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sábado, 7 de maio de 2011

O que é aquilo – filosofia pop!

O que é aquilo – filosofia pop!
Marcos Carvalho Lopes
(doutorando em filosofia na UFRJ – bolsista da CAPES)
marcosclopes@gmail.com

(Primeira parte da comunicação que apresentei na XII semana dos alunos de pós-graduação em filosofia da PUC-RJ na quinta-feira passada 05/05) 


Na capa do livro Mais além da caixa de brilho, do filósofo norte-americano Arthur Danto, o pintor Russell Conner substitui o cadáver da Lição de Anatomia de Rembrandt pela Caixa de Brilho de Andy Warhol (veja aqui o texto de Danto O filósofo como Andy Warhol). Para Danto é como se os circunspectos alunos do doutor Tulp no século XVII fossem desafiados a entender aquele objeto artístico do século XX. Tarefa impossível, já que aquele objeto não cabia no conceito que tinham de arte. Paradoxalmente a caixa ocupa o lugar de um corpo morto, será que só podemos fazer a anatomia “teórica” de corpos que já não possuem vida?  Será que, pelo contrário, devemos nos aprisionar na exegese de filósofos mortos ao invés de buscar entender o que esta vivo e nos causa espanto?

Estas interrogações são o mote para introduzir o tema da minha comunicação: a filosofia pop como descrita por Charles Feitosa. O texto principal em que o Charles trata deste tema diretamente é o artigo “O que é isto – Filosofia Pop?”, publicado em 2001. Desde então ele tem desenvolvido e aplicado sua filosofia pop em diversas situações (artigos, entrevistas e, principalmente, no livro Explicando Filosofia com Arte); de tal modo que, sua concepção atual provavelmente seja diferente da que esboçou em seu “artigo-manifesto”.
Neste período também o número de publicações na Filosofia que tem apelo popular se multiplicou enormemente. Um exemplo é a pioneira série americana da Open Court sobre Cultura Popular e Filosofia, que na época do artigo de Feitosa tinha apenas 2 títulos e hoje já tem mais de 60 (sendo alguns deles traduzidos para o português) e  a concorrência de diversas outras coleções que trabalham com a mesma articulação entre cultura pop e a Filosofia. Ainda que a Academia se mantenha distante de fomentar esse tipo de diálogo a demanda (de editoras, da televisão, da Internet etc.) faz com que diversos nomes de reconhecida competência procurem desenvolver esta articulação.  
No artigo de 2001 Feitosa faz uma distinção (operacional) entre o que é urgente e o que é essencial. Urgentes seriam as demandas que pedem da filosofia participação no debate público, mas de tal forma, que sua fala se tornaria domesticada, inócua, atendendo a perspectivas prévias. Quando nos detemos somente ao que é urgente, não haveria espaço para o questionamento do que chama de essencial, “questões acerca das múltiplas relações de diferenças, singularidades e identidades que permeiam implicitamente todo o campo de questões ditas urgentes” (2001). Como hoje se diz da política, que fica presa a administrar questões urgentes sem que seja possível ou aja espaço para governar.  Não haveria espaço para questionar pressupostos e a forma mesmo de discurso que sustenta o “urgente”.
Utilizando os termos de Feitosa, podemos dizer que a interrogação sobre a filosofia pop hoje aparece como urgente. Contudo, é preciso tomar cuidado para que estes termos (urgente e essencial) não nos levem a uma perspectiva essencialista, como um novo dualismo; acredito que não há por parte do autor a postulação de nenhuma propriedade não-relacional. Ainda assim, cabe por em questão e reavaliar até que ponto a seguinte descrição feita por Feitosa pode ser interessante: 

“Se pop for o urgente, então a filosofia pop não é filosofia, mas sim jornalismo, propaganda. Numa expressão de Nietzsche, um pensamento que é “escravo do atual, do moderno, do instante”. A filosofia pop cumpre o que sua época exige: busca atender as tarefas que a sociedade lhe impõe. Mas ao contrário do que às vezes se espera na mídia e na sociedade, o pensar não tem que conduzir a nenhum saber técnico como o das ciências, não tem necessariamente que trazer nenhuma sabedoria de vida utilizável, nem que solucionar nenhum mistério do mundo. A filosofia propriamente dita não tem compromisso com o atual, mas sim com o inatual. Na verdade, a filosofia tem um quê de anti-moda, de extemporâneo, de não-pop” (2001). 
Ora, se a filosofia pop é um modo de ver e interpretar nosso contexto, a maneira com que lidamos com as coisas ditas urgentes pode ser a diferença essencial. Se diante de perguntas novas utilizamos respostas antigas, “eternas e imutáveis”, condenamos o discurso filosófico a uma constante reafirmação do platonismo e sua separação entre a Filosofia e o restante da cultura. Acredito que a filosofia deve perder o medo de ser útil, mantendo sua perspectiva utópica, preocupando-se menos em definir o que somos, do que em fomentar o que queremos ser, procurando equilibrar inteligência e emoção.
Feitosa em outras formulações chama a sua filosofia pop de “filosofia híbrida”, “pensamento finito” ou “racionalidade afetiva”. Neste sentido “sincrético” quero propor mais um enxerto e diálogo (direto) com a (menosprezada) tradição americana de pensamento. Sendo a pop art uma eminente criação da cultura norte-americana, quando a filosofia questiona ou se aproxima do que é “pop” inevitavelmente lida com esta tradição.
 O título “O que é isto – filosofia pop?” ecoa o nome de uma famosa conferência de Martin Heidegger “O que é isto – a Filosofia?”. Sabemos que este pensador alemão em seu romantismo nostálgico rejeitaria qualquer referência ao “pop” caracterizandoheideggeriana, isso significava dizer que os americanos eram tão presos ao paradigma da cultura tecnológica que nem chegaram a fazer “verdadeira Filosofia”. Isso Heidegger dizia do pragmatismo de Peirce, James, Dewey etc.; o que não diria ao saber que as Academias norte-americanas no pós-guerra seriam dominadas por uma tendência profissionalizante que abraçaria perspectivas derivadas do positivismo lógico como via para seguir no caminho seguro da Ciência? Neste trabalho além de descrever sumariamente a filosofia pop de Charles Feitosa, vou tentar ler Heidegger a contrapelo e tomar sua descrição como um elogio a filosofia pragmatista (e a qualquer filosofia brasileira possível): ter ficado de fora do domínio da metafísica pode sim ser uma vantagem.  

