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sábado, 22 de outubro de 2011

Sobre quadrinhos, filosofia e autobiografia (techo)

Sobre quadrinhos, filosofia e autobiografia 

(trecho de travalho apresentado no Rio Comicon onde apresentei trabalho sobre A misteriosa chama da rainha Loana de Umberto Eco)
Marcos Carvalho Lopes (marcosclopes@gmail.com)

Quando alguém se propõe a fazer um trabalho sobre quadrinhos e filosofia geralmente tem que lidar com o ceticismo daqueles que descartam seu trabalho antes mesmo de ter contato com ele, questionando se o que fazem é realmente “Filosofia” e se seu objeto de trabalho é realmente os “Quadrinhos”.
Este tipo de objeção é comum entre os filósofos e consiste na alegação de que os termos do trabalho não foram definidos com precisão e, por isso, ele é inconsistente. Desta forma a filosofia se esquiva para uma agenda essencialista e dá as costas para a possibilidade de qualquer diálogo diferente do “o que é o que é”, impondo também este mesmo jogo aos que tentam fazer uma “filosofia dos quadrinhos”: é necessário construir uma ontologia dos quadrinhos definindo o que eles são em si mesmos.
Por outro lado, como explica John Lent, quando se pergunta a um autor de comics “Qual a filosofia de sua obra?”, as respostas variam entre os que afirmam “Eu não tenho filosofia” ou “Por que deveria responder a esta questão?” até  os que fornecem uma lista de leituras que possuem mais densidade filosófica do que a totalidade de seu trabalho. Este espectro de avaliações tende a afugentar os essencialistas e as tentativas de defender uma definição da relação entre quadrinhos e filosofia.
Este desconforto é camuflado pelo argumento (platônico) de que os quadrinhos não seriam um objeto com “valor estético intrínseco” que justifique investigações filosóficas. Essa ideia de que as obras de arte deveriam ter um valor estético intrínseco se mantém vinculada a distinção descrita nas críticas kantianas entre os campos cognitivo, moral e estético. Tal dimensão essencialista se mantém junto com a crença de que existe na obra considerada estética um valor não-relacional, algo que se mantém de modo independente dos hábitos e interesses humanos. Assim, a perspectiva kantiana sustenta que poderíamos isolar o valor estético como oposto aos valores políticos, morais e históricos.
Na avaliação de Arthur Danto, em Kant teríamos mais uma tentativa de manter a condenação de Platão aos poetas, que seriam perigosos politicamente por desviarem as pessoas de modo sedutor da realidade em si mesma para a aparência de aparência. Para Danto esta seria uma forma de condenar a arte, vista como não tendo valor cognitivo e, além disso, como sendo perigosa para aqueles que querem viver uma vida justa. Na descrição de Alexander Nehamas o motivo pelo qual Platão condena os poetas (no Livro X da República) seria o mesmo pelo qual hoje se critica a cultura de massa: sua capacidade de fazer com que pessoas imitem formas de agir de modo irrefletido. Os platônicos de nossos dias condenam os quadrinhos, a televisão, a internet, os games etc. partindo da mesma avaliação essencialista.
Por outro lado existem os que tratam da relação entre quadrinhos e filosofia de um modo relacionista, sem, contudo, tratar dos quadrinhos: eles são motivo para a aplicação de teorias prévias, de devires que ficam devendo qualquer sentido, métodos avançados de abordagem quase-científica do sentido do significado da referência semântico-pragmática ou crítica ideológica do mais eminente e apocalíptico sublime pós-moderno. O filósofo norte-americano Richard Rorty sublinhou a falta de sentido prático da Esquerda Cultural que se detém em investigações abstratas que não possuem nenhum foco de transformação social. Diz ele que, por exemplo, a análise dos pressupostos imperialistas do universo Marvel tornou-se um fetiche que gera debates bizantinos sem qualquer efeito prático. 
O mesmo Richard Rorty considerava que romances, documentários, histórias em quadrinhos, biografias etc. podem fazer mais para a educação moral do que tratados filosóficos. O que justifica sua posição é tendência que temos para nos solidarizar com aquelas pessoas com as quais nos identificamos, e, por isso, descrições detalhadas de formas de vida e de motivos pelos quais as pessoas sofrem, podem nos ajudar a ampliar nosso horizonte moral mais do que princípios abstratos. Ora, para Rorty não existe nenhum tipo de propriedade não relacional, nenhum contexto que nos dê a perspectiva de um ‘olho-de-deus’ a partir da qual saberíamos a forma correta de agir em qualquer contexto: todas as descrições correspondem a determinados usos e interesses. Por isso, perguntas essencialistas não lhe interessam: melhor do que perguntar pelo que é é questionar pelo que deveria ser. Esta segunda questão envolve quem a faz e não pede uma despersonalização. Em verdade, apesar da necessidade de justificação pública do jogo de pedir e dar razões da filosofia, Rorty assume as consequências da denúncia nietzschiana de que os sistemas metafísicos não são mais do que autobiografias disfarçadas (acrescentando uma nota khuniana, que afirma que a epistemologia é um tipo de sociologia inconsciente de si mesma). Assim, turva a relação entre crítica e clínica: como ser críticos se não começamos por criticar nossos próprios pressupostos?
Descartando a ideia kantiana de um valor estético intrínseco o que justificaria a escolha de um determinado livro ou filme ou quadrinho como objeto de pesquisa seria a perspectiva de que tal obra possa ter um efeito transformador, que possam inspirar nossa autocriação. Explica Rorty que o “valor dos livros estudados nos departamentos de literatura e filosofia, esta em que eles cumpram a mesma função que torsos arcaicos de Apolo, telas de Vermeer e concertos do Greatful Dead. Ocasionalmente sugerem as pessoas que elas podem mudar suas vidas, e, talvez até sugiram como eles podem fazer isso. Sendo todas estas coisas equivalentes, não devemos nos dedicar ao ensino de livros ao menos que estes tenham mudado nossas vidas, ou a vida da pessoa que conhecemos, ou a vida de um grande número de pessoas no passado, ou, ao menos, temos alguma outra razão para crer que os estudando talvez mudem algo na vida de nossos estudantes”. É questionando esta dimensão autobiográfica que aqui quero pensar a relação entre quadrinhos e filosofia.

