em viver juntos.

P.S: A Carmélia leu a primeira versão do meu texto e teve o carinho de mostrar como estava confuso, fez sugestões e inspirou a tentativa de reescrever e tentar ser menos leviano. Obrigado pelo cuidado de inventar sentido para meus mal entendidos!



[1] McEwan, Ian. Sábado. Trad. Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p.208.
[2] FLUSSER, Vilém. Da religiosidade: a literatura e o senso de realidade. São Paulo: Escrituras, 2002. p.13
[3] Idem. p.21.

Escrever como exercício espiritual

Faz um tempo que não tomo escrever como um hábito. Este silêncio pode pender entre dois extremos: a ausência de palavras de quem não percebe/desvenda sentido, quem deixa de sustentar qualquer significação e a mesma incapacidade de quem esta de tal modo atrelado aos seus prórpios agoras que não consegue elaborar uma fala, se intimida ante a própria contingência. O silêncio não deixa de ser uma forma de abrir as portas para o misticismo, uma maneira de adornar uma aura de sagrado. Não é a toa que o poder da palavra se liga ao poder do sagrado em suas origens (na antiguidade ou nas tatuagens). Fazer filosofia é encenar uma das máscaras de Sócrates, é inventar para este uma vida e um sentido para sua narrativa: este, como afirma Harold Bloom, por não ter escrito será sempre o único e verdadeiro filósofo (assim como Cristo é o único e verdadeiro cristão). Pensadores como Nietzsche perceberam que com sua escrita escreviam sua biografia, transformavam sua vida e se inventavam como outros. Escrever e ler a si mesmo como outro. A possibilidade de cultivar um silêncio diferente. Exercício espiritual.
Não, não é sempre assim que acontece. Lista de itens para lavanderia, catalogos de objetos catalogáveis, identificação de cada coisa em seu lugar, etiquetar o mundo também pode ser uma forma de exercitar o absurdo. Mas exercícios espirituais pedem uma trilha diferente, uma coisa que talvez exista na oração, ou numa canção que canta um ritual (como Gilberto Gil em Se o eu quiser falar com Deus)...




Richard Rorty distingue romancistas que servem para exercícios espirituais e outros que confirmam nossas perspectivas e ampliam nosso horizonte de identificação moral com outros. Estes últimos ampliam o solo sobre nossos pés, aumentando o alcance da palavra nós, os primeiros nos retiram o chão, provocam terremotos e geram dúvida sobre nossos sentimentos e forma de nós descrever. No primeiro grupo coloca Henry James e Marcel Proust; no segundo autores como Charles Dickens. Proust e James serviriam como exercícios espirituais para redenção do egotismo, uma forma de conforto distinta da que se teria na promessa universal e eterna de Religião e Filosofia, uma redenção que afirma a contingência e ensina a finitude.
O silêncio de Sócrates tem algo de sagrado quando o percebemos conectado a uma missão religiosa que ganha voz em seu daimon. Talvez esse seja o segredo para que possa dar a sua voz uma dimensão dupla, pessoal e mística, particular, mas de alguma forma vinculada e buscando (a promessa d)o universal. O silêncio e o furor agônico de sua dialética se harmonizam, causando espanto nos que "enfrenta" e "seduz", provocando o silêncio denso de quem se confronta com suas certezas em contradição. Silêncio como si denso (que não se define). Eudaimonia, que é como diziam a felicidade plena, a realização de uma vida, é ter um bom daimon, algo externo e reconhecível publicamente. A vida de Sócrates seria de eudaimonia, Platão, Nietzsche e Proust tiveram que escrever, inventar a sua. 
Todos que tentaram seguir este modo de vida teórico enfrentaram esta mesma tensão e desafio da voz, que em sua entonação particular pretende-se universal. Nesta sagração da palavra, numa busca de iluminar todos os aspectos o silêncio é uma solução mística dos que cultivam a profundidade, a matemática seria o gancho celeste dos que querem a elevação. Matematizar o silêncio seria a epifania do niilismo. Razão= virtude = felicidade. O que hoje corresponderia aos termos dessa igualdade? Em tempos de razão comunicativa quais seriam os post(e)s que iluminariam essa highway do lugar comum? A sede do diálogo, do re-conhecimento parece mesmo ser a droga da escrita, que pode ampliar, dissolver o seu poder como exercício. Nietzsche poderia dar marteladas no twitter?
O deus da canção é o mesmo da literatura e causa sem oferecer uma razão, um salto sem a certeza do que há no outro lado. Existirmos a que será que se destina...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Márcia Tiburi no Café Filosófico- Radiohead e Flusser: a lírica do homem-máquina

Parte 1

parte 2

parte 3

parte 4

parte 5

parte 6

Fake Plastic Trees


Her green plastic watering can
For her fake Chinese rubber plant
In the fake plastic earth
That she bought from a rubber man
In a town full of rubber plans
To get rid of itself


It wears her out, it wears her out
It wears her out, it wears her out


She lives with a broken man
A cracked polystyrene man
Who just crumbles and burns
He used to do surgery
For girls in the eighties
But gravity always wins


It wears him out, it wears him out
It wears him out, it wears him out


She looks like the real thing
She tastes like the real thing
My fake plastic love
But I can't help the feeling
I could blow through the ceiling
If I just turn and run


It wears me out, it wears me out
It wears me out, it wears me out


If I could be who you wanted
If I could be who you wanted all the time


All the time...