Um pequeno trecho da obra de Deleuze inspirou a investigação de Charles Feitosa sobre o que seria, ou o que poderia ser uma filosofia pop: 

“Os conceitos são como sons, cores ou imagens, são intensidades que vós convém ou não, que passam ou não passam. Pop’ philosophie. Não há nada a compreender, nada a interpretar”.  

Aparentemente esta fala é inconsistente. Isso acontece porque geralmente partimos de um vocabulário que pressupõe a separação entre o dado e a interpretação. Descartando o chamado Mito do Dado (Sellars) eliminamos a distância entre dado e interpretação, espaço que permitiria o enquadramento da interpretação em um método teórico prévio. Acredito que Deleuze quer realmente se desviar da idolatria do método, que promove a repetição do mesmo e não a criação. No entanto, para entender como a filosofia pop pode se ligar a imaginação e ao que Schiller chamou de “jogo” (NOTA 1), e não a repetição, o “espírito de gravidade” descrito por Nietzsche.; precisamos problematizar o termo pop; e é isso que Charles Feitosa faz distinguindo para ele dois sentidos. 
Haveria o pop1 que remete a algo alternativo, marginal e específico; e o pop2, comercial, industrial e genérico. O primeiro se ligaria a arte pop da década de 60 e seu anseio de aproximar a arte da vida cotidiana subvertendo as hierarquias entre popular e erudito, inferior e superior, construindo “uma sátira sutil ao materialismo da cultura moderna de massa”. É a esta forma de descrição do termo pop que uma possível filosofia pop deveria se ligar; neste sentido, Feitosa destaca, como Deleuze elogiou e se apropriou criativamente de alguns procedimentos da arte pop, “como a colagem ou a assim chamada tática de “pick up” (captar a onda, a ocasião, a oportunidade), escrever através da des-territorialização constante das ideias”. A arte pop promoveria uma espécie de violência criativa que “produz diferenças através das repetições”.
Ora, o pop2 seria marcado justamente pela repetição do mesmo (correspondendo ao que Heidegger chama de impessoal, Adorno de massa), Este segundo sentido, o pop2, teria emergido na década de 90, é contra ele e sua reificação que qualquer filosofia deve se voltar, promovendo o questionamento de seus pressupostos ou/e desenvolvendo novas descrições que o subvertam.
O pop2 marcaria a transformação das metáforas do pop1 em moedas gastas, que não casam mais espanto, por terem se tornado algo canonizado, trivializado. Feitosa explica que não podemos retornar ao pop1, nossa tarefa é de construir o pop3, pop4 etc. Cabe observar que a distinção de pop 1 e pop2 não se referem a fronteiras ontológicas, mas tratam-se de distinções operacionais. Feitosa mais tarde utilizou a ideia de hibridismo de Nestor Canclini para sublinhar a necessidade de romper com perspectivas que vêem a cultura dividida em camadas estanques.
O conceito que me parece fundamental para a filosofia pop proposta por Charles Feitosa surge em seu diálogo com Deleuze. Seria a ideia de ex-versão das dicotomias e hierarquias, que corresponde ao termo renversement utilizado por Deleuze em Lógica do Sentido ou o de Herausdrehen no vocabulário heideggeriano. Este conceito marca um movimento de ataque ao platonismo e a filosofia da representação. Segundo Deleuze, o platonismo seria dominado pelo privilégio do que é idêntico, que permite a distinção entre a boa e a má cópia. Na medida em que valorizamos os simulacros damos um passo nietzschiano para a abolição do dualismo entre essência e aparência. Segundo Feitosa, “Deleuze diz que o momento da arte pop é justamente um dos ápices desta capacidade que a arte moderna tem de transformar o artificial do cotidiano em simulacro e com isto destruir a suposta realidade dos modelos em que as cópias se apóiam”.
A tendência dos filósofos é de retirar a fala ou o que analisam de seu contexto e descrições cotidianas e apontar para a busca de essências; fazem isso ao invés de ouvir o que o outro lhe diz. Este é um jogo que torna impossível aos filósofos dialogar com não-filósofos. Fazer a filosofia pop é abrir espaço para ouvir e dialogar com o não filosófico. Feitosa privilegia o diálogo com a arte, e quer que sua filosofia se contamine com ela.

Nota 1: Cabe observar que Feitosa prefere utilizar o termo "brincar" ao invés de "jogar". A diferença estaria de que no primeiro caso existe uma ênfase menor na regra e uma abertura maior para sua subversão e invenção. Fala então de uma filosofia brincante, termo que também é utilizado por Márcia Tiburi. Este me parece ser um termo importante dentro da cultura nordestina; mas não sei como (e se) esta apropriação filosófica se articula com tal tradição. 

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