Trechos de A misteriosa Chama da Rainha Loana:

“Mas foi justamente em alguns exemplares de Mickey que pude discernir os acontecimentos de 1941, quando em dezembro, Itália e Alemanha declararam guerra aos Estados Unidos (...) Eu achava que, a certa altura, os americanos tivessem se cansado das travessuras de Hitler e tivessem entrado em guerra, mas não, foram Hitler e Mussolini que declararam guerra a eles, pensando talvez que pudessem pô-los fora de combate em poucos meses, com a ajuda dos japoneses. Como era evidentemente difícil mandar um punhado de SS ou de Camisas Negras para ocupar Nova York, começaram alguns anos antes com a guerra aos quadrinhos e desapareceram com os balões, substituídos por legendas sob os desenhos. Depois, como vi em outras revistinhas, havia tempos tinham sumido no nada os personagens americanos, substituídos por imitações italianas e por fim, creio que foi a última e dolorosa barreira a ser superada, Mickey foi assassinado. De uma semana para outra, sem nenhum aviso, a mesma aventura de Mickey continuava como se nada tivesse acontecido, mas o protagonista agora era um tal de Toffolino, humano, não mais animal, sempre com quatro dedos na mão como os animais antropomórficos de Disney, e seus amigos continuavam a se chamar Mimma e Pippo. Como recebi então aquele desmoronamento de um mundo? Talvez com tranquilidade, dado que, de um momento para outro os americanos tornaram-se malvados.

