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segunda-feira, 10 de março de 2008

Mafalda e a questão: Qual o melhor método para a alfabetização?



Essa charge de Mafalda, personagem do cartunista argentino Quino, demonstra bem a ansiedade que existe tanto por parte dos pais, como por parte das crianças, em relação ao ensino da escrita. É comum ver as crianças que ainda não chegaram à idade escolar “brincando de escrever”, fazem isso porque sabem que esse tipo de brincadeira é bem visto pelos pais: trazem sempre seus rabiscos para que esses aprovem e incentivem. Porém, quando esse jogo deixa de ser brincadeira surgem sérias dúvidas: qual seria o melhor método de alfabetização?

Mafalda se irrita porque seu amigo em um dia inteiro na escola ainda não aprendeu a escrever: para ela a culpa é dos “malditos burocratas”. Embora seja um exagero, a indignação de Mafalda tem seu lado humorístico justamente por apontar para uma critica que comumente fazemos ao ensino. Na medida em que as técnicas de administração avançam sobre o ensino, buscando maior eficiência, aumentam o risco de se promover uma “sociedade de total administração” que emperra as possibilidades de inovação e reduzem as diferenças.

A educação no Brasil vive, no início do século XXI, presa a uma perspectiva do século XIX: continuam esperando encontrar o método que promoveria a redenção do ensino e fariam os alunos perceberem “a realidade como ela é”. Pretendem encontrar na metodologia uma “formula mágica” que crie alunos críticos e preparados para enfrentar o mundo globalizado. Desta forma, novos e velhos métodos de ensino disputam o lugar de profetas de uma educação ideal. As novidades do ensino são impostas pelas instituições de ensino como o que pode salvar a educação: tudo o que é diferente passa a ser censurado. Quando se pensa em alfabetização a disputa ocorre entre os defensores de métodos globais, em que se ensina a ler textos de modo holístico, e os que mantêm seus antiquados métodos silábicos. O tradicionalismo silábico descontextualizado (de “Ivo viu a uva” etc.) esta na ponta de um espectro que tem no outro extremo uma forma de contextualismo radical: os que procuram métodos para encontrar “a verdade como ela é” se prendem a fazer caricatura de seu opositor e perdem tempo com essa disputa inútil.



O método silábico tomado de modo descontextualizado parece muito árido e pouco interessante: seria incapaz de prender a atenção da criança. Porém, essa é uma caricatura. O método silábico não precisa ser ensinado desse modo e ele possui vantagens que o método de ensino através de textos mão consegue superar. Por exemplo, se a criança tem dificuldades de fala e confunde a relação entre certos sons e seus correspondentes gráficos, como ajudá-la com esse problema sem recorrer ao método silábico?

O professor hoje que utilizar procedimentos do método silábico provavelmente seria repreendido pelas instituições de ensino, e, no entanto! Então, para ajudar seus alunos, fazem isso as escondidas, fugindo do padrão de apostilamento que cada vez mais se anuncia na educação.

O problema aí não está em escolher um método ou outro, mas sim em tomar essa escolha como algo rígido, sem espaço para a imaginação. Mesmo ao lidar com narrativas, ou tomar narrativas como forma de ensino, podemos cair num conservadorismo que é, na verdade, falta de criatividade, como nos ensina Mafalda nesta tira:



Já passou da hora de perceber que os alunos não são todos iguais e que o processo de ensino não precisa ficar preso a uma determinada matriz teórica. Os pais e responsáveis devem ficar atentos para perceber as dificuldades de seus filhos e ajuda-los a superá-las. Ao professor cabe a infindável tarefa de tentar equilibrar as demandas e desenvolver uma forma de ensino que proporcione aos seus alunos melhores resultados. Não existe um método infalível e não existe formula mágica: é preciso aprender a lidar com a incerteza e estar pronto a tentar novos caminhos ou retomar antigos, se esses se mostram mais adequados. Métodos devem ser vistos como ferramentas e não como armaduras que enclausuram o saber e criam à autoridade que, de tão sábia, não pode mais aprender (nem ensinar!).

Um comentário:

Tatiane Sousa disse...

Muito inteligente e bem redigido o texto. Parabéns