Sócrates pop star
Marcos Carvalho Lopes, Jataí (GO) · 30/8/2006 18:24
Acabei de ler o Eutífron de Platão. Nele Sócrates e Eutífron discutem sobre a piedade. A questão é o que faz de um homem piedoso ou não? O tema vai bem a calhar porque Sócrates acabava de ser acusado de impiedade, por não venerar aos deuses existentes e criar novos, assim corromperia aos jovens... Por sinal, Eutífron também estava ligado a uma questão jurídica: acabava de acusar o próprio pai de assassinato. Um de seus empregados havia se desentendido com outro trabalhador e o matado. O assassino foi amarrado enquanto o pai de Eutífron foi a cidade saber o que deveria fazer com ele... Demorou em demasia e o assassino morreu. Eutífron dizia que era seu dever denunciar o próprio pai já que para os deuses não há diferença em ser parente ou não: o importante é a justiça. Esse é o mote do diálogo: Socrátes quer
saber como Eutifron tem tanta certeza sobre o que é ser piedoso, como sabe realmente que agrada aos deuses? Se Sócrates soubesse isso poderia livrar-se da acusação ante o tribunal...
Mas como sempre nos diálogos socráticos, a cada argumento de Eutífron surge a réplica de Sócrates, que mostra que ele pouco sabe sobre o que antes dizia ser seu conhecimento... quando Sócrates insiste em questionar Eutífron diz que não pode ficar, que tem mais coisa a fazer.. e vai embora.
Mais do que nunca, a filosofia parece ter retomado Sócrates: a sua idéia de diálogo é bastante atual... no entanto, me parece mais uma ideal. Hoje a liberdade parece consistir em fazer o que faz Eutífron: não discutir esse tipo de coisa, não colocar os preconceitos em jogo, não se meter em política... Ninguém tem tempo para ficar debatendo indefinidamente um tema como queria Sócrates: por isso pagamos por nossos representantes no parlamento...
Ainda assim Donald Davidson está certo (veja esse ótimo texto ):somente quando expomos nossas idéias podemos nós aperfeiçoar, lapidar nossos juízos para que sejam mais claros, perceber erros... deveriamos conversar mais. O engraçado é que hoje na literatura o que mais se aproxima do formato de diálogo são as entrevistas. De repente você lê uma entrevista de uma figura que escreve de forma obscura e nela o autor expõe as questões de maneira surpreendentemente clara... As entrevistas são sim um gênero que nos aproxima dalguma forma da filosofia... Mas quem dá entrevistas? Quem tem direito a palavra e que merece ser ouvido? Que tipo de questões são formuladas? Hoje a sociedade segue mais as imagens que brilham nas prateleiras do que as palavras de livros sagrados, hoje os jovens se identificam mais pelo som que escutam do que por alguma posição ideológica... Sócrates hoje deveria ser um pop star?... Parece que só essas figuras são questionadas sobre todos os temas, sobre valores morais, religiosos, políticos, ecológicos... Ou Sócrates teria um talk-show? Ou Sócrates não teria mais lugar?

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