“[Flash] Gordon não, batia-se pela liberdade contra um déspota, talvez na época eu pensasse que Ming era como o terrível Stalin, o ogro vermelho do Kremlim, mas não podia deixar de reconhecer em seus traços também aqueles do Ditador da casa, dotado de indiscutível poder de vida e morte sobre seus fiéis. Logo, creio que tive em Flash Gordon a primneira imagem de um herói – é verdade que só podia dizê-lo agora, relendo, não na época – de uma guerra de libertação combatida em um Alhures Absoluto, fazendo explodirem asteroides fortificados em galáxias distantes. (p.236-237)

Mais lido que todos os outros, a julgar pelo estado periclitante do meu exemplar, o Mickey jornalista: era impensável que o regime deixasse passar uma história sobre a liberdade de imprensa, mas percebe-se que, para os censores de Estado, histórias de animais não poderiam ser realistas e perigosas. (...) Em todo caso, Mickey ergue com escassos recursos o seu Eco do Mundo – o primeiro número sai com horríveis erros de impressão – e continua impávido a publicar all the newa that´s fit to print, mesmo que gangsters sem escrúpulos e políticos corruptos tentem detê-lo por todos os meios. Quem, até então, ousara me falar de uma imprensa livre, capaz de subtrair-se a qualquer censura? (p.242)

Alguns mistérios de minha esquizofrenia infantil começaram a se esclarecer. Lia os livros escolares e os quadrinhos, e provavelmente, era nos quadrinhos que construía, com muito esforço, uma consciência civil. Por isso, com toda certeza, conservei esses cacos de minha memória desmoronada mesmo depois da guerra, quando algumas páginas dos jornais de lá chegaram às minhas mãos (talvez traziadas por tropas americanas), com tirinhas coloridas de domingo apresentando novos heróis, como Li’l Abner ou Dick Tracy. Creio que nossos editores de antes da guerra não ousavam publica-los porque o traço era ultrajosamente modernista e evocava aquela que os nazistas chamavam de arte degenerada.
Já crescido em idade e sabedoria, teria me aproximado de Picasso sob a influência de Dick Tracy? (p.242-243)

Entre outras coisas, como eu já vira em outras histórias em quadrinhos, tanto as mulheres como os homens satânicos (como Ming com Dale Arden) nunca queriam possuir, violentar, aprisionar em seu harém, unir-se carnalmente com o objeto de seu desejo. Queriam sempre casar. (p.252)

Trechos de Cinco escritos morais:

Em 1942, com a idade de dez anos, ganhei o primeiro prêmio nos Ludi Juveniles (um concurso com livre participação obrigatória para jovens fascistas italianos - o que vale dizer para todos os jovens italianos). Tinha trabalhado com virtuosismo retórico sobre o tema: “Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?” Minha resposta foi afirmativa. Eu era um garoto esperto.
Depois, em 1943, descobri o significado da palavra “liberdade”. Contarei esta história no fim de meu discurso. Naquele momento “liberdade” ainda não significava “liberação”.
Passei dois dos meus primeiros anos entre SS, fascistas e resistentes, que disparavam uns nos outros, e aprendi a esquivar-me das balas. Não foi mal como exercício.
Em abril de 1945, a Resistência tomou Milão. Dois dias depois os resistentes chegaram à pequena cidade em que eu vivia. Foi um momento de alegria.
Alguns dias depois vi os primeiros soldados americanos. Eram afroamericanos. O primeiro ianque que encontrei era um negro, Joseph, que me apresentou às maravilhas de Dick Tracy e Ferdinando Buscapé. Seus gibis eram coloridos e tinham um cheiro bom.

Na manhã de 27 de julho de 1943 foi-me dito que, segundo informações lidas na rádio, o fascismo havia caído e Mussolini tinha sido feito prisioneiro. Minha mãe mandou-me comprar o jornal. Fui ao jornaleiro mais próximo e vi que os jornais estavam lá, mas os nomes eram diferentes. Além disso, depois de uma breve olhada nos títulos, percebi que cada jornal dizia coisas diferentes. Comprei um, ao acaso, e li uma mensagem impressa na primeira página, assinada por cinco ou seis partidos políticos como Democracia Cristã, Partido Comunista, Partido Socialista, Partido de Ação, Partido Liberal. Até aquele momento pensei que só existisse um partido em todas as cidades e que na Itália só existisse, portanto, o Partido Nacional Fascista. Eu estava descobrindo que, no meu país, podiam existir diversos partidos ao mesmo tempo. E não só isso: como eu era um garoto esperto, logo me dei conta de que era impossível que tantos partidos tivessem aparecido de um dia para o outro. Entendi assim que eles já existiam como organizações clandestinas.

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