Falsas Árvores de Plástico
  
O seu regador verde de plástico
Para a sua falsa planta artificial
Na terra artificial de plástico
Que ela comprou a um homem de borracha
Numa cidade cheia de planos de borracha
Para se livrar de si mesma


Isso a desgasta, isso a desgasta
Isso a desgasta, isso a desgasta


Ela mora com um homem quebrado
Um homem de polistireno lascado
Que apenas se destrói e se queima
Ele costumava fazer cirurgias
Para garotas nos anos 80
Mas a gravidade sempre vence


Isso o desgasta, isso o desgasta
Isso o desgasta, isso o desgasta


Ela parece a real coisa
Ela tem o gosto real
Meu amor artificial de plástico
Mas não posso evitar o sentimento
Eu poderia explodir através do teto
Se eu simplesmente me virar e correr


Isso me desgasta, isso me desgasta
Isso me desgasta, isso me desgasta


Se eu pudesse ser quem você deseja
Se eu pudesse ser quem você deseja o tempo todo


O tempo todo...

parte 7

parte 8



Fitter Happier

Fitter, happier, more productive,
comfortable,
not drinking too much,
regular exercise at the gym
(3 days a week),
getting on better with your associate employee contemporaries,
at ease,
eating well
(no more microwave dinners and saturated fats),
a patient better driver,
a safer car
(baby smiling in back seat),
sleeping well
(no bad dreams),
no paranoia,
careful to all animals
(never washing spiders down the plughole),
keep in contact with old friends
(enjoy a drink now and then),
will frequently check credit at (moral) bank (hole in the wall),
favors for favors,
fond but not in love,
charity standing orders,
on Sundays ring road supermarket
(no killing moths or putting boiling water on the ants),
car wash
(also on Sundays),
no longer afraid of the dark or midday shadows
nothing so ridiculously teenage and desperate,
nothing so childish - at a better pace,
slower and more calculated,
no chance of escape,
now self-employed,
concerned (but powerless),
an empowered and informed member of society
(pragmatism not idealism),
will not cry in public,
less chance of illness,
tires that grip in the wet
(shot of baby strapped in back seat),
a good memory,
still cries at a good film,
still kisses with saliva,
no longer empty and frantic like a cat tied to a stick,
that's driven into frozen winter shit
(the ability to laugh at weakness),
calm,
fitter,
healthier and more productive
a pig in a cage on antibiotics.

Em Forma Mais Feliz

Em forma, mais feliz, mais produtivo,
confortável,
sem beber demais,
exercícios regulares na academia
(3 vezes por semana)
se relacionando melhor com seus sócios e empregados,
à vontade,
comendo bem
(nada de comidas de microondas e gorduras saturadas),
um motorista mais paciente e melhor,
um carro mais seguro
(um bebê sorrindo no banco de trás),
dormindo melhor
(sem pesadelos),
sem paranoia,
cuidadoso com todos os animais
(nunca lavando aranhas nos buracos das tomadas),
mantendo contato com velhos amigos
(desfrutar de uma bebida de vez em quando),
Frequentemente checar o crédito no banco (moral)(um buraco na parede),
favores por favores,
apaixonado, mas não amando,
ordens permanentes de caridade,
aos domingos super-mercados "anéis viários"
(não matar traças ou colocar água fervente em formigas),
lavar o carro
(também aos domingos),
já sem medo do escuro ou das sombras do meio-dia
nada tão ridiculamente adolescente e deseperado,
nada tão infantil - em um ritmo melhor,
mais devagar e calculado,
sem chance de escapar,
agora empregado de si mesmo,
em causa (mas impotente),
um membro da sociedade informado e habilitado
(pragmatismo, não idealismo),
não vai chorar em público,
menos chances de doenças,
pneus que aderem no molhado
(foto do bebê com cinto de segurança no banco traseiro),
uma boa memória,
ainda chora em um filme bom,
ainda beija com saliva,
não mais vazio e frenético como um gato amarrado a um pedaço de pau,
que é levado à merda do inverno congelado
(a capacidade de rir de fraqueza),
calmo,
em forma,
saudável e mais produtivo
um porco em uma gaiola de antibióticos.



parte 9

parte 10

parte 11

parte 12

segunda-feira, 13 de setembro de 2010